Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Current 93 – Aleph at Hallucinatory Mountain (2009; Coptic Cat, Reino Unido)

c93

Current 93 é um projeto musical capitaneado por David Tibet, cantor e músico nascido na Malásia, mas estabelecido na Inglaterra. Ele começou sua carreira colaborando em discos do Psychic TV, Nurse with Wound (de Steven Stapleton, seu amigo e parceiro assíduo de estúdio) e 23 Skidoo, até que em 1984 lançou o LP de estreia do C93, Nature Unveiled, seguido por Dogs Blood Rising, do mesmo ano. Swastikas for Noddy (1988) representou uma mudança no trabalho de Tibet, que das experimentações e colagens industriais dos primeiros discos, migrou para o folk apocalíptico – estilo ao qual é fiel até hoje. Aleph at Hallucinatory é seu último álbum oficial, e contou com a colaboração de músicos renomados como James Blackshaw (violão de 12 cordas e piano), Andrew W.K. (baixo, piano e voz), Baby Dee (piano e órgão), Alex Neilson (percussão), Rickie Lee Jones (vocais), Matt Sweeney (guitarra e vocais), John Contreras (violoncelo e sintetizadores), além da atriz pornô Sasha Grey (vocais) e outros nomes menos conhecidos. Steven Stapleton e Andrew Liles, que produziram e mixaram o disco ao lado de Tibet, também adicionaram efeitos eletrônicos às músicas. Além do C93, Tibet é dono do selo Durtro, que revelou ao mundo Antony and The Johnsons. (TF)

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Uma das faixas mais marcantes de Black Ships Ate the Sky, disco antecessor a esse, era exatamente uma segunda versão da música de mesmo nome, que diferentemente das outras canções, calmas e melancólicas, possuía guitarras pesadas e a voz raivosa de Tibet, revisitando o tema recorrente do disco. No final, ele cantava até se esgoelar: “who will deliver me from myself?”, numa interpretação comovente, tamanha é sua crença no que está cantando. A primeira coisa que veio à minha mente, na época, é que Tibet deveria explorar mais esse lado pesado e esporrento, que dava ares desesperadores a Black Ships (era a antepenúltima faixa – até chegar nela, o ouvinte já se encontrava maravilhado com a beleza das interpretações providas por Marc Almond, Antony, Baby Dee, Cosey Fanni Tutti e Bonnie “Prince” Billy, além do próprio Tibet, de modo que a versão barulhenta mostrava-se o ápice e o momento de redenção de todo o conjunto).

Black Ships Ate the Sky foi um álbum que levou muito tempo para ser finalizado. Ouvindo os arranjos, as melodias, as letras (até hoje é um mistério para mim sobre que diabos Tibet fala em seus textos), o encadeamento perfeito das canções e interpretações, é perceptível que o disco tenha dado muito trabalho para ser idealizado e gravado. Três anos mais tarde, após incontáveis horas em estúdio e muita espera (pelo menos deste que vos escreve), eis que sai finalmente o LP sucessor a Black Ships, Aleph at Hallucinatory Mountain. Tibet, que aprendera o idioma cóptico para poder ler a bíblia na sua forma original, recita algumas frases nessa língua e chegou até a dar um título alternativo, que seria Anok Pe: Aleph at Hallucinatory Mountain, ainda usado em algumas resenhas.

Em Aleph, Tibet não apenas muda bruscamente a sonoridade de seu projeto, como fizera pela primeira vez há uns vinte anos: ele realizou um desejo pessoal meu. Como mencionei no primeiro parágrafo, a segunda versão de “Black Ships Ate the Sky”, do álbum anterior, atentava para novas possibilidades estéticas no Current 93. Desse modo, Tibet arregimentou um grupo de apoio ainda maior, composto por alguns dos músicos mais respeitados da atual cena vanguardista inglesa, e gravou o que vem a ser, possivelmente, uma das obras-primas do C93. Todas as faixas são pesadas, cortesia das guitarras de Matt Sweeney e Keith Wood, e incrementadas por efeitos eletrônicos de Steven Stapleton e Andrew Liles. Nesse sentido, podemos encarar Aleph como a síntese perfeita do som do C93: o disco que une os devaneios industriais dos primeiros LP’s ao folk dos discos posteriores. Mas com um diferencial: as guitarras elétricas, que dão grande vigor às composições de Tibet e que se encaixam como luvas aos seus textos heréticos. Mesmo faixas mais calmas, como “Poppyskins” e “UrShadow”, deixam transparente que há um trabalho de banda muito intenso. O C93 nunca soou com tanta solidez.

Paradoxalmente, o Current continua sendo um projeto extremamente pessoal de Tibet. Se a banda tem alguma função em Aleph, é dar sustento às alucinações macabras de Tibet. Ao que tudo indica, Aleph seria uma versão maligna de Adão e, em cima disso, Tibet construiu uma história de pesadelos e acontecimentos macabros, baseada em passagens da Bíblia. Assim como Nick Cave, a bíblia e a mitologia religiosa são suas grandes inspirações. Se há algo em comum entre os dois, apesar de registros de voz e direcionamentos musicais discrepantes, é o fato de trazerem para o mundo real visões relativas à bíblia e darem às mesmas uma pertinência atual. São artistas que estão em contínua descoberta interior e exterior. Esse mundo imaginado por Tibet é tão diferente do que vivemos? Para ele, o mundo que nos cerca chega a ser irreal tamanha é a intensidade de sua beleza e a crueza de suas mazelas. Portanto, os textos recitados por Tibet, não chegam a ser delírios, tampouco devaneios de um louco: são parte de uma visão coerente e existencial da realidade que nos cerca.

Se o desleixo no ato de cantar de Tibet é tão grande, desrespeitando encadeamentos melódicos e rítmicos, é porque cantar em sintonia com a música não faz parte de seu propósito. Tudo no C93 remete a um exercício de escatologia nunca visto antes na música: desde as colagens de efeitos e vozes do início, passando pelo modo aleatório de Tibet recitar seus textos, até chegar às guitarras à la doom metal do disco atual. David Tibet é um inconoclasta, um artista sujeito às opiniões mais extremas. Entretanto, quando o riff de guitarra de “Not Because the Fox Barks” se repete ad infinitum e não encontro outra escolha senão levantar e fazer um dos air guitars mais empolgados da vida (algo que um disco de rock não me proporciona há muito tempo), a pergunta que permanece é: “who will deliver me from myself?”. (Thiago Filardi)

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Georges Bataille sabia como ninguém que todo sentimento de absoluto advindo da proibição, da profanação, da heresia, do tabu, tinha, como todo absoluto, igualmente uma boa parte de risível, de ínfimo, de escatológico. E que, portanto, ao levantar com pompas as catedrais do mal com os mesmos materiais auto-importantes com que os carolas edificaram os seus, apenas o sinal está invertido, mas o resultado da equação é o mesmo. David Tibet vende seu peixe com uma intensidade descomunal; ele dramatiza a níveis absurdos seu canto, cada verso, cada palavra, cada sílaba, como se estivesse blasfemando; e como um pastor de igreja hiperenfático, ou a gente entre no transe religioso ou acha aquilo tudo um tanto patético. “Imperium I” (Imperium, 1987) é um grande atalho para capturar a atmosfera de Tibet: nela ele canta as partes do livro de Eclesiastes eternizadas na música pop através da versão de “Turn! Turn! Turn!” dos Byrds. Esse disco foi lançado pela gravadora Maldoror, mas entre a sofisticação das imagens criadas por Lautréamont e a prosódia dos vilões de desenho animado em sua forma de capturar “o mal”, Tibet está definitivamente na segunda categoria de sutileza.

Aleph at Hallucinatory Mountain sofre de um problema ainda maior do que a maioria dos discos do Current 93. Nos melhores momentos do projeto, a música soturna, dissonante, confrontativa, é em si mesma interessante. Nesse disco novo, ela é estruturada claramente como acompanhamento climático e nada muito além disso. Ou seja, se atentarmos o suficiente para como o disco se apresenta, veremos que trata-se de um disco de declamação. Ou, uma vez que o gênero em língua inglesa já institucionalizou um nome específico, de spoken word. Todo o tratamento instrumental obedece a uma lógica sumária de auxiliar o relato, com riffs de doom que se contentam apenas em sê-lo e dedilhados frugais de cordas que, bem, a mesma coisa. Que ele tenha chamado um superstar como James Blackshaw para fazê-lo só torna deixa tudo com mais aura de empáfia, de acessório luxuoso para “agregar valor”. Para perceber a prescindibilidade da música, basta fazer um esforço de abstração e imaginar qualquer outra forma de acompanhamento e ela seria tão efetiva quanto a que lá está gravada. Assim, Aleph at Hallucinatory Mountain mais parece um disco de contos da carochinha com um reshape gótico do que um vigoroso banquete de heresias. (Ruy Gardnier)

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Curiosas são as formas que um certo imaginário dos anos sessentas adquirem em nossos dias. A mitologia contemporânea que credita ao Woodstock e à contracultura uma revisão de alto a baixo na escala dos valores ocidentais ainda é muito convincente, não somente entre os indivíduos que viveram esse período (e que hoje podem ocupar não somente os altos escalões das empresas de comunicação, como também os bancos e empresas que lhes dão suporte), mas também entre os hippies-universitários imberbes, espécie de arquétipo intrínseco aos grandes centros urbanos, com suas camisas indianas, gosto pela cannabis e pelo ideário desta época. Mas, mesmo fora do senso comum, mesmo para além de todo o patchouly que infesta esta visão, existem também os indivíduos refinados e bem relacionados que se valem do “laissez aller” e do “é proibido proibir” para exercitar sua perspectiva romântica sobre a vida e o exercício da imaginação. Entre esses indivíduos, eu arrolaria o inglês David Tibet, que faz música e poesia há mais de vinte anos sob a alcunha Current 93. Desde a primeira metade da década de oitenta, ele vem criando sua mitologia heterogênea, mesclando signos de diversas religiões e lendas dando a entender uma disposição espiritual repleta de “epifanias por minuto”… Suas amizades também mostram que ele é, repito, muito bem relacionado, colecionando amigos lendários, como o pessoal do Throbbing Gristle e do Nurse with Wound até artistas mais jovens como James Blackshaw. Mas o que se ouve neste álbum, que sustenta o emblemático título Aleph At Hallucinatory Mountain, não passa de uma levação de som sem maiores consequências, que serve no entanto para Tibet desempenhar sua verve poética, seu recital. Mas aí que a porca torce o rabo, porque David Tibet nem é grande poeta, nem recita seus textos de forma especialmente criativa, além de ter uma voz absolutamente anódina, sem sal. A performance de Tibet, inclusive, me lembra um notório encontro de poetas que se realizava no início desta década no Rio de Janeiro, CEP 20000, organizado pelo poeta carioca Chacal, sem exagero, o único nome que se destacava naquelas noites. Inclusive, o evento era mais conhecido por suas atrações musicais que por seus poetas, que geralmente expunham essa famigerada poesia espontânea, “automática”, recitando meio o que lhes vinha à cabeça e acabando por exprimir a pobreza deste imaginário comprometido com uma concepção equivocada de liberdade, mas sem viço e criatividade. Assim parece a música e a poesia de Tibet: tola e excessivamente comprometida com uma mística pagã sem graça e sentido. De positivo, apenas alguns momentos musicais, que de modo algum salvam a tremenda amolação que é escutar esse álbum de cabo a rabo. (Bernardo Oliveira)

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