Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Kreng – L’Autopsie phénoménale de Dieu (2009; Miasmah, Noruega [Bélgica])

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Kreng é um projeto de Pepijn Caudron, músico que também desenvolve trabalho como ator de teatro e de televisão na Bélgica. Inicialmente um projeto para experimentar com samples que vão do free jazz aos field recordings, o Kreng assumiu progressivamente um papel de criação sonora para peças e espetáculos de música, a maioria produzida pela companhia Abattoir Fermé. Depois de dois EPs lançados pela gravadora Fant00m, Caudron lançou em maio de 2009 seu primeiro álbum, L’Autopsie phénoménale de Dieu, pelo selo norueguês Miasmah. (RG)

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Os LPs da gravadora Miasmah são verdadeiros objetos de fetiche. Capas visualmente impactantes e misteriosas, entre o soturno e o melancólico, vinis coloridos e edições limitadas (o que fortalece a impressão de “aura” da obra de arte sendo restituída, mesmo em se tratando de reprodução, como as gravuras em séries também limitadas). As principais objeções a serem feitas a respeito da música contida nesses discos deriva um pouco da mesma ideologia que produz os objetos: o flerte com uma coleção de sons já por demais instituída como “Música” com m maiúsculo (violinos, solfejos líricos, pianos delicados) ao qual se acresce uma contemporaneidade dosada com cuidados, sem maiores ousadias, para não assustar demais o ouvinte. O projeto Kreng (o sujeito atende pelo nome de Pepijn Caudron, e além de músico é ator na tv belga) tem ambições menos “musicais” do que os últimos lançamentos da Miasmah, Jacaszek e Elegi. A julgar por L’Autopsie phénoménale de Dieu, Caudron recupera a vontade primordial do selo, que é de criar “música para cenas e lugares”, ou seja, aproveitando a deixa de Brian Eno quando criou o conceito de ambient, fazer uma música transitiva, que não tem um fim na audição em si, mas que serve utilitariamente (ou não tão utilitariamente assim, isso é discutível) para acompanhar alguma outra atividade, de passeios a jornadas de trabalho.

A rigor, L’Autopsie phénoménale de Dieu funciona apropriadamente como “trilha sonora”, ou seja, como uma música que provoca imagens e evoca situações – em especial em seu lado A. Nele, podemos ouvir field recordings de vento, um trecho de filme de terror vintage, uma mulher chorando e soluçando, sinos, tudo pontuado por melodias entre o jazz e o clássico que estamos acostumados a associar a música de acompanhamento para dramas ou situações de suspense. Pontualmente, tudo funciona muito bem. Os momentos são escolhidos e ordenados com esmero e discernimento. Mas, como um todo, falta ao disco uma coesão, uma unidade que o transformaria em algo maior. Assim, ele acaba soando como uma maçaroca de pequenas ideias, algumas bem interessantes, algumas para lá de clichê, entrando nesse panorama genérico da música “de agora agora” que mais repete tiques de modernidade do que os encontra como meio apropriado de dar vazão a uma expressão. Às vezes, é a própria ambição de “ser arte” que reduz a arte do artista a um patamar mediano. Não ruim, não bom. Na média. Morno. (Ruy Gardnier)

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Do universo das incontáveis paisagens sonoras do século XX, o presente século viu emergir uma série de novas configurações, nem sempre redutíveis às experiências pregressas, nem sempre tão expressivas e dignas de interesse. Alguém poderia aventar a hipótese de que a superação do preconceito que fazia da tríade harmonia-melodia-ritmo sinônimo de música, promoveu uma tal emersão, já que a busca de elementos sonoros divergentes da tradição alargou o espectro conceitual da música em direção a outras possibilidades. Outros poderiam afirmar que em Debussy e, mais tarde, Stravinsky, isto é, dentro da mais rigorosa tradição da música erudita russa, já se encontrava uma sonoridade exógena, interessada não em reproduzir o monólogo interno da música ocidental, mas em buscar subsídios nos mais diversos campos possíveis: seja na materialidade dos field recordings, no universo inexplorado dos suportes eletrônicos ou mesmo em aspectos conceituais, como a valorização da música folclórica e do “acaso”. Mais recentemente, e talvez a reboque do compartilhamento de MP3 e das convergências digitais, vimos surgir uma série de trabalhos atentos à formação de paisagens sonoras, como Daisuke Myiatani, Philip Jeck e este Kreng. Tentemos, portanto, definir mais ou menos o que seria essa “paisagem sonora”, já que toda música pode ser considerada sob esse ponto de vista. Um compositor de paisagens sonoras, como eu compreendo aqui, propõe, através da sucessão de diferentes ambientes sonoros, uma expressão musical externa à idéia tradicional de música. Uma paisagem sonora pode significar o caráter imagético de determinadas combinações de sons, sejam considerados pelo senso comum como “musicais” ou não. Além da sucessão de climas, portanto, considera-se também a busca de elementos “externos” à concepção tradicional.

O jovem compositor belga Pepijn Caudron, autor de L’ Autopsie Phénoménale de Dieu, é também conhecido pelo sugestivo substantivo alemão kreng (cadáver em português). Pois não sei se por excesso de consciência ou de sugestão, sua música também remete a um aspecto cadavérico, na medida em que, como em toda sonoridade fotográfica, trata-se de uma música composta de elementos que se integram a um discurso musical (pianos, violinos, percussão, além de sonoridades próximas da eletroacústica), mas também a vozes, field recordings, e todo um arsenal de sonoridades que o senso comum não está acostumado a compreender como musicais. Parece que o deus a que se refere o título é o corpus cadavérico da música ocidental que, ao expirar, renasce com o mesmo nome (música), mas totalmente reconfigurado para as dinâmicas atuais. De fato, podemos entrever na autópsia as diversas contribuições musicais, como o minimalismo, o neoclassicismo, a eletroacústica, a música eletrônica… Neste sentido, apesar de curioso e agradável, L’ Autopsie Phénoménale de Dieu é mais sintoma que expressão de uma época. Ao contrário do trabalho de demiurgos como Kevin Drumm e Keith Fullerton Whitman, ele não determina o que virá, mas denota o que há, aqui e agora.

É evidente que o trabalho de Caudron é interessante, e fica ainda mais quando, após toda a série de citações sonoras altamente cabeçudas, ouvimos seu agradecimento irônico (“Thank you ladies and gentleman for your boundless enthusiasm…“). Ocorre que nem sempre a ironia salva uma criatividade que aspira, ao mesmo tempo, à renovação e à salvaguarda de valores da música ocidental. No frigir dos ovos, Kreng e sua autópsia ficam na mesa de operações, no registro da síntese e, portanto, não leva a cabo o que parece aspirar, isto é: um território virgem e inexplorado. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 19 de junho de 2009 por em Uncategorized e marcado , , , .
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