Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Lightning Bolt – Earthly Delights (2009; Load, EUA)

earthlydelights

Lightning Bolt é uma dupla de noise rock proveniente de Providence, Rhode Island. Formada por Brian Gibson no baixo e Brian Chippendale na bateria e nos vocais, a dupla lançou seu primeiro disco, Lightning Bolt, em 1997. Seguiram Ride the Skies (2001), Wonderful Rainbow (2003) e Hypermagic Mountain (2005), todos pela Load Records. Earthly Delights, quinto álbum do duo, foi lançado em outubro de 2009. A dupla é famosa por fazer seus shows no meio do espaço dedicado à plateia, sem palco.

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Dizem que o Lightning Bolt é uma das bandas mais barulhentas do mundo. Não é mesmo. Ela não chega aos pés de grupos como o Wolf Eyes ou Sightings, ou de artistas noise que quando querem fazem os discos mais sonicamente intensos do mundo, como Merzbow. Mas talvez nenhum grupo do mundo dê tamanha sensação de poder e energia física quanto o Lightning Bolt. Com Wolf Eyes, Merzbow, Sightings, a gente credita parte da grosseria ao manuseio de apetrechos. Com o Lightning Bolt, a história é outra: são dois caras brutalizando no baixo e na bateria, e parece que é um grupo inteiro, de tão cheio que é o som. E não é só que é cheio. O Lightning Bolt tem uma incandescência toda particular: ele consegue incorporar aspectos muito distintos dos gêneros “inaudíveis”, soando em momentos como um grupo de hardcore, em outros como um conjunto de metal, em outros como um projeto de improv. O essencial não é filiação ou aderência aos riffs e códigos de gênero, mas à energia e à força sônica que prota de relações de interação entre instrumentos. A comparação mais óbvia, falando de uma dupla de voz, baixo e bateria que trabalha em algum nível com o metal, é o Om. Pelo enorme cuidado com que chegam minuciosamente nos timbres e volumes de seus instrumentos, eu diria que a comparação procede. E, claro, pela mística dos instrumentos. Mas só faria sentido se pensássemos num Om que também tivesse a ver com Orthrelm, Acid Mothers Temple, Battles, Oneida. Pois, no fundo, é um projeto de power-rock: os dois Brian, Gibson e Chippendale, aceleram fundo em suas faixas velocíssimas e se ocupam com a divina tarefa de preencher o som de forma potente e enérgica. Pela forma como Chippendale cria suas levadas de bateria, muito rápidas e cheias de detalhes, evocando um polvo, o Lightning Bolt cria pontos de semelhança com Tatsuya Yoshida e seu Ruins. Mas no Lightning Bolt não há bruscas mudanças no andamento e estratégias mais intrincadas de composição. O que importa é notar como a barulhada se comporta na duração,  com especial atenção às texturas criadas pela distorção do baixo de Gibson e aos preenchimentos feitos pela bateria de Chippendale.

Earthly Delights não acrescenta muito ao que já conhecemos do Lightning Bolt. Não leva a um extremo o som da dupla, nem é mais imediatamente acessível. Algumas músicas podem evocar formas mais palatáveis, como “Funny Farm” e “Colossus”, mas toda a riqueza textural e a ação da bateria de Chippendale estão lá. Um elemento que pode ser encarado como novo é a altura do baixo na equalização. Em “The Sublime Freak” e “Flood Chamber”, a distorção sonora provocada pelo baixo – criando volta e meia a falsa certeza de que ele está empunhando uma guitarra, e não um baixo – comparece tão alto no mix que as porradas de Chippendale em seu kit só criam uma cama adicional de barulho, lembrando até o disco recente da dupla Flower-Corsano, que também mixa a bateria lá embaixo. “Transmissionary”, como “Colossus”, é pura correria em sexta marcha com a marca registrada do Lightning Bolt. A voz distorcida que evoca Gibby Haines cantando com o Ministry “Jesus Built My Hotrod”, os acordes fortes e a bateria-polvo de Chippendale criam doze minutos de intensa vitalidade que impressiona e sacia qualquer fã de música executada para ser tocada alta e atentamente. Se Earthly Delights não aponta uma nova faceta do Lightning Bolt, ao menos testemunha a manutenção da dupla no primeiro escalão de fazedores de barulho do presente. (Ruy Gardnier)

