Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Ghédalia Tezartès – Repas froid (2009; [ tanzprocesz ]; Itália [França])

repas froid

Sabe-se que Ghédalia Tazartès começou a cantar aos 12 anos, por ocasião da morte de sua avó. Sabe-se também que ele costumava se apresentar por conta própria no Bois de Vincennes… Lendas que circundam a vida pouco conhecida deste cantor e compositor parisiense, nascido em 1947. Com o lançamento de seu primeiro álbum em 1979, Diasporas, Tazartès adquiriu notoriedade. Em 1982, lançou o que muitos consideram como seu álbum mais importante, Une éclipse totale de soleil, uma experiência com música eletrônica. Trabalhou regularmente como compositor para teatro e cinema. Sua obra transita entre aspectos da música oriental – principalmente a música árabe –, música concreta, noise, drone e colagens com sonoridades pouco convencionais. Repas froid é seu décimo primeiro álbum. (BO)

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Muitas são as dificuldades e particularidades apresentadas pelo trabalho de Ghédalia Tazartès, especialmente neste Repas froid. Diante do mistério que envolve seu nome e o caráter esporádico e desafiador de seus álbuns, somos tentados a falar mais do artista que do disco em questão, o que não faremos. Mas, visto que muito do aspecto anômalo de sua obra advém da capacidade de a cada momento reportar as obras anteriores, numa espécie de autofagia cíclica, cabe notar que Repas froid não é seu álbum mais impressionante, ficando com o de 1982, Une éclipse totale de soleil, o papel de representar o extremo criativo deste artista idiossincrático. Nele, ainda que algumas características recorrentes estejam ainda presentes, como a aproximação com o canto árabe (ou talvez arabo-andaluso) e a inclusão de vozes cotidianas, Tazartès explora de forma mais ampla a música eletrônica, criando sonoridades que podem alçá-lo tranquilamente a precursor de um Autechre, por exemplo. Assim, para tentar compreender o estatuto de Repas froid na obra de Tazartès, procurei conhecer todos os seus álbuns, o que me levou não somente a surpresas de ordem estética, como também tive acesso a uma sorte de reflexão que ultrapassa a própria questão musical em direção ao campo da reflexão sobre arte. Pois, na minha opinião, Guédalia Tazartès é um “artista plástico”, no sentido contemporâneo do termo, que se utiliza da música para propor questões próximas da arte.

De Duchamp, por exemplo, percebemos a influência no modo com que ele descodifica certas formas musicais, como a música árabe e a música concreta, utilizando-as de outra forma, geralmente irônica ou fake. Ou ainda como sua música tem uma dimensão de jogo, de gadget, projetando e recortando formas musicais avulsas e sintonizando-as com contextos absolutamente diferentes dos originais. De Kurt Schwitters percebemos um desenvolvimento particular da idéia de “obra de arte total”, na medida em que ele transforma em matéria artística até mesmo as sonoridades que não se identificam com o discurso musical. O método também ecoa nos modos da música: reza a lenda que, como um colecionador de objetos, Tazartès produz trechos e os compila em um enorme arquivo, de onde podem sair excertos diversos, compostos em datas variadas. Muitas vezes, graças a este procedimento, somos surpreendidos por vozes e sonoridades que já existiam em álbuns anteriores, mas que retornam como meio de autorremissão, mas também de descontextualização. Extremamente particular e ousada, a música que emana deste Repas froid é inseparável deste contexto: tanto é uma experiência sonora que joga com as noções de “música”, “autoria” e “ineditismo”, como também coloca em perspectiva o pensamento inaudito deste verdadeiro autor.

A audição, por sua vez, não é simples nem fácil. Requer do ouvinte que ele jogue o jogo e se deixe inebriar pela sequência de faixas sem título repletas de momentos esculpidos com delicadeza e espírito. Em Repas froid, discussões familiares são entrecortadas por fanfarras poliétnicas, barulhos diversos, interlúdios chopinianos, cantos de variadas procedências e tipos, corais, orquestras, sons eletrônicos, repetições, conversas, bate-boca, balbucios, coisas quebrando, cenas cotidianas, minutos de silêncio… Sem dúvida são elementos variadíssimos, mas posso estar passando a falsa impressão de que se trata de uma balbúrdia… Ocorre porém que algumas audições vão dando contorno a uma concepção muito bem delineada. Sim, trata-se de uma bricolage, mas, ao contrário da gratuidade que percorre muitas bricolages contemporâneas, as criadas por Tazartès são preenchidas por altas carga de expressão poética e dramática, tanto no que diz respeito ao seu poder de maravilhar, como também na capacidade de criar nexos surpreendentes e reportar a questões de ordem reflexiva. E começo até a me contradizer, tamanha a confusão que Repas froid causa: não sei se ele intriga mais que leva a reflexão, ou vice-versa.

Embaralhamento de sentido, poder de transfiguração, carga reflexiva. Se estas características definem o álbum e, em certa medida, todo o esforço de Tazartès, isso fica claro assim que passsamos a ouvi-lo. Pois o sabor de Repas Froid não se manifesta enquanto não encaramos a estrada árdua que leva ao cerne da dimensão filosófica de seu trabalho, a saber: que a música nada mais é do que aquilo que elegemos como parte integrante do discurso musical, e mesmo a vida pode ser música conquanto está em nosso poder exprimir uma perspectiva; que o discurso musical é apenas um enfoque determinado por condições morais que se refletem diretamente na fruição e que a expressão humana contém potencialmente todas as formas da arte; e que, por fim, a imaginação de um artista não carece necessariamente de diálogo com a arte, mas sobretudo com o “fora” da arte, com o movimento propriamente dito da vida. A música de Tazartès é um fervoroso louvor a este “fora”, ao movimento das coisas, e Repas froid exprime de forma admirável este pensamento. (Bernardo Oliveira)

PS.: Será este garoto que fala no disco é o mesmo que fala em Une éclipse totale de soleil? Será que é o jovem Tazartès em gravação de arquivos?

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A música realizada por Ghédalia Tazartès se coloca dentre as mais enigmáticas de todos os tempos. Primeiro porque não sabemos exatamente como esses sons foram produzidos; segundo porque as vozes que ouvimos (cantando em línguas existentes ou inventadas por ele), de homens, mulheres e crianças são, aparentemente, da mesma pessoa: o próprio Ghédalia; e terceiro porque as misturas, não apenas de edição, mas de estilos e etnias são tão variadas, que é impossível estabelecer um rótulo – a música de Ghédalia Tazartès é estrita e rigorosamente a música de Ghédalia Tazartès.

Repas froid foi engendrado supostamente de material sonoro arquivado do cantor, gravado entre o final dos anos 70 e início dos 80. Os sons que ouvimos são dos mais diversos, assim como suas ligações, abruptas e radicais: há música concreta, longos solilóquios de uma criança, cantos árabes, indianos, percussões tribais, piano, acordeão e muito mais. Elementos esses que nunca são unificados de modo harmonioso: a edição é, na maior parte das vezes, brusca e anticonvencional, quando não sobreposta. O termo cinematográfico jump cut é comumente utilizado para designar a maneira de Tazartès editar; a exemplo do cinema com as imagens, ele não busca uma extensão eterna dos sons, mas o corte áspero, que vem para alterar o movimento dos mesmos.

Segundo Tazartès, todas as gravações realizadas por ele são improvisadas. E tanto nas execuções de voz e instrumentos, quanto na edição, percebemos o caráter instável e espontâneo de sua música. Mas ele vai além: ao colocar sua própria voz quando criança no início do álbum, Tazartès busca a essência quase pura da espontaneidade. O menino, pouco consciente dos desdobramentos da suas cordas vocais, repete frases, gagueja, murmura e arrisca melodias que vêm à sua cabeça naquele mesmo instante. Nesse momento nos damos conta da profundidade artística da música de Tazartès, que não lida com a mera improvisação, mas com a autorreflexão e com questionamentos filosóficos concernentes à emanação e deslocação dos sons.

É por esses motivos que Repas froid é um dos álbuns mais atemporais concebidos na música: não pertence a lugar, tempo e história algum. Poderia ser de hoje, como de duzentos anos atrás. O aspecto camaleônico da voz de Tazartès não deixa esconder: essa música também não pertence a ninguém. Se há subjetividade, é na própria constatação de que a obra foi feita para não identificar subjetividade em quem a executa, embora seja tão singular, tocante e obscura que só podemos relacioná-la a uma única pessoa: Ghédalia Tazartès. (Thiago Filardi)

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A audição de Ghédalia Tazartès é particularmente desafiadora e carrega em si, dada a quantidade de caminhos que parece apresentar, muitas falsas pistas. Podemos nos orientar com um adjetivo: pós-cageano. Sem querer inscrever um trabalho tão singular e excêntrico em qualquer escola, essa palavrinha simplesmente quer dizer que Tazartès compõe sem qualquer tipo de apriorismo a respeito do que é musical: musical é o que lhe parece sonoramente expressivo, e é com sons de natureza extremamente diversa que ele vai compor sua música. Mas se dentro da seara pós-cageana a figura de Ghédalia Tazartès mantém-se como um enigma, é que ele não usa esses “ensinamentos” sobre a ontologia musical para circunscrever um outro território sonoro (“o” noise, “o” drone, “o” field recording, ou os rigorosos e estruturalmente estóicos processos de composição eletroacústica de inclinação erudita). Tazartès não vai reduzir seu espectro sonoro a partir de nenhuma dessas modulações, que não deixam de ser uma forma de recriar padrões (ainda que instáveis e autopoiéticos, como no caso de Merzbow, por exemplo, ou do Machinefabriek ou do William Fowler Collins). O que causa espanto ao se ouvir um disco como Repas froid é a extrema heterogeneidade das fontes sonoras, tanto as “musicais” (acordeon, bateria eletrônica, canto) quanto as “não-musicais” (criança falando, barulhos de coisas se chocando, portas fechando), que evitam qualquer “harmonização” dentro de um espectro sonoro determinado. Pelo contrário: é um disco absolutamente imprevisível, porque mergulhado no aberto de possibilidades.

Isso traz um possível problema. Sendo a arte uma intervenção sobre o variado da existência – toda a possibilidade de sons que podem ser realizados e imaginados –, uma obra que se entregue inteiramente ao aberto corre o risco de se identificar com a ausência de intervenção. Mas Tazartès não envereda por esse caminho, muito pelo contrário: sua música jamais correrá o risco de soar indiferente ou sem rosto. Mais o oposto, aliás. Porque se ele não usa de nenhuma trava (=metodologia, =processo) para circunscrever sonoramente sua música, isso não quer dizer que ele não circunscreva. Circunscreve, sim, não sonoramente, não conceitualmente, mas por afetividade. Não só no mesmo disco, mas ao longo de sua carreira (ao menos os discos que pude ouvir, não mais que três), o fator que parece ordenar e dar contornos e personalidade próprios à música de Tazartès é a ideia de coleção. Coleção de sons, naturalmente, de onde se supõe que vêm tantas vozes impressionantes do canto árabe, tantas falas expressivas, tantas outras coisas mais… Mas coleção também num sentido mais profundo, não apenas a ideia de um acervo mas também uma organização, e a maneira de associar os diferentes elementos da coleção. É nesse momento que percebemos que a variedade não é tão variada assim, alguns procedimentos são repetidos, reutilizados, ou simplesmente o efeito criado é um tanto primário. Mais um problema, ao qual Tazartès certamente sucumbe por momentos: o uso dos itens da coleção como fetiches (sendo a coleção de caráter arbitrário partindo do gosto do artista, um pouco inevitável fugir disso). Nada disso, no entanto, deve servir como motivo para fugir da audição de Repas froid: é um disco que cativa pela estranheza e que está longe de se deixar desvendar de forma fácil. Mas que, ao longo das seguidas audições, quando a sensibilidade já consegue encontrar um ponto mais sólido em que se situar, resvala ora no arbitrário do “gesto de artista”, ora na monotonia da sistematização dos procedimentos. (Ruy Gardnier)

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Um comentário em “Ghédalia Tezartès – Repas froid (2009; [ tanzprocesz ]; Itália [França])

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Publicado às 3 de setembro de 2009 por em experimental e marcado , .
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