Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Harappian Night Recordings – The Glorious Gongs of Hainuwele (2009; Bo’ Weavil, EUA)

cover

Harappian Night Recordings é um projeto de um homem só, Dr. Sayed Kamran Ali, personagem misterioso, sobre o qual sabemos as seguintes informações: vive na Inglaterra; é membro do grupo Hunter Gracchus; tem conexões com Part Wild Horses Mane On Both Sides, Sun City Girls e com o selo Sublime Frequencies, sem que saibamos em que nível essas colaborações se dão. The Glorious Gongs Of Hainuwele é seu primeiro e único álbum solo. (BO)

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Entre as possíveis reações à primeira audição deste álbum do Harappian Night Recordings, consta certamente em primeiríssimo lugar a opinião de que se trata de uma compilação de field-recordings de música oriental e africana. Um passo à frente e pode-se aventar a hipótese de que se trata de uma série de reconstituições e apropriações sonoras da mal chamada “música étnica”, num trabalho de verdadeira ourivesaria musical. Este é, inclusive, o enfoque dos poucos sites e publicações que se dignaram a escrever sobre este lançamento tão misterioso quanto obscuro. Mas eu, sinceramente, tenho algumas suspeitas a respeito desse álbum. Não que duvide de sua força de expressão, muito pelo contrário. Mas, em primeiro lugar, não creio que as aspirações de Dr. Sayed Kamram Ali se encerrem na emulação e no comentário. Penso que não se trata somente de um pesquisador convencido das potencialidades da música africana e oriental; ou de um dedicado diletante, apaixonado não só pela música, mas também pelas sonoridades específicas originadas pelas más condições de gravação e reprodução que envolvem esses registros, pelas estáticas e ruídos que permeiam seus exemplares velhos e raros. No MySpace, uma pista: além de músicos como Violeta Parra, consta entre as influências do trabalho o poeta Pir Sultan Abdal, o dramaturgo Fernando Arrabal, o filósofo Pierre Proudhon, a cineasta Maya Deren, entre outros. Entre eles, o mais sintomático enquanto referência: Borges. Uma chave de interpretação um pouco mais complexa emerge após esta listagem heterogênea. Ou bem Dr. Sayed converte seus múltiplos interesses em música, perfilando peças representativas de contextos culturais diversos, o que comprometeria o resultado e resultaria em culto naïve e deslumbre. Ou se compreende a empreitada como parte de um processo eminentemente borgiano de refazimento e reconstrução ipsis litteri de trechos musicais, escolhidas ao sabor da pesquisa e da intuição musical do autor.

Penso, entretanto, que um um passo além destes é possível. Porque, no fim das contas, familiarizado com o álbum, percebo que essas impressões iniciais estão equivocadas. Não se trata de uma compilação de registros, nem de mera reprodução do gosto e dos interesses do autor, muito menos de uma peça de arte com pretensões reflexivas. The Glorious Gongs Of Hainuwele contém uma série de faixas que se utilizam, dentre outras coisas, de timbres e ritmos africanos e orientais, emoldurados por técnicas de gravação que interferem decisivamente no produto final. Em suma, para acessar o conteúdo criativo do álbum convém ultrapassar o preconceito “auditivo” (posto que se trata de um preconceito da percepção) que se confunde com duas ideias. Primeiro, confinar os timbres e ritmos deste universo musical das gravações de música oriental e africana no registro da “música étnica” ou da compilação acadêmica. E também que a utilização de técnicas de gravação antiga denotam capricho, e não o interesse na exploração de outras sonoridades. Ultrapassadas essas ideias é possível perceber que o intuito do Harappian Night Recordings é produzir, não uma ilusão multicultural, mas sobretudo uma sonoridade supra-étnica, absolutamente pagã e essencialmente ocidental.

Supra-étnica porque não mede esforços em mesclar sonoridades diversas e tecer as combinações mais ousadas, como os sons metálicos de “Taqsim”, as flautas tremulantes da faixa-título, o drone repleto de harmônicos de “Red Eyes, Noose And Goad”, os sopros estridentes do mizmar árabe de “Bate Cairo”, e na voz ditorcida “The Sarimanok Flies”. Pagã porque híbrida, mas também dançante e, muitas vezes sombria, como na batucada hipnótica de “Headless mule”. E essencialmente ocidental porque percebe-se na pegada dos instrumentos uma rusticidade muito aquém da que conferimos, por exemplo, ouvindo o gamelão javanês ou a voz rouca de Clementina de Jesus – em oposição à assepsia dócil e exagerada das chamadas “sambistas contemporâneas”… Mas também pelo punk rock de “The Ire Of Konda Mangali”, que destila o suingue anglo-saxão, a duração das faixas, inscrita nos padrões da indústria fonográfica ocidental, as linhas melódicas, etc, elementos que denunciam a óbvia manipulação encetada por Dr. Sayed. Mas em favor do que? Eu penso que faixas como a já citada “Bate Cairo”, “Headless mule” e “Siyah Hashye” demonstram arrojo impecável na concepção, de forma que a emulação se torna uma parte componente de algo maior e mais complexo. Por que não lançar mão destas sonoridades, explorando-as de forma criativa?, parece ter se perguntado Dr. Sayed antes de gravar o álbum. Pergunta evidente, mas restrita a um conjunto de curiosos e experts. Ah, sim, considerando que o Tazartès não seja o precursor desta modalidade, com seu canto árabe e árabo-andaluso fake, hipótese que eu concordo definitivamente –  papo pra uma outra ocasião. Por ora, fiquemos com a surpresa soturna e rascante de The Glorious Gongs Of Hainuwele e o reputemos como um dos projetos mais originais do ano. (Bernardo Oliveira)

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The Glorious Gongs of Hainuwele é um álbum rodeado de misticismo. A começar pela identidade de seu criador, sobre a qual não sabemos absolutamente nada: nome verdadeiro, nacionalidade, ou sequer se o Harappian é de fato um projeto individual. Dr. Sayed Kamran Ali vive na Inglaterra e tem conexões com o pessoal da Sublime Frequencies, o que talvez seja suficiente para encaixá-lo num perfil, já que sua música tem grande afinidade com alguns lançamentos do selo supracitado. Mesmo assim, a proposta deste LP é extremamente ousada para os padrões da Sublime: é um tour de force de um músico só que utiliza instrumentos típicos do gamelão e outros menos conhecidos por aqui como o mizmar, ud (uma espécie de alaúde, porém mais antigo), o khene, etc. Lembrando que Kamran Ali, independentemente da sua nacionalidade, reside no Reino Unido, mas criou uma obra com sonoridades e instrumentos típicos da Indonésia, sem praticamente nenhum resquício de signos ocidentais. O próprio título, que remete a uma lenda folclórica de Seram, nas Ilhas Molucas, adiciona mais um elemento místico ao trabalho – Hainuwele é “a garota do coqueiro”, que teria brotado de uma flor após um homem chamado Ameta ter cortado seus dedos em cima do coqueiro e deixado o sangue cair em cima desta flor.

Musicalmente, o Harappian Night Recordings é não só surpreendente como espantoso. Todas as faixas englobam um grande número de instrumentos ou, pelo menos, a multiplicação de um deles, através de técnicas como o multitracking e demais efeitos de distorção. As músicas mais dançantes, como “Bate Cairo”, “Headless Mule”, “The Ire of Konda Mangali” e “Lila Derderba”, causam até uma espécie de transe no ouvinte, tamanha é a energia com que Kamran Ali executa seus instrumentos. O que mais impressiona, no entanto, são as faixas que se assemelham a field recordings, ou gravações extraídas de rituais tribais da Indonésia, mas que são, na verdade, sons produzidos em estúdio pelo próprio Kamran Ali, como se ele estivesse emulando field recordings. O resultado, que mesmo não tendo um aspecto muito coeso e satisfatório no encadeamento das músicas, é um dos mais originais e interessantes vistos nos últimos anos, que põe The Glorious Gongs of Hainuwele num nicho bem estrito: o de álbuns verdadeiramente místicos e fascinantes. (Thiago Filardi)

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Uma das possibilidades menos exploradas na estrutura da Camarilha até hoje – cada redator propondo dois discos a cada semana – é o confrontamento dialético entre os discos propostos. Digo isso porque os álbuns ouvidos na semana, o de Ghédalia Tazartès e desse obscuro Harappian Night Recordings, se alimentam mutuamente. Apesar das óbvias diferenças, ambos parecem basear-se no poliétnico não como um elemento de fetiche particularista – a mania do folclore, da ingênua busca pelo “autêntico” intocado por ocidentalismos etc. –, mas como um palco para diversas práticas musicais e sonoridades de instrumento que, ao contrário de se repelir, unem-se numa espécie de completa zona franca em que todas as comunicações são possíveis, por mais distantes que seja a proveniência dos conceitos que deram forma à música ou o tipo particular de instrumento que deu a ela seu som. Mas enquanto Tazartès parece imbuído de uma preocupação muito auto-centrada, resvalando quase na outsider music, o Harappian Night Recordings parece justamente brincar com essa busca da etnomusicologia pelo puro elemento de exterioridade do sistema, utilizando de forma extremamente criativa e mesmo bem-humorada a pobreza de condições em que as gravações são feitas para criar não só experimentações de timbre e textura – o que parece essencial aqui –, mas também essa “aura” do acesso ao primitivo caracterizada pela baixa fidelidade das gravações feitas na urgência e “ao vivo”.

O site da Bo’Weavil Recordings diz extremamente o que o disco parece em primeira audição: uma coleção de registros de campo de diversas práticas musicais coletadas ao redor do globo em áreas não-industrializadas. Em seguida, o textinho introdutório nos remete à figura do Dr. Syed Kamran Ali, afirmando que é ele o responsável por todos os sons do disco. Mas a aparência de que The Glorious Gongs of Hainuwele é uma coletânea de música étnica ultrapassa as técnicas de gravação e mesmo a imediata sensação de “som étnico” quando ouvimos o som ds instrumentos e ritmos que estamos acostumados a ouvir como a tradição de um outro grupo cultural. A própria estrutura das faixas, baseando-se geralmente em apenas uma ideia – uma melodia, um timbre de instrumento, um tipo de textura –, garante um pouco essa impressão de que se está gravando algo relevante como registro cultural para a posteridade. Independente de quem está por trás do Harappian Night Recordings – e acho bem provável que o Bernardo esteja certo quando aventa a hipótese de ser um projeto da galera em volta da turminha Sun City Girls/Sublime Frequencies –, esse disquinho intrigante e misterioso é uma majestosa aplicação do universo lo-fi – geralmente restrito aos universos do folk, do rock cru e do noise – a uma aparentemente infinita virtualidade de práticas musicais. Jogando ou não isso na conta da erudição poliétnica dos irmãos Bishop, o que sobra vividamente desses gongos gloriosos de Hainuwele são algumas das mais deliciosas melodias arabizantes e alguns dos zumbidinhos mais cheios de personalidade ouvidos em algum tempo. (Ruy Gardnier)

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Publicado às 4 de setembro de 2009 por em Uncategorized e marcado , , .
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