Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Giuseppe Ielasi – Aix (2009; 12k, EUA [Itália])

aix

Giuseppe Ielasi é guitarrista, turntablista e músico experimental, nascido na Itália e residente a Milão. Iniciou sua carreira musical na década de 90, fazendo música de improvisação, para depois se dedicar a trabalhos realizados exclusivamente em estúdio. Fundou os selos Bowindo, Fringes e Schoolmap e tem mais de 15 discos, entre lançamentos solo e colaborativos. Este ano lançou o compacto de doze polegadas (another) stunt, segunda parte de uma trilogia iniciada com o EP stunt, do ano passado. Aix é seu primeiro álbum solo desde August, de 2007. Os dois saíram pelo selo 12k, do artista e músico Taylor Deupree. (TF)

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Para quem conhecia Ielasi de trabalhos anteriores como August, que exploravam o aspecto ambiente do som, com drones e field recordings, a série stunt e o long play Aix, vêm não apenas como grandes surpresas, mas como verdadeiros renascimentos, pois as tais incursões ambiente, além de pouco instigantes, não acrescentavam muito aos experimentos já realizados neste campo. Agora Ielasi se ocupa de explorações rítmicas e do uso de samples. E é curioso o modo do artista italiano trabalhar com o sample: em vez de servir-se de músicas rítmicas por natureza, com batidas marcantes, ele utiliza discos de música experimental e de improvisação, que não têm como fator principal o ritmo marcante e marcador.

Se ouvido proximamente a stunt e (another) stunt, Aix parece completar perfeitamente a trilogia, ainda que represente um passo para trás. Digo isso, pois mesmo que a feitura do álbum em questão seja discrepante à dos dois compactos, seu eixo central também é a investigação rítmica, seus modos de arranjo e seus ajustes de intervalos. E levando em conta essas características, os stunt soam mais ricos e intensos. O que faz de Aix uma obra de valor, no entanto, não é somente sua disposição em explorar ritmos, mas sua diversidade de timbres. É de extrema importância nesse disco a vontade em contrapor texturas e frequências de som. E se, ao contrário dos compactos, Aix não foi feito de samples, ele foi construído com base em inúmeras gravações, sejam de música concreta ou de improvisação com instrumentos convencionais. É aparente também em Aix e na série stunt uma grande influência de Vladislav Delay, o que se deve às constantes intervenções rítmicas, que estimulam a desenvoltura das faixas, e ao uso de diferentes camadas de som, que criam uma certa “profundidade de campo” musical.

Assim como sua capa, Aix possui uma estrutura (rítmica e timbrística) de coloração viva, bonita e fluida, que se dá através de uma estrutura rígida, mas quase desajeitada na sua concepção de espaço e disposição dos elementos. É uma música que, em todo caso, ainda está em processo de edificação. (Thiago Filardi)

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A julgar por Plans, August, os eps stunt e (another) stunt, e por fim este Aix, Giuseppe Ielasi é um enorme curioso a respeito de formas composicionais contemporâneas. Ele vai com desprendimento dos trabalhos iniciais com ambient, glitch e texturas “a longo prazo” para trabalhar agora com um certo puntilhismo sonoro reminiscente do trabalho do duo The Books e do Machinefabriek. No entanto, no caso de Aix e dos dois eps, o puntilhismo é ostensivamente trabalhado forçando cada célula sonora, até mesmo inocentes trechos melódicos, de modo a recortar ritmicamente o andamento, criando padrões complexos de ritmo. Trocando em miúdos, é como se Alva.Noto ou o Frank Bretschneider de Rhythm decidissem expandir o alcance de suas batidas e glitches e ao invés de células mais obviamente percussivas decidissem utilizar fragmentos de violão, harpa de boca (observem a faixa 3) e mais instrumentos que servissem ao propósito de alargar o registro de frequências e criar o sentimento de uma orquestra fragmentária de destroços tocando.

Como estamos falando de um cenário que se renova e ainda exala mudança, convém avisar que em Aix Giuseppe Ielasi não vai propor nada que já não tenha sido desenvolvido por outros artistas nos últimos anos. O que Ielasi consegue muito bem, e nisso vale uma comparação com o Los Angeles de Flying Lotus, é a incrível fluência que ele consegue dar a um material a princípio abrasivo e/ou complexo (e também, em alguma medida, a maneira de desenvolver um breakbeat de forma insinuante, quase parecendo easy listening). É uma audição prazerosa e quente no meio duma seara que se orgulha pela frieza lógica de seus princípios e articulações. As faixas têm 3min30 de média, ou seja, o tamanho normal de uma canção, mas a estrutura de composição dá a cada uma das nove músicas um ar gracioso de vinhetas, ora fazendo a gente se perder no loop desenhado pela sequência rítmica, ora fazendo atentar para a beleza límpida de cada célula isolada e, com desenvolvimentos mínimos, terminando sem qualquer compasso redundante. A economia de Ielasi torna o disco muito coeso, mas ao mesmo tempo chama a atenção para uma possível falta de ambição e fôlego.

Não sei se cabe aqui recorrer ao binômio inovador/mestre para jogar Ielasi na segunda categoria, ainda que o compositor realize tudo que se propõe com mestria e sem inovação. Em todo caso, se a gente releva a eclética carteira de influências do artista, que transita por Raster-Noton, The Field (na faixa 5) e chega até em Stones Throw, Aix nos guarda momentos não inauditos, mas mesmo assim surpreendentes de beleza. (Ruy Gardnier)

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Algumas referências me vieram imediatamente à mente assim que comecei a audição deste novo álbum de Giuseppe Ielasi. Em primeiríssimo lugar, a forma abstrata e ao mesmo tempo rítmica com que o The Books contruiu uma das sonoridades mais interessantes da década. Depois, algumas vertentes da música abstrata que namoraram as experimentações rítmicas, como o hip hop underground e alguns trabalhos da Raster-Noton, como o de Frank Bretschneider. Não sei ao certo se isso advoga a favor ou contra Aix, na medida em que este álbum não possui nem o humor do The Books, nem a energia de Bretschneider. Ou melhor, sei sim: Aix é um disco interessante, o que nos dias de hoje pode não significar muita coisa. É certo que constitui uma guinada na obra do italiano, antes preocupado em montar painéis evocativos, através de drones e field recordings. Desta vez ele lança mão de sons acústicos, sobrepondo diversas camadas rítmicas, misturando pequenos sons de objetos, instrumentos, percussões com efeito, etc. Posso destacar algumas faixas que justificam a audição, como as três primeiras. Mas quando chega no meio do álbum, sinto que a balança pende um pouco para o “melodismo” em um nível muito simplista, como na faixa final. Ou seja: todo esse esforço resulta em uma sonoridade morna e esquálida. De forma que a força de Aix não emana de si próprio, mas de um contexto. Recentemente, me referi assim ao álbum do Kreng, adequado para definir Aix: mais sintoma de época que expressão autônoma. (Bernardo Oliveira)

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Um comentário em “Giuseppe Ielasi – Aix (2009; 12k, EUA [Itália])

  1. j.
    15 de julho de 2009

    Esse álbum é uma verdadeira obra-prima moderna.
    Parabéns pelas belíssimas críticas.

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Publicado às 22 de junho de 2009 por em experimental e marcado , , , , , .
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