Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Vários artistas – Pop Ambient 2009 (2009; Kompakt, Alemanha)

popambient2009

Pop Ambient é uma coletânea anual da gravadora alemã Kompakt que existe desde 2001. Desde seu início, a Pop Ambient conta sempre com artistas regulares da gravadora, abrindo espaço para alguns nomes convidados.  Como o nome já insinua, o foco da coletânea é em música ambient e/ou de audição caseira, em oposição à outra tradicional coletânea da Kompakt, Total, mais voltada para música eletrônica direcionada à pista de dança. (RG)

* # *

As boas coletâneas traçam um panorama. Mais do que compilar o que há de melhor – o que, ademais, é um tanto quimérico, já que os artistas hão de preferir usar suas melhores produções em seus próprios discos –, as coletâneas de inéditos, em especial as coletâneas de gravadora, elas estão em seu melhor quando se percebe uma coerência de procedimentos, e através delas se pode observar tendências gerais de produção e direcionamento musical. Por exemplo, coletâneas como Urban Renewal Program, Anticon Giga Single, Music for the Advancement of Hip-Hop e as Def Jux Presents ajudaram a definir um espaço e situar a problemática do hip-hop underground surgida no comecinho dessa década. Em retrospecto, é possível que as Pop Ambient da Kompakt desde 2001 até essa nova de 2009 construam um bom panorama da música dita ambient produzida hoje em dia, mas também daquela música não exatamente ambient, mas classicizante, algum lugar entre o lado mais palatável de um Satie e o minimalismo atenuado, aquilo que a Boomkat caracteriza como “modern/classical”.

Uma audição do conjunto das Pop Ambient poderá certamente deixar claras uma série de coisas quanto aos rumos do ambient hoje, mas aqui a discussão é sobre a Pop Ambient 2009, e a clara percepção ouvindo esse disco é a influência exercida por artistas como Wolfgang Voigt, em especial seu projeto Gas, e artesãos do glitch como Fennesz no terreno da música ambient. O que mais impressiona de partida é a preocupação com texturas densas. Estamos muito longe do imaginário ambient prefigurado por Brian Eno e mesmo Aphex Twin, com suas melodias repetitivas e algo ingênuas dominando a quase totalidade da atenção. Agora o ambient é carregado, tem múltiplas camadas e demanda até uma atenção ao detalhe inconcebível no momento de criação do gênero. Não que isso de fato seja uma crítica: todos os fãs desse tipo de música jamais a utilizaram de fato como pano de fundo, preferindo mais a sensação de transe à de usar a música como fundo para qualquer outra coisa.

A primeira metade do disco transita mais pela faceta modern classical, com cordas dramáticas, riffs ou fraseados de piano e guitarra. O principal destaque dessa primeira metade é “Fly Like a Horse”, de Sylvain Chauveau, que constrói um delicado e expressivo loop de dedilhados de guitarra, fica com eles por um bom tempo e depois adiciona casas de teclado (não particularmente especiais, mas interessantes). “Nightliner”, de Popnoname, destaca-se pelo uso incomum de sintetizadores de sonoridade anos 70. O remix da dupla Burger/Voigt para “Ausklang” de Jürgen Paape é a melhor coisa com a mão de Wolfgang Voigt (que ainda assina uma música com seu parceiro e outra por seu raro pseudônimo Mint) das três de suas participações no disco. O remix cria um ruidoso e contrastante pano de fundo à doce e repetitiva melodia de piano de Paape.

Mas o melhor do disco é mesmo sua segunda parte, mais cabulosa e espectral. Em especial com “Shosts in Silver”, de Tim Hecker, com uma melodia principal cheia de eco e um fundo de ruído tão minuciosa quanto melancólica. Top Hecker, certamente. Depois vem Andrew Thomas, um artista com menos projeção, mas com uma faixa de tirar o fôlego. “A Dream of a Spider” tem todas as afetações glitch do Fennesz do começo da década, mas consegue um uso extremamente pessoal , com uns graves fundos e uma bateria eletrônica irrompendo discreta e periodicamente. Certamente a surpresa do disco. Como destaque final, tem uma faixa despretensiosa mas cheia de atmosfera do grupo The Fun Years, revelação no ano passado com o disco Baby, It’s Cold Inside.

Vale ainda ressaltar a extrema coerência auditiva da coletânea. O disco se ouve inteiro com prazer, cada faixa tendo a ver com a outra mas ao mesmo tempo oferecendo paletas sonoras e estratégias de composição distintas. Acaba sendo uma introdução muito boa a artistas que muitas vezes, em álbuns inteiros, acabam soando redundantes ou cansativos, mas que num espaço de menor duração e fôlego conseguem mostrar talento e sensibilidade. (Ruy Gardnier)

* # *

O que existe na música ambient que não se encontra em nenhuma outra manifestação musical? Excluindo-se informações genéricas como as de ser instrumental, repetitiva, atmosférica e executada no mais das vezes por sintetizadores e instrumentos eletrônicos, parece que podemos definir a ambient por uma imagem conceitual um tanto vaga, mas que até nesse aspecto remete ao som criado por Brian Eno e sublimado por David Bowie e Richard D. James: a ambient é paixão sem religiosidade. É uma música que obtém sua intensidade das forças da terra e do âmago da mente, uma música essencialmente cerebral, que dialoga com uma materialidade que subsidia a imaginação, mas também provém da imaginação. É neste espaço que se orienta a ambient, nas dinâmicas orgânicas e psíquicas que se agitam entre o que é dado e o que é percebido. Mas vejam: as regras deste espaço são fugidias, imprecisas. Nele cabem a calmaria das modulações de Brian Eno, a malandragem aprazível de Bowie, as fraturas de Wolfgang Voigt, a obscuridade do Aphex twin, a abrasividade de Fennesz, entre outras tantas possibilidades. Mas todos encerram, sem dúvida, uma crença tão profunda na terra, no poder da matéria, de forma que poderíamos acrescentar: ambient é uma paixão pela terra sem religiosidade, nem transcendência, que busca não representá-la, mas afirmá-la. O artista que trabalha a ambient music pretende vocalizar forças que lhe constituem e que são constituídas por ele, os clamores da terra, a “inocência do devir”… Se esta filosofia pode ser aplicada à coletânea em questão, então é justo afirmar que nem todas as faixas possuem a intensidade adequada para tanto. Mas as que conseguem exprimir esse nível de sensibilidade são grandes e atestam o vigor do gênero.

De uma forma geral a coletânea é agradável. Mesmo a dobradinha melosa assinada por Sylvain Chauveau e faixas sem importância como “Nightliner”, do Popnoname ou “It’s only castles burning” de Marsen Jules, não ofuscam a qualidade superior de “Hindemith”, do MINT, por exemplo. Mas quem chama atenção por incorporar a abrasividade com uma sensibilidade peculiar é “Shosts in silver”, do recém-comentado na Camarilha, Tim Hecker. Curta e densa, a faixa indica que Hecker absorveu algumas lições do lirismo fennesziano, mas que segue um caminho próprio, ajustando as seqüências hamônicas em favor de uma sonoridade mais regular e, portanto, mais viajante. O trabalho do já veterano Andrew Thomas admira pelo esmero na articulação dos sons, entre estáticas, acordes de piano, percussões incidentais, minuciosamente dispostos de forma a criar um mosaico sonoro intrigante e ligeiramente soturno. Mas o ponto alto do álbum está em “I Am Speaking Through Barbara”, da dupla americana The fun years, que realizou um dos bons discos do ano passado, Baby, it’s cold inside. Formado por Ben Recht na “guitarra barítona” e por Isaac Sparks nos turntables, The fun years sintetiza as conquistas sonoras de Hecker, Voigt, Fennesz e Hanno utilizando-se porém de um vocabulário mais próximo do shoegaze rock e das timbragens etéreas do My Bloody Valentine. “I Am speaking…” é um exemplo de como a dupla cria momentos de uma riqueza sonora rara na seara da ambient, justamente por lançar mão de um recurso raramente aplicado a ela, as guitarras preparadas. Uma delas lança repetidamernte os acordes enquanto a outra floreia um dedilhado de forma semelhante ao estilo de Toumani Diabaté. Um phaser parece tomar toda a faixa, criando a atmosfera de tensa melancolia.

São muitas as naturezas e intenções de uma coletânea. As que buscam traçar um panorama, como esta, são as mais complicadas, pois o compilador deve se projetar no futuro e certificar-se de que seu panorama procede, se detém de fato os melhores exemplares… Mas Pop Ambient 2009 se coloca de forma mais modesta e, me parece, mais justa que suas predecessoras. Se seu painel já não parece tão repleto de novidades como os anteriores, consolidando nomes médios como MINT, ao menos indica uma regularidade mais acentuada, uma expressão mais coesa das diversas frentes que compõem a ambient hoje. Mas no fim das contas, o que resta é a certeza de que quem se interessa por este tipo de música, seja criando ou fruindo, persiste na crença pagã de que o espírito e a terra comungam de uma mesma morada, e não há mais nada fora dela. E que a música ou, mais modestamente, o som, constitui o veículo mais adequado para atingir a esta compreensão. (Bernardo Oliveira)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: