Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Sparklehorse + Fennesz – In the Fishtank 15 (2009; In the Fishtank, Holanda [Áustria/EUA])

sparklehorsefennesz

Sparklehorse é uma banda americana de rock composta pelo cantor e multiinstrumentista Mark Linkous com amigos (em especial Scott Minor). O primeiro disco do projeto é Vivadixiesubmarinetransmissionplot, de 1995. Em seguida, o grupo excursionou com o Radiohead, adquirindo maior notoriedade. Na turnê, Linkous teve uma overdose que quase o matou. Os discos seguintes do projeto são Good Morning Spider (1998), It’s a Wonderful Life (2001) e Dreamt for Light Years in the Belly of a Mountain (2005). Em 2009, já lançou Dark Night of the Soul, em companhia de Danger Mouse e David Lynch. Cristian Fennesz é um músico austríaco, que usa sons de violão, guitarra, sintetizadores e computador. Seu primeiro lançamento é o EP Instrument, de 1995. Seus álbuns solo são Hotel Paral.lel (1997), Plus Forty Seven Degrees 56′ 37″ Minus Sixteen Degrees 51′ 08″ (1999), Endless Summer (2002), Venice (2004) e Black Sea (2008). Realiza parcerias com diversos artistas, entre os quais Ryuichi Sakamoto, Keith Rowe, Jim O’Rourke, Peter Rehberg, David Sylvian e Oren Ambarchi, entre outros. Sparklehorse e Fennesz já tinham se apresentado ao vivo em 2003, mas In the Fishtank 15 é o primeiro registro de estúdio dessa união.

* # *

Confesso não saber rigorosamente nada da carreira do Sparklehorse, apenas que se trata de um grupo indie com uma vibe psicodélica retrô anos 60. Assim, só não me espantei ao saber do lançamento de In the Fishtank 15 porque sabia que Fennesz e Sparklehorse já haviam se reunido para alguns shows em 2003. Não faço a menor ideia do que Christian Fennesz vê de mais significativo no trabalho de Mark Linkous, mas ouvindo esse disco admito ter ficado muito contente por essa reunião. Fennesz é um artista rigoroso, que vende seu lirismo caro demais para aqueles que esperam qualquer tipo de sentimentalismo meloso. Ao mesmo tempo, é impossível ouvir sua música, em especial aquela produzida a partir de Endless Summer, e não observar nela um componente intensamente emocional. Mas Fennesz não é só isso: ele gosta de explorar também camadas de ruído, de ambiências, de glitches, criando um soberbo amálgama de sons que parecem registros sonoros de alguma cidade encantada. Na qual o sentimentalismo está presente, mas não é o único, tampouco o principal elemento.

In the Fishtank 15 é um disco precioso porque a parceria de Sparklehorse possibilita a Fennesz exercitar seu lado mais pronunciadamente emocional. Em Black Sea, o emotivo estava inteiramente carregado de uma limpidez escultural; em Endless Summer, ele aparecia carregado por uma monumental parede de distorção remanescente do shoegaze. Nesse disco de reunião, ao contrário, a verve emocional de Fennesz pode aparecer inteirinha, isolada, em primeiro plano. Não que Linkous desempenhe um papel de coadjuvante – certamente o disco soa muito mais como Fennesz do que como os discos do Sparklehorse (um brinde aos céus por isso!), mas a sensibilidade dos dois se faz bastante presente em todo o álbum. Nos momentos mais interessantes e nos momentos menos interessantes. No entanto, sabe-se lá por quê – talvez uma certa timidez, talvez medo de soar piegas –, só quando encetou um trabalho a quatro mãos Fennesz decidiu dar vazão a seu lado mais doce e sentimental. E com isso, pra variar, criou algumas das músicas mais belas que ouviremos esse ano.

O disco começa singelo e majestoso com “Music Box of Snakes”, uma peça evocativa de ambient e do Múm do primeiro disco em que surgem como pinceladas alguns jorros moderados de glitch e samples diversos. O resultado é uma peça adocicada com camadas que vão aos poucos criando um relevo impressionante e rico, apoiando-se na lenta construção (quase 10min de faixa). Em seguida vem “Goodnight Sweetheart”, que é basicamente o momento mais doce e evocativo de um fim de tarde ameno que se vai encontrar em toda obra de Fennesz. Um senso de espaço fenomenal, e uma composição simples com acordes processados, cheios de eco, com Linkous cantando repetitivamente o nome da faixa, enquanto novas camadas de glitch vêm somar e encher a composição. “If My Heart” segue o mesmo percurso, apenas adicionando o violão limpo à gama de sons emocionais e sutilmente-abrasivos-tornados-líricos. Essas três faixas são tranquilamente o que há de melhor em In the Fishtank 15, e já o garantem como um disco inescapável, ao menos para quem gosta de Fennesz.

O resto, francamente, deixa a desejar. “Shai-Hulud” tem sonzinhos bem bacanas, mas Fennesz não sabe dar a eles o acabamento que picotadores anarquizantes como os caras do Black Dice dariam. Em “NC Bongo Buddy”, a união não dá certo: Fennesz está no topo de seu modo improv/noise, mas os barulhos que Mark Linkous tira da guitarra já estão para lá de inventariados desde os primeiros anos do Sonic Youth. “Mark’s Guitar Piece” e “Christian’s Guitar Piece” são peças de violão, uma de cada um dos participantes, e ainda que o austríaco se saia melhor, sua faixa não passa de uma curiosidade que fecha o disco em chave singela e modesta (1min30 de dedilhados). In the Fishtank 15 resulta numa mistura de experiências muito bem-sucedidas e outras muito pouco. Média 5? Nada disso: os vinte minutos que compõem o melhor do disco estão fácil entre as melhores coisas que ouviremos este ano,  e portanto a união passa direto, e com louvor. (Ruy Gardnier)

* # *

Para os que já se encontravam familiarizados com o cancioneiro mezzo experimental de Mark Linkous, conhecido como Sparklehorse, este álbum deve ter soado como uma aberração. Para mim, bastou uma passadela pelo previsível sotaque “beatle” de seu último álbum, Dreamt for Light Years in the Belly of a Mountain de 2006, ou a recente e anódina colaboração com Dangermouse, Dark night of the soul, para confirmar um palpite: o trabalho de Linkous é simplesmente correto e, até certo ponto, honesto, conquanto se pode admirar certos momentos de ousadia formal e inspiração na composição. Ao passo que Christian Fennesz possibilita um outro mundo possível: e quem não conhecesse Sparklehorse previamente a este álbum? Certamente o consideraria um compositor sui generis, uma voz penetrante e singular, algo como uma releitura digital de Nick Drake… É que Fennesz faz aquilo que esperávamos dele, desconstruindo as vozes, melodias e harmonias, traduzindo-as para o lirismo abrasivo que caracteriza o seu próprio território de ação, e com isso eleva estratosfericamente a riqueza  do trabalho de Linkous. Faixas como “Music Box of Snakes” e a atribulada “Shai-Hulud” evocam diretamente a música do austríaco, mas “Goodnight Sweetheart”, por exemplo, aponta uma outra direção, nem tão curiosa do ponto de vista formal, mas surpreendente enquanto resultado. “If my Heart”, com a minuciosa sobreposição de violões e guitarra distorcida, também configura um bom exemplo de como as operações fenneszianas agem sobre a matéria prima fornecida por Linkous, resultando em momentos de extrema delicadeza, precursores do que veio a ser Black Sea, seu mais belo álbum – já que o In The Fishtank 15 foi gravado em 2007.

In the Fishtank 15 é, certamente, um dos álbuns mais interessantes do ano, mais ricos em sonoridades estranhas e com uma coesão interna que denota a maturidade promissora da música de Fennesz. Que se ressalte, então, a verdadeira autoria do álbum, tanto do ponto de vista da forma, como das compoisições: é Fennesz da cabeça aos pés; de Sparklehorse é possível reconhecer algumas células de voz e violão, esfaceladas, amplificadas, transfiguradas, etc. Sua contribuição é, sem dúvida, fundamental, mas secundária. Tanto melhor. (Bernardo Oliveira)

Anúncios

2 comentários em “Sparklehorse + Fennesz – In the Fishtank 15 (2009; In the Fishtank, Holanda [Áustria/EUA])

  1. Rocco
    14 de setembro de 2009

    Bem meus caros, é o seguinte , posto alguns discos no blog http://www.riogroovefm.blogspot.com, e sempre antes de posta-los dou uma olhada na web se tem algo do mesmo por ela, e me deparei ao postar kasai_allstars com este blog, e por sinal achei o conteudo de uma elegancia incrivel, muito interessante, passarei por aqui mais vezes,espero voces por la tbm , forte abraço!

  2. Bernardo
    14 de setembro de 2009

    Valeu Rocco, obrigado pela força.

    Já tinha o Rio Groove no reader!

    Abraços

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 10 de setembro de 2009 por em Uncategorized e marcado , , , , , .
%d blogueiros gostam disto: