Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Mordant Music/Shackleton/Vindicatrix – Picking O’er the Bones (2009; Mordant Music, Reino Unido)

pickingoerthebones

Mordant Music é uma dupla formada por Admiral Greyscale e Baron Mordant (respectivamente Gary Mills e Ian Hicks), dois produtores de Londres que fazem música e lançam através de um selo homônimo. A dupla é mais conhecida pelo som de ambient soturno, desenvolvido em especial na série The Tower (o primeiro de 2005, o segundo de 2007 e o terceiro lançado agora em 2009). Sam Shackleton é um produtor de música eletrônica mais conhecido pelos EP’s e coletâneas lançados pela gravadora Skull Disco, selo feito em parceria com Appleblim. Vindicatrix é um artista londrino com alguns EP’s (Above Us the Waves, Private Places) lançados em CD-R pelo selo Mentalist Association. Picking O’er the Bones compila todas as faixas lançadas por Shackleton pelo selo MM de 2004 a 2008, e se concentra na produção recente do duo Mordant Music, mais voltada à eletrônica de pista. (RG)

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Será que em algum momento Sam Shackleton nos honrará com um álbum? Não que seja algo estritamente necessário, dado que trata-se de um dos nomes mais significativos da música feita hoje, mesmo tendo apenas lançado eps e compilações. Certamente isso não indica falta de ambição. Desde o momento que Stalker, seu primeiro 12”, surgiu, claro estava que existia ali alguém com uma sensibilidade única e característica, com uma maneira de trabalhar dentro de um vocabulário do dub (as densas linhas de grave e um grande senso de espaço) mas servindo-se dele para criar um som totalmente próprio, em que as características principais são os preciosos timbres percussivos conseguidos e a maneira como eles, sem fazer nenhum alarde, recortam o ritmo de uma forma original e complexa que, na falta de uma palavra melhor,  poderíamos chamar de cubista. Existe um outro componente distintivo do som de Shackleton, e é justamente por ele – sente-se claramente ouvindo as faixas do Mordant Music, tanto as aqui compiladas quanto as dos álbuns The Tower – que o artista foi convidado a lançar pelo selo Mordant Music: uma sonoridade sombria, em momentos até ameaçadora, proveniente de melodias agudas e evocativas, de vez em quando reminiscentes da música árabe (muito menos do que gostaria Philip Sherburne quando classificou-o como ethno-dubstep).

Mas há talvez um outro motivo por que, em uma carreira de seis anos, um álbum ainda não veio, e é uma característica patente: cada composição é tão intrincadamente construída e imersa numa atmosfera tão densa e impactante que a própria ideia de construção de um ‘todo’ presumido pela simbologia do álbum deve ser meticulosamente pensada, sob pena de não viver as enormes expectativas criadas individualmente faixa a faixa. Parece uma questão tola, mas mesmo um grande, como Asa-Chang & Junray, foi vítima do processo: por mais genial que Jun Ray Song Chang seja (e é), o que fazer depois de “Hana”? Poderíamos perguntar o mesmo a respeito de “Death Is Not Final”, lançada no ano passado, mas já de “Stalker” e “I Want To Eat You”, duas das faixas mais antigas da carreira do produtor (salvo omissão da Discogs, “Stalker” é sua estreia no mundo da música prensada). Só elas duas já justificam qualquer interesse no disco. Em compensação, elas estabelecem um padrão tão alto que fica complicado manter.

É o que acontece com as colaborações do Mordant Music presentes no disco. Elas testemunham uma diversificada no interesse da dupla. A mesma aura soturna permanece lá, com drones que lembram corais de baixo-barítono. As batidas que eles usam para emoldurar as melodias em geral se aparentam mais com o eletrônico dark de um Depeche Mode (“The Hauntological Song”) ou com os belgas de ebm (“24 Million or Sell Neverland”, que ainda conta com um riff pesado de sintetizador que transporta a gente de volta à época do hardcore techno do começo dos anos 90). “Olde Wobbly”, de todas as faixas do MM presentes no disco, é a mais interessante, não apenas porque é a que mais soa como contemporânea – embora isso ajude –, mas em especial porque os contratempos do dubstep dão uma dinâmica rítmica às partes melódicas, sempre misteriosas, mas aqui mais espacializadas e econômicas na utilização. “Marston Moor”, o noise-glitch que fecha assustadoramente o álbum, é de longe a coisa mais abrasiva que já tive a oportunidade de ouvir do MM, e também a mais bem-humorada, se acreditarmos que o título da faixa é um trocadilho com o nome do cantor e guitarrista do Sonic Youth. Quanto ao Vindicatrix, sua faixa “Private Places” é um synthpop subproduzido com uns vocais fortemente distorcidos e espectrais que só se justifica na compilação pelo remix que dela fizeram a seis mãos Shackleton e Mordant Music.

Como não poderia deixar de ser, a estrela é Shackleton. “Stalker” e “I Want to Eat You” já estavam presentes em Soundboy Punishments, primeira coletânea dupla da Skull Disco. Na primeira se destacam a melodia de trilha sonora de filme de suspense e, em especial, o trabalho com células percussivas repetidas em cascata; na segunda os sons de atabaque que constituem hoje uma assinatura do produtor, além dos graves e da batida de ragga que surgem quando a música pega fogo. Quanto a “El Din (Part One)”, trata-se de uma espécie de continuação de “Death Is Not Final” em alguns respeitos, um dele o som arabizante, mas em especial a habilidade de sutilmente controlar os guizos e sons de palmas para criar um intrincado tecido rítmico. “El Din (Part Two)” obedece à mesma estrutura de construção da primeira parte, dos guizos ao dub que entra com tudo na segunda parte da faixa, mas dessa vez Shackleton reduz a coisa a uma faixa quase ambient, tamanha a economia esquelética da composição. A grande surpresa, no entanto, é o remix S&MM para “Private Parts”, em faixa que reconstrói inteiramente a original num coquetel de ecos infinitos e conflitantes jogados alternadamente entre caixa esquerda e direita aumentando a desorientação do conjunto. É um dub robusto de efeitos, com a pegada tradicional de Shackleton em criar padrões complexos de elementos percussivos, e certamente uma de suas faixas mais singulares até hoje. Ainda que Picking O’er the Bones não seja mais que a soma de suas partes, algumas de suas faixas individuais são recompensas maiores do que álbuns inteiros… (Ruy Gardnier)

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Dois selos, dois núcleos de produção, duas vertentes da música eletrônica contemporânea absolutamente indispensáveis e que se entendem como tal. Nada mais natural que ao compilarem sua produção, nos forcem a encará-los mais como uma lançamento fechado e coeso, do que como uma mera coletânea. Picking O’er the Bones é mais que uma coletânea, portanto, graças sobretudo a inestimável contribuição que a dupla/selo Mordant Music (Baron Mordant e Admiral Greyscale, ou simplesmente Ian Hicks e Gary Mills) e o produtor inglês Sam Shackleton deram para a música eletrônica nos últimos anos. Difícil (e inglório) encaixá-los num gênero específico, já que dubstep e IDM já não servem apropriadamente para descrever os espasmos  rítmicos e timbrísticos, sobretudo no que diz respeito ao trabalho de Shackleton. Duas coletâneas anteriores, Soundboy Punishments e Soundboy’s Gravestone Gets Desecrated by Vandals, editadas pelo selo Skull Disco, já haviam demonstrado suficientemente o caráter iconoclasta e radicalmente expressivo de suas produções. Tão iconoclasta e expressivo que justifica uma análise faixa a faixa, que palmeie cada modulação, cada elemento inusitado que o faz ser a grande revelação da década. Antes, porém, vale apontar o elemento que faz com que ambos os trabalhos se diferenciem na cena eletrônica inglesa e mesmo mundial: o trabalho com os timbres de percussão e a construção rítmica. Nota-se entretanto que Shackleton não experimenta tanto com o andamento, mas com inserções sobre o quatro por quatro. Esses aspectos, apesar das diferenças, convergem o trabalho de Shackleton e Mordant Music, formando um panorama singular batizado com o sugestivo título Picking O’er the Bones.

O álbum começa com duas faixas de Shackleton, “Stalker” e “I want to eat you”, conhecidas daqueles que acompanham seu trabalho por constarem na primeira coletânea da Skull Disco, Soundboy Punishments. Mas nunca é demais frisar a construção de “Stalker”, isto é, como aos poucos o recorte rítmico que a caixa (snare drum) desenha eleva a tensão, sem explodir num ritmo contínuo, como a maioria das faixas de música eletrônica para pista; ou a genialidade da combinação de percussões, notadamente aros de caixa e hi-hat, além de uma espécie de suspiro ou algo parecido com uma voz humana. Já “I Want to Eat You” condensa aquelas percussões orientalizadas tão bem manipuladas por Shackleton (pratos, caixas, cascos de animais, sons “férreos”…) com impressionantes graves em arabescos, capazes de pôr à prova suas caixas de som. Na seqüência, o lado B de “I Want to Eat You”, “Hummdrumm”, do Mordant Music: para quem acompanha o trabalho da dupla, esta parece uma faixa atípica, essencialmente tributária do Basic Channel; mas lá pelos três minutos, ouve-se uma reviravolta que a aproxima mais da quebradeira rítmica de Shackleton, reforçando a aliança. “El Din (part one)” de Shackleton mantém o alto nível das construções rítmicas, com seus admiráveis recortes sincopados e a complexidade da trama percussiva, que alude mais uma vez às sonoridades orientais. “Olde Wobbly” e “24 Million Or Sell Neverland”, do Mordant Music, apostam em sonoridades atmosféricas, ressaltando mais uma vez uma certa influência do Basic Channel e a manipulação de vozes. Mas é na faixa seguinte, “Private Places”, remix do Vindicatrix realizado pelo trio Shackleton e Mordant Music, que este trabalho esbanja arrojo formal: vozes em eco se sobrepõem formando como que “acordes” sobre as camadas percussivas, gerando um clima assombroso e, ao mesmo tempo, extremamente cerebral. “The Hauntological Song”, talvez a faixa mais estranha do Mordant Music, investe mais uma vez nas vozes e na quebradeira, mas desta vez com um indefectível sotaque baleárico que faz lembrar os melhores momentos de Lindstrom, mas sem a batida techno. Única faixa realmente inédita da coletânea, “El Din (part two)” é talvez a mais intrigante construção sonora do álbum, graças sobretudo a habilidade de Shackleton em articular sonoridades incisivas num todo mais climático que propriamente “pesado” – reparem a percussão de aço, e os padrões mais graves, que soam retumbantes. A versão original de “Private Places”, com as vozes sem efeito, e a pavorosa “Marston Moor” fecham o álbum com chave de ouro. “Marston Moor” é uma espécie de híbrido do Gas de Wolfgang Voigt, de algo do doom metal do Khanate, com os melhores trabalhos de Shackleton, isto é: mais uma vez trata-se de uma faixa extremamente percussiva, mas repleta de berros no estilo doom metal, que, a despeito do noise, depreende mais clima e atmosfera que peso.

A questão aqui é a seguinte: de que adianta Shackleton e sua turma lançar um álbum propriamente dito se cada faixa que ele produz condensa a inovação que muitos artistas não conseguem obter em uma vida? É claro que Shackleton parece se posicionar à frente da dupla Mordant Music. Mas aqui se percebe que eles orbitam em torno deste sol radiante que é o produtor inglês e se deixam influenciar por sua verve singular. O exagero desta imagem ao menos marca a minha posição em relação não somente a este álbum, mas a todo o trabalho de Shackleton: que ele é o maior produtor eletrônico em atividade, o mais instigante e surpreendente. Quem precisa discernir álbuns de coletâneas quando se tem simplesmente a música contundente de Sam Shackleton? (Bernardo Oliveira)

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Montar uma coletânea não é tão fácil quanto se pensa. É preciso pensar na ordem das músicas, no seu encadeamento, num conceito geral e no título. Muitos artistas encaram uma compilação como se fosse um álbum de verdade, e é esse tratamento que os discos de Shackleton (ou que incluem seu nome) vêm recebendo. Em 2007 e 2008, vimos a Skull Disco (selo extinto do próprio Shackleton) lançar belíssimas coletâneas, que mesmo possuindo dois discos cada, encantavam do início ao fim com o frescor e urgência das faixas. E dessa vez não é diferente: temos mais uma compilação contendo as produções inovadoras de Shackleton, que divide o serviço com os colegas Mordant Music e Vindicatrix.

A compilação é (para o os produtores de música eletrônica) não só um modo de organizar faixas anteriormente lançadas em vinil num CD, mas um meio de apresentar um material publicado ou não publicado (como é o caso das três últimas faixas deste álbum) a um público novo. E mesmo conhecendo boa parte das composições de Picking O’er the Bones, ouvi-las em sequência e numa ordem bem pensada, é um tanto recompensador. De primeira, “Stalker”, com sua harmonia ameaçadora e programação de bateria à la d’n’b (diria que Shackleton é o que melhor assimilou e transpôs para o dubstep essa influência). Em seguida, a não menos maravilhosa, mas nem tão original “I Want to Eat You”, que me lembra bastante “Sholay (Epic Mix)”, faixa proto-dubstep de High Plains Drifter (alter-ego para Ben Garner do Horsepower Productions) com Goldspot Productions – e talvez a base para toda a obra de Shackleton.

Os números da dupla Mordant Music não são menos deslumbrantes e hipnóticos que os de Shackleton. Os sintetizadores são mais fortes nas composições do MM e todas parecem seguir uma ordem extática, com direito a crescendos e momentos de pico. É interessante notar que, embora sejam distintas em muitos aspectos, as músicas de MM e Shackleton operam numa esfera próxima ao dubstep, mas não exatamente arraigadas no gênero. O que as caracterizariam como dubstep seriam o sub-bass e as batidas quebradas. No mais, em ambos encontramos uma atmosfera um tanto sorumbática, mística e fantasmagórica.

A grande surpresa fica a cargo da inédita “Private Places”, do produtor misterioso Vindicatrix, que por suas qualidades de timbre, voz e instrumentos utilizados, nos faria pensar que é uma colaboração do MM com Shackleton – e de resultado impressionante!

Para quem conhece Shackleton, as faixas presentes não trazem grande novidade, apesar de sempre exalarem um frescor que nenhum outro produtor de dubstep consegue. Se o MM não é tão genial quanto, ao menos não deixa a desejar e surpreende com suas faixas cativantes e bem construídas. Picking O’er the Bones é obrigatório para quem tiver interesse em conhecer os caminhos mais criativos da música eletrônica dessa década. E nunca é tarde para entrar em contato com a obra de um gênio como Shackleton. (Thiago Filardi)

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Publicado às 29 de julho de 2009 por em eletrônica e marcado , , , .
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