Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Asa-Chang & Junray – Jun Ray Song Chang (2002; Leaf, Reino Unido [Japão])

junraysongchang

Asa-Chang é um percussionista renomado no cenário musical japonês, fundador e líder do grupo Tokyo Ska Paradise Orchestra. Em 1998, cinco anos depois de deixar o grupo, ele criou com o guitarrista e programador Hidehiko Urayama o projeto Asa-Chang & Junray, assim chamado porque a parafernália eletrônica de Urayama era apelidada de “Junreitronics”. O tocador de tabla U-zhaan completou a formação do projeto em 2000. Os dois primeiros lançamentos japoneses, Tabla Magma Bongo (1998) e Hana (2001), foram compilados e lançados pelo selo inglês Leaf como Jun Ray Song Chang em 2002. No ano seguinte veio o EP Tsu Gi Ne Pu. Em 2004 lançaram o Senaka EP, com faixa título cantada pela atriz e popstar japonesa Kyoko Koizumi. O álbum Minna no junrei veio em 2005. Depois de quatro anos sem produção, o grupo acaba de lançar um novo disco, Kage No Nai Hito. (RG)

* # *

Coube aos antropólogos a árdua tarefa de definir um elemento teórico extremamente fugidio e problemático chamado cultura. E apesar de todos os debates e até mesmo correções de rumo que marcaram o advento e desenvolvimento do conceito, uma conclusão parece ter se cristalizado entre as almas bem-pensantes. De que todas as culturas se equivalem a despeito de suas diferenças; e, como consequência desta premissa, de que toda cultura é miscigenada a priori. Não me estenderei neste assunto, mas apenas notarei que por mais bem intencionada que pareça esta opinião, ela já toma hoje uma forma simplória e simplista, que mais estimula um perigoso nivelamento cultural do que expõe e problematiza as diferenças. Pois bem, deixemos de lado essa visão para afirmar a diferença de um ponto de vista supranacional e, sobretudo, supracultural. Trata-se aqui de identificar a diferença no extrato das ramificações e sobreposições culturais mesmas, ainda que, em primeiro plano, toda cultura seja, desde sempre, “miscigenada” – mesmo aquelas que cresceram e se constituíram nas franjas de um processo de autonomia radical. A questão no entanto não se fecha aí, pois existem milhões de situações culturais, e mais ainda, de contextos e exemplares que testemunham misteriosas formas de síntese. Tantas que, suspeito, com o antropólogo Edmund Leach, de que não há mais sentido em nos referirmos à cultura no plural: culturas. Na arte, este processo traz no entanto uma série de problemas. Porque as distâncias “culturais”, sendo cada vez menores, sendo cada vez mais arroladas no nivelamento produzido pela economia de mercado, traz em contrapartida uma exigência, um rigor na mistura e no modo de misturar cada vez mais desafiador para aqueles que buscam escapar da ética “jornalística” do melting pot. Ora, tudo pode ser Melting Pot e, regra geral, a utilização desta expressão deixa entrever um cosmopolitismo benévolo, alienado e, como o tiro que sai pela culatra, etnocêntrico.

Assim, eu poderia definir Jun Ray Song Chang de uma forma burocrática, elencando as influências de música tradicional japonesa (o shōmyō, o gagaku, etc), a incorporação absurda e prodigiosa da tabla indiana, a utilização minuciosa dos aparelhos eletrônicos… Mas isto justamente remeteria o álbum ao contexto do “caldo cultural”. Não. Como todo grande álbum Jun Ray Song Chang não é produto de contexto, mas de uma subjetividade disposta a unir esforços em prol de uma expressão sonora sem par, sem comparação. Provém de um contexto, mas ainda assim lhe é alienígena. Uma disposição que tem seu trunfo na transfiguração dos sons e ritmos, na ironia, no humor, e em um excesso de expressão, uma sorte de equilíbrio entre exagero e minúcia que faz diferença. “Hana”, a faixa que celebrizou Asa-Chang e seus comparsas, é sem exagero, uma das aberturas de disco mais fascinantes de todos os tempos, com sua repetitiva cama de cordas que contrasta com a dinâmica rítmica variada formada pela sobreposição de tabla e voz. “Preach” e “Kobana” estão inseridos no contexto da música para o teatro kabuki, o nagauta. No entanto, muito embora conserve a dimensão dramática do gênero, rapidamente se converte em um experimento com ritmos e um belíssimo entrelaçamento de diferentes linhas melódicas. A histeria de “Goo-gung-gung” e a saga polirítmica “Jippun” também se encaixam na dinâmica rarefeita entre o contexto e sua superação, e podem até se tornar uma imolação aos ouvidos mais sensíveis e acostumados com determinadas sonoridades. Ao contrário, para os que se deleitam com o incômodo que algo absolutamente desconhecido pode evocar, trata-se de um desafio, motivo de júbilo e loas.

