Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Valerio Cosi – Collected Works (2008; Porter Records, Itália/EUA)

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O saxofonista e compositor Valerio Cosi tem apenas 24 anos, mas desde 2001 vem desenvolvendo uma discografia consistente, entre CD’s, CD-R’s e parcerias. Como a maioria dos artistas expressivos de sua época, sua música possui um sotaque próprio, embora misture jazz, kraut, drone, ragas e tudo mais o que vier pela frente. Collected Works é seu segundo álbum oficial, produzido a partir da remasterização de CD-R’s de 2005 e 2007. (BO)

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Três motivos pelos quais admiro o trabalho de Cosi, e que me fazem eleger Collected Works como seu álbum mais consistente.

1. Em primeiro lugar, admiro o coeficiente entre a idade do artista e a maturidade dos resultados. Talvez por ser muito jovem, Cosi ainda se encontre um pouco deslumbrado com seus ídolos, reproduzindo experiências semelhantes as de Terry Riley e Ornette Coleman. Mas também é verdade que ele tem um “sotaque”, algo que o distingue da maioria dos saxofonistas de sua geração, mais preocupados em emular Parker e cia.. Embora Collected Works seja uma compilação de trabalhos relativamente antigos, podemos reinvidicar que este álbum traz o melhor e o mais diversificado material até então gravado por Cosi, já que estas faixas nem possuem tanto tempo. Todo o álbum é calcado em reedições de faixas gravadas em CD-R’s de 2005 a 2007, editadas antes de seus álbuns pelo selo Foxglove. É uma espécie de suma e também de introdução à sua música.

2. Apesar de trabalhar a experimentação de uma maneira semelhante aos artistas de sua época, colhendo e sintetizando um amplo espectro sonoro, Valerio Cosi demonstra ter uma percepção especial tanto para a composição como para o tratamento conceitual de seus álbuns. Como ocorre com estes mesmo artistas, muito desta versatilidade advém de condições tecnológicas específicas, que possibilitam o compartilhamento de tradições e experiências musicais. Mas se repararmos atentamente à sua já extensa discografia, perceberemos que a maioria dos álbuns não só encerram diversidade estilística, como possuem características próprias. É o exemplo da mistura de drone, field recordings e noise em And The Spiritual Committee; das suítes brötzmannianas dos três volumes de Freedom Meditation Music; do estranho diálogo traçado entre rock e minimalismo de Heavy Electronic Pacific Loop; e, no caso de Collected Works, da compilação de faixas aparentemente díspares, mas coesas do ponto de vista da ironia do título: os Collected Works são coleções de experimentações avulsas, unidas por sua própria natureza caótica. Aqui, parece que em meio a uma coleção imensa de gravações, oriundas de um contexto prolífico e favorecido pela reprodutibilidade digital, Cosi concebeu um álbum coeso, e que ao mesmo tempo faz o balancete de sua curta e promissora carreira.

3. Nota-se nas faixas uma habilidade em articular o saxofone a toda uma parafernália de samplers, eletrônicos e acústicos, manipulando tudo com destreza e eficiência, mas, sobretudo, com emoção. Se há uma imensa frieza nos procedimentos utilizados por Cosi, isto não obstrui os momentos em que sua música intriga e, portanto, comove. Até mesmo em faixas mais experimentais como “”Mozambico”, praticamente composta por saxofone e field recordings, somos levados a um universo de referências árabes, africanas e americanas que impressiona por sua qualidade sintética. Em “I Wanna Be Free”, Cosi vocaliza as experiências free, seu espaço musical por definição, com a incorporação abismal de elementos noise que fazem da primeira faixa um a experiência acachapante. “Harmonia Raag”, com suas tão bem resolvidas nuances orientais; e a ingênua “O Ngoko”, demonstração de uma vivacidade pueril, que configura uma atração à parte. Porém, na seqüência, com “Lovely Blue Cream”, uma espécie de “Take 5” mais expressionista, esta mesma puerilidade é dissolvida pela força de um improviso maduro, plenamente conectado com os “monges” do free. Collected Works possui esses saltos, mas também demonstra habilidade no saltar.

Por sintetizar a obra de Cosi de forma ampla e paradoxalmente coesa; por exemplificar uma faceta curiosa do método conceitual com o qual ele cria seus álbuns; e por confirmar o compositor sagaz e o instrumentista instigado por descobrir novos caminhos, Collected Works foi um dos lançamentos mais promissores de 2008, que nos passou despercebido. Que esta nota repare o erro e chame atenção para este trabalho recente, porém instigante. (Bernardo Oliveira)

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Para os que acham que o saxofone é um instrumento antiquado e destinado a ser eternamente idiomático, seja no jazz ou na música de improvisação livre, o italiano Valerio Cosi veio para provar o contrário. Nomeado de Collected Works e com o objetivo explícito de ser uma compilação de faixas, este álbum impressiona pela diversidade de estilos e formas abraçados, pelo senso de experimentalismo e de ritmo e pela capacidade em criar melodias pegajosas em meio ao caos sonoro. Mas da mesma forma que Cosi arrebata o ouvinte com tamanho ecletismo – transitando por estilos diferentes com intimidade, know-how e execução precisa -, ele faz por desnecessárias algumas incursões estilísticas, como o krautrock de “Hoboland”, que está mais para Caribou que Neu!.

A dificuldade de Cosi em trabalhar com tantas formas musicais (free jazz, raga, rock, percussões tribais e interferências glitch) é que ele acaba por não criar um direcionamento ao seu álbum. Collected Works coleta (sic) um pouco de tudo, mas não se atém a nada especificamente. É um disco de audição excitante e recompensadora, mas que não deixa marcas profundas no ouvinte. O que deixa, no entanto, é a certeza de um talento incipiente e em expansão (Valerio tem apenas 24 anos). E quem ouvir seus discos originais de estúdio, ou trabalhos colaborativos, perceberá que coesão não é um problema tão grande para o jovem saxofonista. Algo me diz que muita coisa boa ainda está por vir. (Thiago Filardi)

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Valerio Cosi é um saxofonista. Não apenas no sentido de ser um músico que escolheu o saxofone como instrumento, mas especialmente na maneira com que ele parece acolher o passado do instrumento, reconhecer-se numa linhagem – muito claramente a do pós-Coltrane, passando por Pharoah Sanders, John Zorn etc. –, saber-se herdeiro de uma tradição e ao mesmo tempo buscar novos rumos para os usos dos sons que tira do sax. Não que ele faça alguma coisa propriamente nova com o saxofone: quem quiser pedir isso a alguém, que o peça a John Butcher. Cosi está mais interessado na interação do saxofone com outras formas de arranjo e composição, e é isso que mais estimula na audição de Collected Works. O título acaba sendo meio que uma brincadeira, já que geralmente isso é nome de lançamento multivolume de artista veterano e consagrado, ao passo que Cosi nem tem 1/4 de século de idade e, apesar de ter já um bom número de lançamentos, está longe de ser uma figura conhecida de todos. Mas efetivamente o disco colige alguns de seus trabalhos lançados em CD-R’s de baixa circulação, portanto não é só uma blague. Por outro lado, o título já antecipa que não ouviremos um álbum coeso e inteiramente coerente em sua montagem, mas um apanhado, uma coleção de momentos.

E Collected Works dá mostras de um saxofonista incorporando o som do sax, seus temas, suas improvisações, seu papel lateral na construção do arranjo, a sons e problemáticas contemporâneas. Suas bases remetem mais ao presente do que a qualquer nesga de passado: loops de sons “étnicos” como os de “I Wanna Be Free”, glitches, drones, percussão africana, krautrock. Muitas vezes, o aparecimento do sax chega a ser ocasional; em todo caso, vê-se claramente que as bases não são exatamente “bases”, porque elas são tão importantes (ou mesmo mais) do que a figura supostamente proeminente do saxofone. Sempre foi difícil pro jazz trabalhar essencialmente com música pré-gravada e ainda assim conseguir a vibração live que se pede do gênero, mas Cosi tira isso de letra com arranjos cheios, ricos em detalhes e extremamente sugestivos. “Silver Star And Golden Moon” e “Interstellar Trane” (homenagem a Coltrane já no título), mais tradicionais aos instrumentos do jazz, trabalham com sobreposições de saxes, a primeira criando um drone potente e a segunda criando a sensação de um coreto melancólico/nostálgico. “Harmonia Raag” e “Hoboland” trabalham com a batida motorik do Neu!, aproximando-se da linguagem do rock mas soando sensivelmente diferente. São apenas alguns exemplos possíveis dentro de um disco diverso, possivelmente diverso até demais, mas acima de tudo indicativo de um artista singular e talentoso que está extremamente interessado em recuperar a atualidade do som do saxofone. Por si só, isso já minimiza os excessos de caminhos. Ainda mais por que, por onde quer que vá, Cosi sempre encontra algo de interessante. Que se acompanhe sua carreira, então, com o maior interesse. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 17 de abril de 2009 por em Uncategorized e marcado , , .
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