Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

The Books – Thought for Food (2002; Tomlab, Alemanha [EUA])

thoughtforfood

The Books é uma dupla de músicos norte-americanos composta por Nick Zammuto e Paul de Jong, e criada em Nova York em 1999.  Em 2002, lançaram pelo selo alemão Tomlab seu primeiro disco, Thought for Food, utilizando de maneira incomum samples, field recordings e instrumentos acústicos como violão, violoncelo, banjo e violino. No ano seguinte veio o segundo álbum, The Lemon of Pink, e em 2005 o terceiro, Lost and Safe. Em 2006, o grupo lançou o EP Music for a French Elevator and Other Short Format Oddities by the Books, a partir de uma composição financiada pelo ministério da cultura francês. Colaboraram com o projeto Prefuse 73, de Scott Herren, com quem fizeram a faixa “Pagina Dos”, e o EP Prefuse 73 Reads the Books, feito por Herren a partir de sons criados e colecionados pela dupla. O quarto álbum, ainda sem data de lançamento, terá como tema a auto-ajuda e a hipnoterapia. (RG)

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Num mundo e numa era frequentemente solapados pela mesmice e pela circunscrição das atividades criativas em gêneros de repertório e vocabulário muito bem definidos (quando não já inteiramente digeridos previamente), falar de uma obra estranha como um OVNI passou a ser uma estratégia automática de defesa, chamando a atenção para as qualidades sui generis de composição e concepção. “OVNI” é um termo razoavelmente apropriado para falar dos filmes do tailandês Apichatpong Weerasethakul, de peripécias lúdico-construtivas como Aquele Querido Mês de Agosto, e que caem como uma luva para dar uma primeira impressão geral do primeiro disco do duo The Books, Thought for Food. Embora de acessibilidade e repercussão restrita, convém lembrar que as obras dos artistas citados estão entre o que de melhor se fez na década, e ausências desses nomes nas vindouras listas de melhores da década certamente representarão descrédito automático.

Thought for Food pode hoje parecer pertencer a uma prática hoje mais ou menos definida, com outros artistas trabalhando, assim como eles, com melodias fragmentárias e exercitando a música como uma arte de colagem. Podemos aproximá-lo, por exemplo, de artistas como Machinefabriek e Giuseppe Ielasi. Mas isso é hoje. No final de 2002, ouvir Thought for Food era uma experiência totalmente única, tão desorientadora quanto calorosa, tão misteriosa quanto afetiva. Sim, porque esse primeiro disco dos Books – assim como Mal dos Trópicos ou o filme de Miguel Gomes – trabalham num patamar de vanguardismo que, coisa rara, consegue achar uma interface aprazível para cativar seu público enquanto o “trabalho duro”, a decodificação e associação dos componentes da obra, vai sendo feito. É um disco que espanta menos por suas sonoridades do que pelo princípio associativo, longínquo ou caótico, que parece unir sonora e conceitualmente todos os elementos trazidos pela dupla. O princípio, em todo caso, dá mostras absolutas de excelência num claro plano de expressão: a fluência. A forma como cada atmosfera parece se seguir a uma outra, contrastante em timbragem e em andamento, é matéria para especulação cósmica. Estamos diante de uma lógica de colagem que chama atenção para como os dados expressivos são articulados de matérias muito distintas, mas convence mesmo pela completa desenvoltura com que a audiução se faz, um todo orgânico (na audição, e apenas nela) se fazendo inteiramente de partes inorgânicas. Talvez a única possível comparação em matéria de música, feita nesta década ou não, seja Since I Left You, dos Avalanches, outro prodígio de fluência em colagem. Since I Left You pode ser considerado um Thought for Food para pistas, assim como o disco dos Books pode ser considerado um Since I Left You para audição caseira.

“Thought for Food” é um termo que em inglês não existe. É a inversão de “food for thought”, alimento para o pensamento. O procedimento é repetido em títulos como “Getting the Done Job” (job done, trabalho feito) ou “All Bad Ends All” (um jogo mais complexo com “All’s Well That Ends Well”, ao menos é o que parece). Isso por si só já exprime um gosto por contrastes simples, antecipando as bruscas alternâncias do disco entre ritmos vibrantes e momentos amenos, de que o melhor exemplo seria “Thankyoubranch”. E, mais que isso, revela uma espécie de disposição humorística da parte do duo, mais para o nonsense de deslocamento do que para qualquer tipo de ironia com o material de base. O humor dos Books não só favorece o clima de leveza geral transmitido pelo disco, como contagia na exuberância descompromissada e elegante criada, como um Lubitsch filtrado por Kurt Schwitters. No entanto, nada disso prepara para alguns momentos de lirismo intenso, apelando mais ao coração do que ao cérebro, e dando vazão a um intimismo folk com melodias e arranjos rigorosamente construídos e memoráveis, como em “Motherless Bastard” e “Getting the Done Job”.

Thought for Food pode ser defendido de muitas maneiras, porque muitos são os elementos que fazem desse disco um marco. Mas sem chamar a atenção para um deles em particular, qualquer defesa pareceria incompleta:  a forma como cada célula sonora é em si mesma empática, cada melodia é imediatamente assobiável, cada progressão obedece a uma economia extrema. O que atenta para uma outra característica, que não deixa de ser uma outra forma, além de OVNI, de caracterizar apropriadamente a obra: é um dos discos mais sampleáveis de todos os tempos. Que isso (ainda) não tenha sido feito, tanto melhor: ainda temos para nós todo o frescor de cada linha melódica, cada andamento, cada jorro de expressão integralmente pertencente ao disco e fazendo sentido dentro dele. Depois de Thought for Food eles continuaram interessantes, instigantes, mutantes dentro de sua própria identidade – mas o primeiro disco permanece sendo aquele que melhor dosa espanto e beleza, vai mais rápido e mais lento, e afirma com mais imponência sua singularidade. Um clássico. (Ruy Gardnier)

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A arte é um fenômeno fascinante porque testemunha a diversidade dos povos e a idiossincrasia de alguns indivíduos “especiais”. Para dar conta de sua amplitude no âmbito ocidental, alguns pensadores criaram teorias acerca da especificidade da arte moderna, buscando geralmente equilibrar umas perspectiva conceitual (geralmente tributária da estética de Kant) com a diatribe de estilos e possibilidades estimuladas pela reprodutibilidade técnica. Alguns anos antes, porém, Baudelaire já afirmava que o sentido do moderno se expandia em diversas direções, ora designando uma reação contra o desinteresse kantiano, ora assumindo seu aspecto deliberadamente “interessado”. Muito tempo depois, o italiano Giorgio Agamben julgou que a modernidade produzia ao invés de obras interessadas, obras interessantes, dirigidas a um público e uma fruição determinadas. A arte interessante resultaria de uma mediação entre a nostalgia da aura e sua perda, preconizada por Benjamin e consolidada na generalização de toda a arte em “cultura de massas”. Por outro lado, quase que na contramão de Kant e Baudelaire, o mesmo Benjamin previu para o futuro da arte uma aderência cada vez mais incisiva entre obra e crítica, variando somente o grau de “criticidade” da obra em relação a si própria e a seu contexto. Mas esta subjetividade, esta profunda interiorização do autor e da obra, corresponderia paradoxalmente a uma ampla exteriorização da mesma, e isto, me parece, constitui a “modernidade”, a saber: esta expansão para dentro e para fora, esta característica particular de comungar modos particulares e elementos externos é característica precípua das grandes obras de arte do século XX: Duchamp e o deslocamento do contexto, Stockhausen e a ampliação do espaço sonoro,  Bob Wilson e a relativização do tempo teatral, etc. Perfaço brevemente este caminho teórico para notar uma característica de Thought for Food que o faz um dos mais fascinantes registros musicais da década. Thought for Food condensa elementos que se cristalizaram no percurso da arte moderna e contemporânea: colagem de referências externas, criticismo, incorporação de elementos aleatórios e, ao mesmo tempo, um alto grau de controle… Mas, apesar de redutível a este contexto, ao mesmo tempo, o álbum tem um aspecto exclusivo, uma sorte de sutileza musical que se destaca, mesmo em uma década por demais “interessante”. Deleita, e traz problemas concernentes à arte moderna e a toda arte, como aparência, beleza, autoria… Mas sua beleza (ou interesse) está para além destas questões.

