Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Cluster – Qua (2009; Nepenthe Music, EUA [Alemanha])

qua

A história do Cluster começa no final da década de 60, em Berlim, na Alemanha, quando os estudantes de arte Conrad Schnitzler, Hans-Joachim Roedelius e Dieter Moebius formaram o Kluster, um trio de improvisação, que lançou três álbuns. Após a saída de Schnitzler, em 1971, o grupo virou uma dupla e trocou o K pelo C na inicial do nome. No mesmo ano saiu o LP homônimo e, em 1972, Cluster II, ambos considerados pioneiros na inserção da eletrônica na música pop, com assistência do engenheiro de som Conny Plank. A parceria com Michael Rother, do Neu!, em 1973, gerou o disco Zuckerzeit (1974) e o grupo Harmonia. Em 1977 o Cluster se juntou a Brian Eno, grande entusiasta da banda, com quem gravou quatro discos. Desde então, os lançamentos do duo passaram a ser esporádicos, ainda que eles mantenham carreiras individuais prolíficas até hoje. Em 2007, Moebius e Roedelius voltaram a tocar juntos, após um longo período de hiato, e fizeram uma apresentação em Berlim, lançada em CD pela Important Records. Qua é o primeiro álbum de estúdio com material original em quinze anos. (TF)

* # *

Muito se divaga sobre como determinados artistas e grupos confeccionam sua música. Para o pop/rock atual, não há grande mistério, tanto que gêneros, estilos e modismos são copiados com facilidade (vide as ondas retrô que tomaram conta dos últimos dez anos): a banda sabe mais ou menos a que tipo de sonoridade quer chegar e chama um produtor habilidoso (no sentido de dominar as técnicas de estúdio para uso convencional), que irá moldar os arranjos e composições a gosto. Mas é justamente nesta década que vimos os holofotes da crítica especializada voltados para projetos musicais que não divulgam (ou muito pouco) o que ocorre no estúdio, no exato momento da feitura dos álbuns. E por mais que apareça, nunca haverá imitadores autênticos de Radiohead, Animal Collective ou Burial. Isso porque suas técnicas nunca serão (ou não foram, até o momento) desvendadas. Claro que há outros fatores peremptórios para a construção identitária de qualquer artista, a exemplo das próprias características pessoais e de performance – o guitarrista Derek Bailey tirava um som único da guitarra apenas com seus dedos, um instrumento de seis cordas, um cabo e um amplificador – a cantora Diamanda Galás só precisa abrir a boca para nos impressionar com sua voz alienígena. Contudo, ainda que certas insígnias pessoais façam a diferença, existem músicos que conseguem chegar a uma sonoridade única através da utilização criativa de instrumentos específicos, aparelhos eletrônicos, pedais de efeito, botões, acústica do ambiente, e o que mais for necessário. Nesse quesito, um grupo que sempre foi envolto de grande misticismo é o Cluster.

Desde os primeiros álbuns, pouco se sabia como a dupla chegava a sons tão estranhos, fascinantes e mórbidos. Sabia-se apenas que eles utilizavam sintetizadores, de tal modo que, junto a Kraftwerk, Tangerine Dream e White Noise (o pioneiríssimo grupo de Delia Derbyshire) é tido como um dos “inventores” da música eletrônica, ou, pelo menos, como nós a conhecemos hoje. Esses conjuntos foram os primeiros a trazer uma linguagem até então erudita para o universo pop (o que, nesse ponto, o Cluster só fez com Zuckerzeit) e esboçar experimentos com efeitos e timbres, que virariam referências para toda uma geração posterior. Quarenta anos se passaram a partir da data de formação do Kluster e ainda pouco se sabe sobre a confecção dos seus álbuns. Se há algo que continua cativando na obra de Moebius e Roedelius é esta magia sonora, que não se ouvirá em nenhum outro lugar, a não ser na música dos dois.

Qua, como qualquer outro álbum do grupo (especialmente os três primeiros, com C), intriga com a origem dos seus sons e timbres. É de se imaginar que o sintetizador foi preponderante na gravação, já que muitos efeitos são advindos deste instrumento eletrônico. Ouve-se aqui a sonoridade que influenciou alguns dos músicos mais geniais da década de 70 (como Brian Eno e Jon Hassell): o sintetizador moribundo que aos poucos vai tecendo as melodias e a percussão suave, mas penetrante; além disso, ouve-se também a possível gênese da ambient music, criada por Eno alguns anos depois. Mas se Qua tem defeitos, estes se dão não por motivos miméticos – há zero de mimetismo, apenas a sonoridade inconfundível da dupla em plena ebulição criativa –, mas por razões de coesão interna, mesmo problema que acomete discos como Zuckerzeit: não há um encadeamento lógico entre as faixas e algumas são curtas demais, beirando vinhetas e sons demasiado atmosféricos. O Cluster pode não ter realizado ainda sua obra-prima – diria que Qua é tão bom quanto os da década de 70, somente menos revolucionário –, mas, depois de quarenta anos, sua música, mística e enigmática, continua suprema. (Thiago Filardi)

* # *

É um tanto difícil imaginar o Cluster hoje. Independente dos méritos próprios da banda – e são muitos –, parte do que cria um charme mitológico do Cluster nos anos 70 é a extrema singularidade da banda, a constatação de que mesmo perto de artistas com preocupações e/ou sonoridades assemelhadas (Tangerine Dream, Faust e Brian Eno, por exemplo), a arte do grupo era completamente única. No presente, nada mais diferente do que isso. Não que o som do Cluster tenha sido superado, mas algumas das principais questões que tornavam único o som do Cluster já estão fartamente assimiladas dentro de um campo de experimentações que envolve eletrônica experimental, ambient, drone e field recordings: uma forma de trabalho abstracionista, buscando com repetições e pesquisas de timbres soluções para os modelos mais comuns de progressão na estrutura de composição, abertura do campo sonoro para não-instrumentos ou objetos transformados em instrumentos, e melodias singulares porém discretas, quase não-melodias. Só de delinear esse campo sumário já surgem vários nomes na ponta dos dedos: Autechre, Basic Channel, Matmos, Mouse on Mars, Aphex Twin. A se julgar por Qua, as semelhanças vão mais para o primeiro desses nomes citados, sobretudo o Autechre dos últimos discos, em especial uma quase equivalência na pesquisa de timbres que se apresentam a meio caminho entre a pureza e a limpidez gélida.

Isso não significa, todavia, que a relevância do grupo está diminuída hoje. Um grande disco é um grande disco, é algo que se destaca dentro de qualquer contexto. Há em Qua traços de um grande disco. Mas se nessa volta, depois de quinze anos, eles não conseguiram realizar o grande disco que todos esperávamos deles, as razões não dizem tanto respeito à passagem de época quanto à maneira como o disco é confeccionado, em sua ordem de faixas, no número de faixas, e naturalmente nas próprias composições.

Bem entendido, Qua tem diversas sonoridades primorosas. Preciosas, até, se poderia dizer… nos dois sentidos que o termo tem, do ofuscantemente belo até o burilado ao ponto do ressecamento. Volta e meia ele nos surpreende com algum sonzinho que aparece sub-repticiamente, com alguma jogada espacial, com alguma batida quebra-cabeça (caso de “Na Ernel”), com encontros de sons (os exuberantes sininhos com os sintetizadores vintage de “Gissander”, talvez o grande destaque do disco) ou com uma levada contagiante (na também belíssima “Malturi Sa”). No entanto, Qua cai vítima de dois problemas mais ou menos sérios. O primeiro deles é uma recorrência meio confortável em sons como vibrafone, sino ou piano preparado, beirando o fetiche do clean. O segundo é a forma como um bom número de faixas (7 de 17) se resolve como vinheta, durando menos de dois minutos e explorando apenas uma ideia. Mesmo em algumas mais longas o sentimento de vinheta parece permanecer – e é justamente nelas que surge a sensação de que o disco se alonga mais do que deveria. Nesses momentos, dá a impressão que estamos mais diante de um laboratório que de um alinhavamento final. Nos melhores momentos de Qua, temos o Cluster no topo de sua maquinaria; mas em outro, parece que estamos apenas observando o trabalho preliminar de um grande disco por fazer. (Ruy Gardnier)

* # *

Diz o provérbio: cria fama e deita-te na cama. Talvez severo demais para se aplicar ao Cluster, esta frase ao menos situa minha impressão em relação a Qua: uma compilação de experimentos instrumentais mais ou menos surpreendentes, mais ou menos compatíveis com o passado iconoclasta e um tanto quanto misterioso do grupo. O possível excesso da frase diz respeito a uma certa acomodação, daquelas que percebemos assim que o álbum começa, respaldada no entanto pelas pretensões experimentais da música e da história da dupla. Em outras palavras, Qua traz uma expressão demasiadamente ligada aos anos 70, mais especificamente ao ex-parceiro Brian Eno, como em “Putoil” e mais ainda em “Stenthin” e “Formalt”. Posso afirmar que estou entre os que nunca foram grandes fãs do Cluster (e mesmo do Kluster), mas também entre aqueles que, não sendo fãs, ao menos respeitam e admiram a rigidez e o caráter virtuoso com que Hans-Joachim Roedelius e Dieter Moebius criam suas sonoridades. Sobretudo as indecifráveis, nas quais eles se especializaram e que fizeram a fama dos dois primeiros álbuns: as texturas “férreas”, os pianos jazzy, as incursões em territórios novidadeiros como o dubstep (assim percebo em “Na Ernel”). Particularmente, sinto falta em Qua de algum elemento de ordem conceitual que forneça um sentido menos laboratorial à empreitada do grupo. Sofro também com a sua duração, que faz parecer ainda mais obsoletos os trechos menos inspirados. Sim, eles extraem bons momentos de sua ampla e variada paleta de sons; mas que infelizmente não fazem com que o Cluster habite de forma categórica o seleto rol dos grandes experimentadores da atualidade. Longe disso. (Bernardo Oliveira)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 20 de agosto de 2009 por em ambient, eletrônica, experimental e marcado , , , .
%d blogueiros gostam disto: