Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

David Sylvian – Manafon (2009; Samadhisound, Reino Unido)

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David Sylvian é um cantor, compositor e artista multimídia nascido e estabelecido na Inglaterra. Iniciou sua carreira em meados da década de 70, com a banda de glam rock/new wave, Japan, na qual também participava seu irmão, Steve Jansen. Foram cinco álbuns de estúdio e um ao vivo com o Japan até ele lançar seu LP de estreia, Brilliant Trees, em 1984. Gravou discos com Holger Czukay do Can e Robert Fripp do King Crimson, além de inúmeras parcerias realizadas com Ryuchi Sakamoto. A década de 00 viu o lançamento do álbum Blemish (2003), um novo grupo com Jansen e Burnt Friedman (Nine Horses), a criação de seu próprio selo (Samadhisound) e o rompimento com a Virgin, pela qual gravava há mais de 20 anos. Manafon é seu último disco solo, lançado em outubro, e marca a incursão definitiva de Sylvian na música improv, incluindo participações de Evan Parker, Christian Fennesz, John Tilbury (AMM) e Keith Rowe (ex-AMM), Werner Dafeldecker e Burkhard Stangl (Polwechsel), Otomo Yoshihide, Toshimaru Nakamura, Sachiko M, Tetuzi Akiyama, entre outros. (TF)

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“It’s the farthest place I’ve ever been/It’s a new frontier for me” (“É o lugar mais longe que eu já estive/É uma nova fronteira para mim”) canta David Sylvian nos primeiros versos de Manafon, em cima do violoncelo de Michael Moser, dos chiados de vinil de Otomo Yoshihide, do mixer de Toshimaru Nakamura, do baixo acústico de Werner Dafeldecker e das guitarras de Christian Fennesz e Burkhard Stangl. Quão presunçosa, autoconsciente e auto-referencial pode soar essa frase? Manafon é genuinamente sua obra mais ousada, cuja paisagem sonora advém de sessões com os maiores e mais respeitados músicos de free improv do mundo. Sem dúvida, a investigação de texturas, timbres e ambiência de som é a mais avançada e experimental de toda sua carreira. Mas o que adianta se os vocais de Sylvian não conseguem acompanhar a inspiração desses músicos?

David Sylvian sempre foi um cantor bem relacionado no mundo vanguardista. A começar pelo Japan, seu primeiro e mais famoso grupo, no qual tocou com o baixista Mick Karn e seu irmão Steve Jansen. Ainda na década de 80 iniciou uma parceria longa com o pianista japonês Ryuchi Sakamoto, e seu álbum de estreia, Brilliant Trees (1984), já continha participações do baixista Holger Czukay, do CAN, com quem gravou dois álbuns depois, e do trompetista Jon Hassell. Nos anos 90, Sylvian colaborou com Robert Fripp, do King Crimson, e seu último LP pela Virgin, Dead Bees on a Cake (1999), contou com participações de Marc Ribot, Bill Frisell e Talvin Singh. Em 2003, após a ruptura com a Virgin e a criação de seu próprio selo, a Samadhisound, surgiu Blemish, seu trabalho mais experimental, que incluía sessões com Derek Bailey e Fennesz. Eis que Sylvian decide ir além e logo após o lançamento de Blemish começa a gravar sessões com músicos de improv da Europa e do Japão, as quais integram Manafon. Se ao longo de sua carreira o vocalista inglês dividiu o palco e o estúdio com alguns dos músicos mais respeitados do planeta, qual é a novidade na escalação desse mega time? O que o álbum traz, além disso, é a sensação de um falso coletivo, de que todos aqueles mestres da música experimental estavam tocando lado a lado num mesmo recinto, enquanto Sylvian improvisava os vocais e criava suas letras instantaneamente. Uma entrevista, no próprio site oficial do disco, anula tais suposições, o que não tira, todavia, os méritos de Sylvian e de Manafon. Como ele próprio explica, o álbum é resultado de um trabalho árduo de edição. Houve diversas sessões em Tóquio, Londres e Viena com os músicos creditados, das quais Sylvian extraiu sequências ou pequenos trechos, adicionando, ulteriormente, seus vocais. Sendo assim, seus métodos diferem completamente de um cantor como Damo Suzuki, que também preza o poder da voz e da improvisação, mas prefere gravar e criar tudo ao vivo, preservando nos lançamentos a “aura” do momento.

É triste, ainda que revelador, constatar que as melhores faixas de Manafon são as mais curtas: “125 Spheres”, que com pouco mais de vinte segundos de voz tem mais melodia que o resto do álbum inteiro e “The Department of Dead Letters”, que dispensa os vocais, provando que a força do álbum está realmente na sua interação instrumental. As outras “improvisações” de Manafon mostram que Sylvian está preocupado demais com seu estilo de cantar, com sua entonação, em passar uma sensualidade sempre preponderante na sua voz, que acaba esquecendo da melodia – logo ele, um grande melodista desde os tempos do Japan. E é nesse ponto que o disco se distancia completamente do anterior, Blemish, cujas melodias são, em todo o tempo, inspiradas; nunca redundantes ou cansativas. Em Manafon, Sylvian simplesmente não consegue acompanhar os devaneios de seus parceiros: o timing é certo, o tom é correto, há um perfeito diálogo entre seus versos e o fundo sonoro, mas falta criatividade, colhão mesmo do cantor de assumir o projeto e ir tão longe musicalmente e trimbristicamente quanto os artistas convidados.

Resultado: após três ou quatro audições, embora encante e impressione o ouvinte inicialmente com seus sons misteriosos e sua reputação precoce de obra primorosa, Manafon causa fadiga e aborrecimento – ao contrário de Blemish, que até hoje soa instigante. Mas se há algo que perpetuará no LP de Sylvian é sua natureza enigmática, tanto nas letras, quanto nas músicas – o que o cantor soube aproveitar bem, não fornecendo conceitos definitivos para a obra, mas alimentando-a de ambiguidade. Assim como no filme Pola X, de Leos Carax, inspirado no livro Pierre: or, The Ambiguities, de Herman Melville, Manafon se perde na provocação excessiva de sentimentos ambíguos e no temperamento pomposo, não obstante desperte a todo o momento um interesse irrefutável. (Thiago Filardi)

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A propósito de Aleph at Hallucinatory Mountain, disco do Current 93 aqui resenhado há dois meses, parte de meu texto atentava para uma certa empáfia na maneira de chamar artistas de grande envergadura para ficar fazendo fundinho luxuoso para uma diatribe sonora carregada quase que inteiramente pelos vocais. O resultado deixava a desejar não apenas porque as contribuições dos músicos não tinham nada de singular, mas em especial porque não se dava a elas a chance de ganhar sua expressão uma vez que, tanto pela mixagem quanto pelo conceito era a voz, dissociada de todo resto e pairando acima, que centralizava as atenções no disco. Exceto pela singularidade das contribuições dos músicos, a mesmíssima coisa pode ser dita de Manafon. No entanto, em comparação com o escrete convocado para Manafon, o disco do Current 93 parece o meu Vasco comparado ao time do Barcelona. Comparece nada menos que o fino da improvisação mundial contemporânea: Christian Fennesz, Otomo Yoshihide, Keith Rowe, Evan Parker, Tetuzi Akiyama, Sachiko M., John Tibury, Burkhard Stangl… Os artistas são divididos por sessões e faixas correspondentes a três lugares do mundo em que Sylvian gravou – Londres, Tóquio e Viena –, com os músicos interagindo em livre experimentação. É a expectativa dos sonhos: músicos desse quilate junto com um cantor de voz expressiva e fora do óbvio como Sylvian. Só que Manafon padece mortalmente da execução de suas premissas. Com poucos minutos de audição, já fica claro que, por mais que os músicos se esforcem em criar interações cativantes e extrair de seus instrumentos timbres delicados e inauditos (Fennesz, Parker e Otomo em especial – aliás recomenda-se a audição a quem for fã de qualquer músico envolvido), qualquer tensão sonora se esvai quando David Sylvian começa sua cantilena, que não interage absolutamente com nada do que está sendo executado. Em vários momentos se ouve pouco, ou nada, além da voz do cantor. Seria, aliás, mais honesto ao conceito (ou às falhas dele) que os instrumentistas de fato parassem de tocar enquanto Sylvian estivesse em ação. Porque, apesar de não ser, Manafon tem uma cara enorme de disco a cappella em que, por descuido, deixaram gravando uns músicos ao fundo. Pode-se gostar mais ou menos da voz de David Sylvian no disco: ela certamente é hiperdramatizada, auto-importante e afetada, mas o mínimo a dizer é que ela cria o seu domínio e o habita por completo. O que compromete definitivamente Manafon é essa inadequação em chamar músicos que tocam em interação, que tocam com, e fazer a partir disso um disco em que o vocal se basta sozinho, com o resto da instrumentação dando apenas um verniz modernista ao resultado final, nada além de um ornamento chique que pode até fazer duvidar da idoneidade simbólica do projeto (parece que os músicos estão ali para “agregar valor”). Espero ansiosamente que as matrizes desse disco caiam na mão de um produtor de dub que retalhe e retrabalhe o vocal a fim de que a voz no disco ganhe efetivamente uma qualidade de improviso, experimentação e interação, três características que simplesmente não deram o ar da graça em Manafon. (Ruy Gardnier)

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Definitivamente não vejo a menor graça no trabalho do Japan. Mesmo em carreira solo, David Sylvian sempre esteve ligado a este grupo bizarro e sem gosto, que se especializou em emular não só Bowie, mas seus queridinhos como Talking Heads ou Adrian Belew. Mesmo o álbum anterior, Blemish, bastante aplaudido por revistas como a Wire, não me fazia crer que finalmente este decano da segunda divisão inglesa iniciaria algo realmente novo e interessante. O projeto Nine Horses muito menos, com sua mistura fraca de Adrian Belew solo com David Bowie da primeira metade dos anos 70. Aí, veio a notícia: Manafon, seu próximo álbum, contará com a colaboração da turma mais barra pesada do free-improv e experimentalismos afins reunida em um único disco nos últimos anos: Evan Parker, Fennesz, a conceituada dupla John Tilbury e Keith Rowe, Otomo Yoshihide e o escambau. Pensei: “pô, disco da década”. Será? Será que Sylvian conseguirá se desvencilhar da estética excessivamente referencial que marcou os trabalhos em que esteve envolvido, mesmo lidando com músicos tão acostumados ao estranho e ao inovador? Apostei minhas fichas que sim, finalmente chegou o dia em que aplaudiremos Sylvian sem favor. Não é exagero dizer que infelizmente a mais desgraçada das discrepâncias se manifesta em Manafon. De um lado, Fennesz, Yoshihide, Parker, Nakamura, Akiyama, entre outros, destilam a mais desvairada colcha de retalhos sonora criada este ano, principalmente nas duas faixas iniciais, “Small Metal Gods” e “The Rabbit Skinner”. De outro um insuportável David Sylvian balbucia versos pretensiosos com seu canto afetado de roqueiro decadente, tão parecido com o do Bono Vox que chega a irritar… Inclusive porque sua voz está mixada muito acima das improvisações da sua “banda de apoio” – o que me parece uma posição indigna do talento dos convidados. Em 35 anos de vida eu nunca havia me deparado com uma obra tão paradoxal, nem mesmo com a possibilidade de que isso pudesse acontecer. Dois lados, um excepcional, outro pálido, convivendo o mesmíssimo espaço sonoro. Fraco e incrível, chato e intrigante, tudo ao mesmo tempo. O que fazer se não eleger o mais estranho álbum nota sete da história? (Bernardo Oliveira)

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Um comentário em “David Sylvian – Manafon (2009; Samadhisound, Reino Unido)

  1. Manuel Alves
    4 de novembro de 2009

    Acho que não…

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