Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Jay-Z – “D.O.A. (Death of Auto-Tune)” (2009; Roc Nation, EUA)

jayz

Para entender a polêmica: Auto-Tune é um plugin de programas de gravação sonora que corrige as eventuais desafinadas e mudanças de tom de cantores menos dotados. Mas não é desse uso do Auto-Tune que Jay-Z está falando. É de um uso não-corretivo do plugin, que cria um efeito curioso na voz, um pouco parecido com o vocoder, mas mais doce. Segundo a Wikipedia, o efeito apareceu de modo mais proeminente com a cantora Cher, em 1998, e sua canção “Believe”. Mas virou fenômeno mesmo pela contínua utilização de rappers, em especial T-Pain, que tentou fazer desse uso do Auto-Tune uma marca de personalidade (“You’re T-Pain’ing too much”, alveja Jay-Z no final da faixa). Mas a moda pegou e generalizou-se, e até figuras de proa do hip-hop como Kanye West e Lil Wayne usam e abusam do procedimento. Ou seja, quando Jay-Z já chega declarando morte ao Auto-Tune, ele está detonando toda uma certa tendência do hip-hop atual, e uma tendência que está nos holofotes. E quem já viu Jay-Z dissing (“insultando”, já uma tradição beligerante entre rappers, rendendo clássicas lutas, talvez a mais famosa sendo do próprio Jay-Z com Nas) sabe que ele não deixa pedra sobre pedra.

“Only rapper to rewrite history without a pen” é um primeiro verso devastador, atentando para a habilidade singular de Jay-Z de jamais escrever suas letras, tendo-as todas decoradas na cachuleta. “I’m a multi-millionaire/So how is it I’m still the hardest nigga here?”, no final, corrobora a imagem edgy do rapper. E por quê? “Death of the ringtone”, “This ain’t for Itunes”, “my raps don’t have melodies”: o começo do rap já de partida deixa os advogados do Auto-Tune parecendo joguetes vendidos ao comércio em sua faceta mais infantilóide e nerd, além de substituir a frontalidade crua do rap pelas seduções frescas da melodia criada pelo infame plugin. “I know we facin’ a recession/But the music y’all makin’ gonna make it the great depression” acaba eloquentemente com o caso, aproveitando a crise mundial para dizer que rapear com Auto-Tune é pior ainda.

“D.O.A. (Death of Auto-Tune)” mostra o porquê de Jay-Z ainda ser o sujeito que carrega o cetro. A música está repleta de versos geniais, cheios de atitude, vocal imponente, além de que a produção escolhida (a cargo de No I.D. e Kanye West, ironicamente um dos devotos do efeito, tendo usado e abusado dele no disco 808s & Heartbreak) é genial, bateria de rock seca e potente com duas melodias, uma de guitarra e outra de saxofone, que se unem à perfeição (o sample é de “In the Space”, de Janko Nilovic and Dave Stuckey). O rapper zomba das cores das roupas, dos jeans apertados, das vozes sem força, ou seja, zomba do hip-hop transformado em circo fofinho. “This is practically assault with a deadly weapon”: um assalto a mão armada com um corpo estendido no chão. Qual? “This is death of Auto-Tune, moment of silence”. Obrigado, Jay-Z. (Ruy Gardnier)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 10 de julho de 2009 por em hip-hop e marcado , , , , , .
%d blogueiros gostam disto: