Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Martyn – Great Lengths (2009; 3024, Holanda)

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Martijn Deykers, vulgo Martyn, nasceu em Eindhoven, na Holanda, onde, ainda na década de 90, atuou como DJ na festa de drum ‘n’ bass Red Zone, criada por ele e por amigos. Mas foi apenas em 2005 que Martyn começou o trabalho como produtor. Em 2007 ele criou seu próprio selo, o 3024, e com o lançamento de Broken/Shadowcasting pela Revolve:r, passou a explorar sonoridades mais próximas do techno e do dubstep. Martyn lançou três compactos no ano passado e vem despontando como um dos nomes mais criativos e revigorantes da música eletrônica. Great Lengths, seu primeiro LP, sai no dia 20 de abril. (TF)

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Martyn é o típico músico pós-moderno: contraria a tese de que para fazer música é preciso tocar um instrumento e o faz diante de um background interminável de influências – basta visitar seu myspace e conferir suas citações, que vão desde filmes de ficção científica até Los Hermanos (!), passando por John Coltrane, OutKast, Talking Heads e Ennio Morricone. Além disso, ele começou como DJ (função praticada até hoje – quem o viu discotecando sabe que se trata de um dos grandes disc jockeys da atualidade) de uma festa de drum ‘n’ bass na Holanda que, com o tempo, se tornou uma das mais famosas e disputadas do país. Ele também presenciou o auge da música eletrônica: as transformações contínuas do hardcore (que no atual estádio são chamadas de wonky), até virar drum ‘n’ bass e, como holandês, viveu no intermédio da cena britânica com a alemã, do dub techno, inventado por Moritz Von Oswald e Mak Ernestus do renomado selo Basic Channel, estética importantíssima para a formação de sua sonoridade tão peculiar.

Sabemos, no entanto, que não é qualquer artista que consegue trabalhar e assimilar influências tão diversas. Para Martyn, foi só uma questão de tempo. Envolvido com o drum ‘n’ bass (presente na sua produção atual, ainda que de forma sutil na construção das batidas), em meados desta década, depois de onze anos levando à frente a festa Red Zone, ele se deparou com o 2-step diferenciado e regado de dub de produtores como Kode9 e do pessoal da DMZ (Coki, Mala e Loefah). Não demorou que ele também enveredasse nessa área e dois anos depois já estivesse chacoalhando a cena dubstep com algumas de suas faixas mais ecléticas e imersivas.

Great Lengths aparece diante de uma expectativa muito grande, principalmente para nós, que sempre fomos grandes entusiastas de seu trabalho. Já disse em textos anteriores (vide 2562) o quanto é difícil para um gênero predominantemente de pista como o dubstep se adequar ao formato álbum (problemática que nos remonta aos primórdios do hardcore, quiçá do techno). Nesse sentido, existe um Margins Music para se contrapor à teoria anterior. Os produtores Dusk e Blackdown demonstraram que é possível fazer um álbum de dubstep e segurar o ouvinte até o último segundo, mesclando sonoridades advindas de outras culturas à batida imponente do gênero. Mas isso significa também uma negação da teoria, pois comprova que o dubstep mais coeso, dono de uma unicidade estética menos flexível, não tem gás o suficiente para manter o interesse e empolgação numa audição privada por sessenta minutos. E hoje, o dubstep já se encontra em outro estádio (é o wonky, a bassline). Não é mais aquele estilo fechado na estrutura que tanto impressionou Martyn. O próprio produtor holandês faz parte de uma geração que veio pra mudar a cena, evoluí-la, transformá-la em outra coisa (é só olhar para a variedade e explosão de produtores que surgem em qualquer canto da Europa sob o rótulo de dubstep). Neste Great Lengths ele confirma a atual tendência da house no circuito e infunde nas músicas o toque dub techno, que tanto caracteriza sua produção.

Mas a questão é: Great Lengths funciona? Em parte sim, pois certifica seu talento para criar batidas, experimentar com timbres percussivos, abarcar o ouvinte em ambiências bastante peculiares e sua habilidade em aglutinar estéticas tão distantes, de modo a originar uma sonoridade única. O título, portanto, reitera este lado positivo: length pode ser o espaço que existe entre duas coisas. Por outro lado, o título também revela o lado negativo do álbum: sua extensão em tamanho. Na décima faixa, quando achamos que está para acabar, ainda tem muito mais. Algumas faixas como “These Words”, mix de house com dubstep, “Bridge”, um interlúdio brega de piano, a redundante “Hear Me” e “Brilliant Orange”, outra ponte, são completamente desnecessárias e nos deixam a impressão de que talvez Martyn não saiba desenvolver tão bem o conceito de álbum. É claro que vindo deste produtor maravilhoso e do qual ainda esperamos muito mais, isso é perdoável. Que venham mais lengths! (Thiago Filardi)

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Martyn já é um velho conhecido desta tribuna. Apareceu ano passado na postagem da impactante “Suburbia”, nas listas de melhores músicas do ano e foi mencionado incidentalmente em alguns outros textos. 2008 foi seu ano, como atestam os singles e os remixes que lançou. Sua produção em 2008, junto com a de produtores como TRG e 2562, direcionava o dubstep para aproximações com a pista de dança, através da incorporação do techno, e trabalhava com andamentos pronunciadamente mais rápidos. Mas algo em Martyn já fazia supor que o dubstep era menos a terra natal do que uma hospedaria afetuosa. Mais que um produtor de dubstep, ele era um produtor que incorporava o dubstep a uma série de outras sonoridades de pista, em especial o techno. Mas a declaração de princípios, ao menos veladamente, está aqui. Falando de um single do DeepChord, ele acaba confessando seu intento principal: carregar o dub para a pista de dança, fazê-lo funcionar dentro da dinâmica de andamentos rápidos e batidas 4/4 ou tendendo para ele com o 4 muito demarcado (ao passo que o dubstep, como o drum’n’bass antes dele, diluíam a batida principal no redemoinho do breakbeat).

Assim, não é surpresa que Great Lengths, seu primeiro álbum, seja um testemunho de emancipação em relação ao gênero que lhe valeu uma maior visibilidade. A única faixa que se aproxima de um dubstep mais tradicional (já?) é “Hear Me”, quase uma faixa do Burial tocada em 45 rotações (um quase-d’n’b), dado o som de caixa que parece um copo quebrando e o vocal r&b tão querido pelo autor de “Ghost Hardware”. A única intriga que perpassa o disco é a do baixo do dub, e o 2-step aparece eventualmente, assim como aparece o techno, e um tecladinho de reggae numa faixa pode dar lugar aos arpejos de sintetizador à moda do Basic Channel (mas a própria dupla Ernestus/Von Oswald já não misturou a coisa toda a partir do Rhythm & Sound?). “Is This Insanity?”, por exemplo, tem tecladinho Basic Channel e é ao mesmo tempo uma espécie de tributo à dinâmica de Kode9 com o SpaceApe. Assim, incorporando diversos registros, Martyn constrói seu estilo com elegância e coerência (polindo com o techno a parte mais excêntrica e difícil do dubstep, mas isso é sua escolha, não um crime), e nos entrega diversas pérolas. “Natural Selection”, com seu devastador riff de teclado, já era uma jóia, e com a voz distorcida para o grave acrescido na versão do cisco, nasce um clássico. “Right?Start!”, “Little Things”, “Vancouver”, “Elden St.”, “Far Away”, todas procedem com o mesmo procedimento de depuração via techno do dubstep, e mostram um grande talento para a criação de batidas, incorporação de baixo, entrada discreta de camadas etc.

Mas Greath Lengths revela algumas fraquezas. “These Words” talvez seja a mais gritante, com um vocal que tenta ser soturno-sexy e flertar com o trip hop, mas tem cara apenas de um remix de atualização. As faixas ambient, “Bridge” e “Brilliant Orange”, não dizem muito a que vieram, dando a impressão de que estão lá apenas para servir, sem muito resultado, a uma função de respiração interna do disco. O que leva a outra questão, o fato de que Great Lengths, ao contrário de um Aerial, por exemplo, não tem muita organicidade como álbum – em parte, também, por trabalhar com um vocabulário muito mais vasto, e portanto mais arriscado, que 2562. Mas isso, na verdade, é o de menos. Mesmo que valha mais se compreendido como uma coleção de músicas, o primeiro álbum de Martyn é desde já um dos discos inescapáveis de 2009, fonte de inúmeros prazeres e belezas. (Ruy Gardnier)

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Com seus singles de 2007 e 2008, respectivamente “Broken/Shadowcasting” e “All I Have Is Memories/Suburbia”, o Dj e produtor holandês Martyn já demonstrava duas tendências de seu trabalho que se confirmaram com Great Lenghts. Sem que a antecipação destas tendências prejudicasse  o alto teor de novidade do álbum, Martyn dobra suas apostas em um interesse obsessivo na exploração dos mais diversos gêneros de música eletrônica surgidos nos últimos 25 anos, dentro porém da linguagem de timbres rascantes e andamentos soturnos do dubstep; e também numa espécie de caminho oposto ao anterior, isto é, numa tentativa bem sucedida de criar coesão e estilo para este gênero alimentado pela história dos gêneros que o precederam. Claro que este procedimento é comum às modulações da música eletrônica dos anos 90: mesmo para nós brasileiros, que não acompanhamos de forma tão intensa o auge do UK garage, é bastante compreensível a passagem deste gênero ao jungle, e do jungle ao dubstep. Mas, não sei exatamente o porquê, Martyn consegue destilar em Great Lenghts uma expressão do dubstep que surpreende sobretudo pelo resultado vigoroso que emerge, no entanto, de um diálogo franco com o passado.

Talvez, por ter vivido os anos noventas e, nesta época, ter adquirido experiência como DJ, ele disponha hoje de uma bagagem musical um tanto quanto mais ampla que a de “vândalos” geniais como Darkstar e TRG. Ocorre que Great Lenghts testemunha o trabalho de um artista de ponta, que embora recorra a num determinado recorte histórico, não produz para homenageá-lo, como o Zomby de Where Were U in 92’, nem para destacar seu lastro ideológico, como o Pinch de Underwater Dancehall. Ao contrário, Martyn é profundamente original em sua viagem às vertentes mais variadas da música eletrônica: ao 2 step matador de “Is This Insanity?”, ao techno de “Seventy Four” e “Elden St.”, ao UK garage de “Little Things”, à levada funky da segunda parte de “Natural Selection”, e mesmo ao ambient, na espalhafatosa “Brilliant Orange” e na belíssima incursão glitch de “Bridge”.  Mas onde o talento de produtor brilha para valer  são nas sensacionais “The Only Choice”, “Vancouver”, single de 2008, “Far Way”, “Right? Star!” e “Hear Me”: batidas poderosas, que lembram as pancadas de “Metal on metal”, somadas a linhas de baixo e teclados firmes, impenetráveis e repetitivas, que conferem às faixas um clima de tensão constante. Tensão, inclusive, que perpassa todo o álbum e aumenta a sensação de que sua música não se dá meramente à contemplação, como muitos podem supor do dubstep. Ao contrário, Great Lenghts é agressivo e minimalista, mas vai além do flerte com a pista de dança; é, de fato e de direito, música para dançar.

Se Shackleton, com o emprego crítico da percussão, pode ser considerado o grande iconoclasta do dubstep; Kode 9, com suas tentativas de torná-lo mais palatável, o seu embaixador; Burial, a grande assinatura, o grande mistério; Clouds, a demonstração de sua condição transnacional, para além da influência massacrante do 2 Step e do UK Garage; Cotti e Pinch, as testemunhas mais incisivas de sua relação atávica com a música jamaicana; e, por fim, Blackdown, o seu historiador, o seu pensador: eis Martyn, um artista que se dispôs a converter a efervecência intensa de um gênero relativamente novo em uma síntese simultaneamente histórica e vigorosa. Talvez aqui ele encarne aquele artista, que por vezes passa desapercebido, mas deixa marcas sobre todos os outros, seja situando-os sob outra perspectiva, seja colhendo deles o que têm de melhor e retraduzindo-os para sua própria linguagem. Tarefa ingrata, cujo resultado, porém, alça Great Lenghts a um dos grandes acontecimentos do dubstep em 2009. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 27 de março de 2009 por em eletrônica e marcado , , , .
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