Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Georgia Anne Muldrow – Umsindo (2009; E1 Entertainment, EUA)

georgia-umsindo

Cantora, musicista, compositora, a americana Georgia Anne Muldrow foi a primeira mulher a assinar com o selo americano Stones Throw, capitaneado pelo “beat konducta” Madlib. Após o relativo êxito de seu EP de estréia, Worthnothings em 2004, lança o primeiro álbum em 2006 com Olesi: Fragments of an Earth, produzido por outro célebre integrante do Stones Throw, Peanut Butter Wolf. Muldrow também é parceira de um dos rappers mais prestigiados do selo, Dudley Perkins, com quem gravou em 2007 o álbum The Message Uni Versa. Sob o pseudônimo Pattie Bling & The Akebulan, lançou em 2007 o álbum Sagala. Já trabalhou com o Platinum Pied Pipers, Sa-Ra Creative Partners e J*DaVeY, inserindo-se num contexto de experimentação do hip hop e do chamado neo-soul. Umsindo é seu segundo álbum solo. (BO)

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Frequentemente o trabalho de Georgia Anne Muldrow é comparado ao de outras cantoras negras americanas como Erykah Badu e Lauryn Hill. E sinceramente eu não compreendo bem esta comparação. Enquanto as representantes do nu-soul e do hip hop retrô se dedicam a recensear sonoridades assimiladas, reificadas ao sabor de modas e surtos localizados, Georgia Anne Muldrow desenvolve um trabalho à parte, devotando-se a algumas frentes “inglórias” sobre as quais já me debrucei em outro post. Não custa relembrar, pois me parece que Geogia Anne Muldrow é um dos nomes mais interessantes e inovadores que surgiram nos últimos cinco anos, pelo menos na seara do hip hop/soul. Primeiro porque, como compositora habilidosa que é, Muldrow destila uma perspectiva muito própria sobre a música negra americana, capaz de integrar modulações melódicas francamente inspiradas no free jazz e no hard bop dos anos 60 e 70 a uma estrutura hip-hop-soul-gospel, o que resulta em peças de brilho e coloração singulares. No que diz respeito a este aspecto, vale ressaltar que Muldrow entoa suas canções quase sempre sobrepondo diversas vozes, como se reproduzisse não melodias, mas uma série de intrincados acordes. Verdadeiro trabalho de ourivesaria, rico em detalhes e nuances, o estilo de Georgia Anne Muldrow é facilmente identificável, mas nem sempre palatável. Os arranjos reforçam esta percepcão, sempre puxando a levada mais para o lado do funk, mas mantendo o indefectível sotaque Stones Throw, com seu hip hop propositalmente desengonçada no melhor estilo J Dilla e Madlib. A propósito, Muldrow também é excelente rapper e sabe injetar nos momentos certos a energia ao mesmo tempo doce e raivosa de seu flow. E isto faz todo sentido: sendo filha de dois ícones do jazz politizado dos anos 70, o guitarrista Ronald Muldrow e da cantora Rickie Byars-Beckwith, e neta do pastor ativista Michael Beckwith, ela herdou uma espécie de engajamento nem sempre pertinente, diga-se de passagem. Mas, de uma forma geral, ela herda também aquele caldo cultural contíguo aos temas e ícones que embalaram o movimento pelos direitos civis do negros norte-americanos. Neste contexto, destaco o free jazz e o funk, dois gêneros que muitas vezes recorriam à imagem ideológica de uma “Mãe África”, representada não só pela temática propriamente dita, como por algumas palavras em zulu e, é claro, pelas batas multicoloridas. Todos esses elementos foram perfeitamente apresentados em Olesi: Fragments of an Earth, seu primeiro álbum. Experimentem faixas como “Wrong Way”, “Black Man” ou “Leroy” e comprovem que, gostando-se ou não, é difícil ficar impassível ao som de Georgia Anne Muldrow.

Mas e este novo álbum, Umsindo, primeiro lançamento da cantora pelo selo E1 Entertainment? De saída, pode-se presumir que, a partir do nome, pouca coisa mudou. Umsindo significa “som” em zulu, assim como as faixas “Jina Langu Ni Afrika” e “Nsamanfo” significam respectivamente “meu nome é África” e ”espíritos ancestrais”. O lastro ideológico permanece intacto, pois. Para o bem e, estranhamente, para o mal, a sonoridade também. Trata-se da mesma Georgia Anne Muldrow que caracterizei acima, trabalhando com os “acordes vocais”, com modulações melódicas alucinadas e ritmos quebrados. Mas os possíveis equívocos de Olesi que podíamos creditar a uma superabundância criativa, tornam-se quase que uma constante em Umsindo. A quais equívocos me refiro? Um excesso de vinhetas e pequenas faixas nem sempre à altura de outros momentos mais interessantes compromete a coesão do álbum, como nas supérfluas “Fonky Day” e “Beya”. A inclinação de certas faixas a uma construção melódica mais ordinária, como em “Roses” e “E.S.P.”. Por fim, talvez o que mais decepcione em Umsindo são os arranjos parecidos demais, hip hop demais, ao passo que Olesi é um álbum mais diversificado que aposta em outros gêneros e sonoridades, no jazz e nas percussões. Mesmo assim o álbum está longe de ser fraco ou regular. Faixas como a minuciosa “Uhuru Flight”, o funk-rap “Sermonette” (com a súbita e admirável mudança de clima), a intrigante “I.Q.” e a beleza sombria de “Idlozi” garantem Georgia Anne Muldrow no posto de cantora soul da segunda metade da década; tanto por suas experimentações com arranjos e canções, como também enquanto “diva”: como se não bastasse seu talento inequívoco para criar sonoridades impactantes, Muldrow ainda é uma cantora no sentido tradicional do termo, com perfeito domínio de sua expressão. Certamente ela está alguns passos à frente de Lauryn Hill e mesmo da renovada Erykah Badu de New Amerykah. Apesar dos defeitos, Umsindo é um convincente testemunho de sua diferença. (Bernardo Oliveira)

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Muito já falei nestas páginas sobre o atual estado do hip hop: sobre como o gênero vem sofrendo um descenso criativo nos últimos anos; sobre como os rappers e produtores do mainstream vêm aderindo maciçamente ao auto-tune (para o bem e para o mal); e sobre como todas as vertentes do hip hop se revelam dispostas a romper novas barreiras estilísticas, embora muito influenciadas pelas experimentações pregressas de Madlib e J Dilla.

Umsindo, novo álbum de Georgia Anne Muldrow (uma cria da Stones Throw), surge para reiterar todas essas especulações. Ao lado de Nuclear Evolution do SA-RA e de New AmErykah, de Erykah Badu, Umsindo aponta para uma nova linhagem no hip hop, mais impregnada de melodia (o soul, o R&B), com batidas soltas e quebradas (o funk à moda Madlib) e contaminada pelo passado, a exemplo da fartura de samples e de harmonias complexas. Do ponto de vista rítmico, Muldrow vai além: ao evocar referências africanas, ela dialoga diretamente com o rap na sua forma mais primitiva (Last Poets).

O lado cativante de Umsindo existe em razão de duas influências muito bem delineadas ao longo do disco: Stevie Wonder e Minnie Riperton. Essa junção, bastante natural até, gerou pequenas obras-primas, como a belíssima e emocionante “Roses” (desde já uma das faixas do ano), de harmonia intrincada e interpretação confiante e exaltada de Muldrow, que tanto lembra Ripperton na fase setentista – um pouco antes de sua morte.

Ainda que apresente um punhado de canções memoráveis (“Daisies”, “Generation / You Got It”, “De Wiz”, além da já citada “Roses”), grooves deliciosos e uma produção extremamente criativa, Umsindo não tem coesão e energia suficientes para prender o ouvinte em sua longuíssima duração. Não obstante, seu lançamento ainda é motivo para festejo: o hip hop americano parece, finalmente, mostrar sinais de revigoramento, nem que para isso seja necessária uma parcial descaracterização da sua estética, consolidada há mais de 20 anos. (Thiago Filardi)

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George Anne Muldrow segue uma trajetória curiosa. Ela certamente é uma cantora com talento, voz e appeal de estrela para ser uma dessas divas r&b/soul, um segmento do espectro musical bastante acessível e mesmo na moda. Mas ela tem a coragem de tomar o caminho oposto: raras vezes vai aparecer um refrão propriamente dito, e mesmo quando aparecer, jamais vai configurar o típico gancho tão comum ao gênero desde os anos 60. Ao contrário: se há um paralelo à ambição artística da cantora e ao tipo de sensibilidade que ela parece querer distilar, é o soul cósmico free-flow levado à perfeição por Marvin Gaye em What’s Goin’ On (apesar da própria “What’s Goin’ On” se resguardar um pouco do fluxo que constitui o álbum, rendendo ao menos um single palpável).  À diferença, naturalmente, de que o disco de Gaye apoiava-se muito mais numa atmosfera reflexiva, embalada por cordas, ao passo que Muldrow aposta num fluxo de suíngue, em que o ritmo – geralmente seguindo a estética Stones Throw de uma batida forte mas malemolente e atrasada, letárgica – ocupa papel pronunciado, muitas vezes fazendo sozinho (baixo e bateria, ora orgânicos, ora sintetizados) a cama sonora para a voz da cantora, frequentemente dobrada por um coro cheio. E a música dela, mesmo que evoque ideologias e estratégias dos anos 60 e 70, tem plena consciência de que está em outra época, e soa perfeitamente como uma música de hoje, mais Missy Elliott do que Aretha Franklin, por assim dizer.

Então, Georgia Anne Muldrow pode ser arrolada com mais propriedade numa cena inexistente de r&b/soul alternativo, o equivalente do que Madlib, Prefuse 73 ou Flying Lotus representam para o hip-hop, do que no panorama mainstream do gênero. Olesi: Fragments of an Earth parece dizer isso de maneira imponente, sendo uma audição exigente que demanda uma atenção incomum da parte do ouvinte (ao menos para o gênero). Em Umsindo, parece que a cantora ficou no meio do caminho – um meio de caminho particularmente perigoso. O disco soa muito mais como um disco de r&b contemporâneo, com suas batidas fortes, o flerte habitual com o hip-hop (novamente M.E.), apenas a ausência do sentimentalismo habitual e, mais uma vez, as estruturas convencionais de composição (estrofe, estrofe, refrão). Em Olesi, pela sonoridade singular e pela diversidade de estratégias, não havia necessidade de um maior apelo. Em Umsindo, a eventual monotonia da produção chama a atenção para a fraqueza de composição de algumas faixas, como “Fonky Day” e “Slice It”, que basicamente parecem hits de alguém que tem medo de ser pop ou que simplesmente deixou suas faixas compostas pela metade. A falta de diversidade nas produções também afeta a audição inteira do álbum: em 47min de Olesi, víamos muito mais ideias que nos 74 de Umsindo, e uma hora e um quarto realmente pesam no cômputo geral de um disco com belos lampejos, mas sem momentos memoráveis que sustentem suficientemente o interesse ao longo de sua duração. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 6 de agosto de 2009 por em funk, hip-hop, soul e marcado , , , .
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