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Já se tornou quase uma lamúria a percepção de que definham os gêneros, verdadeiros pontos de apoio que forneciam segurança e identidade a certos grupos sonoros. Grandes expressões musicais da atualidade não se pautam no rigor do “gênero”, mas sobretudo em sínteses e combinações as mais diversas, ao passo que raramente grandes talentos se manifestam dentro dos currais dos segmentos. A dupla americana Lightning Bolt é um bom exemplo desta tendência. Sua música pode ser identificada como uma mistura de gêneros supostamente bem delimitados como o speed e o thrash metal, o hardcore, o noise e o free-jazz, com clara preponderência do thrash, no que diz respeito à sonoridade e do free jazz em virtude dos aspectos formais. De fato, o que ouvimos em seus álbuns se compara a experiência de ser atropelado por um trem bala, sem que isso, no entanto, prejudique a inteligência e a sutileza com que o grupo constrói as faixas. A estrutura das composições, relativamente comum a todo o álbum, se assemelha a mesma que desenvolve William Parker em Double sunrise over Neptune, álbum de 2008: uma só linha melódica executada pelo contrabaixo norteia toda a gama de instrumentos a sua volta e os convida a costurar desenhos melódicos. Em Earthly Delights o procedimento é muito semelhante, mas o elemento central são riffs e dinâmicas instrumentais executadas por apenas dois instrumentistas: um baterista, Brian Chippendale e um baixista, Brian Gibson, fato que ainda motiva muitas surpresas neste que vos fala, tamanha a profusão de sons e a pancadaria destilada por tão poucos integrantes. Mas apesar do excesso de energia, a música da dupla revela detalhes e minúcias tão interessantes quanto o apelo sônico. Me refiro, por exemplo, ao modo como a bateria de Chippendale insere semifusas desbragadas na velocidade do speed metal; a peculiaridade dos vocais diáfanos; ou como a diversidade que constitui a massa sonora cria uma atmosfera de caos, mas ao mesmo tempo exprime uma lógica própria, particularmente crítica em relação aos gêneros que incorpora. Sobre este último aspecto é nítida a simpatia que a dupla nutre pelo metal, de como eles reutilizam certos clichês para atingir sua própria estética. Não é à toa que Earthly Delights ostenta um desenho muito peculiar em sua capa: a profusão de cores pode nos incentivar a considerá-lo fofo, mas eu acho que o que salta aos olhos ali não é a definição das formas, mas o caráter pulsante das cores. Essa me parece a característica mais adequada para definir o som do Lightning Bolt: barulhento, colorido, desorientador e pulsante. Basta ouvir o trio de faixas iniciais, sobretudo “Nation of Boar” com seu riff repetido à exaustão, para conferir tais características. Muito embora valha notar uma novidade em Earthly Delights: a incursão do grupo em um som mais abstrato, estilo Black Dice, em “Flooded Chamber”, constitui um momento sui generis do disco, algo que faz lembrar seu primeiro álbum datado de 1999. (Bernardo Oliveira)

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Um comentário em “Lightning Bolt – Earthly Delights (2009; Load, EUA)

  1. Alfredo
    1 de dezembro de 2009

    Boas resenhas.

    Só acrescentaria o seguinte:

    “artistas noise que quando querem fazem os discos mais sonicamente intensos do mundo, como Merzbow.”

    Bem como os discos mais sonicamente ‘BURROS’ da galáxia. Poucas coisas são mais tediosas e tolas que o [i]noise[/i] monocromático, unidimensional e estéril de coisas como Merzbow, Masonna, Incapacitants, etc.

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Publicado às 20 de outubro de 2009 por em noise, rock e marcado , , , , , .
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