Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Björk – Medúlla (2004; One Little Indian/Elektra, Reino Unido/EUA)

medulla

Björk Gudmundsdóttir (1965) é uma cantora islandesa. Esteve envolvida com música desde criança, lançando seu primeiro disco em 1977, com doze anos de idade. Participou das bandas Tappi Tíkarrass e KUKL, mas foi com os Sugarcubes que atingiu fama internacional, a partir de 1988. Com a dissolução do grupo em 1992, seguiu carreira solo e transformou-se numa das artistas mais renomadas da música pop internacional, com 13 prêmios Grammy e até uma Palma de Ouro de melhor atriz no Festival de Cannes de 2000 pelo filme Dançando no Escuro, de Lars von Trier. Début, o primeiro solo pós-Sugarcubes, é de 1993. Seguiram-se Post (1995), Homogenic (1997), Vespertine (2001), Medúlla (2007) e Volta (2007), além das trilhas sonoras Selmasongs (2000), do filme Dançando no Escuro, e Drawing Restraint 9 (2005), filme dirigido pelo marido da cantora, o artista visual Matthew Barney. Em Medúlla, Björk quis explorar a expressividade e as potencialidades da voz humana, gravando quase todos os sons do disco com e a partir dela. Entre os convidados estão Mike Patton, Tagaq, Rahzel, Robert Wyatt, Dokaka e diversos coros.

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Medúlla é o típico disco cuja avaliação crítica só tende a melhorar com o tempo. Não “melhorar” no sentido de passar a achar o disco melhor, mas de encontrar uma certa distância para avaliá-lo a partir do que ele pede, e não das “novidades” propostas e propaladas pela mídia, a saber, o uso quase que por completo de vozes na feitura do álbum, as participações especiais e a nefasta circunscrição do disco no território do “a capella”, como se fosse essencialmente esse traço o que tornaria (ou não) artisticamente legítimo o álbum. Porque é um pouco a maldição de Medúlla: o fato de uma cantora com a envergadura e a repercussão pública de Björk – naquele momento com um perfil vanguardístico já devidamente constituído, mas pairando no universo da eletrônica, via Mark Bell, via Matmos – fazer um disco “só de voz” passou a dominar toda a discussão em torno do disco.

E, claro, as intervenções são impressionantes. Uma parte do encantamento causado por Medúlla diz respeito às texturas, aos timbres e às emulações criadas por exímios executantes – em especial no caso de Mike Patton, do criador de beatbox Rahzel e da throat singer Tanya Tagaq. Mas apesar do lado “workshop” do disco ser exuberante, há nele muito mais que um workshop. É o disco de uma cantora conhecida por um timbre singular de voz – e que além do timbre mostra alcance vocal e domínio impecável – que faz seu tributo aos poderes da voz de criar emoção e sons inusitados. E nessa cruzada (ou nessa viagem ao fundo de si e de sua técnica) ela não busca a expertize dos virtuosos, e sim o sentimento: prova disso é a inclusão da voz de Robert Wyatt, dono de um registro não muito grande, mas com uma voz intensamente emotiva e vulnerável

Então, a questão do disco não é em que medida o disco soa ou não soa como um disco a cappella – ele vai soar a cappella demais para aqueles que não suportam ouvir corinho harmonizando e gente fazendo vocalize, e vai soar infiel àqueles que consideram ser este uma premissa do disco (quando é apenas um ponto de partida). Mas o essencial, como em todo bom disco, é o que se faz com aquilo que se decidiu utilizar. E o resultado é do mais alto quilate, com momentos de alta intensidade: a ver, por exemplo, o momento de “Where Is the Line” em que um efeito eletrônico incide sobre a voz e reconfigura sua relação com o beatbox e o “acompanhamento”, ou a linda e algo fennesziana cama de sintetizador que serve de fundo para a delicada “Desired Constellation”.

Se Vespertine abria o terreno para uma Björk mais singela e encantatória, em oposição a furações como “Army of Me”, “Hunter” ou “Bachelorette”, Medúlla dá uma nova guinada para a versatilidade, alternando instantes calmos com momentos mais agitados. Mas se Post e Homogenic se aproveitavam da diversidade das faixas para dar uma dinâmica soberba à audição, e Medúlla se aproveitava da maior homogeneidade entre o feeling das faixas a fim de criar a sensação de intimidade com inegável força, Medúlla parece relativamente mais travado nesse sentido, não achando totalmente seu caminho na progressão das faixas. Os momentos confessionais arriscam a redundância numa faixa menos bem sucedida como “Ancestors”, e a faixa mais pop, com direito a refrão pegajoso à la Madonna, simplesmente não chega lá (“Who Is It”). Não que chegue a comprometer; Medúlla é um disco cheio de belezas e pulsando de vitalidade. “Submarine”, “Triumph of a Heart”, além de algumas já citadas, garantem a imprescindibilidade de mais um disco de Björk. E se não é um disco essencial, isso pouco tem a ver com o conceito trabalhado, e sim com a articulação dele ao longo da composição e da duração. (Ruy Gardnier)

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A partir de Homogenic, a imprensa passou a inferir conceitos fechados dos trabalhos de Björk, ganchos que no fim das contas mais indicavam experiências localizadas do que resumiam a estrutura do álbum. No caso de Homogenic, ressaltaram-se os aspectos tecnológicos dos timbres e dos clipes, reforçados pela imagem nipo-robótica da capa. Em Medúllla, disseram estes mesmos críticos – sob os auspícios da própria cantora – que tratava-se de um estudo acerca da voz humana, o que por si só já seria fascinante! Imaginem: a dona da voz mais singular da música da virada do século, experimentadora de primeira cepa, rende homenagem à voz humana sob uma dupla perspectiva, uma gutural e primitivista, outra reprocessada por equipamentos eletro-eletrônicos. Neste sentido, ela já havia realizado um excelente trabalho em Vespertine, mas é de se supor que a pujança do “órgão” de vozes de “The Pleasure is All Mine”, mas também a celebridade do casting, que incluía desde Robert Wyatt a Mike Patton, tenham contribuído para reforçar o foco na exuberância do trabalho com vozes em Medúlla. Uma pá de audições para além da pressa irracional dos noticiários revelam que o conceito deste álbum extrapola tais limites. Em direção a que caminho exatamente?

Se me pedissem para eleger um marco na carreira de Björk, eu citaria Medúlla por uma razão não tão simples, mas facilmente detectável. É a virada de uma carreira pop-avant-garde já brilhante, mas ainda atrelada a certas fórmulas de mercado (“Army of me” como exemplo…), para uma musicalidade essencialmente dramática, tingida por nuances e conceitos retirados de fontes mais complexas e, portanto, mais difíceis. Sim, a partir de Medúlla o trabalho de Björk se tornou mais difícil, e aqueles que já não toleravam seus modos bizarros, passaram do ódio ao desprezo, devido sobretudo a ausência de um single forte o suficiente para invadir suas casas a fórceps. Ou “Where is the Line” (com Mike Patton e Rahzel) e “Oceania” (com Nico Muhly e Robert Wyatt) são lá faixas do porte das que invadiram a MTV nos tempos em que gostar da Björk era meio de inserção social? Medúlla não tem single com cara de single. É música desobrigada de seguir os limites da audibilidade média, é o que atesta a pluralidade de ritmos e timbres, a quantidade absurda de climas que perpassam todo o álbum.

Até hoje, anos depois, me sinto tocado por esta introdução acachapante, lírica e fantasmagórica, que é “The Pleasure is All Mine”; pelos golpes surdos do beat box de Rahzel, pelo coro mal-assombrado e pela beleza da melodia irregular em “Where is the line”; pela riqueza apolínea de “Submarine”, com a preponderânca do timbre inconfundível de Wyatt; pela melancolia desesperada de “Desired Constellations”, pelas síncopes rítmicas de “Who is It?”, pela limpidez da voz de Björk, pela beleza pura e selvagem de “Ancestors” e pelo excesso de cuidado e apuro com que todas essas faixas foram elaboradas. Apuro, que junto a imprevisibilidade dos timbres, faz de Medúlla um álbum impressionante, um legítimo OVNI, como nos referimos recentemente a outras duas magníficas aberrações da década, Asa-Chang e The Books. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 10 de setembro de 2009 por em experimental, pop e marcado , , , , , , , , , , , .
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