Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Maja S. K. Ratkje – River Mouth Echoes (2008; Tzadik, EUA [Noruega])

rivermouthechoes

Maja Solveig Kjelstrup Ratkje é uma cantora, compositora e instrumentista nascida em 1973 na cidade de Trondheim, Noruega. Compõe desde o final dos anos 90, dividindo seu trabalho em carreira solo, colaborações com diversos artistas (entre os quais Jaap Blonk e Lasse Marhaug) e os projetos fixos Spunk, um quarteto feminino de música improvisada, e Fe-mail, uma dupla com Hild Sofie Tafjord (que também faz parte do Spunk). Suas composições vão do noise a peças orquestrais com influências da música erudita do séc. XX, passando por improvisação e trilhas sonoras para filmes, teatro e instalações, mas sua área de predileção musical é a própria voz. O primeiro disco solo de Ratkje é Voice, de 2002. River Mouth Echoes é uma compilação com obras compostas e executadas de 1997 a 2007, e foi lançada na coleção Composers do selo Tzadik, de John Zorn. (RG)

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Mouth River Echoes abrange processos de composição e instrumentação muito diferentes, do noise com sopros da primeira faixa até a sinfônica que executa a quinta faixa, “Waves IIB”, passando por uma peça com ênfase no vocal – “Wintergarden” – e um trio de acordeon, saxofone e contrabaixo duplo. E o primeiro elogio a fazer a Maja Ratkje diz respeito à extrema coerência e desenvoltura de seu trabalho, que transita indiscriminadamente por searas legitimadas (a erudita experimental do séc. XX) e pelo barulho sintetizado por computadores, buscando não um ecletismo qualquer, mas acima de tudo pesquisando um mesmo caminho através de diferentes registros. Em seus escritos e entrevistas, Ratkje é bastante eloquente a respeito do que quer e do que não quer (uma reveladora entrevista pode ser lida aqui). Mas mesmo que ela não deixasse bem claro, só ouvindo a música já se pode perceber uma personalidade ímpar, disposta a encontrar novos timbres, novas texturas, novas formas de organização sonora e de dinâmica entre instrumentos.

“Øx”, a que abre o disco, é uma peça para alto saxofone e processamento por computador. Em matéria de repertório sonoro a faixa se inscreve no registro do noise, com texturas estridentes, ora em volumes e passagens delicadas de sons, no começo, chegando a um ápice de grande intensidade ao final. De cara já se percebe uma maneira muito particular de articular o vandalismo sônico do noise com uma índole mais construtiva. A primeira faixa deságua quase que naturalmente na segunda, “Essential Extensions”, interpretada pelo trio Poing, em que se espanta como o sax alto atinge, no começo e no fim da composição, notas que se assemelham a agudos de canto lírico. Nela, ficam claras algumas das estratégias da compositora, que faz variar momentos de isolamento de instrumento com situações de ataque em que todos confluem para momentos mais carregados dramaticamente.

“Wintergarden” é a única faixa do disco em que Maja Ratkje trabalha com sua voz, a parte mais conhecida de seu trabalho. Ela se utiliza de várias vozes sobrepostas, em gritos, solfejos, frases em diversas línguas, onomatopeias inventadas, sussurros. Nota-se aí a presença de uma de suas maiores influências, a poesia sonora dos dadaístas, que procura dar relevo à expressividade própria da voz abstraindo-se do significado das palavras. Mas o que mais encanta é a variação de ritmos e atmosferas, começando com um sentimento lúgubre e misterioso, passando a um coro enervante de vozes furiosas até o enternecimento final.

“River Mouth Echoes”, interpretada pelo quarteto de violas da gamba Fretwork, é a peça mais longa do disco, e a que soa mais aproximada do vocabulário erudito de vanguarda do séc. XX, digamos, Ligeti, e abusando da abrangência sonora dos instrumentos como um Boulez. Mas, em diversos momentos e especialmente a partir do minuto 14, percebe-se que o quadro de referência de Ratkje é mais amplo, e as notas e tensões mantidas evocam desde Reich até o drone. Com a diferença, no entanto, que a música de Maja Ratkje está longe de seu enquadrar na ideia de mantra contemporâneo dos minimalistas e dos artistas do drone: sua busca é pela inconstância e pela variação, e nisso ela está muito mais próxima de um Mr. Bungle, por exemplo. “Contrasts are essential”, ela escreve nas liner notes do disco.

“Waves IIB”, uma peça composta para a Oslo Sinfonietta, talvez seja a composição que mostra da maneira mais clara como a artista opera: ela parte do tradicional para quebrá-lo e fazer surgirem dele novos e imprevistos significados. Em “Sinus Seduction  (Moods II)”, Ratkje volta a trabalhar com saxofone, mantendo o som característico do instrumento mas também distorcendo-o e processando seu som para conseguir outras sonoridades, e aliando-o às ondas de seno referenciadas no título.

Ao fim, Mouth River Echoes se ouve como uma compilação que abrange diversos interesses de uma artista multifacetada. No entanto, o mais importante a ressaltar é o acachapante vigor artístico do resultado, conseguindo abrir para si um espaço próprio de atuação dentro de territórios já afirmados pela tradição (a clássica, em especial) ou pelo contexto (o noise), e fazendo do “Make it new” poundiano uma inspiração para associar passado e presente, e no processo criando algumas das mais instigantes obras, solo ou acompanhada, sendo feitas hoje. (Ruy Gardnier)

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Esqueçam as comparações com o trabalho de voz que Christina Carter desenvolve em carreira solo e em seu grupo, o Charalambides, aventadas no segundo podcast da camarilha. River Mouth Echoes revela uma autora com preocupações bem diferentes das de Carter. É bem verdade que esta semelhança fica mais clara no álbum Voice, de 2004, bem como em parcerias com Lasse Marhaug. Mas neste álbum, a norueguesa Maja Ratkje opera no contexto música contemporânea, notadamente a da segunda metade do século XX, com fortes influência de Stockhausen e Xenakis – embora não se possa descartar a influência de Várese e de alguns compositores da primeira metade do século, como George Crumb. Aliás, pode-se dizer que seu trabalho está mais para Stockhausen do que para Björk, mais para o campo do raciocínio e da estratégia do que para o deslocamento e a tradução de procedimentos eruditos para o universo das canções. E mais: está mais para o expressionismo de Stockhausen do que para as modulações de Ligeti e as repetições de Glass e Riley. Reside portanto num plano não muito acessível no que diz respeito às estrutura de composição. Se se pode afirmar que Stockhausen se “popularizou” de uns anos para cá, isto ocorreu, em primeiro lugar, por conta da proximidade que ele manteve com alguns artistas pop, e por ser pioneiro na manipulação de suportes eletrônicos, não pelo caráter formal de suas composições. Muito do “modern classical” contemporâneo prefere trabalhar no plano das polifonias de Ligeti e das repetições dos minimalistas a se arriscarem no terreno minucioso da composição. Questão de estilo, mas, me perdoem o termo, de culhão também.

Ao remeter River Mouth Echoes a tantas referências eruditas, não desejo repisar a velha distinção popular/erudito. Mas é que mesmo quando velhas querelas prescrevem, não interditam a constituição de novos sotaques, não evitam que alguns autores retrabalhem procedimentos e sonoridades mais ou menos pré-estabelecidas. A música de Maja Ratkje possui um forte sotaque erudito e talvez uma comparação justa devesse atentar para os autores contemporâneos desta seara, como Pascal Dusapin. Contabilizando o número de informações que listei para dar conta de River Mouth Echoes, pode-se mensurar o tamanho da encrenca: música erudita contemporânea da primeira e da segunda metade do século, trabalhos com vozes, eletrônicos, manipulação de fita magnética, pesquisas de timbre, Christina Carter… Entretanto não se pode dizer que a síntese seja sua estratégia, porque, embora se utilize de muitas linguagens e tradições, cada faixa em River Mouth Echoes representa um universo particular. É, assim, um álbum para ser acompanhado passo a passo, degustado como as compilações de artistas contemporâneos: obra a obra.

Para os desavisados, o álbum já começa “quente”: uma peça para sax alto e manipulações eletrônicas, de cunho abertamente erudito, chamada “Øx” que, para fins de exposição, posso de dizer que vincula de alguma forma a sonoridade esquiva de John Butcher com o noise de Merzbow, sem que se pareça com nenhum dos dois. Depois, “Essential extensions”, para acordeão, sax alto e double bass. Eu diria que essa dupla formaria o primeiro bloco do álbum, onde se demonstra mais claramente a habilidade técnica e criativa de Ratkje, além de constituírem as peças onde se percebe mais claramente a influência de Stockhausen. Mas é a partir de “Wintergarden” que a música de Ratkje se torna realmente peculiar, onde ela de fato passa a desenvolver um sotaque, uma forma própria de criar dentro desse universo espinhoso da composição. “Wintergarden” é um peça constituída a partir de sobreposição de vozes, onde a autora explora diversas possibilidades: falas, risadas, suspiros, gargalhadas, berros, solfejos, etc, se misturam progressivamente compondo um espaço musical em que a tensão permanece como fio condutor. Nos últimos segundos, ouve-se uma linha melódica até simplória, executada talvez por um sintetizador, mas que confere à faixa uma doçura surpreendente. Mas são nas faixas seguintes que a surpresa se instala de vez. “River Mouth Echoes”, com seus quase 20 minutos de volutas “messiaênicas”; a varesiana e eventualmente lúdica “Waves IIB”, composta para uma série de instrumentos como flautas piccolos, sax soprano, tubas, sintetizadores, percussões, etc.; e “Sinus Seduction (Moods Two)”, talvez a faixa mais interessante do álbum, em que se pode observar um equilíbrio quase perfeito dos elementos com os quais Rajtke mais trabalha: o noise, a manipulação digital de elementos acústicos e a exploração de timbres e frequências em uma escala complexa e multifacetada.

Se os álbuns anteriores, como Voice, de 2004, ainda suscitavam dúvidas quanto ao caráter peculiar do trabalho de Maja Rajtke, e muitas vezes faziam crer estarmos diante de uma experimentadora ao nível de Björk ou Carter, as faixas de River mouth echoes mostram que ele não é mero fogo de palha ou brincadeira pretensiosa de conservatório. Tem carisma, tem estilo e desenvoltura própria para figurar entre os poucos repertórios de relevância na atualidade. E isso, para quem acompanha a aridez e os excessos intelectuais dos compositores contemporâneos, é um feito e tanto e demanda um acompanhamento mais que atento. Mais um furo nas listas de fim de ano de 2008, paciência… (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 1 de junho de 2009 por em clássica, eletrônica, noise, vanguarda e marcado , , , , .
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