Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Morton Feldman – The Viola In My Life (2006; New World Records, EUA)

feldman the viola in my life

Morton Feldman é um compositor norte-americano (Nova York, 1926) de tradição erudita, considerado uma das figuras mais importantes da música no século XX. Desde cedo estudou piano e composição, mas sua carreira criativa começa a partir de um encontro com John Cage, em 1950. A partir daí, começou a experimentar com notações gráficas e partituras que sempre deixavam um significativo patamar de liberdade aos intérpretes e indeterminação na execução das peças. Influenciado pela pintura expressionista abstrata americana, particularmente o trabalho de Jackson Pollock, Mark Rothko e Philip Guston, a ideia de abstração desempenha um papel proeminente em sua obra. A partir de 1973, começou a lecionar música na Universidade de Buffalo, NY. Na segunda metade de sua carreira, ficou conhecido por obras de longa duração, a maior sendo “String Quartet II” (1983), de mais de seis horas. Feldman morreu em 1987, vítima de câncer no pâncreas. “The Viola in My Life”, “False Relationships and the Extending Endinge “Why Patterns?” são algumas de suas obras mais conhecidas. (RG)

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Em Abstract Painting, defendendo a pintura abstrata, Michel Seuphor escrevia: “Precisava existir uma pintura totalmente liberada da dependência da figura, do objeto – uma pintura que, como a música, não ilustra nada, não conta uma história, e não lança um mito. Uma tal pintura satisfaz-se em evocar os domínios incomunicáveis do espírito.” A julgar pela trajetória de Morton Feldman e como ele se deixou influenciar pela pintura abstrata, em especial a americana, mais especialmente ainda a ligada ao expressionismo abstrato, a própria música não estava isenta de crítica semelhante. O objetivo confesso das obras de Feldman era criar uma “superfície plana” com seus sons, fazendo o máximo para abalar as noções de estrutura, desenvolvimento e controle da composição. [A respeito da quebra com o controle, Feldman é conhecido por quase sempre deixar um elemento – muitas vezes o ritmo – sem notação na partitura, de forma que os diferentes instrumentos poderiam tecer interrelações não-determinadas pela composição, o que constitui uma forma sensacional de ser cageano sem imitar John Cage].

“The Viola in My Life” abre um período de sua carreira em que essas principais características não se fazem presentes: tudo é devidamente notado na composição, e há dados expressivos que articulam a sensação de tempo. Há mesmo na parte 1 um “tema” recorrente de duas notas que estrutura a composição temporalmente e lhe dá manejos dramáticos (ainda que pra lá de discretamente). Isso não impede que Feldman atinja o que sempre foi seu principal objetivo, libertar as características materiais e timbrísticas dos instrumentos de toda “narrativa”, deixando-os firmes, vibrantes e independentes, na medida do possível, como pinceladas ou jorros de tinta numa tela, sem compor figura.

Morton Feldman é conhecido pela calma e lentidão de suas peças (jamais monotonia). Isso naturalmente é sua índole, mas é também a única maneira possível de isolar os sons entre si desarticulando a noção de um todo “orgânico”: os instantes de pausa entre um som e outro fazem cada ataque de instrumento soar como ilhas, e trabalham nossa percepção imediata no sentido de nos fazer atentar, sempre, para o “aqui e agora” da composição, o que é a maneira de Feldman traduzir em termos musicais a superfície plana que ele tanto amava na pintura abstrata.

É preciso penar um pouco com o som para atingir o diapasão mental para apreciar a música de Feldman – ainda mais quando nossos próprios hábitos de ouvinte nos impelem ao oposto, a lembrar-se de tudo e a fazer interrelações entre todos os aspectos da obra. Mas uma vez que conseguimos focar no que é essencial, ouvir torna-se uma experiência fascinante, dos efeitos quase de microfonia que a flauta faz na parte 1 até os crescendos de volume que as notas mantidas de viola realizam na parte 2, passando pelas estranhas relações entre instrumentos criados em “Why Patterns?”, em que cada instrumento toca num ritmo particular, criando soberbos efeitos de “dessincronia”.

Vale notar que a obra de Feldman é o radical oposto do minimalismo, centrado continuamente na repetição de padrões que reforçam a cada momento a ideia de estrutura. Seu ideal é a pureza advinda da materialidade de cada som. Nesse sentido, ele pode ser considerado uma inspiração para o drone – ainda que o drone quase sempre se articule em modelos que, como o minimalismo, reforçam a ideia de estrutura. Mas aí já é outra história… (Ruy Gardnier)

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Tarefa difícil julgar o trabalho de compositores contemporâneos em poucas palavras, ainda mais quando tratamos de três obras compiladas em um só CD. Geralmente, o juízo adequado e fecundo sobre uma obra musical complexa deve necessariamente inseri-la num contexto que geralmente a extrapola. Devo, portanto, advertir o leitor para tais dificuldades, desresponsabilizando-me por eminentes lacunas e omissões, pois elas serão inevitáveis. Dito isto, passemos primeiramente pelo autor, suficientemente explicado no texto introdutório, mas sobre o qual vale lembrar que além de americano, era amigo e interlocutor de John Cage. Trata-se portanto, na visão deste que vos escreve, do melhor tipo de americano do norte: iconoclasta, prolífico, exalando a grandeza de Dylan (“no fear, no envy, no meanness…”), Burroughs, Miller, Whitman… Autor e obra interessam, sem dúvida. Mas e no caso particular destas três obras, “False Relationships and the Extended Ending”, de 68, “The Viola in My Life”,  composta por quatro partes em entre 70 e 71, e “Why Patterns?”, escrita sete anos mais tarde. Como elas se encaixam neste contexto?

“False Relationships and the Extended Ending” e “The Viola in My Life” estão inseridas em um momento especial, onde as conquistas espirituais dos beatniks já haviam se ramificado e se recodificado na balela do flower power, o que estimulou neste grandes americanos uma espécie de contrapartida na radicalização e no reforço do caráter revolucionário de seus respectivos trabalhos. Burroughs ironiza a suposta “revolução” em The Wild Boys (“o livro dos “mortos”), enquanto Cage propõe outros níveis de inserção musical, para além do silêncio e do acaso; em Nova Iorque, emerge toda uma reação à boçalidade hippie, com Lou Reed e Andy Warhol capitaneando o Velvet Underground, além do free jazz de Coleman e a música livre e delirante de Miles, Mingus, Coltrane e Monk. Feldman faz parte desta grande cultura da criação, de toda essa conjuntura torrencial, sobre a qual seria necessário agir com mais rigor, de modo a estimular sua ousadia e vitalidade. Mas tanto “False Relationships and the Extended Ending” como “The Viola in my Life” pecam, no entanto, pelo modo excessivamente formal com que vão aos poucos construindo a composição propriamente dita. Explico: nos seus três primeiros “movimentos” de “The Viola in My Life”, os instrumentistas executam suas partes atentando quase que exclusivamente para as dinâmicas altura, intensidade e timbre, seguindo rigorosamente o esquadrinhamento rítmico proposto por Feldman. Os silêncios são como que iluminados pela série de padrões que, aos poucos, são delineados pelos instrumentos. E, em contrapartida, os sons conjugam uma forma musical que se expressa paradoxalmente através da harmonia, embora esta ressalte mais a duração que a simultaneidade. O silêncio, portanto, é modelo e sustentáculo da composição, em ambas as composições. Eu diria que, ao menos em “False Relationships…”, esta característica torna-se um pouco mais acentuada em relação ao modo excessivamente cerebral com que se desenvolve as três partes de “The Viola…”. Nela, os clusters são mais fortes e vigorosos, e o resultado, mais expressivo. E eis a razão pela qual considero que ambas as peças têm um interesse quase que exclusivamente teórico: suas estratégias formais não correspondem a um resultado sonoro à altura, sobretudo comparado a peças mais incisivas, como “The Rothko Chapel”, composta na sequência de “The Viola in my Life”, em 1971.

Já “Why Pattterns?” me parece uma composição sonoramente mais interessante, embora sua estrutura conceitual também seja primordial. Sete anos depois, Feldman retoma algumas idéias de “The Viola in My Life”, fato que uma audição atenta nos leva a crer. Um interessante estudo sobre o trabalho com “padrões melódicos” que contribuem para a peculiaridade deste quarteto para cordas e piano pode ser lido aqui. Mas gostaria de ressaltar outra característica conceitual que faz de “Why Pattterns?” uma peça especial, mesmo em contraste com “The Viola in My Life”. “Why Patterns?” situa o silêncio em outro plano, trazendo para o centro da composição aquilo que em “The Viola in My Life” representa um elemento mediador: a harmonia. Percebe-se durante toda a composição que a sensação de duração e transcorrência advém das sobreposições melódicas, e não no próprio decorrer do tempo. O silêncio em “Why Pattterns?”, portanto, é como que produto de uma fratura, já que o espaço sonoro é tomado pelo pontilismo simultâneo dos instrumentos. É por este mesmo motivo que “Why Patterns?” é também uma obra mais duradoura, porque só alcança o silêncio pelo som tornando-o brutalmente contínuo, exagerando sua realidade, sua presença. Apesar de toda sua parcimônia, talvez a palavra que melhor caracterize o trabalho de Feldman, “Why Patterns” tem a qualidade de agredir, causar repulsa, irritação e sentimentos menos condizentes com sua fama zen.

Apesar de pender a balança para a obra de 78, eu me pergunto: sendo “False Relationships…” e “The Viola in my life” mais identificadas com um discurso teórico, e “Why Patterns?” uma obra mais sonora, qual seria a obra de mais afinidade com o trabalho profundamente cerebral de Feldman, a que melhor o representaria? As primeiras, certamente. Mas faço uma nota, um tanto conservadora, que no entanto me diz respeito: que a música é uma experiência erótica de primeira ordem. Assim, no fim das contas, por sua maturidade e por uma escala melódica mais colorida e agressiva, “Why Patterns?” me fala mais sugestivamente ao ouvido e à libido. (Bernardo Oliveira)

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