Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Mu – Afro Finger and Gel (2003; Output, Reino Unido)

afro finger and gel

Mu, a despeito de ser o apelido de Mutsumi Kanamori, é o nome do projeto que ela e seu marido, o DJ e produtor Maurice Fulton, levam adiante. Fulton é originário de Baltimore, EUA, e produz dance music, em especial house, desde os anos 90, tendo trabalhado para artistas como Crystal Waters, Ultra Naté e Kathy Diamond, e remixado uma infinidade de outros, entre os quais Annie, Telex e The Rapture. Mutsumi é japonesa. Os dois vivem em Sheffield, Inglaterra. Afro Finger and Gel (2003) é o primeiro disco do projeto. O segundo, Out of Breach (Manchester’s Revenge), veio dois anos depois. (RG)

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Quem é Mu, de onde surgiu, que fim levou? Certamente não estou me referindo à banda de rock psicodélico do final dos anos 60 e início dos 70 – e também esquecida –, da qual fez parte Jeff Cotton (um dos guitarristas da primeira formação da Magic Band de Captain Beefheart), mas à cantora japonesa Mutsumi Kanamori. Faço essas perguntas pois, embora saibamos sua nacionalidade e local de residência (Londres), não temos muitas informações a respeito da origem e intento do projeto, cujo cabeça maior parece ser Maurice Fulton (produtor, instrumentista e arranjador). Mu possui apenas dois discos: este, de 2003, e Out of Breach, de 2005. Atualmente não temos notícia alguma dela, tampouco se o projeto ainda existe e se há possibilidade de novos trabalhos.

Todo esse “mistério” em torno de Mu é interessante porque o que ouvimos em Afro Finger and Gel é uma sonoridade bem característica do electro, mas com níveis de experimentação nunca vistos antes nesse subgênero. As inspirações maiores para Fulton me parecem ser Liquid Liquid e ESG, dois grupos americanos ligados à cena pós-punk novaiorquina, que faziam uma espécie de disco-funk experimental. O que mais chama a atenção em Afro Finger and Gel é o seu caráter percussivo. Atrás (ou à frente, levando em conta a mixagem) dos vocais soturnos de Mutsumi, escutamos sons percussivos tão fortes e tão variados, que os mesmos parecem advindos de um exército tribal que utiliza elementos musicais totalmente díspares entre si, como ritmos cubanos, samba, disco-funk e o próprio electro. Há de se observar também a riqueza e o detalhismo da produção, que enquanto esmaga o ouvinte com seus arroubos marciais de bateria, intercepta a mesma com pausas e glitches, tornando o material ainda mais fascinante.

Diria também que Mu serviu de inspiração para MIA – um nome de grande expressividade nessa década –, que com o apoio do DJ Diplo, lançou em 2005 seu primeiro disco, Arular, trazendo exatamente esse caldeirão de sons percussivos, enriquecidos com seus vocais exóticos. Portanto, não seria hiperbólico declarar que Afro Finger and Gel é um dos álbuns mais inventivos e vigorosos dos anos 00. (Thiago Filardi)

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Pense no neo-hedonismo desses anos ’00. Pense em Peaches, pense na revitalização da disco, pense na gratuidade tão descartável quanto agressiva da música pop que flerta com a estética ringtone, e pense na transformação do swing de branco do pós punk, de Gang of Four a Liquid Liquid, em discopunk na virada da década pelos badalados artistas da gravadora DFA. Não são coisas que se combinam tão harmoniosamente assim, mas todas parecem brotar de impulsos e ímpetos semelhantes, recorrendo a formas muito diretas, quando não primitivistas, afrontosas, escandalosas, de chamar a atenção e fazer chacoalhar (esse contexto e essa abertura de proposta, aliás, facilitaram bastante a exportação do funk carioca para as pistas do resto do mundo). Mu é um projeto que parece incorporar todos os elementos descritos acima, por mais paradoxais que sejam, numa única sonoridade. Afro Finger and Gel consegue fazer com que a gente imagine juntas coisas tão díspares quanto Boredoms e “Hey Mickey”, Atari Teenage Riot e Donna Summer. Isso, por si só, já indica o interesse: é uma música provocativa, irônica e imponente que, a despeito de ser construída com pedacinhos tirados dos outros, mostra uma personalidade distinta. Está longe de ser arrolável como apenas mais um projeto de electro.

Em primeiro lugar, o que chama atenção é a maneira de fazer grooves. Quase todas as levadas de bateria, pontualmente ajudadas por um baixo ou uma guitarrinha, produzem um suingue impressionante, mas um suingue também impressionantemente desossado: os arranjos evitam o cheio, o dosado, fazendo a percussão na maioria das vezes atacar sozinha, aderindo eventualmente à batucada, ao bate-lata, ao sambão, ao hardcore digital, à disco, ao house etc. Isso dá ao Mu uma identidade mais de postura que de gênero, porque eles incorporam tudo que fizer sentido à salada. O objetivo? Um certo senso de ataque. É nesse momento que faz sentido a participação da cantora Mutsumi Kanamori, aquela que responde pelo projeto (ainda que muitos cheguem ao Mu pelas produções de Maurice Fulton, marido de Mutsumi e um dos DJs americanos mais respeitados do mundo). É um vocal performático e incendiário, estridente, que intervém mais que canta, projeta mais do que interpreta.

Em boa parte dos casos o resultado é muito bom. Em outras, a mistura parece um tanto requentada. Caso por exemplo de “Hello Bored Biz Man”, em que uma melodia de salsa no piano faz a faixa parecer música de festinha de aposentados; ou “My Name Is Tommi”, uma historinha tão auto-irônica que cansa pelo excesso de descompromisso, incapaz de equilibrar a nonchalance com o charme necessário de contrapeso. Pode-se contestar também o tamanho excessivo das faixas, grandes demais para o que se resolve dentro delas. Mas 50% do disco, a saber, as três primeiras e “Chair Girl” e “Tell You Something”, mais que compensam a cativante proposta de agressão suingante operada por Fulton e Kanamori. (Ruy Gardnier)

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O hábito de ouvir música antes de dormir já me fez perder o sono. Aconteceu na primeira vez que escutei Fun House e Olé Coltrane: ambos acenderam o fogo inexorável da curiosidade, me fazendo perder a noite. Não que Afro Finger and Gel esteja no mesmo patamar das obras citadas, não está. Mas, assim como Thought for Food e Jun Ray Song Chang (e imagino que o Marcus esteja tomado pela mesma inclinação dos proponentes destes álbuns, qual seja, compilar o que melhor se fez nesta década) trata-se de um objeto não identificado, estranho e irredutível a suas referências. Alguns álbuns do mesmo ano são bastante surpreendentes, como o segundo do Prefuse 73, Hail to the Thief do Radiohead, Black Album do Jay-Z, Rounds, do Four Tet… Mas nenhum desses carrega a qualidade alienígena como Afro Finger… Quando parece que será mais um tributo enviesado aos famigerados anos 80, toma o rumo de um Cassiber; quando se espera que, agora sim, o turbilhão de ritmos digitais nos encaminhará para uma sonoridade próxima do eletro, as percussões cubanas e o samba (sim, o samba!) tomam de assalto. E assim vamos, aos trancos e barrancos, tentando decodificá-lo, inseri-lo em algum movimento, em alguma perspectiva mais ou menos reconhecível que dê alguma segurança ao crítico… Pobre crítico! Fracasso ante fracasso, ele simplesmente deixa o álbum soar, como quem, absolutamente tomado por sua irreverência, desiste e se deixa levar por um caminhão desgovernado, um navio prestes a naufragar…

Fulton, sabemos, abandonou a biologia marinha para se dedicar a produção musical, tendo colaborado com Jimi Tenor, !!!, e produzido um clássico de Crystal Waters, “Gypsy Woman (She’s Homeless)”, entre outras façanhas… Mas quem é Mutsumi Kanamori, sua esposa? Ela é tudo o que Peaches, M.I.A., Marina Vello, Santigold e outras meninas metidas a bad girl queriam ser. Sua voz não é bela, nem potente, não conheço sua performance… Mas gravada e manipulada, Kanamori soa como uma promessa de que não haverá segurança: balbucios, gritos guturais, grunhidos e um amplo arsenal de obscenidades conduzem o ouvinte a um ambiente plenamente instável e imprevisível. E a instrumentação, como afirmei acima, não fica atrás: mistura de samba, salsa, techno, disco, reggae, dub, punk, noise, etc., nas suas mais variadas vertentes, compondo um painel sonoro áspero, difícil, permeado ao mesmo tempo por um clima de festa e celebração. Algumas comparações possíveis, ainda que desproporcionais: ouvindo “Afro Finger” e “Hello Bored Biz Man” lembrei do Van Dyke Parks de Song Cycle, devido a qualidade radicalmente heterogênea de suas composições e arranjos (o que é aquela coda meio samba de “Afro Finger”?). E do Captain Beefheart de Trout Mask Replica, pelo mesmo motivo. Entre o distúrbio sonoro e a “quebra de decoro”, o álbum lembra também a ironia festeira de Diplo, Santigold e Spank Rock, embora, em termos propriamente artísticos, esteja anos luz à frente de todos eles. Às vezes recordamos a urgência de um Atari Teenage Riot… Mas são apenas evocações.

Afro Finger and Gel é um indivíduo impróprio, deslocado. Impróprio para menores, para o relaxamento antes do sono, para a pista de dança… Devemos inclusive cuidar de nos prepararmos adequadamente até mesmo para sua audição. Algumas vezes pode parecer pobre e simplório, quando, já compreendendo o caminho do trabalho, nos deparamos com demoradas sessões dançantes, como em “Chair Girl” e “Tell You Something”. Mas mesmo nesses momentos, pode ter certeza de que mil sugestões serão emitidas de forma a descontextualizar um eventual efeito vagabundo, ou um ritmo básico demais. Essas sugestões, essas “dicas” que aos poucos o álbum nos fornece em nada alteram a percepção de que este incômodo foi cuidadosamente previsto. Mais que isso, Afro Finger and Gel me parece uma conjunção de esforços e aportes musicais muito diversos e maquiavelicamente articulados em prol de uma sonoridade singular. Afinal, o que esperar de uma dupla formada por um americano e uma japonesa que moram em Londres e lançam discos na França? (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 15 de julho de 2009 por em eletrônica e marcado , , , .
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