O trabalho de Asa-Chang & Junray pode ser arrolado no discurso do melting pot, sem dúvida. Porém, tal como a música dos grandes nomes dessa década, ela não se define por gêneros nem modelos, se não que pela confluência de determinados estilos e modos de produzir música. Mas, em sendo toda a música, assim como toda cultura, produzida a partir de matrizes heterogêneas, como se pode identificar a diferença? Semana passada, Ruy se referiu ao The Books como um OVNI, algo que à primeira vista não identificamos ou estranhamos demasiadamente. Uma boa imagem, mas que mantém o mistério da diferença, reportando o desconhecido a uma dimensão metafísica. O mistério, para mim, se localiza no paradoxo entre uma linguagem que se exprime de forma heterogênea e sintética, mas que, ao cabo de sua apresentação, torna-se irredutível não somente ao contexto de onde emergiu, mas a qualquer contexto. É o caso de Jun Ray Song Chang, sem dúvida. Um OVNI, um mistério, uma música que intriga, transtorna, torna tudo ao redor irrelevante e inócuo… Certamente um mistério para mentes acostumadas a distinção entre cultura de massas, folclore, cultura erudita, e outros currais conceituais que há muito perderam o sentido. Para os fãs de “sonoridades exóticas” o trabalho do Group Inerane ou do Konono n. 1 pode trazer uma novidade que depende tão somente da distância cultural, constituindo-se numa forma pobre e institucional de enquadrar a diferença. Mas o que estes grupos apresentam é a diferença radical, fora do âmbito seguro e domesticado do melting pot. (Bernardo Oliveira)

* # *

Parecerá até ultrajante o fato de eu criticar Jun Ray Song Chang nestas páginas, haja vista que se trata de uma das obras mais respeitadas da música moderna (estando presente nas listas anuais das conceituadas Blow Up e Wire) e um dos discos favoritos da década (por unanimidade) dos companheiros de blog Ruy Gardnier, Bernardo Oliveira e Marcus Martins, pessoas com as quais guardo grande afinidade musical. Mas não pretendo exatamente criticar o trabalho de Asa Chang, até porque não cabe a mim julgar o valor desta obra, que é vista com tão bons olhos por pessoas que entendem do assunto, e que está tão distante de mim culturalmente.

Pode ser essa distância, inclusive, que me impeça criar maior intimidade com as composições do álbum em questão; o que certamente não se deu por falta de tentativas. Tentei inúmeras vezes, e em diferentes momentos, gostar do LP, mas, à exceção de “Hana”, nenhuma música me tocou em especial, assim como o conjunto da obra não me passa nenhuma fluidez estética; além de causar fastio a partir de um dado momento.

Apesar de tudo, Jun Ray Song Chang não deixa de ser uma obra fascinante, única, que traz poucos precedentes musicais – ainda mais para ouvidos ocidentais. O que não significa também que a arte de Asa Chang seja puramente oriental, sem conter nódoas da cultura ocidental: há de se notar os padrões rítmicos da tabla em “Kokoni Sachiari”, que possuem uma influência nítida do drum’n’bass (numa transposição musical bastante notável). Outro petardo é “Goo-Gung-Gung”, da Tokyo Ska Paradise Orchestra, que extasia com seu ritmo incessante e o casamento perfeito entre cordas, percussão e efeitos eletrônicos.

Porém, no seu restante, o álbum – que prometia uma revolução musical na minha cabeça com “Hana” e seu arranjo hipnótico de cordas, permeado por percussões tresloucadas e sincronizadas às vozes – deixa a desejar tanto na individualidade das faixas (demasiado arrastadas e de melodias muito apáticas pro meu gosto), quanto no seu conjunto, que é pouquíssimo coeso e faz uma quebra por vezes muito brusca de uma música para outra – é exemplo maior a transição de “Hana”, uma faixa tão singela e flutuante, para “Preach”, que parece extraída de um desfile de banda em marcha lenta.

Reconheço o valor de Jun Ray Song Chang e o talento peculiar de seu criador, Asa Chang, mas o que não posso fazer é fingir gostar de algo que não me apetece. Esse “não gostar” pode ser consequência da distância cultural que nos separa, ou simplesmente culpa de um ouvido deseducado (mas nunca desatento ou indolente). Tudo é uma questão de tempo. O importante (ou nem um pouco importante), agora, é que Jun Ray Song Chang sairá do meu HD (à exceção de “Hana”, talvez) para não voltar tão cedo. (Thiago Filardi)

* # *

Não dá muito para entender de onde vem o intenso poder emocional provocado por “Hana”, a faixa que abre Jun Ray Song Chang. Sozinha, ela já seria motivo para eternizar Asa-Chang & Junray como uma das mais belas coisas a ter surgido na década. Seria possível utilizar todo o espaço do texto só para falar dela (e inutilmente tentar dar conta). Inicialmente, há uma casa de cordas tangidas, dramáticas e letárgicas. Em seguida surgem vozes, duas, homem e mulher, às vezes juntos, às vezes separados, cantando/falando de um jeito que não ignora a casa de cordas, mas recorta ritmicamente o tempo de um modo inaudito. Logo depois vem a tabla, esse instrumento indiano de percussão que toca exatamente por sobre as vozes, cada nota uma batida, aumentando pronunciadamente o recorte do ritmo efetuado pelo canto. E assim a faixa se desenvolve pelos seus 6min40, com um clímax de velocidade na metade e outro ao final, além de uma misteriosa quebra e retomada ali quase no fim. Que mistério tem Clarice? O exotismo de “Hana” não deve ser atribuído a qualquer caldo cultural de referências e contextos: ela é alienígena em qualquer parte do mundo, e essa maneira completamente inédita de fazer a tabla acompanhar a voz – além da voz falada utilizada como deflagrador rítmico, como que robotizada, e ainda assim intensamente carregada de empatia e drama – é um achado monumental, manancial possível para diversos músicos criarem maravilhas (o próprio grupo já fez com “Senaka” sua espécie de atualização do procedimento, dessa vez mexendo eletronicamente para intervir na duração da voz e acrescendo um grau maior de estranheza e mistério ao canto – na opinião deste escriba, “Hana” e “Senaka” só encontram adversário para o título de música da década em “Emily” de Joanna Newsom).

O grande destaque de Jun Ray Song Chang é “Hana”, sem dúvida alguma, mas a beleza está longe de ser esgotada na primeira faixa. Ela nunca atingirá os mesmos patamares de intensidade – o que pode criar um desassossego no ouvinte sedento por mais –, mas ao longo das outras dez faixas desenhará um panorama diverso de approaches, climas e instrumentos de predileção. Alguns, aliás, tão originais e prodigiosos quanto “Hana”. As cinco primeiras faixas do disco são arrebatadoras: “Preach” e sua melodia improvável de metais, lembrando um coreto (o padrão voltará na fenomenal “Kaikyo”, de Tsu Gi Ne Pe), em meio a sons de tabla e de voz absolutamente processados que quase perdem sua característica; “Kobana” e sua singela melodia de escaleta sendo dobrada por blips eletrônicos, que fazem casa para uma versão mais esquisita do padrão tabla x voz (aqui processada de modo a parecer a voz de um bebê de marte); “Nigatsu” e a voz recortada eletronicamente, sem acompanhamento, até que uma melodia de guitarra evocativa do primeiro disco de John Frusciante toma a dianteira e dá ao todo um equilíbrio cubista e misterioso. “Goo-Gung-Gung” e seu ritmo tresloucado de música de festa que tem sua maneira bem peculiar de incorporar o breakbeat mas soando totalmente diferente de qualquer coisa feita no gênero. O que mais espanta é que essas faixas, juntas, apontam mais para fora do que para si mesmas, tão distintos os modos de composição, e ainda assim testemunhem uma coesão de pesquisa e sensibilidade.

O que vem a seguir não é melhor do que veio antes, mas está longe de decepcionar. É certo que a progressão de “Jippun” foi trabalhada mais efetivamente em “Tsuginepu to ittemita”, e que não custava ter uns dois minutinhos a menos, mas isso é detalhe perto das sonoridades conseguidas, irmãs de experimentação com pitch do que o Neu! fez em seu segundo álbum (ainda que no geral, em se tratando de krautrock, Asa-Chang pareça apontar mais para um parentesco com o Faust do começo). “Kokoni Sachiari” toma do drum’n’bass a batida e, sem nenhuma densidade de graves, leva o embate para seu campo, soando mais Aphex Twin ou Third Eye Foundation do que qualquer figura mais associada ao db. “Radio-no-youni” faz com cítara e gaita uma homenagem a Brigitte Fontaine, e atentando para um bem-sucedido procedimento do grupo: isolar uma melodia particularmente cativante, se maravilhar com sua beleza imediata e daí partir para variações (as duas vinhetas intituladas “Kutsu” seguem o mesmo espírito).

Jun Ray Song Chang não é um disco perfeito. É até mesmo possível argumentar que Tsu Gi Ne Pu, mesmo não tendo nada tão magnífico quanto “Hana” ou “Senaka”, é o disco mais focado e perfeito lançado até hoje pelo grupo. Mas até a imperfeição do disco é assustadoramente bela, e tudo que ele traz de inovador e inaudito garante a Jun Ray Song Chang um lugar bem alto entre as coisas mais significativas produzidas nesta década. Além, claro, de uma faixa para entrar para a história, como “Emily”, como “Windowlicker”, como “Teen Age Riot”, “I Am the Walrus”, “Happy Together”, “Vagabundo Não É Fácil”… (Ruy Gardnier)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 8 de julho de 2009 por em experimental e marcado , , , .
%d blogueiros gostam disto: