Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

The Third Eye Foundation – Ghost (1997; Domino, Reino Unido)

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Third Eye Foundation é um projeto de Matt Elliott, compositor inglês de Bristol. Ele apareceu inicialmente numa participação especial numa faixa do disco Further, do Flying Saucer Attack. Começou a lançar discos como Third Eye Foundation, incorporando sonoridades eletrônicas a paredes de barulho atmosféricas e psicodélicas: Semtex em 1996, Ghost em 1997, You Guys Kill Me em 1998 e Little Lost Soul em 2000. Simultaneamente colaborou em discos de outros artistas, como Hood e Amp, além de ter remixado artistas como Yann Tiersen, Blonde Redhead e Tarwater. A partir de 2003, começou a assinar como Matt Elliott, e o próprio som se modificou para uma espécie de folk soturno. Seus discos dessa nova fase são The Mess We Made (2003), Drinking Songs (2004), Failing Songs (2006) e Howling Songs (2008). (RG)

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À medida que o tempo passa, certas cenas, certas intrigas musicais, certas efervescências aos poucos deixam de pertencer ao presente e vão se acomodando, mal ou bem, no tecido do passado e da História. Em 2009, parece muito claro que o drum’n’bass já é uma cena circunscrita no tempo, assim como o enorme momento de liberdade que foi o boom eletrônico dos anos 90 já se configura hoje sob outros paradigmas e problemáticas – ele já tem uma história, já estabeleceu uma linhagem. No relato oficial, certamente estarão lá os nomes de Aphex Twin, Autechre, Mouse on Mars, e no de db Goldie, Roni Size, A Guy Called Gerald, Aphrodite etc. E, quando alguém fizer as referências cruzadas dos dois, além de Aphex Twin vão comentar o db experimental de Squarepusher ou o assalto sônico do Venetian Snares como exemplos de um db especulativo, radical, não feito para as pistas. Mas se essa história for realmente bem contada, ela não há de esquecer a contribuição única e solitária de Matt Elliott e de seu Third Eye Foundation, um projeto que, por uma série de fatores (não lançar discos por uma gravadora da cena como Warp ou Mille Plateaux, fazer um som “impuro” misturando eletrônica com shoegaze ou pósrock), parece estar sendo alojado injustamente no segundo escalão de sua cena e época. Repetindo: injustamente.

Ghost talvez não seja o disco mais referenciado quando se fala de Elliott assinando como TEF. Mais elegante e detalhado (além de mais acessível), Little Lost Soul parece ser o preferido dos admiradores. Mas Ghost é aquele que carrega o maior poder atmosférico, a maior sofreguidão, a experiência mais intensa. E, mais que isso, é um disco fruto de uma pesquisa única, talvez só comparável – ainda assim forçando um pouco – ao Curse of the Golden Vampire de Alec Empire com Techno Animal. Ghost é ao mesmo tempo agressivo, delicado, inspirador, irritante e doce.

O disco já começa arrebatador, com “What to Do But Cry?” e “Corpses As Bedmates”. A primeira inicia num longo loop melódico arabizante envolvido por uma nuvem de barulho. Depois dos primeiros compassos surge um breakbeat de jungle que cria um efeito soberbo: ainda que não nos dê o impulso de dançar – a batida é meio lo-fi, sem muitos graves –, adensa o som e cria uma dinâmica singular. A seguinte é ainda mais acachapante: fica vários minutos num breakbeat lento e downtempo, enquanto a parte melódica solta uma parede de barulho que, na falta de descrição melhor, parece ser o som de fantasmas assombrados por uma eternidade. Em 1min de música, é acrescido ao tecido de barulho um som fortemente estridente de assovio (que irá e voltará até o fim da faixa). Na faixa dos 3min, a batida desaparece por um tempo e dá lugar a um drum’n’bass frenético, mantendo a mesma base densa e carregada do começo. Sabiamente, a faixa seguinte, “The Star’s Gone Out”, na verdade cortesia da artista Foehn, inverte o jogo com uma faixa de loops barulhentos – lembram por momentos portas rangendo e melodia de realejo distorcida por uma manivela executando em velocidade errada – mas calmos, que inevitavelmente recebem no meio da faixa um nevoeiro de barulho até voltar ao equilíbrio original.

O lado b do disco é pronunciadamente mais ameno, mas se mantém no mesmo registro: camadas densas, sons estridentes usados como riffs melódicos, batidas eletrônicas. Mas tanto “The Out Sound From Way In” quanto “I’ve Seen the Light And It’s Dark” se aproximam muito mais do ambient (ou do “illbient”, termo outrora usado que caiu no esquecimento), usando a batida menos como elemento abrasivo – o que definitivamente ocorre com as duas primeiras do disco – do que como casa para o tecido melódico. “Ghosts…” e “Donald Crowhurst” são peças atmosféricas, abstratas: a primeira parece uma melodia sendo tocada extremamente lenta em fita, com uma melodia ambient que, aparecendo aos 2min, tem uma conotação quase épica (um pouco como as melodias do Caretaker, aliás); a segunda, totalmente sem batida, termina o disco em chave reflexiva, mais melódica, mas igualmente densa.

Se Ghost resistirá na memória musical das futuras gerações, caberá só ao tempo dizer. É um disco incrivelmente inspirado – ousaria até chamar de marco para um gênero que não chegou a existir –, e uma possibilidade quase inexplorada de se apropriar da psicodelia shoegaze e fazê-la desenvolver-se em formas eletrônicas e/ou mais abstratas. Além de que os títulos das músicas são fenomenais, de um lado evocativos, de outro bem humorados. Para este escriba ao menos, Ghost permanecerá como um dos clássicos da eletrônica dos anos 90. (Ruy Gardnier)

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É quase inacreditável que em 1997, quase que simultaneamente ao Timeless de Goldie  e ao Come to Daddy do Aphex Twin, Matt Elliot já investisse em uma apropriação tão madura e irresponsável do drum and bass. De fato, ele não obteve o crédito merecido e hoje parece pertencer a um museu de aberrações e gestos estapafúrdios. Eram tempos onde o gênero ainda possuía a virilidade de uma música “nova”, eminentemente orientada para a pista de dança, o que não levaria a supor sua apropriação intelectual, muito menos uma leitura tão pessoal quanto a de Elliot. Squarepusher e Aphex Twin constituíam suas poucas, talvez únicas vertentes experimentais, resguardadas sob a sigla preconceituosa IDM, Intelligente Dance Music (em tradução livre, “música para dançar, (porém) inteligente”). Dentro dessa perspectiva, podemos afirmar hoje que a música de Elliot, sob o pseudônimo Third Eye Foundation, desempenhou um papel sui generis na gama de manifestações da música eletrônica dos anos 90.

Junto com o álbum anterior, Semtex, Ghost pode ser arrolado como o exemplo mais impactante da gramática pessoal de Elliot. Diferentemente de seus companheiros de empreitada, Squarepusher e Aphex Twin, Elliot não se concentra principalmente sobre a composição dos beats, embora ele também seja bastante criativo nesta seara. Seguindo por outros caminhos, ele se dedicou à criação de um vocabulário essencialmente rocker, composto por nuvens e revoadas sonoras, comparáveis, guardadas as devidas proporções, ao rap-shoegaze do Dälek. A faixa que abre o álbum, a espetacular “What to Do But Cry?”, por exemplo, é toda construída sobre modulações de massas barulhentas, incorporadas a um drum’n’bass lo-fi que, embora não tenha a expressividade das batidas criadas por Richard D. James, se adequa perfeitamente às intenções econômicas de Elliot. “Corpses As Bedmates” (me pélo só de ouvir o nome) aprofunda essas características, sintetizando levadas de hip hop, drum’n’bass com noise extremo, além de um apito irritante que faz, digamos, o “tema”. Em “The Star’s Gone Out “, uma das faixas mais fortes do álbum, ouvimos uma espécie de ambient as àvessas, misturando tramelas enferrujadas, serras elétricas, animais agonizantes, e outros sons nada amistosos. “I’ve Seen The Light And It Is Dark” é talvez a faixa em que Elliot se esmere mais nas batidas, criando uma atmosfera de tensão progressiva. O álbum termina com a ambient “Donald Crowhurst”, talvez sua faixa menos interessante, por lembrar muito os Selected Ambient Works, do Aphex Twin.

Neste sentido, a sonoridade deste Ghost é exemplar e, no entanto, bastante diferente dos álbuns posteriores, You Guys Kill Me e Little Lost Soul, onde Elliot explora vertentes musicais mais brandas e “rítmicas”, por assim dizer. Pois para ele, tal qual seus companheiros de Bristol, o que importa aqui é a valorização de uma atmosfera grave e obtusa. E, certamente, uma das mais incômodas dos anos noventas. (Bernardo Oliveira)

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O primeiro contato com a música do Third Eye Foundation é arrebatador. Ainda mais porque se trata de um dos projetos mais negligenciados dos anos 90 (não figura em nenhuma lista de melhores da década e é pouquíssimo lembrado hoje em dia, mesmo pelos veículos de menor circulação). Matt Elliott fazia, basicamente, drum ‘n’ bass, mas um d’n’b totalmente alienígena, que assumia formas diversas e flertava com os mais excêntricos estilos musicais. Pode-se dizer que a batida pesada de “Corpses As Bedmates”, com sua parede sonora spooky, influenciou toda uma geração do hiphop underground se revelou no início deste século (de Dälek a Cannibal Ox). Mas sempre foi difícil rotular o TEF. Embora o cerne das batidas pertença ao jungle, as faixas são muito expansivas, utilizando várias camadas de som e efeitos múltiplos – existe até um quê de shoegaze na densidade dos sons climáticos que permeiam Ghost.

Dessa forma, o projeto nunca fez parte da cena d’n’b, que vivia o ápice no ano de 1997. Mas também não se encaixava no panorama indie, ou no que restava da cena shoegaze, e menos ainda na seara do trip hop, a qual deixou famosos seus comparsas de Bristol. Talvez o ideal fosse associá-lo ao pessoal da Warp, que compartilhava o apreço por batidas complexas e experimentações radicais no campo da eletrônica. Contudo, Matt Elliott não chegou a gravar para o renomado selo e, muito menos, se uniu à galera. Manteve-se um outsider, um artista que não seguiu tendências; que fez sempre o que seu estado de espírito determinou, e que, hoje, faz discos centrados no folk e na figura do cantor/compositor – praticamente o oposto dos álbuns que lançava há dez anos.

Apesar de soar impressionante pela experimentação concisa e a busca interminável por timbres percussivos, o Third Eye Foundation tende a cansar o ouvinte. Seja pelo excesso de informação ou pela necessidade constante de nos assombrar com ambiências fantasmagóricas (provavelmente seu objetivo, a exemplo do título), este álbum não atinge o grau de intensidade de um jungle de primeira linha (Metalheadz, Omni Trio, A Guy Called Gerald) e não embasbaca com o radicalismo da forma e a agudeza da batida (Autechre, Aphex Twin). Falta algo. Ou melhor, há algo de mais no som. Se isso torna a música de Matt Elliott extremamente interessante e única, nos deixa a pensar que talvez se trate de uma mente bastante perturbada e inquieta. E tudo isso se vê refletido em suas composições. Possivelmente um iconoclasta, mas nunca um incompreendido. (Thiago Filardi)

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Um comentário em “The Third Eye Foundation – Ghost (1997; Domino, Reino Unido)

  1. cesar matiz
    12 de maio de 2009

    De los grupos que nunca dejaré atrás,, atmosferas envolventes, crudas…

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Publicado às 30 de março de 2009 por em eletrônica e marcado , , , , .
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