Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Harmonia & Eno ’76 – Tracks And Traces (2009 [1976/1997]; Grönland Records, Reino Unido [Alemanha])

O álbum em questão é um reedição ampliada de uma clássica sessão batizada como Tracks and Traces e executada pelo grupo Harmonia ’76. Formado em 1976 pelo duo integrante dos grupos Harmonia e Cluster, Hans-Joachim Roedelius e Dieter Moebius, pelo guitarrista do Neu!, Michael Rother, e pelo produtor inglês Brian Eno, o grupo se encontrou no estúdio do Harmonia, em Forst na Alemanha, mas o material foi lançado somente em 1997 por iniciativa de Roedelius. Consta que Rother encontrou um fita com as faixas inéditas e as lançadas em 1997 e remasterizou todo o material. Esta nova edição conta com três faixas a mais em relação a edição de 1997. (BO)

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Quem se depara hoje com a pluralidade de manifestações musicais “eletrônicas” pode imaginar ingenuamente que elas configuram um espírito, um painel, algo que se relaciona com uma comunhão de propósitos ou mesmo com um rótulo. Mas o fato é que apesar da aparente generalização da música eletrônica, ela é filha da paciência individual, do experimentalismo contumaz e aventureiro. De Luigi Russolo a Shackleton, passando por Pierre Schaeffer, Xenakis, Stockhausen, Eliane Radigue e Luc Ferrari, todos trabalharam em oficinas solitárias ou em comunas muito restritas. Isto até eclodir a onda eletrônica da década de 90, quando a eletrônica orientada para a pista se consolidou e passou a angariar multidões de admiradores, produtores e djs. E mesmo a famigerada Jamaica, com o dub e suas invenções preciosas, se limita a atuação de Coxsone Dodd, Lee Perry e mais meia dúzia, haja visto o limbo no qual entrou o gênero naquele lugar – isso contando que o dub é um gênero, o que não é exatamente verdadeiro…

E eis aqui um grande exemplo do caráter de iniciativa que define a experimentação eletrônica: a reedição de Tracks and Traces, contendo as sessões realizadas por um quarteto estelar, demonstra que em matéria de música eletrônica não cabem as classificações, cronologias e pesquisas semânticas como forma de explicação. Isto é, nenhum esforço que tenda a definir o contexto criativo próprio do gênero como tentaram fazer sem sucesso com o jazz e o rock. Resisto aqui, portanto, a tentação de analisar o álbum privilegiando seu caráter precursor, como pode nos induzir tanto a mera audição como a informação de que Shackleton e Appleblim tiveram acesso irrestrito e remixaram boa parte do material para o EP ’76 Remixes. Realmente há muito para se surpreender em Tracks and Traces, pelas sonoridades que de alguma forma lembram grandes ícones da eletrônica contemporânea. Mas Tracks and Traces possui um brilho próprio e seu interesse não se resume a mera arqueologia do dubstep. Para tanto é preciso contextualizá-lo.

Envolvido por uma história cheia de episódios e eventos aparentemente pouco importantes, mas que reforçam o caráter “artesanal” da empreitada, Tracks and Traces marca a visita de Brian Eno ao estúdio de Hans-Joachim Roedelius e Dieter Moebius, onde encontrou também o guitarrista do Neu!, Michael Rother. Marca também um virada na carreira do produtor: é indubitável que, após esse encontro, mudanças radicais ocorreram na obra de Eno, bem como na de artistas que apostaram em seu projeto de sintetizar o glamour do pop e do rock com experiências musicais de ponta, como Roxy Music e, mais tarde, David Bowie. Ora, isso se comprova quando tomamos o conhecimento de que antes mesmo dos anos 70, o Kluster, trio formado por Moebius, Roedelius e pelo músico experimental Conrad Schnitzler, já aterrorizava o público alemão semeando inflexões musicais que auxiliariam na fundação do industrial. Após a dissolução do trio, vieram os trabalhos do Cluster, responsáveis por operar nada mais nada menos que uma verdadeira revolução com apetrechos eletrônicos. Seguem-se daí os álbuns do Harmonia, que lhes renderam um epíteto dado pelo próprio Eno, “a mais importante banda dos anos 70”. O fato é que tanto nos dois “clusters” (com C e com K) como no Harmonia, as sonoridades se constituíam ora de forma mais abstrata e atmosférica, valorizando a pesquisa de timbres, ora de forma a indicar um diálogo com o rock ou com o jazz (caminho que geralmente foi confundido com o rock progressivo inglês, o que considero uma lástima!). Para Eno, que acabava de gravar Another Green World, álbum basicamente composto por canções, o encontro representou uma porta de experimentação absolutamente nova. É claro que muito de Harmonia Deluxe, por exemplo, teve o próprio Eno como influência, mas o que importa aqui é o modo absolutamente novo, a distância e a altivez com que os alemães trabalharam a sonoridade dos sintetizadores. Não é exagero nenhum identificar o dub e o kraut como os germes de um pensamento musical urbano e experimental que sobrevive através do dubstep.

