Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Raekwon – Ony Built 4 Cuban Linx… Pt. II (2009, Ice H20, EUA)

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Corey Woods (Staten Island, NY, 1970), mais conhecido como Raekwon, é um rapper americano. Faz parte do Wu-Tang Clan, um coletivo de rappers novaiorquinos que apareceu com força no cenário hip-hop em 1993 com seu álbum de estreia, Enter the Wu-Tang (36 Chambers).  Sem compromisso fixo, o Wu-Tang reúne-se bissextamente para gravar, deixando seus integrantes livres para desenvolverem suas carreiras solo. Depois de 93, os discos do Wu-Tang foram Wu-Tang Forever (1997), The W (2001) e 8 Diagrams (2007). Raekwon lançou Only Built 4 Cuban Linx, seu primeiro disco solo, em 1995. O disco versa sobre tráfico de drogas e crime organizado, usando a máfia italiana como metáfora. Sua carreira solo seguiu com Immobilarity, de 1999, e The Lex Diamond Story, de 2003. A segunda parte de Only Built… estava prevista para sair em 2007, mas brigas com o produtor RZA, acertos com gravadoras e questões de direitos autorais postergaram o lançamento do disco até setembro de 2009. Only Built 4 Cuba Linx… Pt. II mantém o mesmo imaginário da primeira parte, apenas com os personagens mais velhos e poderosos. O disco conta com a presença ostensiva de Ghostface Killah e de outros companheiros do Wu-Tang, como Masta Killa, Method Man, GZA e RZA, além de outros rappers, como Inspectah Deck, Cappadonna, Jadakiss, Beanie Sigel, Slick Rick e Suga Bang Bang, e inclui produções de J Dilla, RZA, Dr. Dre e Pete Rock, entre outros. (RG)

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Vejam só: era para eu estar aqui, falando de como Jay-Z é consistente e tecendo loas a The Blueprint 3, o esperadíssimo disco do rapper que, apesar dos deslizes, ainda continua sendo o nº 1 do mundo. Mas bastou uma audição para perceber a inconsistência do disco, notável por algumas canções memoráveis mas repleto de faixas ralas e burocráticas, com performances daquelas que se esperam de um R.E.M. (hoje) ou de um Ronaldinho Gaúcho: com cetro, trono, mas sem coração ou realeza. E qual não foi a surpresa ao notar que, no mesmo exato momento em que as expectativas em torno do franchise “Blueprint” diminuíam, aquelas em torno de outro franchise cresciam. No mesmo 8 de setembro de 2009, Raekwon finalmente lançou sua tão esperada continuação para Only Built 4 Cuban Linx, sua estreia como artista solo em 1995. É quase covardia comparar um disco com o outro: toda a pressão e a tensão criativa ausentes de um disco competente mas moroso como o de Jay-Z são rapidamente encontráveis nessa volta à forma de Raekwon, seja pelas produções homogeneamente nervosas e carregadas de dramaticidade soturna, seja pelo estilo vocal agressivo e desafiador do rapper e de seus colaboradores, em especial Ghostface. Se Jay-Z é a pompa do tapete vermelho, Raekwon é o perfeito artesanato da porta dos fundos (ainda que, graças às vendagens com o Wu-Tang, seja igualmente um milionário), trabalhando não com o objetivo de fazer cada faixa reluzir como ouro, mas lapidando-a a fim de que ela dê vazão a toda fúria e senso de ameaça que o artista se põe a exprimir. A diferença é entre um rapper popstar que se assumiu como popstar e um rapper popstar que consegue a proeza de manter-se rapper.

A persistência de Only Built 4 Cuban Linx… Pt. 2 talvez seja a característica que mais caiba elogiar, no cômputo geral. O disco não tenta nenhuma proeza ao atualizar o som do Wu-Tang ou o do primeiro Only Built…, todo produzido por RZA. Ele não oferece uma novidade suplementar: apenas mantém corajosamente a confiança em seu estilo e utiliza-o com 100% de sua capacidade, tanto nos trejeitos sonoros – até as vinhetinhas da série de filmes dirigida por Lau Kar-Leung estão presentes! – quanto na energia presente em cada batida e cada intervenção vocal. À persistência discográfica se acresce a persistência no tipo de composição: o disco corre por 70min mantendo basicamente o mesmo pique, fornecendo de forma sistemática beats pesados e samples exaustivamente repetitivos, sem escapatórias como refrões pra cantar junto, vinhetas de alívio ou mudanças de atmosfera que tornem a audição mais fluida. Linx Pt. II ouve-se muito bem como um todo, sim, não por sua fluência, mas por sua consistência e pela eficácia de seu ataque relâmpago.

“House of the Flying Daggers”, tirando noise rap e crossover, é uma das coisas mais pesadas até hoje em matéria de hip-hop. A produção, excelente, é do saudoso J. Dilla, mas pelo opressivo ruído de fundo lembra uma das produções de El-P do começo da década, para seus próprios discos ou para o Cannibal Ox. Dilla também participa com outra monumental faixa, “10 Bricks”, adaptando seu remix para “The Red”, e com “Ason Jones”, uma emotiva homenagem ao Wu-Tang falecido Ol’ Dirty Bastard. Outros destaques são “Penitentiary”, com um grave marcante cortesia de BT, e “Surgical Gloves”, com batida de Alchemist. O mair desafio que o disco impõe é o inicial. Dada sua consistência sufocante, é possível que o ouvinte se sinta repelido pelo clima rascante. Mas, uma vez familiarizado e inteirado do estilo e da sonoridade do disco, Only Built 4 Cuban Linx… Pt. II faz um ataque certeiro e não deixa nenhum detrator vivo. (Ruy Gardnier)

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É impressionante a persistência do Wu-Tang Clan e de seus membros em reafirmar sonoridades e temáticas que marcaram o grupo desde seus primórdios, nos nem-tão-longínquos-porém-já-requentados anos 90. E curiosa a forma como em cada álbum essa fidelidade se transforma em uma música geralmente poderosa e convincente, que conjuga apelo comercial com experiências sonoras não muito radicais, mas ainda assim notáveis. Neste segundo álbum de Raekwon, severamente postergado por razões diversas, as premissas permanecem: os mesmos temas, as mesmas sonoridades. E por que não dizer: os mesmíssimos envolvidos. Talvez a resposta para tamanho rigor resida paradoxalmente no trabalho em equipe que faz com o álbum conte com 13 produtores e rappers até não poder mais… Ora, o que há então de tão envolvente e persuasivo que nos mantém presos aos 70 minuto de hip hop pesado e ameaçador, apesar de momentos em que nem a expressão déjà vu dá conta? Bem, tentarei aqui palmear algumas respostas breves, visto que em alguns momentos na vida o inconsciente fala mais alto que a razão, e o gosto (a nossa parte mais reacionária…) se entrega sem pedir mais… Pois bem, em primeiro lugar o instrumental seco, massivo, repleto de referências nem sempre identificáveis e barulhos que podem soar incômodos e excessivamente repetitivos. Sobre este aspecto, sugiro as faixas “House of Flying Daggers”, produzida por J Dilla, e a soturna “Black Mozart”, produzida por RZA, ponto alto do álbum por conta da utilização da melodia composta originalmente por Nino Rota (dizem que há controvérsias, cartas para a redação…). Segundo, a habilidade dos rappers envolvidos, desde a turma do Wu-Tang, onde destaco o flow de Method Man e, sobretudo, Ghostface Killa, ambos dando aula de rima e suingue na faixa “New Wu”. Para finalizar, a excelência na produção, comum aos trabalhos do grupo. E o que dizer mais? Não sei, não há nada que possa ser dito que não esteja rigorosamente previsto nas fórmulas tradicionais do grupo, mas devo notar também que em poucos álbuns de hip hop contemporâneo encontramos tanta energia como na sequência “Surgical Gloves”, “Broken Safety” e “Canal Street”. Nem nos últimos de Jay-Z e Beastie Boys. Ah sim, e marra né, muita marra… (Bernardo Oliveira)

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GZA, RZA, Ghostface Killah, Masta Killa, Inspectah Deck, Method Man, Allah Mathematics, Pete Rock, Marley Marl, Erick Sermon, Alchemist, Jadakiss, Styles P, Cappadonna, Dr. Dre, Mark Batson, Slick Rick e Busta Rhymes. Dos produtores e rappers convidados para Only Built for Cuban Linx… Pt. II, alguns são parte do coletivo Wu-Tang Clan, fundado no início da década passada (quando viveu seu ápice), enquanto os restantes são de contextos próximos – mais precisamente o hip-hop costa leste anos 90. Pois tudo no último álbum de Raekwon remete a este período de sucesso e ebulição criativa do rap americano: desde as participações até os samples, as batidas e as letras.

De algum modo, Only Built for Cuban Linx… Pt. II é um disco que celebra o passado: embora tenha várias faixas produzidas pelo falecido J Dilla (a grande coqueluche dos novos produtores americanos e ingleses), não disfarça tal impressão, já que utilizar bases de Dilla é também rememorar o pretérito e exaltar o estilo único e inimitável de um artista morto – da mesma forma que não poderiam faltar várias homenagens a Ol’ Dirty Bastard.

Mesmo que esse anacronismo represente um problema para Raekwon e a trupe do Wu-Tang (os discos solo de seus respectivos membros parecem mais um trabalho coletivo que individual), toda a força do álbum reside na obstinação ideológica do rapper (e do grupo) e na renovação de fórmulas antigas. Basta ouvir “House of Flying Daggers”, “Sonny’s Missing”, “New Wu”, “Penitentiary”, “Broken Safety” e “10 Bricks” para notar como os raps continuam urgentes, as batidas frescas e os samples inventivos. Se o hip-hop na sua forma mais “tradicional” (digo isso, pois excetuo os hibridismos inovadores proporcionados por Flying Lotus, Madlib, SA-RA e alguns produtores britânicos, que também se inscrevem no hip-hop) não consegue ir muito além de Lil Wayne e kanYe West, então só o Wu-Tang, com todo o seu vigor e astúcia, pode salvar – Wu-Tang forever. (Thiago Filardi)

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