Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Michael Jackson – “Smooth Criminal” (1987; Epic, EUA)

smooth

A forma ajuizada e ideal de prestar tributo a Michael Jackson seria colocar na vitrola (ou carregar no mp3) Off the Wall e Thriller, dois testemunhos absolutos do talento de cantor e compositor do artista, e relembrar o quanto ele foi realmente grande. Mas o vício da profissão às vezes condiciona a outros caminhos, ou talvez isso seja apenas a justificativa para a reação muito mais pessoal e incomum que tive: fui ouvir Bad. E fui com um espírito não muito diferente do jornalista que foi devassar a vida do magnata em Cidadão Kane: tentar compreender onde tudo começou a dar muito errado; em que momento o rei, ainda mantendo aos olhos da maioria a coroa, perdeu a realeza. Óbvio que muitos hão de levantar inúmeras questões biográficas, psicológicas, empresariais etc. Muitas podem, inclusive, ser válidas para a compreensão geral do fenômeno. Mas aqui nos interessa falar de música.

Na época do lançamento de Bad, eu era uma criança recém entrada no curso ginasial. Podia não saber muita coisa, mas sabia que a imagem “bad” não era nada condizente com a figura de Michael Jackson. E não era só questão de atitude: a roupagem de hard rock envergonhado da faixa, tentando capitalizar em cima do sucesso de “Beat It”, também não convencia muito. A semelhança com o tema de Ghostbusters também não ajudava muito. [Jackson seria responsável por outro miscasting ridículo anos depois: reaparecer com o single “Black or White” quando seu próprio rosto já dizia outra coisa.] Como um todo, Bad é um disco regular de r&b, ou seja, alguns singles e o resto pra encher linguiça. Seu principal problema talvez seja a falta de coragem, ou talvez o fato de que as músicas não são ganchudas o suficiente, ou, quando o são, cansam facilmente por serem melosas. “Smooth Criminal” escapa disso por ser a única do disco a aproveitar duas características marcantes de Jackson como cantor: seu incrível gingado vocal quando canta versos em alta velocidade e seu uso de falsete. São marcas que constituem boa parte da graça de “Don’t Stop Till You Get Enough” e “Wanna Be Startin’ Something”, duas de suas músicas que mais merecem candidatura à posteridade. “Smooth Criminal” pode não estar no mesmo patamar, mas é por pouco: é a última ocorrência de um Jackson vibrante, arriscando versos com um equilíbrio diferente, suingando, jogando mais pro funk do que pro pop. Prova de que ele podia não ser mais rei (1987 é o ano de nada menos que Sign o’ the Times, obra-prima de Prince e marco musical dos anos 80), mas ainda tinha momentos em que era capaz de participar da majestade. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 12 de julho de 2009 por em pop e marcado , , .
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