Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Sonic Youth – The Eternal (2009; Matador, EUA)

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Sonic Youth é uma banda de rock norte-americana, formada no ano de 1981, em Nova Iorque. A princípio associada ao new wave, a banda aos poucos foi conquistando espaço com sua mistura enérgica das sinfonias de guitarra de Glen Branca com o rock dos Stooges e do Velvet Underground. The Eternal é o décimo sexto álbum do grupo, o primeiro com o baixista Mark Ibold. (BO)

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Lembro que durante o lançamento de Dirty, em 1992, Tad Doyle, guitarrista do TAD, uma das bandas de Seattle que não chegaram a lograr êxito, fez declarações agressivas, identificando a adesão do Sonic Youth ao selo Geffen com uma suposta retração das qualidades experimentais de seu som. Eu, ainda um fã recente, cuja primeira audição havia sido realizada a não mais de dois anos, não compreendi este julgamento. Ora, eles de fato lançaram o disco por uma major, com direito a clip de “100%” rodando na MTV diariamente, mas… e o conteúdo? “Drunken Butterfly”, “Sugar Kane”, “Youth Against Fascism”, entre outras, reproduziam fielmente um estilo de produzir rock’n’roll com um irredutível enfoque experimental, mas, ao mesmo tempo, com um punch que os ligava imediatamente as bandas mais enérgicas do rock. O rock do Sonic Youth condensa a energia dos Stooges e dos Ramones com a perspectiva intelectual do Velvet Underground, incorporando algo não somente das vanguardas musicais, mas de todas as vanguardas, desde o cinema de Richard Kern, até as artes plásticas, a fotografia, etc. Por este motivo, antes mesmo de Tad Doyle, alguém já reclamava que o som do Sonic Youth, por ser extremamente referencial e culto, se tornava às vezes frio e com um tom “universitário” que o comprometia irremediavelmente. Ok, isso até faz sentido, é legítimo, mas eu discordo.

Essas críticas mostram que o Sonic Youth, ao contrário do que parece, não é uma unanimidade. Esta percepção vem ganhando força, conforme o grupo não só abranda algumas fórmulas sonoras, como em Rather Ripped, mas também quando eles remetem a sonoridades pregressas, como neste álbum em canções como “Anti-orgasm”, mas também em Sonic Nurse. De um lado, aqueles que reclamam mais barulho e virulência das paredes de guitarra; de outro, aqueles que reclamam por mais novidade. Ok, isso também faz sentido, é legítimo, mas eu também discordo.

The Eternal dá continuidade ao trabalho de um grupo que há vinte anos produz discos no mínimo interessantes, e dentro de um léxico próprio e extremamente original. É claro que, em sendo o grupo original, em sendo sua assinatura absolutamente perceptível, haverá sempre aquele espírito de porco que reclamará uma revolução dentro da revolução. Mas ela nem sempre é possível ou mesmo desejável… No meu caso, continuo adorando as guitarradas sutis e as canções mais elaboradas que eles vêm insinuando desde Washing Machine e, mais particularmente, no grande álbum que é A Thousand Leaves. De fato, não desejo mudanças abruptas quando ouço uma faixa tão bem construída e instigante como “What We Know”, com aquele indefectível sotaque do Lee Ranaldo – talvez a primeira música de trabalho com Ranaldo à frente; ou como a citada acima, “Anti-orgasm”, com uma pegada no wave e letra ao mesmo tempo irônica e ingênua; ou ainda com uma bela canção como “Antenna” e as harmonias suaves de “Massage the History”. Dignas de nota também “Sacred Trickter”, “Poison Arrow”, “No Way” e “Leaky Lifeboat (for Gregory Corso)”, canções que talvez causem um certo fastio em fãs mais exigentes, mas a mim, roqueiro de plantão, ocasiona momentos de sincera comoção e alegria.

Se Rather Ripped incomodava por uma certa complacência exagerada, que explicava mas não justificava a implicância, este álbum demonstra que a história do Sonic Youth está longe de ter um acabamento. Ela é descontínua, e nunca devemos dar esse grupo por morto, ainda que algumas vezes ele tome um rumo paradoxalmente “comum”. Mesmo assim, The Eternal é, na minha opinião, um dos candidatos aos melhores do ano, porque, em primeiro lugar, traz, de uma forma ou de outra, a carga expressiva que a banda representa e, ao mesmo tempo, mantém o nível criativo para além de muita bandinha de rock que ando ouvindo por aí. E isso já vale muito. (Bernardo Oliveira)

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Algo de curioso acontece toda vez que escuto um álbum do Sonic Youth: as distorções e melodias da guitarra imeditamente prendem minha atenção, mas lá para a quarta ou quinta faixa entro num processo de dispersão e a música passa a não ser mais meu foco de atenção principal. Isso aconteceu (e ainda acontece) com todos os discos do grupo, especialmente os mais recentes, o que significa que com Sister e Daydream Nation meu grau de adesão à obra foi mais rápido, enquanto os três últimos de estúdio (este incluso) reclamaram audições repetidas para que eu pudesse me concentrar melhor na música.

A experiência descrita, longe de manifestar repúdio à sonoridade da banda (ao contrário, considero umas das maiores dentro do rock), evidencia a presença de uma estética bastante coesa e que, recentemente, encontra-se estagnada, sem vias de renovação. Mas seria injusto não lembrar que paralelamente aos álbuns de estúdio, o SY continua investindo fortemente na experimentação (vide a série SYR), embora essa experimentação não traga grandes novidades em relação aos trabalhos pregressos do grupo e ainda perca um pouco do frescor diante de uma panorama de música noise cada vez mais denso e radical.

A dinâmica de guitarras, baixo e bateria em The Eternal continua de tirar o fôlego, assim como o senso melódico tão apurado e imediato que todos os membros principais possuem ao pegar no microfone e empunhar um instrumento. Criar uma melodia de voz ou um riff de guitarra, para Thurston Moore e Lee Ranaldo, parece a tarefa mais fácil e simples do mundo – é o puro dom da inspiração, tão pouco recorrente no cenário atual do pop e do rock. A mesma qualidade “sônica” persiste, com timbres de guitarra ora perfeitamente límpidos, ora rascantes e destrutivos, e toda faixa é um possível hit underground, com ritmos bem marcados e vocais pra lá de pegajosos. Mas é impossível não notar que o SY não sugere mais a inclinação aventurosa de outrora, assim como a vontade constante de pôr em risco as bases do rock. Por isso, as músicas se parecem cada vez mais umas com outras, ou com faixas antigas (sinceramente, não consigo mais diferenciar os LP’s dessa década).

É verdade que todo disco do SY é uma aventura, um alento para os ouvidos carentes de boas canções de rock – o que desanima é constatar que, a cada lançamento novo, o sentimento de déjà vu se intensifica. (Thiago Filardi)

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Uma das possíveis maneiras de interpretar a carreira do Sonic Youth e todas as guinadas pouco previsíveis no som do grupo é a tensa dinâmica criada entre um aspecto mais direto, punk, e outro moderado, reflexivo, da vanguarda novaiorquina. O SY é ao mesmo tempo “Marquee Moon”, “A Rainbow in Curved Air”, “Judy Is a Punk” e Glenn Branca. E um dos motivos de admiração e espanto era como eles conseguiam colar todas essas influências e criar um todo não apenas coerente, mas inestimavelmente maravilhoso. É possível interpretar a criação da SYR, selo específico para projetos e discos mais experimentais e/ou improvisados do grupo, como o momento em que a tensão diminui e eles deixam o rock ser rock e o improv ser improv, uma cirurgia para transformar “Expressway To Yr. Skull” em duas faixas distintas. Pode ser o delírio para aqueles fãs que admiram o grupo apenas pela capacidade de criar ganchos e riffs poderosos de rock, mas também pode ser o momento em que a partimentação estrita sem contaminação de parte a parte reduz a tensão criativa dos álbuns e busca uma espécie de “idade adulta”, o que em rock quer quase sempre dizer institucionalização do som (e quase sempre a pasteurização compulsória, vide Rolling Stones, R.E.M.).

Mas também é possível interpretar a virada para canções sumárias e melodiosas como mais uma legítima encarnação do Sonic Youth, uma maneira de singrar por outros mares depois de ao menos três discos fazendo um rock climático, cheio de espaços e com a duração de cada música pairando por volta de 6min. Rather Ripped e esse The Eternal testemunhariam, assim, uma volta à imediaticidade do no wave originário da banda e simultaneamente do punk e do pop. A notícia boa é que The Eternal é bem melhor do que Rather Ripped. A ruim é que o SY, mesmo coeso e contundente (ou seja, longe de ser acusável da pasteurização dos exemplos acima), ainda soa como um grupo retomando em modo econômico os mesmos passos de outrora, o que significa que ao ouvir esse novo disco o fã certamente pensará “eu já ouvi isso antes” um punhado de vezes (Thurston Moore parece até brincar com isso em “Thunderclap (for Bobby Pyn)”, emulando um verso de “Mary Christ”).

Dito tudo isso, é um enorme prazer constatar que as faixas de The Eternal têm uma pressão como há muito não se via na banda. “Sacred Trickster” e “Anti-Orgasm” abrem o disco como uma declaração de princípios, em andamentos rápidos e assalto sônico. Depois, o disco se assenta em formatos e tempos mais típicos de indierock, como “Leaky Lifeboat (for Gregory Corso)” e “Antenna”. Um dos motivos de regozijo é a até então subutilizada atuação conjunta do casal Moore-Gordon, cantando em dueto (mas não em dueto tradicional) em algumas faixas do disco, em especial no começo do disco. Mas é o final de The Eternal que guarda surpresas. “Walkin Blue” já entra para o rol de faixas impactantes de Lee Ranaldo (“What We Know”, a outra de Lee no disco, é um rockão atípico de sua lavra, mas também acerta a marca), ainda que não no panteão. Mas é a última, “Massage the History”, aquela que saciará o fã em busca de um Sonic Youth mais aventuroso. Curiosamente, ao buscar a aventura, o grupo abandona a guitarra distorcida em nome de um violão límpido e lírico, mas que cria instantes atmosféricos soberbos e uma vulnerabilidade pouco comum na trajetória do grupo. Essa faceta, aparecida com “I Love You Golden Blue” em Sonic Nurse, pelo visto, é um dos veios que a banda recentemente abriu e que ainda pode explorar com muita relevância e inspiração.

Não é mole continuar sendo o Sonic Youth depois de Sister, de Daydream Nation, de Goo, de A Thousand Leaves, de Murray Street. The Eternal não é um salto. Parece, se tanto, uma correção de rota, talvez o disco rock que se esperava deles e que os faria explodir nos anos 90 (e que exatamente por isso eles não produziram). Agora, com menos gente olhando, eles entregam joias como “Malibu Gas Station” e “Poison Arrow”. Quem está aí pra reclamar? Eu não. (Ruy Gardnier)

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Um comentário em “Sonic Youth – The Eternal (2009; Matador, EUA)

  1. whenforevercomescrashing
    11 de junho de 2009

    ótimo texto para um ótimo disco

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Publicado às 13 de maio de 2009 por em experimental, rock e marcado , , , .
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