Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Moritz von Oswald Trio – Vertical Ascent (2009; Honest Jons, Reino Unido)

mvo

Moritz von Oswald é um produtor alemão de música eletrônica, mais famoso por ser metade da dupla responsável pelo selo Basic Channel, pioneira do dub techno e do minimal techno. Assinando sob diversos pseudônimos (Radiant, Cyrus, Quadrant, Phylyps, Radiance, Maurizio), a dupla lançava seus singles unicamente em vinil, criando um culto e inaugurando uma linhagem que persiste até os dias de hoje. Na segunda metade dos anos 90, a dupla formou o projeto Rhythm & Sound, para explorar o dub por viés do reggae. O trio de Moritz von Oswald se completa com Sasu Ripatti, mais conhecido por seus projetos Vladislav Delay, Luomo e Uusitalo (entre outros), e Max Loderbauer, que foi du Sun Electric e hoje atua como 50% da dupla nsi. Vertical Ascent nasceu de uma série de sessões de improvisação que o trio realizou, das quais algumas partes foram selecionadas, editadas e reequalizadas por Oswald. (RG)

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Quando o Basic Channel surgiu, sabia-se pouco sobre os produtores que estavam por trás daquela música: os discos eram lançados em vinil, apenas com os nomes das faixas e do selo, sem qualquer discriminação na capa sobre quem tocava e compunha aqueles épicos eletrônicos, à exceção de frases apologéticas ao vinil, como “Buy vinyl”. Na verdade, Basic Channel nunca foi a alcunha do projeto, mas o nome do selo que, mais tarde descobriu-se, fora fundado pelos produtores alemães Moritiz von Oswald e Mark Ernestus. O resto da história já conhecemos: os tais vinis de informações escassas abalaram o mundo da música eletrônica, com suas produções ousadas, cheias de efeitos, ecos e timbres inauditos ou, pelo menos, nunca sobrepostos e utilizados daquela forma. Daí pra frente, música eletrônica experimental deixou de ter como sinônimo apenas a Warp, mas um turbilhão de gravadoras e artistas, que com as inovações do BC, incorporaram de vez o elemento dub em suas criações.

A não revelação da identidade não se bastava somente como efeito midiático e estratégia de marketing (apesar de não deixar de sê-los em certa instância), até porque a música do BC não almejava o sucesso comercial – tampouco ser hit nas pistas de dança. O importante, para Oswald e Ernestus, era única e exclusivamente a música. Eles queriam que as pessoas prestassem atenção na música – que, aliás, pede certa diligência do ouvinte para ser totalmente compreendida – e não em quem as faz. Os segundos estariam em função do primeiro, assim como o interlocutor, que estando conectado somente à música, não teria qualquer ligação com seus criadores.

Hoje vemos a influência do BC cada vez mais ubíqua na música eletrônica – seja no techno, house, garage, dubstep, wonky, funky, etc – e, não obstante, trespassando a esfera musical: há selos ingleses como Thriller (de Luke Blair, o Lukid) e Hate que se aproveitam do mesmo estratagema dos alemães para lançarem suas músicas (vinis de doze polegadas contendo apenas o nome do selo e das respectivas faixas) e produtores como Burial, que colocou no mercado dois LP’s antes de revelar sua identidade.

Recentemente, Moritz von Oswald concedeu sua primeira entrevista a uma revista inglesa e deixou de ser aquela figura completamente reclusa, sobre cuja vida não sabemos absolutamente nada. Mesmo assim, seu propósito continua o mesmo: a música, nos deixarmos levar por ela. E é desse intuito primeiro e maior que nasce Vertical Ascent.

Gravado em sessões ao vivo, ao lado de Vladislav Delay (percussão) e Max Loderbauer (sintetizador), o disco de Oswald – que mesmo debilitado por conta de um derrame que sofreu no ano passado, ainda foi capaz de operar mais da metade dos instrumentos e aparelhos utilizados (teclado, piano elétrico, bateria eletrônica, percussão e sintetizador) – demonstra um sincretismo cada vez mais sintomático à música contemporânea, a partir do qual não conseguimos identificar um estilo predominante no produto sonoro e sequer arrolá-lo a um determinado gênero. Nem “música eletrônica” podemos mais falar, já que neste disco foram utilizados piano Rhodes e percussões metálicas. Sua própria feitura, baseada na improvisação grupal ao vivo, se enquadra mais às tradições jazzísticas e da música improv que à própria eletrônica. Mas é essa contração despojada que dá brilho e importância a Vertical Ascent, pois não importa se os sons são produzidos à base de eletricidade ou não: o trio busca uma organicidade de som, uma música que flua e se desenvolva conforme suas necessidades e características de timbre. “Pattern 1”, por exemplo, começa com efeitos à la BC, para depois de um minuto e meio, entrar um batida mais grave e abafada (pode-se falar até em 2/4 aqui), que ditará o ritmo de todos os outros componentes por quase todo o período de duração da faixa. Já em “Pattern 2”, o que se sobressalta é um som próximo ao de um berimbau, que junto a outros efeitos eletrônicos e à programação de bateria, cria uma atmosfera algo misteriosa, mas perfeitamente penetrável por causa da sintonia e relação complementar dos sons envolvidos.

“Pattern 4”, com sua batida extremamente desacelerada para alguém que já foi membro do BC, é a mais ruidosa e talvez o grande destaque do disco. Ela nos envolve com seu clima um tanto místico e sombrio (com o grave da bateria ditando o ritmo novamente) por sete minutos e meio, até que os ruídos começam a se intensificar e a música termina bruscamente. Se em suas quatro faixas, o trio de Oswald não faz jus ao título – inclusive contrariando-o com sua constância horizontal de volume e tempo –, em “Pattern 4” a conclusão inesperada indica, finalmente, uma ascendência vertical, ou se preferir, como expõe a capa, o lançamento de um foguete. (Thiago Filardi)

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O final da década passada viu o jazz progressivamente se afeiçoando da eletrônica, incorporando-a a seus procedimentos e criando pontes inusitadas. Entre diversas ocorrências dignas de menção, vale especialmente lembrar do FennO’Berg, trio superstar composto por Fennesz, Jim O’Rourke e Peter Rehberg (Pita), pioneiro da improvisação exclusivamente feita em/processada por laptop, e a Blue Series, série de colaborações capitaneada por Matthew Shipp que desde meados dos anos 90 chama músicos de hip-hop e eletrônica para colaborar de formas distintas com músicos tradicionalmente ligados ao jazz. Entre DJ Spooky, Antipop Consortium, El-P, entre outros, o caso mais feliz é o do Spring Heel Jack, que modificou sua carreira depois da experiência e nos deu alguns dos mais belos discos desses últimos dez anos.

Mas até agora não tinha surgido aquele disco – ou pelo menos eu não conheço um antecedente – que é basicamente um disco de jazz tocado exclusivamente com vocabulário sonoro (timbres, formas de instrumentação etc.) da música eletrônica com caráter mais voltado para a pista (err, techno). Agora surgiu: é Vertical Ascent. O disco é mais que um encontro megaestelar entre Moritz Von Oswald (o homem que representa metade dos selos/projetos Basic Channel e do Rhythm & Sound, além de ser o homem por trás do projeto Maurizio), Sasu Ripatti (mais conhecido como Vladislav Delay, mas também Luomo, Uusitalo etc.) e Max Loderbauer (nsi.), o que por si só já seria um acontecimento notável. O disco é uma fantástica investigação a respeito das possibilidades de improvisação do techno. E isso sem demérito de um imediato prazer auditivo: as quatro faixas de Vertical Ascent são tão sensuais e vibrantes em sua matéria quanto o conceito é preciso em sua forma.

Inicialmente, o disco pode espantar aqueles que seguem mais detidamente o trabalho de Von Oswald. Nesse disco, duas de suas características mais marcantes não estão muito presentes. Uma, a repetição, é abolida; outra, a fidelidade aos graves do dub, é sensivelmente minimizada. No primeiro caso, as intervenções improvisadas do trio formulam um contínuo desenvolvimento (ainda que não exatamente uma progressão) dos temas centrais, aqui designados “padrões” (Pattern 1 a 4); e o formulam de uma forma imperiosa, em que a sutileza das nuances rítmicas e dos timbres atingidos só equivale à leveza geral com que cada faixa flui ao longo de sua duração. Quanto às linhas de grave, elas estão lá, só que mais discretas, ainda fazendo a diferença em faixas como a segunda e a última. Mas o que Vertical Ascent mais toma do dub é a forma de construir um espaço através do qual as outras intervenções poderão seguir livre curso. Nesse sentido, é até possível fazer uma aproximação com algumas faixas do Orb de longa duração, como o remix de 60min de “Blue Room” ou o marco “A Huge Evergrowing Pulsating Brain that Rules from the Centre of the Ultraworld”, resguardando as diferenças de approach, no caso do Orb bem mais psicodélico e absurdista, e, no caso desse trio, coeso e minucioso. O que, no entanto, une indelevelmente as preocupações de Moritz Von Oswald com todo seu trabalho pregresso é a natureza fugidia das sonoridades aqui presentes: elas brotam, existem durante o tempo em que são executadas e depois parecem se dissolver numa bruma espessa da consciência, sem deixar o ouvinte com sequer uma nesga de melodia a murmurar (ainda que o cowbell, o berimbau, as marcações 4/4 a gente decididamente lembre…). Ao fim, uma única impressão, acachapante: trata-se de um disco único, que reitera – como se precisasse – a importância de Moritz Von Oswald para o mundo da música, e que abre um enorme terreno a ser explorado. Ou seja, nada menos que um marco. (Ruy Gardnier)

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A ansiedade é inimiga da análise, do cuidado e da atenção. Somente na vigésima audição se comeca a entender e a gostar de verdade de Vertical Ascent. De primeira, isto é, tomado por uma exultante empolgação, esperei o paroxismo de uma vida, mas o paroxismo não é a senha para Vertical Ascent, muito embora Moritz von Oswald seja o arquiteto de um dos mais influentes e geniais panoramas sonoros das últimas décadas. Com seu parceiro Mark Ernestus fundou o selo Basic Channel, de onde saiu uma verdadeira revolução no mundo techno. Através de singles assinados sob diversos pseudônimos, o Basic Channel ditou algumas tendências que vigoraram desde então, algumas mais ligadas ao minimal e ao acid techno, outras aparentadas do dub jamaicano e do ambient, mas todas extremamente inovadoras no que diz respeito a incorporação de sons e procedimentos oriundos de pesquisas eletrônicas e eletroacústicas. Quase que simultaneamente, eles tocavam também o projeto techno Maurizio e, mais tarde, capitanearam outro trabalho tão inovador quanto o BC, o Rhythm & Sound. Contando com a participação de toasters e djs jamaicanos, como Paul St. Hilaire e Sugar Minott, criaram uma sonoridade atmosférica, antecipando algumas inclinações que pouco mais tarde seriam exploradas pelo dubstep. Depois, a vida e a obra de Oswald tomaram um rumo estranho. Primeiro, uma parceria inócua com Carl Craig que lhe rendeu opiniões as mais controversas; depois, um derrame em outubro de 2008, que o obriga a operar e mixar apenas com uma mão. Vertical Ascent, portanto, justifica uma certa ansiedade, uma curiosidade irresistível. Tenho certeza que os mais interessados em música nova e criativa já se perguntavam o que viria pela frente. Anunciado, o álbum demorou para vir à tona, e durante alguns meses vivi o suspense de ouví-lo. O que nos aguarda, como será a viagem, a onda? Representará mais uma revolução? O que a mente de Moritz von Oswald nos proporcionará desta vez?

E a resposta veio sob a forma de um trio de música improvisada, com o produtor e baterista Sasu Ripatti (AKA Vladislav Delay, que a propósito acaba de lançar o excelente Tummaa) e um velho parceiro, Mark Loderbauer (nsi. e Chica and the Folder). Segundo Oswald, os planos do Trio se concentram na gravação de álbuns ao vivo, sendo Vertical Ascent seu primeiro volume. Coube ao band leader a execução dos teclados, efeitos e a manipulação da mesa de som, enquanto Ripatti executa instrumentos de percussão e Loderbauer, sintetizadores e laptop. E mais uma vez, ainda que mais discretamente, o som é algo difícil de descrever, de analisar, a não ser através de referências mais ou menos conhecidas, na medida em que não se explica pela abrasividade techno do Basic Channell, nem pela letargia do Rhythm & Sound. Tal como o Fellini de Amarcord, Oswald parece sondar os primórdios, a música que o fez aderir de forma contundente a sua profissão de fé, o experimentalismo. O jazz está presente através do improviso; sob um ponto de vista formal, Vertical Ascent é um disco de jazz, onde cada um dos participantes é chamado a intervir nos quatro “patterns” (ironia?) que o compõem. Um outro aspecto tão importante como fascinante é a construção rítmica dos “patterns”, que cobre um amplo espectro de possibilidades, desde um techno “arabizado” até o dub arrastado; mais uma vez a palavra “pattern” soa como uma ironia, devido a quantidade vertiginosa de alterações que estruturam as faixas. Nota-se também que Ripatti explora brilhantemente uma série de timbres percussivos, utilizando aço, madeira, percussões digitais e até mesmo um berimbau. E, last but not least, a utilização do estúdio enquanto instrumento musical, princípio fundamental do dub, pelo qual o jovem Oswald se apaixonou em meados da década de 80 e através do qual vem perfazendo seu caminho musical. Talvez em nenhum outro álbum ou faixa produzida por ele este aspecto se apresentou com tanto vigor, através de inserções ao vivo e intervenções posteriores sobre todos os “patterns”.

Vertical Ascent é um disco fabuloso, para ser degustado aos poucos, com calma e parcimônia. E mesmo assim se torna um desafio para aqueles que desejam expor seu conteúdo em palavras. Podemos até afirmar que o improviso (o jazz), a exploração de timbres (a música eletrônica) e a manipulação posterior em estúdio (o dub) constituem as linhas mestras de sua singularidade. É pouco. Poderíamos dizer que é uma música “mundial”, que incorpora influências norte-americanas, inglesas, jamaicanas, árabes, etc. Ainda é muito pouco. De resto, assumo a incapacidade de atribuir rótulos à minúcia de suas sínteses, texturas e modulações. E advirto, não perca tempo: Mortitz von Oswald voltou, e voltou por cima, com um dos melhores álbuns do ano. Capaz até mesmo de desafiar o já-ganhou e a majestade de Merriweather Post Pavilion. (Bernardo Oliveira)

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Um comentário em “Moritz von Oswald Trio – Vertical Ascent (2009; Honest Jons, Reino Unido)

  1. françois
    19 de julho de 2009

    Esse um dos blogs de conteúdo mais consistente e interessante que eu conheço. Parabéns pelo bom trabalho.

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Publicado às 15 de julho de 2009 por em eletrônica, jazz e marcado , , , , , , , .
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