Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Mulatu & The Heliocentrics – Inspiration Information (2009; Strut Records, Reino Unido)

capa

O compositor, instrumentista e arranjador Mulatu Astatke é mais um gênio redescoberto pela era do mp3. Nascido na Etiópia, na cidade de Jimma, em 1943, mas revelado para o mundo por Jim Jarmusch e seu filme “Flores Partidas”, Mulatu é considerado o pai do Ethio-jazz. Formou-se na Inglaterra e nos EUA, onde aprendeu a tocar vibrafone, piano, percussão e clarinete. Retorna à sua terra natal no final da década de 1960, onde desenvolve um estilo próprio de composição, incorporando escalas e ritmos africanos e orientais ao jazz e a black music americana. Ao que consta, Mulatu lançou apenas 4 álbuns.

Liderado pelo requisitado baterista Malcom Catto, o combo inglês The Heliocentrics é abertamente inspirado no jazz intergaláctico de Sun Ra. Misturando hip-hop, funk, jazz, música eletrônica, psicodelia, avant-garde e música étnica, o combo lançou seu único álbum em 2007, Out There.

Previsto para sair em meados de abril, este álbum é a primeira colaboração entre Mulatu e The Heliocentrics e o terceiro volume da série Inspiration information, editado pelo Strut Records. (BO)

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Aparentemente, haveria entre a invenção e o retrô algo como um abismo, uma verdadeira incongruência de propósitos e metas. A invenção seria algo próprio de uma voracidade criativa vital, que emerge tanto sob o signo da desordem como do trabalho árduo e sem tréguas. O retrô já seria subproduto da sociedade de consumo, e operaria suas mudanças estéticas de acordo com o gosto do freguês, seja apelando para a nostalgia geracional, seja requentando gêneros. Mas eu compreendo que estas duas perspectivas são parte de um passado não tão longínquo, mas certamente… passado. Pois, hoje, detecta-se uma habilidade em criar o “novo” dentro de uma linguagem até mesmo excessivamente trabalhada e, portanto, “histórica”. Na semana passada citei o álbum do Menahan Street Band como exemplo de um retrô nostálgico. Poderia acrescentar também o álbum do Budo’s Band como um segundo exemplo no qual timbres e arranjos se ajustam perfeitamente aos propósitos dos autores: para além da homenagem, eles desejam trazer de volta esses gêneros e timbres, reabilitar uma certa perspectiva musical que, supostamente, teria se perdido graças aos famigerados “novos tempos”, às intempéries da indústria, à alta tecnologia etc. Talvez pudéssemos arrolar o trabalho do The Heliocentrics ao desta turma. Mas isto só é possível parcialmente, na medida em que eles buscam “modernizar” a música de Sun Ra através não só de elementos genéricos como o hip hop, mas também incorporando sons eletrônicos, distorções, percussões desenfreadas e outros detalhes que não são próprios aos gêneros a que fazem referência. Ocorre aqui uma delicada distinção entre uma perspectiva de reabilitação e uma outra, de reapropriação e sutil comentário: se a primeira deseja trazer à tona, a segunda pretende ajustar à uma sensibilidade mais atual, procedimento que muitas vezes pode acabar atingindo algum grau de invenção – como por exemplo no trabalho de Antony, Tindersticks, Grizzly Bear, Will Odham, etc.

