Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Broken Social Scene – You Forgot It In People (2002; Arts & Crafts, Canadá)

YouForgotItInPeople

O Broken Social Scene foi fundado em 1999 por Kevin Drew e Brendan Canning, que eram praticamente os únicos membros da banda quando do lançamento do álbum Feel Good Lost em 2001, apesar de já contar com muitos colaboradores eventuais como Leslie Feist, Jason Collett e Evan Cranley. Ao longo da turnê de divulgação do disco a banda foi tomando forma de coletivo, com a adição de muitos outros músicos que gravitavam na cena musical de Toronto. Diversos grupos emprestaram membros ao Broken Social Scene e entre eles estão Do Make Say Think, Stars, Apostle of Hustle, Metric e muitos outros. Em 2002 lançaram You Forgot It In People, álbum que lhes deu projeção para fora da cena de Toronto, grande aclamação crítica e recepção entusiasta a suas turnês. Em 2005 lançaram o auto-intitulado Broken Social Scene que recebeu semelhante recepção além de alcançar uma tímida mas significativa vendagem de discos. Nos últimos anos a banda vem promovendo lançamentos que concentram a produção de seus principais membros, mas existe a promessa de um novo disco para 2010. (MM)

* # *

They all want to love the cause/ Because they all need to be the cause/ They all want to fuck the cause.

A noção de “super-grupo” é das que mais alio ao fracasso anunciado, à parte o assombro do primeiro quinteto do Miles Davis e algumas de suas reencarnações, ou o Crosby, Stills, Nash & Young e mais uma poucas exceções, a vontade de unir músicos renomados sob um mesmo projeto quase sempre acaba em Raconteurs, para ficar em exemplo recente. Ah, o Broken Social Scene não é uma superbanda, apesar da Pitchfork querer enganar você dizendo que é.

A idéia de que reunir muita gente em torno de um projeto pode render uma rica sinergia criativa pode ser descartada com o fato de que bastava ter um Prince ou um Stevie Wonder no estúdio, mais nada.

O BSS mais se assemelha, perigosamente, àqueles bandos de músicos que frequentam jam sessions.

Outro ponto. O cliché de que para se ter um grande álbum é necessária alguma forma de coesão que não seja a qualidade das faixas pode ser ridicularizado com o exemplo do grupo que praticamente inventou o álbum como algo coeso, ou mesmo conceitual, os Beatles, vez que seus melhores discos são “apenas” coleções de grandes canções – Abbey Road e Revolver.

De forma tangente e incidente, You Forgot It In People responde a estas questões e ainda coloca a chave para o desafio de músicos com afinidades conflitantes e um pendor para o experimento cometerem um magnífico disco pop e experimental.

A própria idéia do BSS como “super grupo” apenas faz sentido quando olhada à luz do seu microcosmo e sua ideia de coletivo que abriga músicos que mantêm atividades paralelas, que muitas vezes mantém propósitos completamente diversos do BSS, mas ainda assim compartilham um ethos, ou melhor, um desejo comum de criar.

A sonoridade da banda também reflete este desejo comunal quando se expressa através de uma espécie de sinestesia auditiva. Muitas das faixas alcançam sua plenitude não pela singularidade de sua melodia, ritmo ou estrutura, mas por sua própria oscilação e indefinição, pelo conflito de seus elementos. O fabuloso trabalho do produtor David Newfeld parece ter sido o de conciliar a necessidade de dar espaço à expressão de seus mais diversos elementos e ainda assim soar como o trabalho de uma banda. Assim, uma faixa como “Almost Crimes (Radio Kills Remix)” tem pegada punk e apelo pop para ser ouvida em bom volume no som do carro e ainda assim solicitar uma audição atenta que revela um trabalho de produção e arranjo tão cuidadoso que faz a faixa parecer caótica em um primeiro momento para, depois, se revelar precisa como toda boa música pop.

Um ponto que poderia causar incômodo seria a falta de confronto para um disco do rock, pois apesar do primoroso trabalho de guitarras que preenche todo o disco, mas uma vez afirmo este ser um disco pop porque nunca tomamos o tapa jocoso de um Liars, mas somos envolvidos nas camadas sonoras, algo como o melhor shoegaze, mas ainda mais doce, convidativo. O próprio caráter colaborativo do disco favorece esta abordagem, pois trata-se de uma obra que apesar dos tons agridoces das letras, convida ao congraçamento. O que também explica sua falta de norte estético, como a afirmar não querer uma única coisa, mas todo o possível. Abraçar o repertório indie e festejar o fato de estarem juntos. Talvez este seja um conceito meio hippie, algo que eu deveria abominar, mas ainda assim funciona, como se no lugar de jogarem uma pelada a trupe de Bemvindos entrasse no estúdio e saísse com este disco.

Esta talvez seja uma das grandes sacadas do grupo. Ao contrário do terceiro disco da banda, o auto-intitulado Broken Social Scene, YFIIN nunca trai seu desejo de ser um álbum pop sem com isso comprometer seu talento natural para ser expansivo, experimental e catalizador. Pop porque absorve tudo que está a seu redor, desde o indie dos anos 90, ao post-rock da mesma década, mas também as baladas sentimentais e os glitches do Jim O’Rourke (enriquecendo e alterando as baladas).

E o disco é sempre luminoso. Mesmo os momentos onde a cacofonia é iminente a sensação é sempre de calor, e até mesmo euforia, nas faixas mais aceleradas – algo insuspeito quando se pensa na música vinda do Canadá, algo já presente em alguns momentos do Do Make Say Think (de onde vêm alguns dos integrantes do BSS) mas ainda presos à solenidade do post-rock canadense.

Mesmo dentro de tal variação o disco é sempre coerente e a sequência de uma faixa instrumental altissonante com faixas aceleradas, baladas e outros tantos híbridos sempre parece necessária. Verdade que na parte final do disco existe uma queda de ritmo, mas a própria fragilidade das faixas apernas ressalta a simples qualidade do que é uma boa composição aliada a arranjos precisos, como é o caso de “Lover’s Spit” e “I’m Still Your Fag”.

Inegável também que algumas faixas como “KC Acidental”, “Stars and Sons”, “Almost Crimes (Radio Kills Edit)”, “Anthems For A Seventeen Year-Old Girl”, “Cause = Time” e “Looks Just Like the Sun” se destacam no conjunto, mas a própria forma como a sequência do álbum foi desenhada ajuda a não ofuscar os momentos menos brilhantes e ainda assim belíssimos.

Dizer que um álbum cresce a cada audição é outro um dos clichês da crítica musical, mas a verdade é que, ouvindo o disco há cerca de seis anos, cada vez que eu fico uns poucos meses sem ouvir, me pego sorrindo com a redescoberta constante é que voltar a cada uma de suas faixas. Talvez não tratemos de um disco perfeito, é impossível que o fosse. Certamente não é uma obra tão vultuosa como a do Liars ou tão inescapável quanto Sound of Silver, White Blood Cells ou Is This It?, mas ainda assim um discaço.

Um equilíbrio raro é alcançado: cada faixa parece apontar uma direção própria e juntas formam uma certa imagem, caleidoscópica, que seja, mas bela e vibrante. (Marcus Martins)

* # *

Como será o balanço de rock da década? Terá sido um bom decênio para o gênero? Claro, há grandes grupos, grandes álbuns, grandes canções sendo feitas, e várias têm a ver, com maior ou menor proporção, com o rock. Mas se chegarmos e pedirmos uma grande referência de rock para a década, como no final dos anos 80 havia Pixies e Sonic Youth – só para manter em dois –, o único nome com envergadura e originalidade suficiente para rebater é o Radiohead – uma banda que, justamente nessa década, desistiu momentaneamente de uma identidade mais especificamente rock para reencontrá-la revigorada em seguida. Num segundo lugar pode ser mencionado o TV on the Radio, mas sobre eles me escuso de falar porque nunca me senti pessoalmente movido pelo som do grupo. O que há além disso, White Stripes, Strokes, Franz Ferdinand, são grupos que guardaram devidamente seu lugar na história do rock, mas definitivamente não um papel decisivo na mutação, evolução e contribuição para o gênero – mais o oposto, uma diluição. Há alguns fortes contendores com algo de rock, como The Rapture ou Broadcast – para pegar dois exemplos distantes do espectro eletrônico –, mas não é muito apropriado evocar esses nomes num contexto mais estritamente rock. Quanto a nomes como Liars, Animal Collective ou Black Dice – definitivamente nomes decisivos da década -, estão mais apropriadamente num contexto de rock experimental (avant-rock, como dizem), mas de vocabulário bem mais excêntrico do que se espera da sua regular banda de rock.

O Broken Social Scene é um bom exemplo do impasse vivido na década. Eles são rock. E, bem especificamente, indie rock. A sensibilidade se identifica àquela construída progressivamente pelo college rock dos anos 80, filtrada por diversos subgêneros da virada da década – hardcore, shoegaze, noise rock – e padronizada desde a época do Pavement. Mas, ao mesmo tempo, You Forgot It in People opta por apresentar um enorme leque de opções sonoras, no limite soando como várias bandas diferentes a cada faixa. Assim, eles podem evocar grupos como Yo La Tengo, Arcade Fire, Walkmen, Radiohead, The Books. Não têm o menor pudor de emendar uma faixa surf-lounge adequadamente chamada “Pacific Theme” com um objeto estranho de vocal processado e elegante progressão de intensidade que é “Anthems for a 17-Year Old Girl” (fácil um dos melhores momentos do disco), isso porque antes já foram dois grandes rocks nervosos como “KC Accidental” e “Almost Crimes” (também dois grandes momentos). Na aparente impossibilidade de enveredar por dentro do rock e descobrir caminhos inusitados, o Broken Social Scene optou por trabalhar dentro de códigos conhecidos, apenas com uma versatilidade cativante de tão maluquete (mas ainda assim deixando entrever uma ausência de originalidade no princípio).

O que torna You Forgot It in People um disco singular, no entanto, não é a proposta. É a maneira incrivelmente cuidadosa como eles trabalham o artesanato das canções e seus arranjos. São diversos detalhes sutis que enriquecem as faixas, e timbres escolhidos com discernimento e sensibilidade, ainda que não exatamente inauditos. Existe uma especial propensão para o catártico, em especial nos vocais enfáticos de algumas faixas, convidando ao singalong, ou no próprio manejo de alternar lento-agitado com um trabalho de guitarra particularmente criativo (“KC Accidental”, ainda). O tiro sai pela culatra em “Lover’s Spit”, em que uma comparação com o Coldplay nem é descabida. Mas no geral as referências do Broken Social Scene são bem melhores, e ainda que eles não sejam capazes de levá-las a um outro nível, ao menos exercitam com desenvoltura e talento – melhor do que uma infinidade de postulantes contemporâneos, vale dizer – um subgênero musical em crise de redefinição. É justo. (Ruy Gardnier)

* # *

Recentemente, em conversa com o Thiago Filardi, conjecturávamos a respeito do enfoque adequado para a realização das listas de melhores da década, no sentido de precisar um método comum. Duas foram as opções: ou bem mantemos a relacão afetiva, privilegiando o sentimento da época, ou reouvimos todos os álbuns e faixas para determinar o que continua batendo forte, o que já não nos pega tanto como na época. Dúvida justa e coerente, pois um álbum de 2001 que amávamos pode muito bem ser irrelevante hoje, e vice-versa. Como percebo que há em pelo menos dois quartos da Camarilha o interesse de incluir este You Forgot it in People do Broken Social Scene entre os melhores da década, devo admitir que na época de seu lançamento não mantive com o álbum uma relação de afeto e interesse, muito pelo contrário. A mistura de Sonic Youth com new bossa e experimentalismo comedido que define o som do grupo não me fez a cabeça na época e ainda menos hoje. É claro que o trabalho do grupo é minucioso, muito bem gravado e composto; as canções são bacaninhas, os arranjos idem. Mas às vezes me parece que as faixas mais barulhentas à la Sonic Youth são obra dos rapazes, enquanto faixas mais adocicadas como “Anthems For A Seventeen Year Old Girl” são produto da imaginação feminina, numa partilha tão perigosa quanto frustrante. E ai imagino o seguinte: conquanto eu não compreenda bem o interesse no álbum e no grupo, imagino que há sete anos atrás, mais novos e frescos (?), nossos ouvidos gozariam de uma ingenuidade ou até mesmo de uma liberdade (toda sabedoria implica num decréscimo de “liberdade”…) que permitiria não só apreciarmos o disco, como também nos afeiçoarmos a faixas como “Lover’s Spit” e da exageradamente sonicyouthesca “Stars and Sons”. Mas e hoje? Eu não tive a experiência de me afeiçoar a essas faixas, e quando as ouço hoje sinto uma irremediável vontade de trocar o disco. Vontade essa que percorre todo o álbum, de cabo a rabo. Paciência. (Bernardo Oliveira)

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Um comentário em “Broken Social Scene – You Forgot It In People (2002; Arts & Crafts, Canadá)

  1. Catarina Lima
    2 de novembro de 2009

    Às vezes é injusto pôr tudo no mesmo saco mas a verdade é que habitualmente o Broken Social Scene é associado à cena de Montreal e, no geral, à cena canadense. Na realidade, o Canadá tem produzido, nos últimos anos, muita pop interessante! Veja os exemplos do Arcade Fire, de Rufus Wainwright e, de uma outra forma também, o Godspeed You! Black Emperor… Uma matéria nesse site reúne alguns dos nomes maiores da cena canadense e faz um retrato bem legal do fenômeno
    http://cotonete.clix.pt/

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Publicado às 12 de agosto de 2009 por em Uncategorized e marcado , , , .
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