Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Sufjan Stevens – Illinois (2005; Asthmatic Kitty, EUA)

illinoise

Sufjan Stevens é um cantor e multi-instrumentista americano (Detroit, MI) nascido em 1975. Seu primeiro disco é A Sun Came, de 2000. Em seguida veio Enjoy Your Rabbit, de 2001. Em seguida, iniciou um ambicioso projeto de fazer um disco para cada um dos 50 estados americanos. O primeiro a surgir foi Michigan (2003), homenagem a seu estado natal. Seven Swans veio no ano seguinte. Illinois (ou Come on Feel the Illinoise, como também é conhecido), o segundo da série “50 States Project”, ganhou grande reconhecimento, entrando na lista US Heatseekers da Billboard e frequentando praticamente todas as listas de melhores do ano de 2005. No ano seguinte lançou The Avalanche, disco com sobras das gravações de Illinois, e Songs for Christmas, uma caixa com cinco EPs de músicas de natal gravadas entre 2001 e 2006. Em 2007 recebeu encomenda da Brooklyn Academy of Music para fazer o trabalho The BQE, um trabalho musical e cinematográfico sobre a estrada Brooklyn-Queens. Seu próximo trabalho será Run Rabbit Run, rearranjando as músicas de Enjoy Your Rabbit para quarteto de cordas. Além de sua carreira solo, colaborou com inúmeros artistas, como Rosie Thomas, The National, Castanets e Danielson, entre outros. (RG)

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Em matéria de projetos de longo prazo, John Zorn é imbatível. Suas séries de discos não poderiam ser mais prolíficas: até agora 23 de Film Works, 12 de Book of Angels, 10 do songbook Masada mais 8 ao vivo, além de doze dedicados ao aniversário de 50 anos do músico. Mas nos últimos anos o projeto mais ambicioso e maluco a aparecer foi esse “50 States Project”, o projeto de Sufjan Stevens para realizar um disco para cada estado americano. Considerando que de 2003 até agora foram apenas dois lançamentos, ele vai ter que virar Merzbow pra dar conta dos outros 48 (Merzbow, aliás, já está no 7º volume de sua série de 13 pássaros japoneses). Mas no fundo essa anômala série fadada à incompletude já realizou sua principal função: chamar a atenção para o modo como Sufjan Stevens trabalha com objetos de inspiração muito precisos, maniacamente precisos até, e ancorados em algum tipo de tradição. Canções de natal, animais do horóscopo chinês, nomes próprios, estados americanos. Diria eu que a forma de compor de SS está intimamente ligada às ideias de tradição e coleção: de um lado uma sensibilidade em esculpir melodias límpidas ancoradas no folk, de outro o compositor empenhado em trabalhar com várias linhas melódicas simultâneas que convergem e divergem, explorando a polirritmia e a acumulação de vozes. Illinoise testemunha a lapidação de ambos os processos: seja pela frontalidade de “John Wayne Gacy, Jr.”, seja pela confusão perceptiva criada ao final de “They Are Night Zombies!!…”, estamos diante de um músico no topo de sua inspiração e exuberância. E, talvez mais que isso, estamos diante de um artista que conseguiu equacionar dois horizontes contrastantes, paradoxais, até. Provocativamente, diríamos que conseguiu unir Uncle Meat a Bryter Layter, pop/rock sinfônico de vanguarda e folk frugal.

Illinois, como Michigan, é um projeto grandioso, não somente por fazer parte de uma suposta série, não somente por tentar dar conta de um estado americano, mas pelo fôlego do projeto. São 75 minutos divididos em 22 músicas, algumas de títulos que não cabem em uma única linha de texto, e que passam por diversos registros musicais. Illinois vai do folk ao minimalismo, de Beach Boys a Frank Zappa, de drones ligeiros a coro de torcida organizada feminina. Mesmo que inscrevamos a música do disco em dois subgêneros apropriados, pop barroco e pop de câmara, muita coisa é deixada de fora. Não é simplesmente pop orquestrado (ainda que algumas faixas o sejam, como “Jacksonville”). E talvez, ao final das contas, o que mais surpreenda é como um disco como esses pode ser ouvido de uma tacada só, com total coerência entre cada parte individual, e capitalizando para o todo. As estratégias são múltiplas, e ainda que algumas músicas se assemelhem em estrutura e atmosfera, há sempre um instrumento fornecendo uma outra faceta, ou um movimento improvável, ou uma polifonia que complexifica nossa relação com os elementos apresentados até então.

É um disco entupido de ideias, mas Sufjan Stevens consegue achar espaço para elas de modo que elas não pareçam forçadas. Daí a necessária intervenção de vinhetas e pequenas faixas, ritmando a duração do disco e dando a ele a sensação de uma única obra com 22 movimentos diferentes. Ele sabe que tem algumas faixas avassaladoras, “Come On Feel the Illinoise…”, “Chicago”, “The Tallest Man…”, “They Are Night Zombies””…”, e algumas de enorme apelo melódico, “John Wayne Gacy, Jr.”, “The Man of Metropolis…”, e sabe utilizar as de menor apelo como interlúdios especulativos que dão ao disco consistência e dosam muito bem os momentos de clímax. Tudo para resultar num final aviltante de beleza, com “The Tallest Man”, a vinheta “Riffs and Variations on a Single Note” e a safadamente reichiana (Steve, não Wilhelm) “Out of Egypt…”, que parece estar colocada ali no final apenas para ressaltar a que ponto sua música traduz com inegável apelo pop/indie o trabalho com repetição e polirritmia de um punhado de grandes compositores dos anos 50 até hoje. Um vibrafone singelo é o último som que ouvimos de Illinois, o último som que resta da balbúrdia estilo vários-relógios-fazendo-tic-tac em-tempos-diferentes da faixa. Ele coroa o trabalho de um artista que não tem medo em extrair beleza de tempos e acumulações complexas, e não tem pudores em exibir uma melodia pura e frontal quando ela aparece. Da perfeita junção entre essas duas características frequentemente tratadas como opostas, Sufjan Stevens fez uma obra-prima. Um disco sem igual em sua época, que eleva o pop burilado a novos padrões de excelência. (Ruy Gardnier)

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Projetos inacabados exercem fascínio sobre as pessoas interessadas em arte, constituem uma espécie de paradoxo fetichista neste mundo devotado à forma e ao acabamento. Auspiciosos ou não, a fama de tais projetos corre mundo, concorrendo para alimentar mitos, descrever rotas de colisão e afins, de tal forma que o artista passa a carregar aquilo ou como fardo ou como tabu. No cinema são inúmeros os exemplo, ainda que seja possível apreciar alguns resquícios compilados e editados, como por exemplo Dom Quixote, de Orson Welles e Queen Kelly, de Erich von Stroheim. E o que chama atenção nos casos citados é a absoluta singularidade com que os autores comunicam sua genialidade através de um simples detalhe, um plano ou uma mera citação moral que demonstra grandeza a despeito do fato de não constituir uma obra fechada… O fetiche reside na ânsia pelo produto final, “acabado”, nascida da certeza de que ele encerra um ecossistema com significante e significado, começo-meio-e-fim, procedência, etc. Trata-se, intuo, de uma necessidade contígua às necessidades sociais, tais como estabilidade, segurança e continuidade. Uma forma um tanto equivocada de se avaliar e refletir sobre arte, o território justamente do embaralhamento de sentidos, da desordem, do pensamento singular e irredutível… Enfim, quero chegar na questão que talvez se coloque categoricamente diante deste álbum, sobretudo em uma primeira audição: sendo Illinois parte de um projeto inacabado (pelo jeito definitivamente inacabado, para não dizer natimorto…) caberia definir a música de Sufjan Stevens por ele? E mais: caberia definir o próprio Illinois sem a sequência de estados norte-americanos dos quais ele faz parte? A busca aos álbuns anteriores não ajuda: Illinois parece o mais zappeano, o mais abertamente eclético, abraçando afrobeat, salsa, minimalismo, country, rock, baladas, vinhetas, num mesmo caldeirão. O problema é que Illinois já é, por si só, um projeto interno, uma admirável articulação de observações poéticas e musicais que, no entanto, se fixam na nossa mente através da mais atávica modalidade musical: a canção. E, o mais intrigante, uma espécie de álbum derradeiro, já que os outros álbuns não vieram, e nem posso aqui considerar o projeto natalino de 2006 por não conhecer adequadamente.

Essas perguntas e considerações podem parecer despropositadas. Mas a audição do álbum me leva a perguntar pelas intenções, que talvez respaldassem a extrema variedade de gêneros, ritmos e tipos de canção que o perpassa. De forma que, apesar de estar inserido em um projeto, e de ser um álbum aberto a muitas influências, trata-se de uma experiência que muitas vezes não oferece um eixo que não seja meramente temático. Muitas vezes o work in progress se reflete no inacabamento de certas idéias musicais, de uma irregularidade que faz com que algumas faixas espetaculares compartilhem o mesmo âmbito de faixas medianas. Qual o mistério particular de Illinois enquanto parte de um projeto inacabado? E observe-se aqui: o inacabado pode ser tanto a incompletude do roteiro proposto inicialmente, como também uma estética alquebrada e fragmentária, ora por conta da voracidade criativa de Stevens, ora por conta de sua falta. Pense em Zappa (“Come On! Feel the Illinoise!), em Beach Boys (“Decatur…”, entre outras), em Simon & Garfunkel (“John Wayne Gacy, Jr.”), e até mesmo em indie rock (“The Man of Metropolis…”) e Steve Reich (“Out of Egypt…”), mas pense sobretudo em uma verve poética singular, antenada com o procedimento mais comum em arte hoje, a colagem e sobreposição de informações gerais, tanto musicais, como cinematográficas, filosóficas, políticas, etc. Se o procedimento é comum, o resultado é, como já afirmei, irredutível: a música de Sufjan Stevens tem sotaque e descreve, de forma crítica e irônica, mas ao mesmo tempo afetuosa, uma visão sobre o modo de vida da cidade em questão. Lembra às vezes o David Byrne de “Don’t worry about government” e True Stories, tamanha a proximidade expressa em versos como “Logan, Grant, and Ronald Reagan…”. E é justamente a capacidade de criar uma comunhão entre ironia e afeto, através de canções que literalmente grudam no cérebro, que faz de Illinois um grande disco. Para se escutar até o fim da vida, sem dúvida. (Bernardo Oliveira)

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Uma ideia megalomaníaca pede uma obra engenhosa, que esteja à altura do projeto concebido. E qual não foi minha emoção, em 2005, ao ouvir Illinois e descobrir que estava diante de um novo gênio da música pop – o que álbuns anteriores como Michigan e Seven Swans já apontavam, em certa medida –, com cacife e aptidão para executar parte de um plano que inicialmente soava absurdo: gravar um disco em homenagem a cada estado americano. À época, o próprio Stevens admitiu que nunca concluiria integralmente o projeto, por razões não apenas de tempo, mas por haver estados sobre os quais ele não tinha interesse algum em estudar e compor canções sobre – o Texas foi um exemplo dado. Quatro anos se passaram e não tivemos muitas notícias de Sufjan – apenas que em 2006 saiu The Avalanche, feito a partir de sobras de Illinois, e que em 2007 ele produziu um musical chamado The BQE, sobre a via expressa nova-iorquina que liga o Brooklyn ao Queens, e com previsão de lançamento em CD e DVD para outubro deste ano. Não sabemos se Stevens ainda pretende homenagear mais algum distrito estadunidense ou se gravará um álbum “normal”, como Seven Swans, lançado entre Michigan e Illinois. De qualquer modo, o último continua sendo um grande feito na sua carreira e no território da música pop deste século – poderíamos compará-lo, sem exageros, à obra-prima de Brian Wilson, Pet Sounds. Ambos permanecem como criações deslumbrantes de mentes geniais, capazes de pensar em todos os elementos constituintes de uma canção pop (melodia, harmonia e arranjos) e no seu encadeamento conceitual.

Illinois, em razão de seus incontáveis méritos, alcançou uma posição invejável a todos os artistas: foi (e ainda é, acredito) completamente unânime entre a crítica especializada. Desde jornais americanos de grande circulação a revistas eletrônicas mais obscuras, o disco foi elogiado entusiasmadamente, ficando em posição altíssima nas listas de melhores daquele ano. Não serei eu que enxergarei defeitos neste trabalho, até porque, embora procure, não consigo achá-los! As qualidades são muitas e é quase impossível enumerá-las. A começar pelo título, que traz, ao mesmo tempo, uma grande sacada e um conhecimento notório da história da música pop: Sufjan Stevens Invites You to: Come on Feel the Illinoise. “Cum on Feel the Noize” (na sua grafia propositadamente alterada) foi uma canção de grande sucesso do Slade na década de 70, reinterpretada posteriormente por outras bandas de rock. Stevens se aproveitou do “nois” no final de Illinois e transformou a palavra em Illinoise, adequando-a ao título e ao conceito geral do álbum.

O que talvez me incomode em Illinois, mas em escala ínfima, é a voz de Stevens, que soa demasiado doce. No entanto, essa mesma doçura é compensada pelas melodias complexas que ele entoa e por seus fraseados ricos e inventivos. Se algumas canções são executadas com extrema delicadeza e sinceridade (“John Wayne Gacy, Jr.”, “Casimir Pulaski Day”, “The Seer’s Tower”), outras possuem levadas bastante suingadas (Come On! Feel the Illinoise!…”, “They Are Night Zombies!!…”). Tudo é extremamente bem balanceado, de modo que a audição seja agradável e concomitantemente desafiadora, por conta da variedade enorme de instrumentos utilizados e das batidas e melodias sobrepostas. Stevens toca tantos instrumentos que não seria apropriado citá-los todos aqui. Assim como as influências sentidas na sua música são diversas, englobando Simon & Garfunkel, Frank Zappa e Steve Reich, os instrumentos por ele manuseados vão do saxofone e oboé ao vibrafone e à bateria.

Para quem achar que, a despeito do título e do conteúdo, Illinois possa tratar-se de uma obra regionalista, não há equívoco maior. Embora seja essencialmente americano na sua raiz musical e conceitual, Illinoise é um álbum disposto a proporcionar grandes viagens. Mesmo para aqueles que não se importam com as letras (como eu), as melodias tocantes e os arranjos barrocos, quase psicodélicos, oferecem o que pode haver de melhor na canção popular. É uma pena somente que, desde então, poucos discos tenham aparecido na música pop para se equiparar à genialidade de Stevens. Contamos no dedo: Yellow House, do Grizzly Bear, Ys, de Joanna Newsom (este uma possível superação), Andorra, de Caribou, Person Pitch, de Panda Bear, Third, do Portishead e, mais recentemente, Merriweather Post Pavillion, do Animal Collective. (Thiago Filardi)

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2 comentários em “Sufjan Stevens – Illinois (2005; Asthmatic Kitty, EUA)

  1. Pingback: Sufjan Stevens – All Delighted People EP (2010; Asthmatic Kitty/Bandcamp, EUA) « a camarilha dos quatro

  2. rute.roots.brasil
    4 de novembro de 2017

    Cara, ótimo texto. Valeu por compartilhá-lo! Me amarro fortemente no Sufjan, nas suas músicas. Gênio. Venho conhecendo seu trabalho há alguns anos e continuo me surpreendendo.

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Publicado às 27 de julho de 2009 por em folk, pop e marcado , , , .
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