Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Wolf Eyes – Always Wrong (2009; Hospital Productions, EUA)

always wrong

Wolf Eyes é um trio de noise americano formado por Nate Young, John Olson (também membro do Graveyards) e Mike Connelly (do Hair Police), mas que começou como um projeto solo de Young (ex-Nautical Alamanac) no final da década de 90. Já passaram pelo grupo Aaron Dilloway, que foi membro fixo por um longo tempo, e Andrew W.K., que teve uma breve passagem. O Wolf Eyes possui mais de 150 discos, lançados na sua maior parte, de modo independente, em formatos cassete e CD-R. Eles produzem música feita a partir de instrumentos convencionais como guitarra, baixo e voz, além aparelhos eletrônicos, analógicos, fitas e objetos menos habituais. Always Wrong é o primeiro álbum oficial da banda em dois anos, mas contando as distribuições independentes, o Wolf Eyes já soma mais de dez lançamentos somente em 2009. (TF)

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É tarefa árdua escrever sobre um disco do Wolf Eyes. Primeiro, e principalmente, porque seus discos são, antes de qualquer coisa, uma grande experiência sonora, arrebatadora e apavorante, que não pode ser descrita em palavras – deve ser sentida, tanto no ouvido quanto no corpo. E segundo porque o Wolf Eyes é um grupo tão prolífico que chega a ser ridículo tentar analisar sua obra sob o prisma de um único lançamento; mas não impossível. A verdade é que o trio norte-americano costuma lançar quase tudo o que faz e grava de forma independente, em fitas cassete e CD-R’s, incluindo shows e improvisações ao vivo.

Essa flutuação por formatos e suportes musicais diversos, antes de demonstrar rebeldia inconsequente ou ausência de enfoque artístico, revela uma aderência à ideologia do “faça você mesmo”, como também confirma um estado atual da música experimental, na qual não há tanta valorização na feitura de um álbum como havia outrora – o que eu diria que se acomoda muito bem ao tipo de música praticado pelo Wolf Eyes, baseada na improvisação e na não linearidade. A abundância de lançamentos não diz respeito apenas ao Wolf Eyes, mas a toda uma geração atual da música noise, drone, improv, eletrônica (vide Machinefabriek e Merzbow), influenciada pelo pioneirismo do Throbbing Gristle, que propiciado pela liberdade de expressão adquirida após o punk, foi inescrupuloso ao ponto de comercializar a gravação de todas as suas apresentações ao vivo. A ele seguiu-se um conjunto de músicos independentes da década de 80, que tornaram mais comum o termo “noise”, com cassetes de um ou dois canais gravados precariamente em casa e que eram bastante ruidosos e afastavam qualquer possibilidade de limpidez e “fidelidade” do som – os meios de gravação tornaram-se a própria estética musical almejada.

O que precisa ser dito sobre o Wolf Eyes é que muitos desses lançamentos independentes, apesar de serem feitos para soarem toscos ou mal-gravados, não trazem a intensidade e a violência de um álbum oficial, tampouco a variedade de timbres e efeitos presentes no último. Antes de Always Wrong, o último CD ou LP solo do trio fora Black Wing Over the Sand (2007), e mais anteriormente Human Animal (2006) e Burned Mind (2004), lançados pelo conceituado delo Sub Pop. Em comparação aos últimos, o novo trabalho está ainda mais agressivo e com maiores intervenções vocais. Human Animal era quase todo climático, com final apoteótico, enquanto Burned Mind possuía longas improvisações instrumentais e uma notável passagem de silêncio, que se estendia por três faixas. Já Always Wrong vai direto ao ponto e começa magistralmente com “Cellar”, na qual se houve um ruído eletrônico nervoso e oscilante e o bumbo incerto da bateria, até surgir um vocal doentio, à moda Genesis P-Orridge. Logo em seguida a faixa vira uma enorme balbúrdia, com um ruído de frequência mais aguda, sons metálicos, o que parece ser uma guitarra, ao fundo, e mais uma infinidade de sons e texturas. A segunda “Living a Stone”, parte para uma atmosfera mais calma, porém ainda investigativa nos timbres, com guitarras à la Blixa Bargeld, vocais mais arrastados e baixo fúnebre, que marca o compasso da música.

O mundo volta a se despedaçar com “Broken Order”, na qual barulhos eletrônicos que se tornam explosões sonoras se misturam aos vocais extremamente agressivos e tudo vira uma confusão sonora das mais impressionantes. “Pretending Alive” introduz um saxofone angustiante e segue num ritmo lento, com uma variedade incrível de camadas e texturas, de sons cada vez mais agudos e agonizantes. “We All Hate You” se inicia com um barulho de uma furadeira e um saxofone enterrado, para depois entrar uma percussão quase aleatória e vocal igualmente enterrado, dessa vez entre a aflição apocalíptica de um Genesis P-Orridge e a determinação apoplética de um Whitehouse. A faixa-título traz de volta o som metálico e se iguala à “Broken Order” ao nível de violência sonora, evocando mais uma vez Whitehouse, na indistinção sonora das palavras pronunciadas. A derradeira “Droll/Cut the Dog” retoma o clima lento de “Living a Stone”, contudo ainda mais climática, encerrando o álbum de forma menos estrondosa.

A duração de Always Wrong, embora seja adequada à condição extática e fulminante do disco, nos faz refletir que o Wolf Eyes costumava dar maior coerência à sequência de faixas nos discos anteriores, assim como a percussão, que habitualmente era um dos fatores mais importantes. Para um álbum oficial, Always Wrong deixa um pouco a desejar, mas na obra do grupo, representa um certo avanço no que concerne a investigação de timbres e a utilização simultânea de vários efeitos e instrumentos, para fins de pura imersão sonora. (Thiago Filardi)

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A primeira observação que costuma ser feita a respeito do Wolf Eyes diz respeito menos à música praticada pela banda do que à quantidade de lançamentos. É tanto disco que só mesmo Merzbow, Machinefabriek e Acid Mothers Temple reunidos conseguem bater. Isso, no fundo, é indiferente no que tange à qualidade do grupo, mas já cria uma mística e um tipo de fanatismo que colaboram para um prestígio a priori. OK, de uma forma ou outra sempre há circuitos de legitimação questionáveis, e a opção de lançar inúmeros shows e jams de barulho é coerente com a relação que o grupo tem com música, além de não ser exatamente algo a que só o Wolf Eyes recorre – é quase um padrão na cena noise/lo-fi/cassete americana. O acúmulo discográfico, suficiente até mesmo para o fã número um se perder totalmente, só acrescenta à estética de acúmulos de detrito e vandalismo sonoro praticada conscienciosamente pelo trio já ao longo de uma década.

E é essa intensa balbúrdia o motivo principal para se ouvir o Wolf Eyes: em colaborações impressionantes com John Wiese ou Anthony Braxton, em shows mal-gravados ou em produções bem-cuidadas o princípio de preenchimento sonoro é o mesmo. Curiosa, no entanto, é a clara separação entre os tais “discos de carreira”, estranhamente bem poucos, e o resto da produção. E Always Wrong, de todos que ouvi, é o que mais deixa patente um desafio ou uma espécie de impasse no som do grupo: é que, em estúdio, o tipo de composição, a proeminência dos vocais, os timbres conseguidos e em geral a atmosfera criada pelo conjunto de tudo isso deixam o som do grupo com uma cara de hardcore eletrônico, um pouco como se o Sightings fizesse um disco inspirado em Throbbing Gristle. Isso eles fazem muito bem, criando ecos de doom metal, de industrial, de noise, sendo todos e não sendo nenhum deles. (Em vários “não-oficiais”, as longas jams têm um tipo de approach mais largado em que o vocal é inexistente ou menos determinante, e o resultado é muito mais próximo do noise do que de qualquer outro gênero) O que impacta no Wolf Eyes não é exatamente a proposta musical, já que ela eles partilham com uma infinidade de grupos mais ou menos anônimos e/ou claudicantes (o Black Dice, antes de achar seu caminho, não soava muito diferente em seus primeiros EP’s). O diferencial é a sofisticação (se esse é mesmo o termo) das frequências e dos timbres utilizados, seja com as maquininhas já características do grupo, seja com o processamento sonoro no estúdio, que levam o nível de terrorismo sonoro a novas situações de intensidade.

No fundo, é a típica molecagem que fez com que eles dessem a um de seus discos o título Fuck Pete Larsen (dono de uma gravadora por quem eles lançaram um disco) e que faz com que eles dêem a uma faixa aqui o título “We All Hate You”. É bobo, infantilóide, gratuito. Mas bobeira e gratuidade levados a extremos, como aqui é o caso, são sempre interessantes. E tem pouca gente sabendo fazer isso no nível do Wolf Eyes. (Ruy Gardnier)

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A capa de Always Wrong é ao mesmo tempo bela e assustadora. Sobre o fundo negro-azulado, uma ondulação composta por uma malha de linhas brancas sugere algo parecido como um monstro, mantendo a já antiga identificação entre o barulho e terror. Três braços protuberantes indicam um centro gravitacional, uma orientação clara e distinta, ainda que situada no olho do furacão. Nada mais ambíguo. Nada mais adequado e surpreendente também. Always Wrong remete exatamente a o que esta capa parece representar: três indivíduos absorvidos por uma prática rigorosa e contumaz, sondando o caos e promovendo uma zona onde já não opera a distinção barulho/música. Como no caso das expressões realmente interessantes do noise, o Wolf Eyes tem personalidade forte – como quando nos referimos a uma comida ou a um remédio – mas depreende um aspecto extático inegável. Para quem entra no clima, muitas vezes somos sugados por esta sonoridade tão embrigante quanto desafiadora.

O fato concreto é que ainda não consegui escutar com atenção todos os discos do Wolf Eyes, e talvez não consiga fazê-lo até morrer. Mas como situar este trabalho em relação a um grupo que soma mais de 150 lançamentos? Só este ano, entre fitas cassetes e CDr’s, já são dez álbuns. No caso deste, sugestivamente batizado como Always Wrong, trata-se de um álbum de estúdio, lançado por um selo específico, o Hospital Records. Presumo que haja uma diferença entre os cassetes e CD-R’s e os álbuns lançados por selos especializados, o que fica mais ou menos claro quando faço a comparação. Os lançamentos independentes guardam dinâmicas mais soltas, improvisos, um modo autêntico de se trabalhar o noise nos dias de hoje. De forma que, para analisar este álbum, julgo adequado compará-lo aos de mesma cêpa, isto é, os álbuns de estúdio lançados por majors, como o álbum homônimo de 2000, a parceria com Anthony Braxton, Black Vomit e Slicer, de 2002. Entre a brutalidade, o vandalismo e a minúcia, neles o Wolf Eyes consegue obter resultados mais interessantes.

Mas, ainda que encarado nesta perspectiva, Always Wrong me parece um álbum especial. Os timbres soam mais estranhos, as estruturas de composição se mostram com mais clareza, as vozes se articulam de forma consistente, sem espaço para rap ou canção, os ritmos estão mais interessantes, super quebrados e detalhistas… Podemos até dizer que, tal como o Animal Collective, o Wolf Eyes parece buscar uma forma mais seca e coesa em relação à radicalidade dos experimentos anteriores, incorporando esta radicalidade a estruturas mais inteiriças e amarradas. Como em “Cellar”, a faixa de abertura, instigante mistura de doom e noise dos melhores. Ou em faixas mais “tranquilas”, como “Living Stone” ou a faixa final, a dobradinha “Droll/Cut the Dog”, onde eles encontram, à moda de um Black Dice, uma perspectiva noise que aposta mais no incômodo dos sons abrasivos do que na cacofonia desbragada.

Mas não se engane o leitor, pois o resultado por isso não se mostra mais palatável ou menos criativo, pelo contrário. Em pouco mais de meia hora de música, o Wolf Eyes propõe a deseducação de nosso ouvido. Mas esta deseducação implica em uma abertura da percepção e da fruição. “Broken Order”, título de uma das faixas, reitera a imagem do terror embriagado que descrevi acima, um terror que conduz a uma pureza sem mediações, a uma forma musical que expurga do ouvido todos os excessos, mas de irritabilidade e intolerância. Um terror que ensina a expandir a audição, não tolhi-la ou acostumá-la.

Por denotar essa dimensão pedagógica, mas também por manter o prazer do início ao fim, conjugando as características mais nobres da arte, Always Wrong pode até soar como um trabalho impenetrável. Mas é, sem sombra de dúvida, uma dos mais indispensáveis do ano. (Bernardo Oliveira)

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2 comentários em “Wolf Eyes – Always Wrong (2009; Hospital Productions, EUA)

  1. Francis Vogner
    26 de junho de 2009

    Gostaria de ler alguns textos de vocês sobre alguns discos do ilustre falecido

  2. JOSÉ R.
    19 de junho de 2010

    Hola! Quisiera saber si tienen idea de dónde se pueden comprar CD´S, tanto de Wolf Eyes como de otros grupos noise y avant garde en Rio de Janeiro. Vivo aquí hace poco y estoy un poco perdido en lo que se refiere al movimiento musical en esta ciudad, fuera del catálogo comercial conocido.
    Muchas gracias!! Un abrazo.

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Publicado às 24 de junho de 2009 por em noise e marcado , , .
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