Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

The Naked Future – Gigantomachia (2009; ESP-Disk’, EUA)

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Arrington de Dionyso é instrumentista, cantor e compositor de Portland, Oregon, EUA. Esteve em grupos como Old Time Relijun e lançou quatro álbuns solos, sendo que com o último, I See Beyond the Black Sun, ganhou notoriedade por trabalhar apenas com vocais guturais e bass clarinet. The Naked Future é o nome de seu projeto jazz, contando com a colaboração de Thollem McDonas no piano, John Niekrasz na bateria e Greg Skloff no baixo. Gigantomachia é o primeiro álbum deste projeto. (BO)

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Atenção: este álbum não é exatamente um marco, mas indica um gênio musical capaz de criar reviravoltas. No horizonte do free-jazz (ou mesmo free-improv) contemporâneo, o trabalho do The Naked Future representa uma faceta extremamente peculiar, para não dizer única. Assim como o punk-jazz do Lounge Lizards de John Lurie, Gigantomachia traz uma dicção jazzística que de tão anômala aponta para um limiar, um limite onde se percebe a estrutura de improviso e composição em xeque. Trata-se de uma música crítica, uma dimensão onde o jazz é questionado, ou melhor, uma música que traz embutida uma crítica construtiva a alguns clichês do free jazz. Claro, alguns poderão opor-se ao que estou afirmando lembrando o caráter iconoclasta do segundo quinteto de Miles Davis, as pirotecnias de Ornette Coleman ou até mesmo a própria condição moderna, que impele o músico a buscar a destruição das formas pregressas, o paradoxo e a superação. Entretanto, The Naked Future não propõe a desconstrução como método, mas a incorporação quase “desrespeitosa” destes clichês, bem como de outros, às vezes alienígenas, às vezes inomináveis. Durante a audição, têm-se a impressão de que a música vai de nenhum lugar a lugar algum, e isto não por obra de uma desorientação juvenil, muito pelo contrário. Muitas vezes o próprio jazz é situado em segundo plano em favor de uma aventura cujos riscos parecem estar fora da previsão e do controle. O título tem o mérito de indicar o caráter central do álbum: Gigantomachia, alusão direta à batalha primordial dos deuses gregos, representa o aspecto demiúrgico com que Arrington de Dionyso e seus companheiros constróem sua música.

Enfim, está dito: Gigantomachia abre portas para um jazz novo e desafiador. Mas onde precisamente reside esta novidade? Eu arriscaria a tese de que The Naked Future opera com uma combinação original de improviso controlado e apropriação timbrística do free jazz dos anos 60 e 70. Nota-se porém que o próprio rótulo free jazz se vê aqui questionado. E isso porque o que conta em Gigantomachia não é mais o aspecto instintivo e imediato da improvisação, elemento que justifica e endossa o termo free. Ok, percebe-se uma inclinação especial à criação de estruturas ríspidas, tensas, que remetem diretamente à ideia de batalha implícita no título. Mas a improvisação do grupo tende a se manifestar através de uma racionalização do espaço rítmico e harmônico, como se pode notar nos diversos momentos da faixa de abertura, “We Binge on a Bloodthirsty God”. Às vezes, a simplicidade elegante das estruturas a que eles chegam é tanta que lembramos mais do drone e do dubstep do que propriamente do jazz. O outro aspecto relevante é a produção destas texturas a partir da utilização de timbres característicos do gênero. Em Gigantomachia ouvimos timbres familiares, como o saxofone irascível, o contrabaixo executado com arco, as sucessivas viradas de bateria, o piano harmonicamente descentralizado são reinterpretados sob a ótica de Dionyso e seus companheiros. O resultado emana agressividade e vigor, tornando a audição um desafio para ouvidos sensíveis, apesar da rica variedade de momentos sutis e silenciosos – sobretudo na faixa final, “We Sleep in a Rabbit Hole” e em variados compassos de “We Engage the Monstrous With Our Mirrors”. Destaque para o pianista Thollem McDonas, responsável por alguns desses momentos.

Pode-se afirmar, no entanto, que apesar de promover uma desorientação sonora singular, The Naked Future é um grupo estritamente apolíneo, tributário de certas inflexões estruturais da música contemporânea, particularmente no que diz respeito à economia e ao trabalho com repetições. Me parece também que de Dionyso é o personagem central desta trama, a julgar por seu álbum solo I See Beyond the Black Sun. Nele, o autor também desfila, dentro de uma estrutura de improvisação, uma ampla variedade de texturas criadas a partir de seu canto gutural e do bass clarinet que executa com ímpeto pueril. Enquanto os medalhões do free, como Parker e Coleman, valorizam (brilhantemente!) cada vez mais o aspecto intuitivo do gênero, este jovem de trinta e poucos anos propõe uma abordagem estrategicamente fria, mas que resulta em sonoridades curiosamente intensas. Ao contrário do jazz de proveta da ECM, pálido investimento da música de conservatório em formas soltas, a música de Dionyso é alegre e furiosa, características centrais das grandes obras do jazz. Motivo mais que suficiente para que fiquemos de olho em seus próximos movimentos. (Bernardo Oliveira)

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O fato de Gigantomachia ter saído pela ESP-Disk’ já diz muito sobre si mesmo, afinal, este é o lendário selo norte-americano, que lançou nomes importantíssimos para a constituição de uma nova linguagem musical do século XX, como Albert Ayler, Charlie Parker, Don Cherry, Holy Modal Rounders, Patty Waters, Pearls Before Swine, Pharoah Sanders, Sun Ra, etc. Portanto, não é nada surpreendente que a ESP tenha escolhido o Naked Future para figurar em seu mais novo catálogo, haja vista que o quarteto compartilha do mesmo espírito vanguardista que muitos dos músicos de jazz que passaram pela gravadora. Mas de todos os nomes citados, não há nenhum que tenha influenciado tanto Dionyso e cia. quanto o pianista Cecil Taylor – ainda hoje um dos instrumentistas mais radicais a surgir no jazz.

A falta de um ritmo constante – ou a própria polirritmia -, o piano ensandecido de McDonas e os arroubos sonoros que permeiam grande parte de Gigantomachia, aproximam o Naked Future inequivocamente da música livre e atonal de Taylor. Se a música do quarteto parasse por aí, já estaria de bom tamanho, pois ninguém consegue copiar o estilo de Cecil Taylor, o que garantiria ao conjunto um grau mínimo de novidade. Mas além do free jazz, há outros elementos que caracterizam Gigantomachia como um disco que explora sonoridades diversas, a exemplo das texturas de baixo de Niekrasz, que de tão grossas e pesadas, trazem ecos do heavy metal; ou o clarinete de Dionyso, que a cada momento emite sons distintos entre si, enquanto o piano de McDonas faz mudanças bruscas de levada, ora evocando a fúria de Cecil Taylor, ora lembrando uma balada embriagada de Tom Waits.

O destaque de Gigantomachia é decerto a primeira faixa, “We Binge on a Bloodthirsty God”, um tour de force de quase vinte minutos, com momentos de pura desordem sonora e outros de puro silêncio, violentados pelo clarinete gritante de Dinonyso. Uma música que engloba todas as características formais e conceituais do Naked Future e que impressiona por sua sonoridade enérgica e obtida através de um grupo que aposta, principalmente, na força e no poder da espontaneidade. (Thiago Filardi)

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Um dos lugares-comuns da crítica musical quando começa a falar sobre free jazz é elogiar a vibração, a energia, a potência bruta. Não que isso constitua uma falta. Ao contrário, é muitas vezes o objetivo de tanto artista quanto ouvinte estar diante desse bloco massivo de som que se apresenta como um desafio de intensidade. Mas a questão primordial – e é isso que torna o free jazz interessante como panorama, assim como o noise – é que em suas melhores manifestações (discos, apresentações ao vivo) esses vitupérios sônicos têm energias distintas e cheias de personalidade, aproveitando-se de interações entre instrumentistas e da verve de cada intérprete não apenas para criar um ruído desafiador, mas para criá-lo a partir de um gesto de artista, ou seja, com um estilo característico que lhe dá uma cara (e isso serve mesmo para os devotos do noise que encaram sua música mais como provocação do que composição). Portanto, não é só questão de chegar a um patamar de esporro (o que eventualmente acontece, nos bons e nos não tão bons exemplos dos gêneros), mas de fazê-lo expressiva e singularmente.

Gigantomachia, primeiro disco do Naked Future, tem essa personalidade, e alcança essa energia. Mas muito mais coisas surpreendem e chamam a atenção na audição. Uma delas, talvez a principal, diz respeito à pegada. E é uma pegada muito rock, punk até. Ela é perceptível nas solapadas que o baixista Gregg Skloff dá com seu arco nas cordas, nas notas insistentes e gratuitamente repetidas pelo piano de Thollem McDonas, nos graves de longa duração emitidos pelos clarinetes de Arrington de Dionyso, mas ele chama mais a atenção nas dinâmicas de silêncio e ataque mais presentes na primeira e na terceira faixas, fornecendo pequenos rebentos de agressividade e, ao contrário da tradição do jazz, mesmo o free, variando cada estratégia individual e coletiva de instrumento rapidamente, sem progressão ao longo da faixa. A outra característica marcante do disco é a interrelação dos instrumentos. Só as variações de timbre entre eles já seriam uma coisa especial, com o baixo tocado com o arco, a bateria cheia de tontons, caixa e aro de caixa (por vezes soando mesmo como tecla de máquina de escrever, na primeira faixa), o piano arriscando frases melodiosas e quentes dentro da desordem atonal e, por fim, os clarinetes de Dionyso soando como elefantes em festa. Dionyso é o líder e o regente, mas não exatamente o solista. Na verdade, se um instrumento chama mais atenção, tanto pelo volume na mixagem quanto pela posição na estrutura, é o piano de McDonas: ele corre e é acompanhado pela bateria quando trava numa mesma nota, ele repete à exaustão uma sequência de notas como se estivesse em loop, ele joga do nada melodias de realejo dentro da mais completa (apesar de coesa) anarquia sonora, além de também ser capaz de brilhar nos momentos de discrição, pontuando com alguns rompantes quase socados nos momentos menos frenéticos.

Mas o brilho do Naked Future é coletivo. É ouvindo-os como grupo que se tira o melhor proveito de Gigantomachia. Um pouco porque eles sabem tanto tocar quanto ouvir os outros (os momentos de silêncio atentam para o fato de que o free é “controlado” pela regência de Dionyso), mas em especial porque seus instrumentos e seus modos de tocar soam soberbamente junto, e isso se dá – feliz e também ironicamente – porque os backgrounds e estilos são tão incrivelmente diferentes. O que torna tudo mais interessante. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 9 de junho de 2009 por em Uncategorized e marcado , , , .
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