Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Mika Vainio – Aíneen Musta Puhelin/Black Telephone of Matter (2009, Touch, Reino Unido [Finlândia])

backtelephoneofmatter

Mika Vainio é um músico finlandês nascido em 1963. No começo da década de 90 criou com Ilpo Väisänen e com Sami Salo o grupo Panasonic, depois renomeado Pan Sonic por conta de processo da companhia japonesa de eletrônicos. O grupo era influenciado por pioneiros do noise eletrônico como Suicide e Throbbing Gristle. Com a saída de Sami Salo em 1996, o Pan Sonic ficou sendo um duo. Os discos mais renomados do projeto são Vakio (1995), Kulma (1996), Aaltopiri (2000) e Katodivaihe (2007). Além do trabalho no Pan Sonic, Mika Vainio lança trabalhos solo com seu próprio nome e com o projeto Ø, que existe desde 1993. O primeiro disco lançado sob seu próprio nome é Onko, de 2003. Seguiram-se nesses seis anos uma dúzia de lançamentos, solo ou em colaboração. E 2009, além de Aíneen Musta Puhelin/Black Telephone of Matter, ainda lançou Trahnie, colaboração com Lucio Capece, pela gravadora eMegro, e, como parte do Pan Sonic, Shall I Download a Blackhole and Offer It To You (pel Blast First Petite), uma parceria com Keiji Haino gravada ao vivo em 2007.

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Vamos lá: agressão sônica é muito fácil de fazer. Já era no período analógico, basta ver a infinidade de bandinhas de hardcore que apareceu e sumiu sem deixar notícia, tanto lá fora como aqui (o que não significa que não existam as grandes bandas no gênero); quando entramos na seara eletrônica, mais ainda: as possibilidades de extrair ruídos incômodos pela frequência ou intimidantes pela massa sonora são muitas, e não é preciso ser nenhum mago para chegar até elas. Ser fácil, todavia, não quer dizer que não seja divertido ouvir – como deve ser, presumo, mais divertido ainda produzir. Mas, como em todo campo sonoro – e, a rigor, todo campo artístico –, há uma linha, certamente tênue/polêmica/problemática, que separa os que vão com a maré daqueles que surfam a onda. Há muitas maneiras de se surfar, mas é preciso que se surfe: no terreno indiscriminado do mar, produzir seu próprio traçado. Um traçado é um estilo.

Tudo isso pra dizer que fazer barulhos pode ser mais ou menos fácil, mas ter o discernimento para escolher qual barulho, por quanto tempo, em que momento, se junta com outro ou deixa sozinho, isso não é nada fácil. (E apenas fica mais difícil à medida que mais e mais surgem os grandes artistas demarcando suas áreas de atuação e aperfeiçoando procedimentos e estratégias.) Se há um primeiro elogio a ser feito a esse disco de título misterioso e imponente é que, de faixa a faixa, a forma com que os sons são selecionados e organizados circunscreve algo inaudito e incrivelmente instigante. “Sons selecionados e organizados” pode parecer um tanto generalizante – afinal, que música não é feita de “sons selecionados e organizados”? –, mas é o que é apropriado em Black Telephone of Matter: quase sempre estamos diante de um sonzinho de cada vez (dois no máximo, mas sem enorme relevo), geralmente um sonzinho mirrado, sem qualquer suntuosidade, mas particularmente chamativo seja pelo incômodo que causa através da frequência alta ou baixa atingida, seja pela riqueza do timbre. Mas o que faz o disco são menos os sons isolados do que a passagem de um a outro. Nela reside um toque de Midas de Mika Vainio. Cada sonzinho pode durar muito ou muito pouco (em geral muito pouco; este é o oposto do paraíso dos droneiros), e o modo indeterminado de duração ocasiona uma total imprevisibilidade quanto ao que está por vir. Os sons não voltam, o que impede nossa cabeça de construir padrões melódicos, e as passagens de sons não se estruturam a partir de qualquer padrão rítmico duradouro. Ficamos sós, inertes e absurdados diante do que ouvimos.

“Roma A.D. 2727” prepara o ouvinte para o que virá: chiados, esporros ligeiros, frequências altas e baixas fixas ou alternando, sons passando de uma caixa para outra e de volta (recomenda-se ouvir com as caixas de som distantes uma da outra ou em fones de ouvido), e mesmo algum som eventual de instrumento acústico tratado como “som puro”. Para fins de comparação, as rápidas passagens por vezes fazem supor uma corrida rápida por um dial em que todas as emissoras fossem de noise/glitch, um zapping da noiselândia. “Silences traversés de mondes et des anges” tem sua segunda parte composta de sons quase impercptíveis, fazendo com que qualquer ruidinho surja como uma aparição miraculosa. “In a Frosted Lake” se aproxima do vocabulário fennesziano, buscando sons de cristais e uma placidez glacial menos lírica mas certamente mais congelante do que as do gênio austríaco. Meu momento preferido do disco, no entanto, é na monumental “A Measurement of Excess Antenna Temperature at 4080 MI/s”, quando, depois que uma dinâmica de onda sonora dá lugar a outra, irrompe aos 3min50 uma matadora frequência grave daquelas de fazer vibrar o corpo inteiro (claro, ouvindo alto em equipamentos de boa fidelidade de graves). Não é de hoje que Mika Vainio nos surpreende e nos encanta; mas Black Telephone of Matter renova todo maravilhamento por mostrar um inventor no topo de sua arte, criando um álbum único em conceito e execução, com alguns dos momentos mais inquietantes e dilacerantes de música que teremos ouvido esse ano. Ou pra sempre. (Ruy Gardnier)

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A perplexidade é um sentimento que geralmente acompanha a audição dos projetos que tenham Mika Vainio por integrante. Só este ano, já foram três lançamentos dignos de atenção e cuidado, não sem um sorriso amarelo causado pela extravância de experiência. Com seu projeto mais conhecido, o Pan Sonic, contando com a colaboração de Keiji Haino; este que sustenta o singelo título Black Telephone of Matter, assinado pelo próprio; e, ainda, Thranie, uma colaboração escabrosa com Lucio Capece. Em todos os casos, repito, a perplexidade. Mas no álbum assinado com seu nome, as coisas parecem andar conforme uma dinâmica mais intrincada, mais complexa e interessante. Nada fácil, pois a seara noise trilhada pelo autor possuía, até bem pouco tempo, laços evidentes com ritmos e timbres próximos de uma sonoridade identificável, como no industrial/techno do Pan Sonic de Kesto (234.48.4) ou Katodivahie, ou em seus álbuns solos como Onko. Aqui, parece, o buraco é mais embaixo, e eu recomendaria ao leitor que pusesse os fones de ouvido para compreender o porquê.

Basicamente, poderíamos dizer que trata-se de um álbum que alterna texturas noises com silêncios duradouros e delicados. O fone permite com que acessemos um item fundamental na sua composição, a mixagem – algo como a “equalização” das faixas e manipulação do estéreo -, mas também os cortes e sobreposições que aos poucos fornecem para o ouvinte o sentido ambíguo e abrupto da música de Vainio. Ela é brutal, mas seus timbre e texturas são construídos a partir de uma delicada e admirável ourivesaria sonora; ela é difícil, mas destila irresistíveis  esculturas sonoras; ela é forte, inteiriça, mas coberta de fissuras, de vãos por onde vaza o silêncio e por onde irrompe suas reviravoltas; por fim, ela é sisuda, por vezes sombria, mas definitivamente demonstra que o autor tem vitalidade o suficiente para nos surpreender ainda mais.

Não há batidas; quase todo o tempo é preenchido por texturas que se entrecortam, culminando sempre numa brusca mudança de sonoridade, ou ainda num silêncio inesperado. O fato é que mudanças bruscas percorrem todo o álbum, ainda que às antípodas daquele mimetismo muito explorado pelos compositores de drones e improvisos, que buscam restituir aos sons digitais uma dimensão de “sons da natureza”. Vainio por sua vez constrói um painel musical onde não há sequer uma distinção entre sons naturais ou sintéticos, e onde opera a mesma ambiguidade a que me referi acima. Não parece que ele deseja confundir field recordings com sons deliberadamente “criados”, o que seria simplório. Mas seu método de composição e criação não parece importar a qualidade do som, configurando-se essa classificação como uma espécie de cobrança que não se ajusta ao álbum.

Até mesmo a arara que entoa um gorjear na faixa “Silences traversés de mondes et des anges” quer dizer mais do que a simples representação dos sons animais. Aliás, essa representação direta não ocorre na lógica de Vainio, pois os sons são rapidamente transfigurados em uma tempestade, que se torna um rádio transistor, num sintetizador, numa fonte d’água, numa flauta… Utilizando-se do oscillator e outros equipamentos de manipulação de sinais, Vainio extrai uma vasta gama de possibilidade que se imbricam uma nas outras com impressionante agilidade. Como na música de Kevin Drumm e Florian Hecker, deseja interagir não somente com o ouvido ou, em uma linguagem filosófica, com o gosto. O que se entende por música aqui está para além do hábito popular de simplesmente fruir o identificável e, sobretudo, o “audível”. Ao contrário, a busca é pelo inominável, pela exploração e fixação de uma experiência que possibilite ao ouvinte sair do circuito das sonoridades em curso. Papel que Black Telephone of Matter cumpre com louvor, com seu rigor conceitual, sua sonoridade inspirada, sua composição anômala e, o que mais nos importa destacar, um profundo e atento amor ao som. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 24 de setembro de 2009 por em eletrônica, noise e marcado , , , .
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