Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Robert Wyatt – Shleep (1997; Hannibal, Reino Unido)

shleep

Robert Wyatt (Bristol, 1945) é um músico inglês. Foi baterista e vocalista da banda Soft Machine, um dos mais renomados grupos da “cena de Canterbury” do final dos anos 60, com uma mistura de rock psicodélico, jazz e vanguarda. Seus companheiros originais de banda eram Kevin Ayers (baixo, guitarra e voz), Daevid Allen (guitarra) e Mike Ratledge (órgão) (com o baixista Hugh Hopper chegando logo depois). Depois de quatro discos lançados entre 1968 e 1971, Wyatt deixou o Soft Machine e formou o Matching Mole, espécie de “adaptação sonora” inglesa para Machine Molle (nome francês de Soft Machine, que vem a ser um romance de William Burroughs), com quem gravou dois discos. Em 1973 teve uma queda e ficou paraplégico. Sua carreira solo começou com The End of an Ear, de 1970. Seu segundo disco é Rock Bottom, de 1974, o primeiro depois do acidente. Depois de Ruth Is Stranger Than Richard, de 1975, passou a lançar discos de forma mais bissexta. Shleep é seu oitavo álbum. Essa década viu os lançamentos de Cuckooland (2003) e Comicopera (2007). Entre os músicos convidados de Shleep estão Brian Eno, Phil Manzanera, Paul Weller, Evan Parker, Chucho Merchan e Annie Whitehead.

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A capa de Shleep inevitavelmente me lembra a de Disco Voador, de Arnaldo Baptista. Nem que seja pelo azul doce, convidativo, aliado a uma singeleza de traço e obviedade na iconografia que remetem diretamente ao naif. Estendendo a comparação, são dois artistas marcados por tragédias que redefiniram suas carreiras, e que fizeram de sua arte um instrumento vital na recuperação de suas vidas. As comparações parariam ali, não fosse a intensa sensação de uma arte que flerta com a morte para agarrar-se desbragadamente à vida, apegando-se ao mais simples e encontrando nele a beleza que em geral os outros esnobam. Só isso é capaz de explicar toda a verdade e toda a beleza das melodias entoadas por Robert Wyatt, ou criadas em instrumentos, que aparecem em Shleep. Uma emotividade à flor da pele que, lapidada por um soberbo senso de economia e por construções rítmicas e melódicas incomuns, evita qualquer excesso meloso e se dirige impiedosamente ao coração do ouvinte.

Shleep começa doce e frugal com “Heaps of Sheeps”, canção dominada por uma levada de guitarra e pela bateria que, juntas, criam uma espécie de efeito galopante que cativa de início. Brian Eno está lá para adicionar uns toques de sintetizador e o coro que é sua cara desde Remain in Light, ao menos. Por fim, há a voz de Wyatt, aguda e vulnerável, quase se dissolvendo diante de nossos ouvidos, e por isso mesmo pungente. “Heaps of Sheeps” é uma música sobre contar carneirinhos até pegar no sono (ou não), e serve bem de música introdutória. De fato, é a faixa mais vibrante e direta do disco, a única com uma pegada em linha reta. Não sei se depois disso é que entra o “shleep” propriamente, mas a partir daí o disco alternará momentos sinuosos, tortuosos, líricos, cubistas, evocativos, sombrios, mas cujo modus operandi parece ser o mesmo: dosar a experimentação com inserções jazzísticas e batidas quebradas que transmitem uma intensa sensação “dormente” mas mantendo um limite de acessibilidade, tendo como oriente a voz de Wyatt. É um disco que trabalha com andamentos lentos e atmosferas evocativas. Além de composições inspiradas e por vezes grudentas (“Maryan”, “Free Will and Testament”) de tão perfeitas, Shleep ainda conta com um exército de colaboradores para encher suas faixas de detalhes ricos em intervenções delicadas porém determinantes.

