Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Liars – They Were Wrong, So We Drowned (2004; Mute, EUA)

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Liars é um grupo americano de rock (Nova York, com origens em Los Angeles), capitaneado pelo cantor e guitarrista Angus Andrew, australiano de origem. Originalmente a banda se completava com Aaron Hemphill (guitarra, percussão e sintetizador), Pat Noecker (baixo) e Ron Albertson (bateria), formação que gravou o primeiro álbum do Liars, They Threw Us All in a Trench and Stuck a Monument on Top, em 2001. Logo em seguida Noecker e Albertson saíram do grupo e Julian Gross assumiu a bateria. Com essa formação gravaram todos os discos seguintes: They Were Wrong, So We Drowned (2004), Drum’s Not Dead (2005) e Liars (2007).  They Were Wrong, So We Drowned é um disco conceitual sobre feitiçaria na noite de Santa Valburga e sobre caça às bruxas nas montanhas Harz alemãs. (RG)

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Visto de hoje, They Were Wrong, So We Drowned parece bastante coerente dentro da carreira de quatro álbuns e alguns EPs do Liars. Parece também bastante contextualizado no panorama do rock experimental americano que flerta com lo-fi, no wave e sonoridade crua. Mas o tempo prega suas peças: essa constatação é o exato oposto da recepção que o segundo disco do Liars obteve a torto e a direito. Basicamente esperava-se que o sucessor de They Threw Us All in a Trench and Stuck a Monument on Top desse umas aparadas nas esquisitices do primeiro para fazer o álbum de discopunk perfeito, ou ao menos um que fosse páreo para Echoes, do Rapture. E, bom, TWWSWD não é nada disso. Quem ouviu o disco esperando atualizações de “Mr. Your on Fire Mr.” deu com os burros n’água. Mas o disco vai mais longe: não só não existe nenhuma faixa mais palatável como o próprio som cheio do primeiro disco dá lugar a arranjos mirrados com intervenções mínimas e repetitivas de instrumentos, quase sempre um mote repetido ao infinito e quase nunca mais que dois instrumentos ao mesmo tempo, a bateria estando presente em todos eles. Surgido no primeiro disco como um grupo hypado e no centro de uma cena prolífica, TWWSWD reinventou o Liars como um grupo musicalmente ambicioso e ousado demais para pertencer ao mesmo meio que agregava bandinhas edgy mas fáceis como o Interpol. Naturalmente, o ouvinte indie genérico abandonou de cara. Simultaneamente, o admirador de rock mais viajante e experimental, fã de Boredoms, Ruins, Lightning Bolt e Tortoise, viu ali a confirmação de uma banda instigante e jamais confortável em repetir fórmulas, de peito aberto à execração pública desde que isso significasse também o abandono de todos aqueles que só estavam ali porque era modinha. Como é possível não admirar essa guinada?

“Broken Witch” começa dando o padrão do disco: andamento veloz, bateria nervosa com variações do ritmo funky drummer, incisiva e repetitiva, e uma guitarra ou um sintetizador fazendo uma cama sumária e sufocante para a voz do gigante Angus Andew. A notar na faixa inicial a gravação da bateria, abafada e longe de qualquer suntuosidade groovy. Assim como “Broken Witch”, “There’s Always Room in the Broom”, “They Don’t Want Your Corn – They Want Your Kids” e “Hold Hands and It Will Happen Anyway” são cheias de energia e quase safadas na simplicidade dos arranjos. Entre elas há faixas de andamento lento com sonzinhos atmosféricos, como “Read the Book That Wrote Itself”, ou cheios de pegada no wave, como “If You’re a Wizard…”, com uma energia internalizada mais que externalizada, parecendo implodir o ouvinte junto com a música ao invés de jogar uma descarga nele. A sensação geral se aproxima muito da temática “de terror” do disco. Ainda que sonoramente TWWSWD em nada pareça com metal ou mais especificamente doom, o mal-estar distilado faixa a faixa é bastante comparável. O grande destaque, no entanto, não vai para o conceito do disco nem para as composições. Se They Were Wrong, So We Drowned encanta, é pelo trabalho de timbres, texturas e variações dentro de um universo restritíssimo em vocabulário sonoro, mas exuberante nas soluções criativas e nada cansativo ao longo dos 40min de disco. Não sei se é o melhor disco deles, mas digo que, hoje tanto quanto ontem, o segundo disco do Liars é fascinante por suas escolhas e emocionante nos resultados. (Ruy Gardnier)

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“Ship arriving too late to save a drowning witch”. Com este título irônico acompanhado de uma capa brilhante, Frank Zappa fez um de seus albuns mais chatos. A alusão é gratuita: à exceção deste título, os Liars não tem muito a ver com Frank Zappa, sobretudo neste álbum que é um de seus melhores (na minha opinião, junto a Drum’s not dead). Eles até se servem de um legado dos anos setenta, mas atrelado ao punk, ao no wave, à música eletrônica e ao shoegaze, e se apropriam desse legado de forma extremamente culta em fórmulas e faixas admiráveis. Às vezes lembram o rock cerebral do Sonic Youth, mas é justamente neste sorriso lateral e indisfarçável que caracteriza boa parte do trabalho de Zappa que eles não só justificam sua própria importância, como também afirmam a extrema relevência do seu trabalho para o que podemos chamar de rock dos anos 00’s – este rock pentelho e malfadado, que comprometeu definitivamente o gênero e o tornou algo obsoleto, sobretudo pela utilização maciça e sem graça de certos timbres de guitarra. Às antípodas dessa corrente, They were wrong… demonstra esmero na composição e nos arranjos, geralmente perpassados por uma combinação improvável de irreverência e experimentalismo que não é pra qualquer um. As guitarras distorcidas são empregadas em texturas e combinações improváveis, mixadas acima do instrumental ou reutilizadas como um “para-riff”, isto é, um riff de guitarra manipulado de forma a soar como um teclado abrasivo no estilo Suicide (para que esta expressão não soe gratuita demais, confira a faixa “There’s Always Room on the Broom”…). As composições são complexas, possuem várias aberturas, pausas, sequências livres; os timbres são estranhamente reprocessados, ora uma bateria extremamente aguda corta o espaço sonoro (como na melhor faixa do disco, “Broken Witch”), ora uma série de gritos entoam um refrão tenebroso como em “We Fenced Other Gardens With The Bones Of Our Own”… O “tema” do álbum são os filmes de terror, ou pelo menos os elementos mais comuns a estes filmes (o urso, a garota). Mas, antes, me parece que tudo em They were wrong… gira em torno de um diálogo interno com o próprio rock’n’roll e as limitações que aos poucos o conduz para um beco sem saída. E embora eu tenha a certeza de que não existem respostas gerais para crises específicas, não há como não identificar no Liars e nos seus ótimos quatro álbuns um gesto de renovação. Certamente um grande trabalho de um dos grandes grupos da década. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 7 de outubro de 2009 por em rock e marcado , , , .
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