Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Crystal Antlers – Tentacles (2009; Touch And Go, EUA)

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Crystal Antlers é uma banda de rock residente na California. Formada por Jonny Bell (voz e contrabaixo), Andrew King (guitarra), Kevin Stuart (bateria), Victor Rodriguez (órgão), Damian Edwards (percussão) e Errol Davis (guitarra), os Antlers lançaram um EP em 2008. Tentacles é o primeiro álbum do grupo. (BO)

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Definir o som do Crystal Antlers é um desafio, sobretudo se levarmos em consideração o caos de referências que ele evoca. Mas este desafio advém de um paradoxo também: quanto mais o ouvinte detecta as referências, mais ele se convence de que o grupo criou uma unidade de estilo rara nos dias de hoje. E isso porque dispõe de uma série de elementos que se não podem ser considerados exclusivos, ao menos são utilizados de forma muito particular. Bateria eloquente, virando o tempo inteiro, que lembra o estilo caótico de Keith Moon; canções com linhas melódicas em tom menor, variando da singeleza à doçura, executadas porém em volume máximo; vocal impressionante e característico de Jonny Bell, que consegue emitir as notas perfeitamente, apesar de gritá-las; por vezes um aspecto anos 60, estilo Blue Cheer; outras vezes, uma pegada que chega a lembrar o rock progressivo dos anos 70; teclado singelos, percussões sutis, cacofonia estratégica… Em suma: um rock’n’roll cancioneiro, gritado, emoldurado por uma massa sonora aparentemente caótica, mas trabalhada. Se confirmar sua força e chegar ao segundo disco, o Crystal Antlers certamente enfrentará o dilema das bandas com assinaturas carregadas, como o Ramones e o Iron Maiden: se por um lado o som dessas bandas pode ser imediatamente reconhecido, por outro elas são mais suscetíveis a se tornarem redundantes.

E talvez aí resida tanto a maravilha de Tentacles, como também uma certa complacência que se observa no álbum, sobretudo se compararmos com o EP de 2008. Nele, percebe-se, de forma urgente e definitiva, o poder do grupo em aglutinar doçura e esporro em uma saraivada curta e grossa de faixas. Já em Tentacles, o grupo dilata seu campo de ação e, ao dar cabo desta proposta, erra e acerta. Acerta quando explora um viés instrumental que parece fugir um pouco da forma inicial, aglutinando novas dinâmicas e citações, como em “Painless Sleep”, mistura de Terry Riley com Pixies, ou na faixa que encerra o álbum, “Several Tongues”, com sua longa e intrigante introdução ambient. Acerta também quando aposta no aprofundamento das formas apresentadas no EP, sobretudo se destacarmos a dobradinha “Dust” (cuja melodia comove de tão rasgada…) e “Time Erased” (com sua entrada acachapante…), ou ainda na agressividade de “Tentacles”. Mas, por outro lado, “Andrew” é uma faixa um tanto quanto frágil diante do pequeno, porém consistente patrimônio do grupo. Assim como alguns momentos de “Until the Sun Dies (Part 1)”… Nada que abale ou estrague a imensa alegria que o Crystal Antlers traz àqueles que apreciam um rock esporrento e visceral, mas ainda assim considero que talvez eles tenham funcionado com mais propriedade no EP.

Parece que em Tentacles o Crystal Antlers consolidou com folgas sua posição como melhor grupo de rock dos últimos cinco, seis anos. E isso através de um primeiro álbum que, em relação ao EP de estréia, pode ser considerado “mais do mesmo”. Ainda assim, fica a sensação de que esse “mesmo” está muito acima da média das bandas de rock da atualidade. (Bernardo Oliveira)

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A dinâmica de quatro textos por disco na Camarilha, antes de favorecer o direito de réplica entre os integrantes do blog e suas eventuais cutucadas, serve para problematizar ainda mais a questão do crítico moderno, que é a de discutir aberta e profundamente a arte e suas consequências no mundo, no ser humano e na própria arte. Por isso, o ideal é não ler o texto do coleguinha antes de fazer o seu – na real, era para entrarem todos simultaneamente, mas isso nunca aconteceu em todo o período de um ano de existência do site. São necessários a voz e o postulado de cada não pelo direito da discordância ou da pura vontade de impôr sua opinião aos outros, mas para exercitar e desenvolver os pontos de vista diferenciados e, por vezes, conflitantes.

Digo isso, pois, para criticar negativamente o Crystal Antlers é preciso fazer entender que a minha a ação não é proveniente da reação, mas de uma simples ética de gosto. Longe de haver um dogma nas minhas posições críticas, há, no entanto, uma moral do ouvido: é aceito aquilo que entra bem e não aceito aquilo que entra mal. E quando o Ruy e o Bernardo fizeram elogios fervorosos ao Crystal Antlers, à época de lançamento do EP, minha reação foi de ouvir curiosa e imediamente o som da banda. E simplesmente não bateu como bateu neles. Aqui proponho, portanto, a dizer somente as minhas constatações sobre o material ouvido após audições repetidas e cuidadosas:

A primeira impressão sobre o grupo é a respeito da inconsistência das composições: uma tentativa malsucedida de mesclar versos pegajosos com um pano de fundo distorcido, o que nos remete às experiências vintenárias – para não ir muito longe – do Jesus And Mary Chain em Psychocandy – já estava lá a síntese perfeita do pop e distorção. A chatice é outra característica que fala alto no som do conjunto: a raiva adolescente de Jonny Bell cantar, chega a ser insuportável e, no melhor dos casos, lembra o vocal rasgado e melancólico de Walter Martin do The Walkmen e, no pior, a afetação de um Mars Volta.  O Crystal Antlers me parece completamente deslocado no tempo: há algo no estilo de compor e timbrar que se assemelha muito às bandas nova-iorquinas estreantes no início da década (exemplo máximo é o The Walkmen, mas poderiam ser citados Rapture, Interpol, Strokes, Liars…). Mas o que mais empobrece Tentacles é sua paleta sonora acinzentada e monocromática, que aposta numa mesma textura o tempo todo, calcada nos teclados psicodélicos (o que os aproxima de um Seeds) e nas distorções agudas da guitarra, como se tentasse invocar um rock de garagem à la Blue Cheer, Strawberry Alarm Clock, 13th Floor Elevators, etc (alô revival do início de década). Ainda que esses elementos todos tenham contribuído para o Crystal Antlers formar uma identidade sonora reconhecível, eles não dão subsistência à música, chata, histérica e de poucos escapes criativos. A conclusão, movida por todas essas variantes, é de que eles precisam comer muito arroz com feijão para um dia, quem sabe, chegar . (Thiago Filardi)

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A música final de Tentacles, “Several Tongues”, exemplifica muito bem os dois pólos em que os Crystal Antlers se alternam. Chegando aos quatro minutos de faixa, começamos a ouvir uma explosão sonora totalmente sem forma, um aroubo free barulhento em que pedaços de instrumentos até se ouvem, mas o importante é a massa sonora criada pela dinâmica do grupo. Com 5min40 a faixa sai da entropia guiada por uma melodia grudenta de órgão, e apesar das guitarras continuarem fazendo um barulho dos infernos, o som ganha uma conotação sentimental inequívoca, como uma balada de power pop. Os Antlers, com apenas um ep e um primeiro álbum, já apresentam um som absolutamente singular, seja pela força percussiva das batidas de Kevin Stewart e Damian Edwards, seja plas estridências em alto volume das guitarras de Andrew King e Errol Davis, seja pelo órgão de Victor Rodriguez – que acaba sendo o instrumento que mais contribui em melodia para as canções – ou pela indefectível voz de Jonny Bell, um sujeito que canta urrando como se fosse um coro de cinco Mark Arm’s. O que mais chama a atenção é a força telúrica do conjunto, a maneira de destilar um rock desgarrado e agressivamente sexy, um pouco como o Mudhoney e os Stooges, as comparações mais óbvias mas também inevitáveis.

Mas os Crystal Antlers não se deixam definir apenas por essas comparações. Existe um forte componente do rock progressivo mais ácido (King Crimson, p.ex.) em algumas das passagens instrumentais e nas variações de andamento, assim como um feeling de blues (ou de sua vertente eletrificada, pesada e branca, o hard rock) que torna as composições mais calorosas. Mas o clima geral é de rock celebratório e barulhento. Porém, esse “poder cru” do conjunto não deve ofuscar a elaboração das músicas do grupo. Ouvindo com calma, percebemos todo o cuidado com o arranjo, que não consiste apenas em encher o som, mas também em criar camadas menos óbvias, algumas até delicadas (um fraseado de órgão aqui, um dedilhado de guitarra acolá), que dão maior relevo ao conjunto.

Em matéria de coesão e duração, o ep de 2008 era perfeito. Em Tentacles, o problema não é tanto de coesão quanto de opção. Em alguns momentos, eles optam por baixar a guarda e a pressão, como em “Andrew”, e acabam com uma balada pouco inspirada e sem a marca singular do grupo. Em “Vapor Trail”, o esforço em criar algo mais abstrato não vai muito longe. Mas, em compensação, quando o grupo acerta, pode sair de baixo: “Dust”, “Time Erased”, “Your Spears” e “Swollen Sky” são faixas que mostram que, quando os Antlers dosam bem o barulho e a melodia, sem perda para nenhum dos dois, não tem como dar errado. Talvez o futuro peça a eles para funcionar em outras formas e modelos. Mas isso fica pra depois. Por enquanto, o som deles permanece vibrante e poderoso, uma ode ao poder de rebeldia e fúria sonora que legitimamente se pede ao rock. (Ruy Gardnier)

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Um comentário em “Crystal Antlers – Tentacles (2009; Touch And Go, EUA)

  1. doll is mine
    26 de março de 2009

    yeahhhh!!!!! Melhor banda de 2009 \m/

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Publicado às 12 de março de 2009 por em rock e marcado , .
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