O approach jazzy do disco é bem representado por “Was a Friend”, um de seus destaques. Um prato de acompanhamento marca um tempo velocíssimo junto com o baixo, enquanto piano e voz evoluem em ritmo de balada, e a ausência de uma marcação forte de tempo faz com que cada intervenção pareça pincelar som à maneira de um pintor numa tela em branco. “Blues in Bob Minor”, quase no final do disco, vai quebrar a série de músicas de baixo andamento para homenagear “Subterreanean Homesick Blues” de Bob Dylan (por isso o “Bob” do título da faixa) com uma faixa que se apropria do ritmo inusitado da melodia vocal faixa de Dylan e, sobre base de teclado e pequenas intervenções de guitarra (cortesia de Paul Weller), produz no modo quase falado da original uma música que não só consegue um charme todo próprio, mas consegue-o através da música de Dylan (“Faust Arp” do Radiohead bebe da mesma fonte mas sem referir-se claramente à matriz na melodia). E não poderíamos terminar o texto sem falar nas belíssimas intervenções de sopro, especialmente em “The Duchess” e “September the Ninth”, cortesia de Evan Parker (nas duas) e Annie Whitehead (apenas na segunda), e da belíssima parte final da melodia principal de “Maryan”, que sobe mais quatro notas ali onde a tensão já parecia impossível de manter. Enfim, Shleep é um desses discos cuja audição completa é perfeitamente fluida e coerente, e que ainda apresenta inúmeros destaques pontuais em faixas e momentos de faixas. Alguns ainda podem preferir Rock Bottom como melhor disco de Robert Wyatt (há, aliás, uma referência ao disco de 1974, com um trecho de “Little Red Riding Hood Hit the Road” interpretado pelo grupo The More Extended Versions), mas  Shleep tem todas suas onze faixas cheias de destaques para postular a honra de ser chamado a obra-prima de Wyatt. E eu sei que eu, ao menos, chamo. (Ruy Gardnier)

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Esta indicação me pegou de surpresa, por fugir da rotina mais ou menos combinada de contemplar basicamente lançamentos e discos da década. Mas, sobretudo, por tratar-se de duas obssessões que rondaram minhas audições nos últimos cinco anos: Shleep e seu autor, Robert Wyatt. Desprevenido, tive que retornar a este álbum que além de proporcionar deleite estético, possui para mim um forte significado pessoal . Mas isso não importa. Convém simplemente enaltecer as qualidades de ambos, álbum e artista, sem se deixar levar somente pela sensação de melancolia e profunda beleza que ele transmite.

Wyatt é um artista raro, que conseguiu criar um universo instrumental e um senso melódico que poderíamos chamar, sem exagero, de “original”. Suas canções são facilmente identificáveis, seja pelo timbre inconfundível de sua voz, seja pela habilidade inacreditável em sintetizar jazz, folk, música latina, samba, pop e avant-garde em muitas de suas vertentes. E quando citamos a palavra jazz, não nos referimos àquela apropriação ordinária que os astros da música pop estilo Sting fazem do gênero, vampirizando os timbres, a levada do prato de condução e o trumpete “à meia luz”, que vem a ser as standardizações nefastas do cool jazz criado por Bill Evans e Miles Davis. Wyatt segue por outro caminho, criando sua música à luz de questões e procedimentos do jazz, agindo “de dentro”, não como um artista meramente influenciado, mas como legítimo e dedicado artífice. Muitas de suas melodias, por mais que tenham um forte apelo pop, estão calcadas em uma estrutura nitidamente jazzística, constituindo-se, como um solo de Rollins ou Coltrane, por desenhos erráticos e imprevisíveis, aspecto favorecido pelo alcance inacreditável de sua voz. Trata-se, portanto, não de um jazzista, mas de um artista que cria sua música a partir de um vocabulário ativamente ligado ao jazz. Assim ele também procede com o que chamamos de avant-garde, o que de certa forma ecoa no modo como lida com o jazz. Mas quando me refiro ao aspecto avant-garde de Robert Wyatt penso mais no espírito criativo da obra do que em certos artistas e tendências, embora esta característica seja evidente em todos os álbuns e não somente nesse. A qualidade das texturas, dos timbres, do modo como ele combina diversíssimos instrumentos, como cria os naipes de metais, como utiliza a percussão de forma tão peculiar, como estas são pesadas e “melódicas” ao mesmo tempo… E para completar este quadro impressionante por si só, destaquemos o homem: compositor, instrumentista e cantor, Robert Wyatt executa quase todos os instrumentos, arranja, inventa arranjos vocais e o escambau, produzindo o som que descrevi acima. Sua voz é um capítulo a parte que, para além da beleza indescritível, possui um alcance fora do comum: solfejando a escala, Wyatt alcança cinco ou seis oitavas, o que estimulou Björk a criar o “Wyattron”, utilizado na faixa “Oceania” no recém-camarilhado Medúllla.

Imaginem agora todo este talento e arrojo em sua forma mais poderosa. Shleep demonstra toda a grandeza de artista que Wyatt destila desde que apareceu, há quase cinquenta anos. Destaco a faixa que abre o disco, “Heaps of Sheeps”, composta por Wyatt e sua esposa, Alfreda Benge, com seus acordes compostos por vozes, nítido sotaque de seu produtor, Brian Eno. Reparem também na palhetada suingada do violão e na elegância funcional do baixo. A faixa seguinte, “The Duchess”, traz a sobreposição dos saxofones improvisados de Evan Parker pontuando a melodia, culminando em um fascinante intermezzo no qual Parker e a percussão multifacetada de Wyatt dialogam com estranha beleza. “Was a friend”, a quarta faixa, talvez a melhor do disco, traz um sampler improvável (v. texto do Ruy) e uma melodia tensa e penetrante, daquelas que fazem o ouvinte recostar na cadeira e, como que encantado, passivamente aguardar o fim – nesta faixa, inclusive, todos os instrumentos são tocados por Wyatt, comprovando sua extraordinária habilidade em criar momentos extremamente climáticos. Belíssima também “Alien”, com sua pegada latina que não se esgota na mera referência. Explico: ouçam e reparem que ele não cria exatamente uma salsa, mas recorta as células rítmicas da salsa para criar uma terceira coisa, que não é nem a salsa, nem a releitura da salsa, mas um ritmo que serve perfeitamente às modulações harmônicas da canção. E, para fechar, a dupla dylaniana “A Sunday in Madrid” e “Blues in Bob Minor”, onde Wyatt explora um modo de composição fortemente marcado pelo schizo-folk de Bob Dylan, tendo por companhia a guitarra de Paul Weller e, novamente, Parker e Eno. Cabe ressaltar também o conteúdo político das letras, faceta menos brilhante do autor, mas ainda assim interessante por não resvalar no ativismo simplório e vazio de um… Sting.

Shleep é, sem dúvida, aquilo que chamamos obra-prima. O melhor disco de Wyatt, junto a Rock Bottom, de 1974. Ao escutá-lo do início ao fim, tenho sempre a certeza de que é também uma espécie de summa do autor, por sintetizar suas características mais fortes com inspiração ímpar. De qualquer forma, fica a certeza de que seu talento está para além da habilidade de misturar “simple and effective keyboard melody lines with poignant lyrics, often filled with personal and political references”, como atesta com excesso de modéstia o que parece ser seu site pessoal. (Bernardo Oliveira)

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2 comentários em “Robert Wyatt – Shleep (1997; Hannibal, Reino Unido)

  1. Danilo
    5 de março de 2010

    Wyatt é um gênio!

  2. Pingback: Robert Wyatt – Radio Experiment Rome, February 1981 (2009; RAI Trade, Itália) « a camarilha dos quatro

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Publicado às 23 de setembro de 2009 por em pop e marcado , , , , .
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