A sensação de aleatoriedade que o disco emana contrasta com o fato de tratar-se de uma série de composições altamente controladas. Há aqui de tudo um pouco: violões folk, sobreposição de percussões inusitadas, sonoplastia, programas de rádio, barulhinhos de animais, samplers, utilização de vozes de diversos modos, incorporação de elementos do cotidiano, títulos sugestivos, noise, field recordings, resquícios de canções, de melodias, etc. A miscelânea de estilos musicais e procedimentos resulta em uma sonoridade confusa e embaralhada, mas uma atenção cuidadosa demonstra que não é bem assim. Os próprios autores estimulam a confusão, quando, no final da segunda faixa, “Read, Eat, Sleep”, ouvimos alguém dizer, com voz de locutor: “By digitizing thunder and traffic noises, Georgia was able to compose aleatoric music.” Mas o que se ouve é uma colagem de momentos esparsos, que buscam construir uma painel sonoro a partir de elementos do cotidiano, ou pelo menos elementos musicais que constróem um ambiente em que a regularidade das atividades cotidianas pode ser evocado, ainda que em tom de deboche. Um violão, uma voz masculina que soletra pausadamente o título, percussões eletrônicas, manipulações de estúdio configuram o painel, a partir do qual podemos supor um elevado nível de construção sonora– “elevado” porque concentra som e significado de modo eficaz, ao mesmo tempo divertido e reflexivo. E aí reside a maravilha de Thought for Food: a pregnância conceitual (ou problemática) de sua música é concomitante a um prazer, a uma dimensão de jogo, que pode sugerir tanto o “zeitgeist”, como uma inflexão absolutamente sem igual e sem comparações. Um misterioso distúrbio de linguagem.

A senha para esta linguagem misteriosa é a ironia. E ela se constrói justamente no espaço entre o fato desta música soar “interessante”, no sentido pejorativo proposto por Agamben, mas também encerrar uma “promessa de felicidade”, segundo a estética radical atribuída a Nietzsche – uma estética do ponto de vista do criador e não do espectador. Como a música de Maja Ratkje, Hecker, Asa-Chang, Aphex Twin e Kevin Drumm, ela assume uma série de dificuldades impostas por um contexto massificado e descentralizado para afirmar uma estratégia, um rompante, uma pesquisa ou, simplesmente, um ponto de vista… Sem dúvida, um dos mais autênticos e geniais dos últimos anos. (Bernardo Oliveira)

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“Motherless Bastard”, faixa de número 7, resume perfeitamente a música do The Books e o espírito de Thought for Food. Nos primeiros segundos, ouvimos o diálogo – que parece advir de um sample – de uma menininha, provavelmente perdida, e um homem, em um ambiente público. Ela pergunta sobre os pais e o sujeito diz que ela não tem pais, para logo em seguida afirmar que eles saíram, não estão lá. Ela então se desespera e acaba por chamar o rapaz de pai, quando então é recebida com um repúdio enojador. A situação é interessante e inusitada, convenhamos, embora busque despertar a comoção no ouvinte.

Depois de tantos clicks + cuts, cortes arrojados e justaposições de melodias criativas que o álbum oferece na sua primeira metade, pensamos que esse diálogo não passa de uma brincadeira, uma pegadinha, à qual se seguirão percussões tresloucadas e violões e banjos tocados freneticamente. Mas não. A faixa se revela um folk instrumental do mais tradicional com uma melodia pra lá de melodramática e que só reforça o caráter apelativo introduzido no sample de abertura (e com direito a vozes da garotinha perguntando pelos pais no meio da execução).

É tudo um tanto estranho porque Thought for Food aparenta ser um disco brincalhão, solto nas suas construções, mas de concepção atmosférica e humorística bem amarrada. No entanto, “Motherless Bastard” nos leva a recapitular e repensar o resto do álbum, fazendo-nos chegar à conclusão de que o Books se leva mais a sério do que imaginávamos, escondendo por trás da ousadia formal, uma melancolia bem barata, bem adolescente, que procura comover ao máximo o interlocutor com seus harmônicos de violão e samples nostálgicos (à la Boards of Canada). Tudo isso seria ainda potencializado no terceiro disco, Lost and Safe, no qual a dupla resolve incrementar as faixas com seu próprio canto, intensificando a qualidade serena de suas composições, mas, ao mesmo tempo, amenizando demais o conjunto da coisa.

Thought for Food serviu ao menos para inspirar projetos musicais mais bem sucedidos, como o Machinefabriek, e deixou uma pequena obra-prima da música contemporânea: “All Bad Ends”, além de outras faixas agradáveis que, em todo caso, servem ao seu propósito de criar um misto de sensações relaxantes e intrigantes. (Thiago Filardi)

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Publicado às 30 de junho de 2009 por em eletrônica, experimental, folk, Uncategorized e marcado , , , .
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