Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Calcinha Preta – “Você não vale nada” (2009; [independente], Brasil)

calcinha_preta

Caro cínico de plantão: talvez você já esteja esboçando aquela risadinha lateral, soltando algumas palavras rabugentas contra um possível mau gosto deste que escreve, ou até mesmo por conta de um mal estar que esta faixa popularíssima possa lhe provocar. Há ainda a possibilidade de que você remeta este texto a um contexto intelectual pós-tropicalista, com forte inclinação para o relativismo cultural do antropólogo Hermano Vianna, que deslumbra e irrita moderninhos com igual eficácia, invadindo até mesmo o horário nobre. Que fique claro para ti, cínico de plantão, que este que lhe escreve admira, sim, o trabalho de Hermano e dos tropicalistas e realmente acha que não há propósito em pensar a música segundo critérios de gosto, mas fundamentalmente enquanto um fenômeno expressivo. Porém, a questão aqui é outra e em nada se relaciona com as possibilidades aventadas acima. Então, de saída, advirto-lhe: este pequeno texto não é ingênuo, não deseja a provocação pura e simples e muito menos traduzir para um público bem pensante e abastado as pérolas da cultura de massas, num processo de reposição cultural mais que comum na história moderna – pense, por exemplo, nas tabernas francesas pré-revolucionária, infestadas de intelectuais e membros da nobreza, misturados à patuléia que em pouco tempo viria a lhes degolar…

Minha admiração por esta canção gravada pelo grupo Calcinha Preta me fez lembrar a admiração que Augusto de Campos nutria por Lupicínio Rodrigues. Tanto o admirava que escreveu um texto, dos mais belos que já li sobre um compositor popular. Campos chama atenção para a habilidade de Lupicínio em cantar o óbvio de uma forma tão própria quanto original. Lupicínio seria, para Campos, exemplo de uma habilidade poética que converte o lixo em luxo, que transforma a palavra desbotada em ouro e novidade. Não se trata somente da genialidade já reconhecida dos medalhões Waldick Soriano, Odair José e Reginaldo Rossi, mas também de Nando Cordel, Carlos Cola, Michael Sullivan, Paulo Massadas, entre muitos outros. E o que eles têm de excepcional é exatamente a capacidade de converter a redundância quase absoluta das fórmulas baladeiras em algo surpreendente e, por isso mesmo, inesquecível, seja através de um insight poético ou de ganchos melódicos. Esta premissa vale igualmente para que apreciemos adequadamente a axé music, o funk e toda as formas possíveis e imagináveis da música popular: a surpresa encrustada na rigidez da fórmula.

Claro que o cínico de plantão retrucará, afirmando que estes compositores possuem a máquina da indústria fonográfica e da Globo trabalhando por eles, mas este não é o caso da faixa em questão. Ela foi criada por Dorgival Dantas, compositor de 39 anos, nascido em Olho-d’Água do Borges, município no estado do Rio Grande do Norte. Assim como não há nenhuma grande corporação por trás do sucesso do Calcinha Preta e da banda Calypso, Dantas manifesta uma independência difícil de se obsevar nos artistas do eixo Rio-São Paulo, acomodados na estrutura das grandes gravadoras. Não se trata de “costas quentes”, mas de emancipação técnica e econômica aliada a um apelo público irresistível. Um dos pilares desta independência é a fidelidade do público, cultivada pela redundância do repertório, pela estrutura de arranjo e de composição. A novidade, portanto, é sempre parcial e vem das idéias, seja na gama de temas, seja na busca pela frase certeira que produzirá a empatia entre artista e público. Trata-se portanto de uma busca rarefeita: catar a surpresa na rigidez da redundância. Não uma inovação de ordem formal, mas sobretudo temática. No caso de “Você não vale nada”, gravada ao vivo pelo grupo Calcinha Preta para o álbum Você não vale nada, mas eu gosto de você, esta inspiração é latente: dificilmente nos livraremos de sua lembrança nos próximos 20 anos, assim como perduram no vão da nossa memória sucessos de Agepê, Biafra, Reginaldo Rossi, Chitãozinho e Chororó, Zezé de Camargo e Luciano, Catra, entre outros artistas arrolados no rótulo brega e seus correlatos.

Composta há cinco anos atrás e gravada por muitos grupos, como Solteirões do Forró, “Você não vale nada” só veio a estourar com o forró-eletrônico do Calcinha Preta, grupo que já chega a 400 mil cópias vendidas de seu vigésimo álbum. Mas enquanto não aportava no “sul maravilha”, enquanto não se tornava a trilha sonora do personagem de Dira Paes na novela Caminho das Índias, a faixa bombava no próprio nordeste, demonstrando que se inicia no Brasil um processo de descentralização cultural a fórceps, na medida em que os mercados regionais passam gradativamente a alcançar algum grau de estrutura e auto-suficiência. Pairando acima deste fator sócio-econômico, permanece intacta a veia poética inspirada dos compositores nordestinos em reportar o ouvinte a detalhes do comportamento humano, geralmente com ironia desbragada e “duplo sentido”. No futuro, até mesmo o “cínico de plantão” irá se deparar com uma pessoa ou objeto que o lembrará a profunda sabedoria desta canção, tamanha sua eficácia. Assimilando o conteúdo da canção, como que reconhecendo machadianamente as fraquezas humanas, o ouvinte se identifica imediatamente e sente como se acendesse uma faísca de ironia em seu espírito, faísca esta que, para um povo festivo como o nosso, marca profundamente a memória.

Taí uma boa fórmula para definir a canção popular desta cepa: ao contrário da redundância vazia e pseudo-sofisticada da nova MPB, ela é interessante porque faz cócegas no espírito. (Bernardo Oliveira)

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9 comentários em “Calcinha Preta – “Você não vale nada” (2009; [independente], Brasil)

  1. diego
    18 de setembro de 2009

    acho que os leitores entendem uma semi-ironico e elogio ao popularesco, o que nao dá pra engolir é a mania de chamar tudo de middle-of-the-road

  2. Tiago Campante
    18 de setembro de 2009

    “Se inicia no Brasil um processo de descentralização cultural a fórceps…”

    À luz dessa frase, e considerando música como “fenômeo expressivo”, é preciso estar atento a esse novo Brasil, para não ser atropelado no middle-of-the-road…

  3. André
    20 de setembro de 2009

    A tentativa de uma blindagem inicial é boa, mas não há como enxergar relativismo nesse texto. Mais interessante ainda é tentar transformar o cinismo em característica do leitor, ao invés de reconhecer que esse é a característica principal do artigo.

    Posso vestir o personagem e ser cínico um pouco: se “pensar música segundo critérios de gosto” é uma maneira indevida de se pensar a música, qual a função desse espaço? Pergunto porque nesse página existem textos enormes, cheios de juízo de valor. Na minha cabeça temporariamente cínica tudo isso soa contraditório.

    Enfim, relativismo é uma porcaria porque um cínico de plantão pode achar que tudo é inútil.

    Seria bonito ver alguém expressando a admiração por esse forrozinho fácil e divertido sem maiores bla-bla-blas defensivos. E seria coerente.

    Sobre a descentralização cultural, o que posso dizer é que é justo. Uma vez vi alguém defendendo o sertanejo de críticas na tv por que esse era o gênero que tinha a cara do brasileiro de verdade. Que brasileiro? Brasileiros de verdade não vivem no litoral? Ou em cidades grandes?
    O que eu não acho justo é que o que mais vejo, no Brasil, seja mais uma distribuição localizada de industrias do que descentralização cultural, de fato.

  4. bernardo
    20 de setembro de 2009

    Caro André,

    agradeço seu post e suas opiniões. no entanto, faço algumas ressalvas:

    1. meu texto não é cínico; e, pelo que escreveu, nem o seu… não vista a carapuça.

    2. pode-se perfeitamente emitir um juízo de valor sem estar atrelado tão somente ao gosto. acho q o tom da camarilha é mais de interesse e curiosidade do que de valorização do gosto…

    3. discordo radicalmente da opinião de que relativismo é uma “porcaria”…

    4. se vc enxerga na camarilha simplesmente “bla-bla-blas defensivos” e “juízos de valores” embutidos em “textos enormes”, sugiro amistosamente que procure outra leitura… cada um se distrai como quer e pode…

    5. não concordo com vc em relação a oposição entre “descentralização cultural” e “distribuição localizada de indústrias”, na medida em que as duas idéias são compatíveis…

    6. Quanto a ser coerente eu sinceramente nem sei o que responder. coerência para mim não é nem nunca foi necessariamente uma virtude… ser contraditório pode ser interessante, a menos que vc seja político ou jornalista, o que não é o meu caso…

    Abraços,
    Bernardo

  5. Eduardo
    23 de setembro de 2009

    Eu acho tudo isso muito engraçado.
    Começando pela música “Você não vale nada” que me faz rir demais com sua “fanfarrice” peculiar e essa coisa de levar a sério como arte uma música que se propõe a ser uma forma de entretenimento simples.

    Aposto que quando o “sujeito” fez a música ele não pensou em nada disso e que ele apenas quis fazer algo que ele achasse legal, engraçado e fizesse as pessoas dançarem…e agora ele deve estar incrivelmente feliz se ele tiver ganhando a grana que eu penso que ele, merecidamente, deva estar ganhando.

    Seria legal entrevistar o cara e falar sobre isso tudo….acho que ele iria fazer outra música melhor ainda no aspecto humorístico.

    Ver o André puto por que leu um texto grande também é engraçado pra caramba! Pô o cara achou grande e leu até o final!…..mas aposto que se a última linha do texto fosse “André é bonito” ele iria abrir um sorriso e não seria cinismo.

    No mais é o seguinte:
    1 – Bernardo está de parabéns por reunir argumentos sólidos ao ressaltar todos os aspectos positivos desta música visto que apontar defeitos sempre é mais fácil por mais especial que seja a obra. Apesar de eu não concordar com muita coisa, me fez pensar e isso é muito bom.
    2 – Calcinha preta é mil vezes melhor que Michael Súlivan e afins, pois me faz rir…se tocar uma vez só na festa.

    Abraço!
    Eduardo.

  6. Paulo Ayres
    8 de outubro de 2009

    Independente das supostas “intenções” (cínica, provocativa, poser, etc), o texto ficou legal. Eu tenho que dar o braço a torcer e dizer que esta música “diverte”.

    Agora quanto ao Hermano Vianna, ele está na contramão da democratização social da música. Verdadeiro advogado de empresários (funk), latifundiários (breganejo), políticos (ACM/axé), etc.

    Eu prefiro o “outro lado”, a cruzada do jornalista Alexandre Figueiredo contra a música comercial-popularesca, ou chamada também de Música de Cabresto Brasileira.

    • Alexandre Figueiredo
      4 de fevereiro de 2010

      Eu chamei de Música de Cabresto Brasileira porque a imposição que a mídia faz a esse universo musical, de várias tendências “populares” derivadas da música brega original, incluindo esta própria, para fixar no gosto popular, lembra o velho mecanismo do voto de cabresto, onde o povo tinha que votar no candidato pré-determinado.

      Pois o próprio mecanismo de cabresto se dá quando o mercado empurra Calcinha Preta, DJ Marlboro, Alexandre Pires, ou então o “rebolation” do Parangolé, para o povo ouvir. Equanto isso, os verdadeiros artistas populares – e olha que não cito os cantores universitários (mesmo) da MPB autêntica da geração 1965-1974, mas os cantores populares mesmo, nada de música brega – não tem acesso na mídia, porque não cantam feito fanhos frouxos, não rebolam feito tarados nem apelam para pieguices poéticas grotescas.

      A verdadeira cultura popular corre o risco de se tornar fóssil sob o rótulo de “folclore”. Essa “cultura popular” que está aí e a mídia e seus puxa-sacos exaltam, nada tem de genuinamente popular. É uma “cultura” esquizofrênica, tendenciosa, que não acrescenta valor algum para o povo brasileiro, não merece o rótulo de cultura que tanto recebe de seus defensores.

  7. Eduardo Guedes
    17 de julho de 2010

    Se a verdadeira música popular está sendo discutida sobre seu status neste blog de intelectuais, é por que realmente esta já é um fóssil a muito!
    É uma pena.
    Mas ainda bem que a musica é a musica independente de quantas pessoas a escute ou do que possa ser dito sobre ela.

  8. Eduardo Guedes
    17 de julho de 2010

    RUMO AO HEPTA!

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