Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Jim O’Rourke – The Visitor (2009; Drag City, EUA)

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Jim O’Rourke é um músico americano, cantor, multiinstrumentista e produtor musical. Nasceu em Chicago em 1969. De formação clássica como violonista, começou a interessar-se por música eletroacústica e experimental, passando por música improvisada e noise. Colaborou desde então com artistas como Derek Bailey, Merzbow, Thurston Moore, Henry Kaiser, Faust, Keith Rowe, entre muitos outros. No começo dos anos 90, uniu-se a David Grubbs no conjunto Gastr del Sol, projeto de pop/pós-rock em que trabalhou até 1998. Simultaneamente, lançava discos solo explorando facetas mais eletrônicas de sua sensibilidade, do drone à música concreta. Em 1997, lançou pela Drag City o EP Bad Timing, revelando uma faceta folk/pop que o artista desenvolveria nos álbuns Eureka (1999), Halfway To a Threeway (1999) e Insignificance (2001). Entre 2000 e 2005 foi membro do Sonic Youth, e participou entre 1997 e 2001 do projeto Fenn O’Berg, com Christian Fennesz e Peter Rehberg. É também um renomado produtor, assinando discos de artistas como John Fahey, Joanna Newsom, Stereolab, Smog, Tony Conrad, Faust, Wilco, e High Llamas. Depois de I’m Happy and I’m Singing and a 1, 2, 3, 4, de 2001, lançou basicamente trabalhos ainda inéditos realizados entre os anos 80 e 90. The Visitor é seu primeiro álbum solo com material novo em oito anos. (RG)

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The Visitor é um dos casos raros de obras cujas qualidades também se apresentam como seus grandes defeitos. Se existe algo a se louvar no novo álbum de Jim O’Rourke, é sua versatilidade nas variações melódicas, harmônicas e rítmicas e a criatividade na maneira de guiar e desenvolver esses mesmos aspectos da composição. Em contrapartida, “The Visitor”, a extensa faixa que ocupa todo o LP, não possui um foco definido; tudo é mutável e remodelável, como se fosse um boneco de barro, que começa sem forma, mas vai criando uma de acordo com as intervenções do artista, que pode modificá-lo completamente em questão de segundos.

Pois “The Visitor” é o boneco de barro de Jim O’Rourke. Do início contemplativo ao violão, com licks à la John Fahey, ao final apoteótico no piano, a música passa por inúmeras transformações, fazendo uso variado de instrumentos e timbres predominantemente acústicos (tem guitarra e teclado, mas ouvimos com mais clareza e frequência o violão, o piano, o banjo, a bateria, o baixo e o órgão). A produção e mixagem, os verdadeiros destaques deste trabalho, são estupendas, e conferem uma limpidez sonora admirável, do mesmo modo que conseguem equilibrar perfeitamente todos os instrumentos, sem que haja discrepância alarmante de volumes e timbres sonoros. The Visitor é, sobretudo, um álbum de equilíbrio e meditação, que busca sons cristalinos, a despeito do experimentalismo da sua narrativa, que não fica presa a nenhuma amarra melódica ou rítmica.

Ainda no início, lá para os dois minutos e meio de música, The Visitor atinge, precocemente, seu momento mais belo: o que supomos ser uma guitarra, ou um teclado, toca arpejos celestiais, cujos timbres evocam a guitarra límpida e pastoral de Toninho Horta. O lick pouco se repete e logo se transforma: nesse momento gostaríamos que The Visitor estancasse, ao invés de manar, contrariando sua natureza. No entanto, os momentos marcantes se fixam na mente e comprovam a grandeza desse álbum, que por meio de uma dialética sonora, mantém saudável a relação consigo mesmo e com seus ouvintes. (Thiago Filardi)

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Artista versátil, Jim O’Rourke gosta de operar em várias frentes. Há seu trabalho como violonista executante de música – notável por seu registro do Treatise de Cornelius Cardew, em especial –, há o experimentador eletrônico, há o improvisador, há o compositor pop. Sua faceta mais popular, sem dúvida, é a de compositor pop com influências de pop de câmara, bossa nova, folk e Burt Bacharach, que pode ser ouvida e fruída em Eureka, Halfway To a Threeway e Insignificance, os discos cantados que foram lançados pela Drag City entre 1998 e 2001. Digo “cantados” porque antes desses houve Bad Timing, um disco instrumental, reflexivo, e relativamente muito mais obscuro que os que lhe seguiram. Sonoramente, é um disco situado entre o preciosismo pop do Gastr del Sol e a tradição do violão folk americano representada por John Fahey. The Visitor parece começar dali de onde Bad Timing parou, mas dessa vez decide compor tudo em uma única peça contando 38 minutos, com diversos andamentos, diversos climas, diversas variações de arranjo. Mas se engana quem imagina tudo isso e prefigura uma obra grandiloquente: The Visitor é frágil, fragmentário, sinfônico mas nada operístico. A audição parece uma sucessão de imagens fugazes, como se o visitante evocado pelo título estivesse num trem ou num ônibus observando da janela e traduzindo em música as linhas, permanências e mudanças da paisagem.

Mas, na real, o que The Visitor mais lembra é o instrumental das músicas do Nick Drake quando elas são levadas no piano. A interação entre violão e piano, sempre delicada e jamais impositiva, é o que domina melodicamente grande parte do disco. Há bateria, sim, intervindo e num momento até mesmo sendo o fator mais ativo, num solo. Há trombone e banjo, colorindo timbristicamente alguns momentos precisos do disco. Mas o que move o disco são realmente as melodias doces e sem maiores relevos tiradas do violão e do piano, mas também, e isso é decisivo, o silêncio, seja entre os momentos ou diferentes “movimentos” da faixa, seja na respiração do arranjo, que deixa ouvir o dedilhado e os toques do piano em sua unicidade. The Visitor é um disco sutil, e pode desencorajar o ouvinte afoito por não sentir nas primeiras audições uma pegada que o faça voltar à música mais vezes. Mas O’Rourke não fez um disco ambiente, nem um disco easy-listening e tampouco soft-rock ou jazzinho. Sob a crosta palatável há tensões, adoráveis reticências e exímia construção de clima (sem desaguar em qualquer clímax desnecessário, diga-se). O mais novo disco de Jim O’Rourke é uma obra de temperamento, reflexiva e minuciosa como a de seu trabalho no Gastr del Sol, e audições contínuas farão brotar belezas insuspeitas desses belos 38 minutos proporcionados por esse compositor sereno, versátil e de incrível sensibilidade. (Ruy Gardnier)

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Existe um disco muito parecido como The Visitor de Jim O’Rourke na praça. Chama-se Fall Suite e foi gravado pela The Last Electro-Acoustic Space Jazz & Percussion Ensemble, nada mais nada menos que Madlib himself. Muito há de comum entre os dois álbuns, mas antes vale notar que a mais radical oposição configura também algum grau de parecença, quando por exemplo opomos artistas como Duchamp e Picasso ou antropólogos como Darcy Ribeiro e Roberto Da Matta. Ao encarnarem os contrastes mais radicais, dizem algo do “espírto do tempo”. Neste sentido, penso que as semelhanças entre The Visitor e Fall Suite começam por uma abordagem idêntica do conceito “suite”: The Visitor explora variadas nuances de um gênero chamado folk, enquanto Madlib se concentra em reproduzir excertos de sonoridades americanas e brasileiras. Em ambos os casos, os excertos e nuances estão articulados a um todo, compatível com as peças inteiras que contemplam o conceito do álbum. Essa característica também diz muito de uma certa inflexão do tempo presente em reproduzir o passado não como forma de homenagem, mas como comentário e apropriação criativa. E precisamente ai que os álbuns divergem radicalmente. E, em divergindo, assumem posturas bastante próximas, qual seja, a de uma tentativa de açambarcar o turbilhão de sonoridades de hoje em dia com o intuito de evocar uma sonoridade “maior”, algo que pairaria sobre a evanescência dos subgêneros atuais, com um certo ar blasé e auto-suficiente. No caso do primeiro, como já disse, o folk; já em relação ao segundo, a música negra americana, resvalando entretanto no que poderíamos denominar a diáspora latina, isto é, uma sonoridade marcadamente setentista. Mas enquanto Fall Suite se compromete com a defesa dessa sonoridade, O’Rourke parece buscar uma arte da nuance, introduzindo elementos harmonicamente complexos, irregulares, dissonantes, desfigurando o mesmo folk que parece querer destacar. O problema é que este sentido formal não garante a fruição e acabamos obrigados a laurear o mais retrógrado: na sua busca pela batida e pelo timbre perfeito, Madlib se sai melhor. Pelo menos no que diz respeito a audição propriamente dita. The Visitor portanto padece não por seu aspecto formal, curioso e arrojado, mas porque as peças criadas por O’Rourke são muitas vezes redundantes e pouco inspiradas. O que para uma suíte é algo comprometedor e, sobretudo, enfadonho. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 7 de outubro de 2009 por em folk, pop e marcado , , .
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