Mas e quando um medalhão, um demiurgo, alguém que já criou um corpus musical digno de receber um nome particular é convidado a tocar com artistas que assumem sua influência e lhe prestam homenagem? Muitos são os exemplos de encontros entre músicos de gerações diferentes, os mais jovens pagando tributos e soldos para os mais velhos. Mas aqui ocorre uma anomalia. Em sendo a obra de Mulatu Astatke reduzidíssima, poucos são os subsídios para compreender a especificidade de seu Ethio-jazz. Claro, há um sabor inusitado nas concepções harmônicas e timbrísticas de seus álbuns mais conhecidos, Afro-Latin Soul Volumes 1 & 2, ambos de 1966, e Mulatu of Ethiopia, de 1972, mas me parecem ainda insuficientes para justificar o rótulo. Então, toda a rica gama sonora que dá forma ao som do Heliocentrics, serve como base sólida para que Mulatu amplie o espaço sonoro de seu Ethio-jazz. Portanto, não se trata de um inofensivo álbum-tributo, nem são os Heliocentrics meros anfitriões atentos e preparados. Ao contrário, o disco é a continuação de um trabalho que, devido a sabe-se lá a quais fatores, não prosseguiu seu curso natural. Guardadas as devidas proporções, podemos comparar Inspiration Information Vol. 3 ao último filme de José Mojica, já que tanto Mojica como Mulatu demoraram muitos anos para retomar o pensamento e a produção criativa, vivendo mais de louros e experiências pregressas do que produzindo efetivamente. Neste sentido, Inspiration Information é um disco sensacional, capaz não só de justificar o Ethio-jazz, como também estimular os amantes do passado a tomarem atitudes musicais menos retrógradas.

“Masengo”, a maravilhosa faixa de abertura, mescla uma melancólica linha de piano, percussões, guitarras distorcidas e barulhos eletrônicos a um belíssimo e semitonado tema etíope. “Live From Tigre Lounge” também sobrepõe um canto feminino à batucada e guitarras funky. Pela incursão dos tambores, notadamente o bongo e a conga, “Cha Cha” possui tempero latino. A tensa “Addis Black Widow” também surpreende pelas pausas que entremeiam o diálogo entre a flauta e a bateria, até a entrada triunfal dos metais, reproduzindo um tema tipicamente mulatiano. Algumas faixas lembram os discos anteriores de Mulatu, como “Esketa Dance”, “Chik Chikka” e a regravação de “Mulatu”, tema do álbum de 1972. Mas ainda assim são executadas com uma pegada maliciosa e arrojada, cortesia de Malcom Catto e sua turma.

Não é à toa que os Heliocentrics têm sua morada no selo de Madlib, o Stones Throw, justamente o local onde o cultivo do passado e a invenção se confundem a cada lançamento. E também não me parece fruto do acaso que Mulatu tenha retornado nos braços deste combo admirável. Ou teria sido o oposto? Não sei, mas certamente Inspiration Information Vol. 3 é desde já um dos “jogos de comadre” mais excitantes do ano. (Bernardo Oliveira)

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Como grande parte dos apreciadores de Mulatu Astatke, só tomei conhecimento de sua obra através do filme “Flores Partidas”, de Jim Jarmusch. Até então, seu nome me era completamente desconhecido, assim como o estilo tão peculiar que batizou de Ethio-jazz há mais de quarenta anos – uma espécie de jazz latino, com o swing do funk americano e a estrutura melódica baseada em escalas pentatônicas, provenientes de instrumentos etíopes como o krar, o wasinko e a flauta washint.

Inspiration Information tem nome de obra-prima (um disco de Shuggie Otis de 1974 sobre o qual já escrevemos neste blog) e vem como um alento para os ouvidos desestimulados com a diluição do afrobeat e da frouxidão da música pop supostamente dançante. O escopo musical é enorme e vai do drum’n’bass (muito bem incorporado, diga-se de passagem – ao contrário de 99% dos remixes de DJ’s que se apropriam deste estilo para dar novas roupagens a formatos antigos) ao pós-rock: sim, há algo de Tortoise nas guitarras distorcidas de “Blue Nile”. Mas o disco também tem jazz de improvisação e pianos à la Matthew Shipp e muito swing, muita consistência nas bases rítmicas, muitas melodias bonitas e envolventes, muitos arranjos primorosos, muita espontaneidade, muita riqueza de timbres… O que mais dizer? Inspiration Information é deslumbrante. (Thiago Filardi)

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Não deixa de ser curioso o aparecimento de um disco como Inspiration Information – e, de forma geral, a descoberta aos olhos europeu-americanocêntricos de Mulatu Astatke – num momento em que o jazz novamente se hibridiza para buscar novas sonoridades, novidade e uma nova relevância que possa agregar novos públicos a um gênero que é visto por muitos como o ápice da sofisticação vazia e metida a besta (uma rápida olhada na plateia dos shows da tenda jazz do Tim Festival, estranhamente, parece dar razão a essa ideia totalmente infundada). No mesmo momento em que surge essa colaboração de Mulatu Astatke, surge um disco de David S. Ware chamado Shakti, influenciado pela cultura indiana (antes de dizer “Mais um?”, leitor, esqueça a bobajada oscarizada de Danny Boyle e sinta o som); ano passado, já teve o majestoso Double Sunrise Over Neptune, de William Parker, propondo um fusionamento global de todas as músicas; e, claro, jamais podemos esquecer dos esforços de Matthew Shipp com a Blue Series, um projeto de parceria entre músicos de jazz e artistas de hip-hop/eletrônica que há anos vem fazendo o gênero flertar excelentemente com ritmos e formas de composição mais novas. Essa vontade de hibridização não é nova no jazz. Aliás, ela surgiu, ou ao menos ganhou visibilidade plena, num momento bem determinado, o período seguinte à morte de John Coltrane, e capitaneado por artistas que trabalharam com ele, como Alice Coltrane e Pharoah Sanders, além de ter em Sun Ra o grande precursor em termos menos de sonoridade do que de conceito e propósito com sua “equação cósmica”.

E assim chegamos em Inspiration Information, uma colaboração do compositor e arranjador Mulatu Astatke com o coletivo jazz/soul Heliocentrics – o próprio nome do grupo já é tributário de Sun Ra. Mesmo que não se tenha muita familiaridade com as obras de ambos artistas, é fácil perceber que o soul e o afrobeat são o terreno comum, e que Astatke joga o recheio de salsa e ritmos latinos, enquanto a parte mais assemelhada a hip-hop fica por cortesia dos Heliocentrics. Integre-se aí um easy listening típico das trilhas sonoras funkeadas dos anos 70, e teremos uma ideia do que é ouvir Inspiration Information. O disco flui com tranquilidade, alternando gêneros e velocidades sem perder o fio do interesse e mantendo-se coeso sonoramente, sem parecer um saco de gatos. A parceria funciona em seu melhor quando há mais pressão no som e mais espaço para trabalhar variações e detalhes de arranjo. O arranjo é o grande trunfo do disco, encontrando soluções distintas de timbre e instrumento a cada momento e permanecendo econômico na utilização de cada som. Nos momentos de mais baixa pressão, o disco parece com aquelas faixas instrumentais dos Beastie Boys de latino/funk/jazz, de colorido retrô mas simpático, como em “Mulatu” ou “Cha Cha”. “Blue Nile” parece ser um passo em falso na busca de um som atmosférico, mas “Phantom of the Panter” acerta em cheio nesse intento. E, claro, sempre que as batidas quebradas do baterista Malcom Catto têm papel proeminente, o disco é um deleite: “Masengo”, “Addis Black Widow”, “Fire in the Zoo”. “An Epic Story” e “Anglo Ethio Suite” fecham o disco em modo mais contido e lírico, com estrutura mais propriamente jazzy e a base discreta dando ênfase às intervenções dos instrumentos solistas.

Ainda que por momentos recaia em fórmulas e sonoridades conhecidas, Inspiration Information mantém-se interessante o tempo inteiro graças ao talento, ao controle e ao senso de economia de seus músicos. E bem mais que interessante quando, ao invés de tentar soar cool, eles atacam pra valer. (Ruy Gardnier)

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Um comentário em “Mulatu & The Heliocentrics – Inspiration Information (2009; Strut Records, Reino Unido)

  1. Alan
    28 de julho de 2009

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Publicado às 9 de março de 2009 por em Uncategorized e marcado , , , , .
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