Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Bonnie ‘Prince’ Billy – Beware (2009, Drag City; EUA)


Bonnie ‘Prince’ Billy é o principal pseudônimo sob o qual se esconde Will Oldham, que depois de alguns anos gravitando entre Palace, Palace Music, Palace Brothers e Palace Songs, fixou Bonnie Billy como seu personagem. Oldham nasceu na cidade americana de Louisville, Kentucky e apesar de tantas mudanças de nome, seu estilo permaneceu razoavelmente uniforme, passeando em um universo de country, folk e rock sempre com ênfase em sua voz peculiar, crua e passional. Ao longo dos anos Oldham passou a ser celebrado por uma legião de admiradores fiéis e também por outra de detratores intransigentes. Seu álbum de maior sucesso até hoje é I See a Darkness, repleto de baladas sombrias falando sobre relacionamentos, amizade e talvez, suicídio. Além das atividades musicais, Oldham também é ator e Beware é seu mais recente álbum de estúdio, em uma obra de cerca de vinte álbuns. (MM)

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Acusar de hype é sempre uma faca de dois gumes. Primeiro, porque nada impede que grandes artistas sejam “vítimas” dele (e aí não dizem que é hype, dizem que é merecimento pelo reconhecimento da qualidade). Segundo porque não existe um medidor de autenticidade no gosto das pessoas, e portanto é impossível saber se alguém gosta “legitimamente” de certos artistas ou gêneros. Aliás, é mesmo meio tolo acreditar em legitimidade para todas as coisas; ainda que, claro, isso não signifique que não possamos volta e meia perceber alguns comportamentos bastante fake na recepção à arte. Mas, no fundo, que importa? “Hype” é apenas aquela palavra que surge quando não gostamos de alguns artistas que estão em exposição e são admirados por pessoas e veículos que levamos em consideração (se não levássemos, bastaria apenas dizer “mau gosto”).
Digo tudo isso porque tinha pensado em começar o texto dizendo que nunca entendi o hype em torno de Will Oldham. Apenas para perceber o quanto essa frase já contém de condescendente e de fuga da tentativa de compreender um fenômeno. De qualquer forma, é fato que nunca me muito senti atraído pelo country com sensibilidade indie de certos artistas a quem se atribui o gênero alt-country, como o Wilco, como o recente Fleet Foxes, como os dois últimos do Vetiver, e também como Will Oldham, seja em suas manifestações como Palace, Palace Music, Palace Brothers, Palace Songs ou Bonnie ‘Prince’ Billy. No máximo, me interessei por alguns momentos da voz delicada e vulnerável de Oldham, e por alguns momentos mais despojados de arranjo.

Em Beware não temos muito disso. As soluções de arranjo são muito parecidas ao longo do disco, e parecem privilegiar o poder das canções (não particularmente muito poderosas) com um tom meio épico, cheio de coro nos momentos de clímax, um country quase glam por vezes.Will Oldham parece polir suas impostações mais pessoais de voz e as atmosferas mais incomuns, o que reduz o “alt-” do alt-country a muito pouco. “There Is Something I Have To Say” é uma bem vinda exceção, mostrando uma verve mais intimista, sem dúvida o que há de mais interessante na música de Oldham. Beware é um disco consistente, bem cuidado e competente, mas extremamente confortável, formulaico mesmo, nas temáticas e nas soluções de composição. (Ruy Gardnier)

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Quando, há uns meses atrás, se não me engano nas resenhas sobre Juana Molina, o Ruy se referiu ao meu bloqueio em relação ao folk, ele estava brincando com um sentimento quase folclórico… De fato, há anos que destilo uma certa implicância, não exatamente com artistas como Bob Dylan, Neil Young ou até mesmo arcanos do gênero, como Woody Guthrie e Leadbelly, que certamente fazem minha cabeça; mas com uma nostalgia folk que insiste em reproduzir uma época através da cristalização de suas sonoridades peculiares. Não se trata, portanto, nem de uma dificuldade exclusiva em relação ao pastiche folk, como Devendra Banhart, mas também a artistas como Bonnie “Prince” Billy, que gozam de alguma reputação em virtude da seriedade com que encaram suas composições – diga-se de passagem, a mesma “seriedade” tacanha que se cobrava de Bob Dylan, à época de sua adesão aos instrumentos elétricos. É claro que não se pode dizer “odeio folk” sem levar em consideração tanto os artistas geniais, como as ramificações do gênero: o folk rock, o laptop folk, e mesmo projetos com o Espers e o Department of Eagles merecem atenção e respeito. Trata-se portanto de uma implicância com as apropriações revestidas de uma respeitabilidade comum ao gênero, mas também a uma má vontade quase instintiva contra o som do violão, estilo “chácompão”, contra as harmonias quase invariáveis, contra a já citada sisudez dos artistas folk.

E não é que todos esses elementos podem ser encontrados não só em Beware, como também em quase toda a carreira de Bonnie “Prince” Billy? Ele é sério, ele reproduz velhas harmonias e temas, ele é sisudo e sua música transparece esses elementos com uma sinceridade irritante – ouçam, por exemplo, “My Life’s Work”… Beware tem rabeca, tem coro de mulher fazendo a terça, tem bongô marcando o andamento… E, é claro, tem pequenos detalhes com os quais, ao que tudo indica, Billy pretende “fazer a diferença”, como um xilofone em “You Can’t Hurt Me Now” ou um solo de guitarra em “I Am Goodbye”. E apesar de reconhecer que a força de uma canção pode emergir de audições sucessivas, sinto que não é o caso das canções de Beware.

Ou seja: nada que não comprometa de forma irreversível o entediante resultado final. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 19 de março de 2009 por em Uncategorized e marcado , , , .
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