Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Flower-Corsano Duo – The Four Aims (2009; VHF, EUA)

Chris Corsano é baterista nascido nos Estados Unidos e possui grande renome no circuito experimental, transitando com destreza por diversos estilos, ainda com algum tempo para colaborar com a Björk. Sua parceria mais profícua é com o saxofonista Paul Flaherty, tendo lançado juntos cerca de dez discos. Apesar de mais de dez anos de carreira e dezenas de discos onde seu nome aparece, Corsano possui apenas dois discos solo, Blood Pressure e The Young Cricketer, sendo fundamentalmente um colaborador que deixa uma marca indelével em cada um dos projetos que participa. Michael Flower é mais conhecido como um dos nomes por trás do prolífico combo Vibracathedral Orchestra e igualmente a Corsano, é um colaborador, possuindo como disco solo o belo Return to Knowing Nothing. The Four Aims é o segundo disco da dupla, que ainda conta com o disco de sete polegadas The Undisputed Dimension. (MM)

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Desde o início de suas atividades com The Radiant Mirror, a dupla formada por Chris Corsano e Michael Flower estuda as convergências entre duas linhas da música eletrônica que nem sempre dialogam, a liberdade das improvisações, com seu impulso desbravador e inventivo e a capacidade acumulativa e atmosférica da repetição, seja com o uso de drones, noise ou qualquer outra vertente do espectro afeito às ambiências. Poderíamos dizer que Flower é mais estático e ligado a estas últimas manifestações e que o peso e inquietude do estilo de Corsano floresce, com o perdão do trocadilho invertido, no improviso dos estilos livres.

A verdade é que mesmo verificando que existe grande diversidade entre as faixas de The Four Aims, nem as improvisações de “I, Brute Force?” são completamente ‘livres’ nem o drone de “The Drifter’s Miracle” é verdadeiramente repetitivo, muito menos minimalista. Estamos no terreno de músicos que alcançaram rara maturidade, os estilos se comunicam e enriquecem, sua capacidade criativa se revela não apenas através de cada figura abstrata que colorem as faixas, mas a forma como elas se coadunam e revelam uma ambição maior – em visão mais ampla, a seqüência de faixas tão díspares não é aleatória e a passagem da primeira para a segunda faixa e a significativa redução do volume apenas realça o trabalho de cada e como ele se completa, mesmo quando eles parecem correr para direções distintas. A audição atenta prova que mesmo a agitação de “I, Brute Force?” não cai naquela velha cilada da improvisação, ‘quando você não sabe o que fazer, toque alto e rápido’. A quantidade de possibilidades sugeridas pela bateria de Corsano e pelo banjo japonês de Flower é inesgotável e ainda assim eles nunca perdem o foco. O mesmo pode ser dito de “The Drifter’s Miracle” que apesar de seu sólido drone, nunca cessa de oferecer nuances inesperados e mesmo sem a força-guia da bateria de Corsano, nunca perde a consistência, aliás, a capacidade de Corsano em tirar ruídos do violoncelo pode não ser tão abundante e variada como sua habilidade com a percussão, mas associada ao lado La Mont Young de Flower, ele revela boa sensibilidade. A faixa funciona como um interlúdio à volta dos improvisos em “The Beggining of the End”, onde Corsano consegue tocar de forma ainda mais fenética até que cede completamente lugar a Flower e seu lirismo na parte central da música, que nada deve aos melhores dedilhadores contemporâneos, para voltar à carga de forma lenta e atingir um final de absorção e catarse.

“The Main Ingredient” fecha o disco em nota altíssima, ao longo de quase dezoito minutos a faixa é desenvolvida através de constante mutação de ritmo e registro que aos poucos vai sugerindo algo maior, quase religioso. O estilo de Flower sempre foi afeito ao ragga e a seu componente místico e na música da banda isto se reflete em intensidade e abandono, como um transe, como uma aspiração ao sublime e mesmo que ao final, quando a progressão da música vai apontando o final do disco e não percebemos nenhuma revelação explícita, olhar para trás e ver o caminho percorrido pela dupla e tudo que a música nos proporcionou é iluminador. (Marcus Martins)

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Quando começa “I, Brute Force?”, faixa de de abertura de The Four Aims, é quase como se levássemos uma porrada, tamanha é a intensidade com a qual Michael Flower e Chris Corsano executam seus instrumentos. O primeiro leva à extrema distorção o shamisen (espécie de banjo japonês, que mais soa como uma guitarra), com aparente reforço do overdrive e o segundo faz estrago no seu kit de bateria, massacrando os tambores e pratos num estilo puramente livre, mas seguro e certeiro.

A construção da primeira faixa pressagia o restante do disco e exemplifica com perfeição a sonoridade da dupla: trata-se de improvisações sem amarras estruturais, que não possuem linearidade nem seguem algum tipo de lógica melódica, harmônica ou rítmica. Há momentos mais agitados e extasiantes, restritos ao encontro da percussão com o shamisen, como a já citada “I, Bute Force?”, e outros mais calmos, a exemplo das duas seguintes (“The Three Degrees of Temptation” e “The Drifter’s Miracle’s”) que ampliam o escopo de instrumentos utilizados, com Corsano se aventurando na gaita e no violoncelo e Flower experimentado a tambura; se fazem presentes ainda ocasiões no álbum em que a dinâmica dos dois fica no intermédio (ou na alternânica) do calmo com o agressivo, como nas duas últimas, “The Beggining of the End” e “The Main Ingredient”.

Ainda que o Flower-Corsano Duo cause alvoroço no ouvinte, este segundo álbum nos deixa perguntando para onde pretende ir a música da dupla e quais são os quatro objetivos ou propósitos (“aims”)? Que os dois são virtuoses e capazes de instituir novas fronteiras sônicas na música não restam dúvidas, mas ao final dos quase 18 minutos da quinta e última faixa, nos questionamos se pode haver um verdadeiro objetivo na estética do Flower-Corsano com tamanha prodigalidade. (Thiago Filardi)

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Trabalho agora dividindo um mesmo espaço com um amigo, Morris. Sondando os gostos em comum e a tolerabilidade a diferentes tipos de música, o assunto chegou no free jazz. Tendo sido seu pai um entusiasta de jazz em todas as suas formas, ele cresceu ouvindo Ornette Coleman, Cecil Taylor, Archie Shepp. “Então não tem problema se eu trouxer os mais novos lançamentos de música improvisada?”, perguntei. Foi aí que ele se espantou, menos com a pergunta do que com a informação de que a ideia de free jazz não ficou restrita aos anos 60, mas existe e tem um novo fôlego nesses últimos quinze anos, com o intercâmbio de músicos europeus e americanos (mas também os japoneses, com Keiji Haino e Ikue Mori), mas em especial pela incorporação mais sistemática da música eletrônica prática da improvisação.

Começo com essa história porque, mesmo com as duas características listadas acima, não é suficiente para explicar a voga dada à improvisação nesses últimos anos. Divulgada e exercida por um grande formador de opinião como Thurston Moore (e seu Sonic Youth), aproximada dos universos do hip-hop e da eletrônica experimental por Matthew Shipp e sua Blue Series, abraçada por artistas como Spring Heel Jack, Jim O’Rourke, Otomo Yoshihide e Fennesz (entre zilhões de outros que também transitam por outros gêneros), a música improvisada é hoje praticamente onipresente. Se há alguma razão conjuntural para um tal acontecimento, ela pode ser talvez buscada numa reação a um panorama musical que, do mp3 à indústria fonográfica, transforma a experiência musical em coisa gravada, reprodutível e sempre idêntica a si mesmo. Por extensão, a improvisação seria a marca do imprevisível, da autonomia, da espontaneidade e do frisson da coisa feita no aqui-e-agora, e consequentemente na ideia de experiência única (e olha a aura fugidia de Walter Benjamin voltando…). De certa forma, isso vale também para drone, noise, field recording que, mesmo quando não improvisados, são baseados mais em conceitos como tempo, textura e imersão do que propriamente em composição. É acima de tudo uma ideologia da imediaticidade e da intensidade do momento. Algo que não pode ser atingido por algo “processado”, “composto”. É claro que o assunto está longe de ser esgotado, e jamais o seria num texto curto que ainda tem que falar de um disco. Mas o pontapé há que se dar em algum momento.

Mas e o disco? The Four Aims tem essa vibração que se espera de um disco improvisado, a pressão característica de algo feito “para o momento”. Mas nem sempre isso acontece sem alguns percalços; “I, Brute Force?”, a que abre o disco, tem uma mixagem para lá de estranha, com o banjo oriental (Shaahi Baaja) de Mick Flower jogando a bateria de Chris Corsano lá para o fundo, e, pior, soando como um Orthrelm sem metade da inspiração e o peso. Em free, o mais comum é que os momentos de maior pressão sejam os melhores, mas The Four Aims vai no caminho oposto. Depois da primeira faixa, em momentos mais dosados, Flower e Corsano tem maiores oportunidades de mostrar seus talentos como um duo (e, naturalmente, seus dotes instrumentais). Flower é a estrela principal do disco, tendo inclusive uma faixa quase inteira (“The Drifter’s Miracles”) e metade de outra (“The Beginning of the End”) só para ele, mas é na dinâmica entre os dois, em “The Main Ingredient” e especialmente em “The Three Degrees of Temptation”, em que Corsano explora sons mais agudos e mais condizentes com as cordas de Flower, que o disco atinge momentos mais significativos. No entanto, ainda que a intensidade esteja sempre lá, algo na interrelação dos instrumentos e na mixagem parece estar meio fora dos esquadros, sugerindo momentos de maior brilho por vir. (Ruy Gardnier)

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Chris Corsano é um percussionista versado, expert em desenvolver sonoridades peculiares com parceiros como Carlos Giffoni (no Death Unity), Scott Foust (no The Braces), Massimo Pupillo (no Dimension X), além de colaborações com Thurston Moore, Björk e, sobretudo, com o saxofonista Paul  Flaherty, seu parceiro mais constante. Em todas essas colaborações, à exceção do trabalho com Flaherty, Corsano parece atuar como um instrumentista avulso, um elemento que opera com a nítida intenção de incendiar jam sessions – como era, por exemplo, Tony Williams no segundo quinteto de Miles Davis. Mas pode-se dizer que, embora recente e exígua, sua parceria com Michael Flower se assemelha a um outro encontro, muito celebrado pela Camarilha, entre o veterano Steve Reid e o prolífico Kieran Hebden: em ambos os casos, percebe-se uma cumplicidade para além das “levadas de som”, para além da experimentação. The Four Aims possui um dos recortes mais coesos e inusitados no contexto atual do improviso livre. Parte desta qualidade advém do trabalho de seu parceiro, Mick Flower, que toca uma espécie de “banjo japonês”, o shamisen eletrificado e o órgão. Deste encontro resulta uma experiência inteiriça, curta e grossa, mas rica em nuances. Para demonstrar a coesão do álbum, não nos resta muito a não ser descrevê-lo, tendo em vista as especificidades musicais da dupla.

À primeira vista, “I, Brute Force?” pode parecer mero distúrbio masturbatório, mas não é. Podemos perceber uma sutil transfiguração, em que o shamisen de Flower, palhetado de forma frenética, e a bateria desconjuntada de Corsano se interpenetram, como se trocassem os papéis. O resultado é avassalador. A segunda faixa, “The Three Degrees of Temptation”, talvez a mais impressionante do álbum, remete ao “pontilismo” da música malinesa, a Coltrane, ao drone e a todas as sonoridades que exploram climas simulaneamente introspectivos e caóticos. A ampla gama de timbres e ritmos resulta de uma paciente e louvável exploração dos respectivos instrumentos. Pausa para reflexão nas modulações hindu de “The Drifter’s Miracles”, exclusivamente executada por Flower, talvez a faixa que menos cause impacto no álbum. Mas as dinâmicas fortes retornam com “The Beginning of the End”, composta em franco diálogo com a música hindu e oriental de um modo geral. No início, a bateria de Corsano reproduz um ritmo parecido com o da tabla enquanto Flower manipula enfurecidamente seu shamisen; aos poucos, a faixa vai diminuindo a pegada, tornando-se quieta e melódica. O álbum fecha com “The Main Ingredient”, um tour de force em que a dupla demonstra um domínio surpreendente das dinâmicas, alternando uma certa balbúrdia com momentos mais suaves e ritmados.

A audição é extremamente prazerosa, mas nos coloca a seguinte questão: não se sabe ao certo se o destino da música improvisada é “imprevisível”. Temo que parte da peculiaridade sonora do Flower-Corsano Duo advenha, não só do talento dos músicos, mas também da sonoridade diferenciada do shamisen. A “liberdade” embutida no conceito de free-improv tem um conteúdo mais ou menos delimitado, que se relaciona mais com a timbragem do que com as notas e a composição. Alguns álbuns recentes vem afirmando a vitalidade do improviso na música atual, como o The Stone: issue three, do trio Reed/Zorn/Anderson e o Resonant Spaces de John Butcher. Mas noto que chegará o dia em que os músicos trabalharão sobre uma “história”, uma gama imensa de sons e procedimentos de manipulação sonora, e a música improvisada terá que encarar o estranho paradoxo de ser livre e inevitavelmente  calcada em clichês. Se The Four Aims testemunha uma força contrária, então que venham os próximos trabalhos. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 22 de abril de 2009 por em Uncategorized e marcado , , , , .
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