Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

U2 – “No Line on the Horizon” (2009; Universal Island, Reino Unido)

u2

Seria um equívoco afirmar que os melhores trabalhos do U2 foram produzidos por Brian Eno. Muitos olvidam ou simplesmente ignoram, mas War, que conta com a produção de Steve Lillywhite (assim como os dois primeiros LP’s, Boy e October e algumas faixas dos dois últimos), perdura como o melhor álbum do grupo. É aquele que é político sem ser apelativo, que tem maior força de expressão, tanto nas palavras quanto no som, que é cru, enérgico e, acima de tudo, sólido: é o disco de amadurecimento e o que revelou ao mundo aquele que viria a ser um dos maiores nomes do rock de todos os tempos. Se o título de War era explícito no que concerne seu tema central, o seguinte, The Unforgettable Fire, o primeiro de uma longa parceria com Eno e Daniel Lanois, já era mais sutil no tratamento do tema – The Unforgettable Fire foi o nome de uma exposição vista pelo grupo sobre as bombas de Hiroshima e Nagasaki. Foi com esse disco e a música “Pride (In the Name of Love)” que o U2 se tornou uma banda “séria”, cheia de metáforas, letras profundas, interessada pela cultura norte-americana e com arranjos ambientes e mais elaborados – estes últimos cortesias de Eno e Lanois.

Talvez incumbir a Eno o grande sucesso do U2 com o subsequente The Joshua Tree não seja enorme exagero. O produtor britânico soube aproveitar brilhantemente o talento dos quatro e a vontade conjunta de estourar nos EUA, para produzir um disco de qualidade que os tranfsormou em mega-estrelas da música mundial. E quando no início da década de 90 o U2 tinha se tornado uma banda insuportável e obcecada pelos EUA (sentimento que compreendia uma grande contradição política e ideológica para Bono, que enquanto glorificava Martin Luther King, mostrava uma fascinação descomunal por Elvis Presley), eles correram para Eno, que levou a banda para gravar em Berlim, assim como fizera com Bowie nos final dos anos 70, reinventado completamente sua sonoridade. O grupo se renovou e no álbum Zooropa já se suspeitava que o grande gênio por trás de músicas como “Lemon” fosse mesmo Eno. Mas como explicar, então, o que se tornou o U2 dos dias de hoje? Fracassos como Rattle and Hum e Pop (um disco injustiçado e superior a tudo que eles lançaram nesta década) os fizeram retornar a Eno imediatamente e, hoje, mesmo ao lado do produtor, não passam de um conjunto de rock chato, de canções paupérrimas e pose afetada (ao contrário do cinismo disfarçado de Achtung Baby).

“No Line on the Horizon”, a primeira e faixa-título do novo álbum, promete o que o resto das canções não confirmam: uma banda revigorada, enérgica, explorando timbres sonoros (a parede de guitarras de The Edge é quase shoegaze), com um refrão altamente melódico e um equilíbrio perfeito de baixo e bateria que não ouvimos desde Pop. Bono canta como não cantava há muito, com voz rascante e vigor junvenil. Porém, o U2 não é mais aquela banda de War, direta no som e urgente no discurso. O resto do disco só nos traz a certeza de que, sim, eles envelheceram, assim como Brian Eno, que há tempos não apresenta um trabalho digno de seu nome. Não esqueçamos que além do U2, ele produziu Icehouse na década de 80, James nos 90 e, mais recentemente, o último álbum do Coldplay. Compromisso com a qualidade não é algo que podemos esperar de nenhum dos dois. “No Line on the Horizon” pode não ser o suficiente para revolucionar a música, como eles clamam – apesar de ser melhor que 99% do pop/rock atual -, ou salvar a própria carreira da banda, mas é o suficiente para fazer um antigo fã sorrir. (Thiago Filardi)

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5 comentários em “U2 – “No Line on the Horizon” (2009; Universal Island, Reino Unido)

  1. Tatiana
    17 de março de 2009

    oi Thiago,

    Discordo de várias coisas, mas comentar uma por uma talvez seja muito pra esse box aqui… :p
    Portanto, só uma nota rápida: acho que a decisão de lançar um álbum a partir do extenso material que eles gravaram foi um equívoco (a idéia original era lançar 2 EPs: Daylight e Moonlight se bem me lembro), porque fica muito clara uma discrepância entre as músicas, entre um lado “rocker” e outro “ambiente” (simplificando bastante, claro). E isto quase corresponde a uma discrepância entre o trabalho com Eno/Lanois e com Lillywhite. Quase. O que quero dizer, na realidade, é que o álbum tem início com toda a pujança do trabalho de Eno/Lanois (ouvindo pela primeira vez me assustei o quanto soava Brian Eno, na verdade), mas quando entra em “Crazy”, nos damos conta de que na verdade é um disco meio frankestein (não que isso tb não tenha o seu charme…). E, bom, pelo menos pra mim, eles poderiam ir mais fundo com a dupla e deixar o Lillywhite de fora neste momento. Pra mim, desde que eles o resgataram em 2000, ouvir a produção dele me soa como aquele desejo de “voltar às raízes” meio despropositado. Não que isso não tenha tido o seu valor lá com o “All That…”, mas acho que não faz muito sentido pra quem fez os discos que eles fizeram na década de 90.
    Por isso, portanto, que este me deixa bem feliz: pelo menos podemos ouvir uma banda em abandono (ou quase), entregue a uma busca de sonoridades mais sincera. E as sonoridades, ainda que não completamente novas, são exciting o suficiente. Mais do que o suficiente, na real. 🙂
    E vejamos o que será o “Songs of Ascent”, que eles prometem lançar em breve, com as muitas canções que ficaram fora desse, que possuem “um ar mais meditativo”. Estou bastante positiva.
    Ah, outra coisa importante de comentar é que neste disco o Brian Eno e o Daniel Lanois foram convidados por eles a compor junto e também assinar as músicas. Isso sim é um diferencial em relaçào à colaboração que eles tinham no passado. (tinha acontecido no Passengers, mas era um side-project)

    Credo, escrevi muito.

    bjos
    Tati

    ps: essa letra tem que ser assim tão pequena mesmo?!?

  2. thiagofilardi
    17 de março de 2009

    Oi Tati.

    Obrigado por se dar ao trabalho de comentar aqui e ainda escrever um texto grande, ao contrário do que você pretendia. Mas sem desculpas. Escreva o quanto quiser. Mesmo que seja pra discordar. Afinal, esse é um texto crítico, subjetivo e a seção de comentários está aqui pra isso.

    A verdade é que essa música e “Get on Your Boots” me surpreenderam. Há tempos que não ouvia o U2, uma banda muitíssimo querida de pré-adolescência, soar de forma tão excitante e robusta. Ouvi o disco com a maior boa vontade do mundo, assim como fiz com os últimos, e não rolou… achei chato até não poder mais. A produção do Brian Eno é sempre interessante e adiciona coisas legais aos arranjos. Acontece que são momentos, segundos perdidos no meio das melodias arrastadas do Bono e das guitarras limitadíssimas e repetitivas criativamente do The Edge. Esses arranjos simplesmente não se desenvolvem e as músicas não acontecem. Esse lance de volta às raízes é um saco mesmo, mas acho que eles temeram ficar com baixa credibilidade crítica depois do fracasso de Pop, que nem é tão ruim assim (foi com ele que descobri a banda). E desculpe te decepcionar, você parece gostar tanto quanto eu gostava, mas acho o trabalho deles dessa década inaudível e, depois desse disco, perdi todas as minhas esperanças que eles voltem a fazer bons discos. Ao menos tem essas duas músicas pra me fazerem lembrar o quanto já gostei deles e o quanto eles já foram uma banda legal, se é que já passaram disso.

    Beijos e volte sempre!

  3. Tatiana
    18 de março de 2009

    oi Thiago,

    Eu acho Pop muito foda. (também foi com ele que eu os descobri!) E, sim, eles tremeram nas bases com a má aceitação do disco. Foda-se, é um trabalho genial, caramba!
    Mas enfim, triste que vc perdeu as esperanças! hehe
    Gosto de Boots, concordo que é robusta (o riff é mto bom), mas acho que o álbum tem músicas melhores. Sério que vc não gosta de Fez?!? Nem de Magnificent?
    E, bom, é um álbum que renovou minha empolgação com eles, embora ao mesmo tempo revele as limitações que eles mesmos se impuseram e talvez não percebam.
    De qualquer forma, pra mim os arranjos acontecem e as guitarras do Edge, ainda que por vezes repetitivas, sempre me arrepiam.

    Engraçado, tava vendo esse vídeo ainda agora: http://www.mtv.com/global/music/videos/popout/?vid=350221
    e lembrei do seu texto.
    Quando o Larry diz: “o Brian Eno não gosta de U2”, “e foi por isso que fomos atrás dele de novo”. (comentando porque as sessões com o Rick Rubin não deram muito certo)

    voltarei sim! 😉

    beijos
    Tati

  4. Radamés
    8 de abril de 2009

    Caro Thiago,

    Apesar de discordar de certas coisas, acho a tua crítica muito original, especialmente porque você está na contramão de certo ‘lugar comum’ que faz tábula rasa das primeiras obras do U2. Como esquecer a fúria dilacerante de War? Os melhores atributos são os que você usou: cru e enérgico. A despeito de amar todos os discos do U2, War é aquele que me soa como o mais honesto da banda. Acho que você sacou de forma muito sensata a mão de Eno nos trabalhos da banda. No entanto, não concordo que isso tenha levado o U2 a ser um conjunto de rock chato, de canções paupérrimas, talvez sim, a uma banda de pose afetada. Eno talvez tenha conduzido o U2 a um lado mais intimista e mais civilizado, no sentido preciso de um processo civilizador, qual seja, aquele de domesticação dos afetos. Com Eno a fúria do U2 é domesticada. È por se afastar disso, por ser mais cínico e mal-comportado, que POP me parece um álbum tão bom, outra coisa com a qual concordo com você. Nos dois discos subseqüentes ao POP achei que realmente o fracasso deste junto à crítica não fez bem aos rapazes. Há depois de POP uma obsedante tentativa de resgatar as raízes, resgatar o tom idílico de Eno. Contudo, neste último disco, acho que essa obsessão se tornou menos renitente. E a despeito da presença pujante de Eno no repertório – o que nunca me aborreceu e aí está nossa discordância –, a banda conseguiu voltar a canções grandiloqüentes. No entanto, gostaria de lhe fazer bis numa coisa: sinto falta de um U2 mais mordaz como o de POP e mais dilacerante como o de War, October e Boy. Porém, a fúria daqueles jovens garotos irlandeses era, paradoxalmente, sempre entrecortada por uma delicadeza. Essa delicadeza foi fisgada por Eno e decorada. Talvez seja esse o elemento que lhe incomoda. Mas veja bem meu amigo, a inocência de Boy é anunciadamente perdida em War. Depois de War os caras não eram mais os mesmos. E nada como a celebridade para devassar a integridade dos homens. O U2 até que mantém boa reputação nesse panteão de deuses e monstros.

    Cordialmente,

    Radamés.

  5. thiagofilardi
    8 de abril de 2009

    Olá Radamés,

    Obrigado por comentar aqui. O que dizer? Você e a Tati enriqueceram meu texto com belas palavras e análises precisas. Nunca imaginei que essa crítica daria tanto a falar.

    Acho que por ter escrevido razoavelmente rápido, consequência da falta de tempo, não pude esclarecer muito bem algumas questões. Eu GOSTO do U2 com o Eno. Adoro o Unforgettable Fire e o Joshua Tree. Estão longe de serem discos perfeitos, mas os considero entre os melhores da banda. Talvez os melhores depois de War. E devo dizer que a delicadeza decorada, como você diz, é exatamente o que me agrada nos álbuns que o Eno produziu na década de 80. A tentativa de se reinventar no início dos anos 90 também é válida e, sinceramente, não sei mais o que acho do Pop. Faz tanto tempo que não ouço… Sei que detesto os caminhos atuais, a volta às raízes, como todos parecem concordar. Tudo tem seu tempo. Não vejo sentido em fazer uma produção “limpa” como em ATYCLB no ano de 2000, depois de tudo que a banda explorou na década anterior (ou pelo menos tentou). Também há sempre algo que fala mais alto pra mim: o songwriting. O U2 sempre foi um grupo que produziu grandes hits, melodias pegajosas e riffs memoráveis. Mas não gosto do que eles fazem hoje: canções sem inspiração, redundantes, forçadas – chegaram ao pastiche de si próprios. Sinto falta da fúria dilacerante, como você bem definiu, da melodia solta, bonita e dos vocais raivosos de uma “Like a Song”. Me parece que a fase subsequente a essa, na qual Eno civilizou a banda e domesticou seus afetos (peço novamente a permissão para usar suas palavras), ainda soa muito interessante, pois é o meio-termo da genialidade sorrateira de Eno e do lado mais desleixado e rock mesmo do conjunto.

    Eu só quis atentar ao fato de muitas pessoas considerarem o melhor U2 aquele produzido pelo Brian Eno. Eu não concordo. Acho que o melhor U2 é aquele do War, produzido pelo Lillywhite, com a criatividade e vigor em efervescência. O U2 da primeira sequência de parcerias com Eno também é ótimo, porém não o melhor pra mim, assim como me desagrada quase tudo que eles fizeram nesta década. O mesmo posso dizer sobre o Eno. É um dos meus artistas prediletos, mas não terei o mínimo de piedade em criticar os álbuns dele de uns vinte anos pra cá.

    Volte sempre e abraços,

    Thiago.

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Publicado às 14 de março de 2009 por em pop, rock e marcado , , , , , .
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