Mas, repito, Tracks and Traces é mais do que isso, espécie de elo perdido entre um Brian Eno ainda ligado às plumas e paetês eletrificadas do Glam e outro, mais maduro e dotado de uma postura de cientista maluco que encantaria David Bowie. Mas é também o testemunho de uma formalização mais radical do legado de Moebius e Roedelius, seja com a exploração de estruturas repetitivas que privilegiam e ressaltam pequenos detalhes parcimoniosamente distribuídos ao longo das faixas, como em “Atmosphere” (uma das três faixas novas), “By the Riverside” e na intrigante e abrasiva “Vamos Compañeros”; seja na exploração incisiva do tempo como suporte para a manipulação de “rastros”, loops, barulhos e outras preciosidades sonoras, como na obra-prima do álbum, “Sometimes In Autumn”; ou em sua única canção, a hipnótica “Luneburg Heath”. Há ainda aquelas faixas cuja audição, dependendo do mal humor, compromete defintivamente a trilogia de Berlim gravada por Bowie na companhia de Eno, como a horripilante “Weird Dream” (que lembra muito a estrutura de “Warszawa”, do álbum Low de 1977) ou a cândida “Almost”. Os fãs de Brian Eno encontrarão ecos de seus álbuns posteriores em faixas lúdicas como “Les Demoiselles” e “When Shade Was Born”.

Mas todo esse trabalho pode simplesmente ir por água abaixo se o considerarmos como preliminar para o que Eno fez depois ou como apêndice da empreitada de vanguarda capitaneada pelos alemães. Proponho que Tracks and Traces seja visto de fato com um dos álbuns mais importantes dos anos setenta, clássico absoluto tanto no ambiente do Kraut como na produção de vanguarda da época. A ousadia e o desprendimento visionário dos alemães ocasionaram uma situação propícia para os propósitos de Eno, mas o elemento original, se é que posso falar assim, reside na beleza eremítica dos sons que emanam de cada faixa deste álbum. De certa forma, discordamos de Eno: não é o Harmonia a banda mais importante dos anos 70, mas o Harmonia ’76. Tracks and Traces é sua obra-prima, lapidar e, como convém, solitária, fecunda colaboração entre duas linhagens essenciais da música desta e da nossa época. (Bernardo Oliveira)

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Two cool hot chicks listening to Harmonia ’76? Tomo a liberdade de fazer a brincadeirinha com a música do Ciccone Youth para comentar o quanto a música do Cluster e do Harmonia é excêntrica mesmo dentro dos padrões do movimento de música alemã dos anos 70 conhecido como krautrock. Geralmente, quem começa a pesquisar e ouvir coisas do período vai na santa trindade Can-Faust-Neu!, grupos que, a despeito de serem tão ou mais ousados em busca de novas estruturas e pela pesquisa com ambiências, têm um som marcadamente rock. Imagino que o sujeito que se apaixona pelos discos do Neu! e, descobrindo que Michael Rother em seguida juntou-se à dupla Moebius/Roedelius para criar o Harmonia, começa a ouvir os discos do grupo, sente um estranhamento imediato. Primeiro, pela proeminência dos sintetizadores, o que a princípio associa o som do grupo ao Tangerine Dream e ao Kraftwerk, em especial à fase mais “abstrata” de um Radioactivity. Segundo, e talvez de forma mais decisiva, pela construção das faixas, guiadas pela repetição de padrões e a pela criação de ambiências, que propõem ao ouvinte uma experiência imersiva. Mesmo concedendo que a época era propícia à era, dada a enorme voga do rock progressivo no período que de alguma forma prepara o ouvinte para fôlegos que vão além do formato canção, ainda assim o som do Harmonia, como do Cluster, é extremamente excêntrico, já que eles não criam suas faixas propondo grandes progressões ou mudanças nos timbres, nos ritmos e nos motivos da composição. Quando entram outras sonoridades, em geral ataques intermitentes, é muito mais ao estilo do dub que naquele momento era praticado por figuras como King Tubby e Lee “Scratch” Perry na Jamaica do que à maneira tradicional de composição. Hoje, anos mais tarde, já temos décadas de ambient e alguns anos de drone para assimilar nossa sensiblidade à música do Harmonia. Consequentemente, o estranhamento jamais será o mesmo do de um ouvinte pegando um desses discos para ouvir em 1974 ou 1976. A surpresa com a exuberância da música, essa sim, permanece intocada.

Talvez a característica mais marcante da música do Harmonia e do Cluster seja esse efeito de dissipação que o ouvinte sente ao fim de um disco do grupo. Ele ouve timbres impressionantes, se deixa levar pelos motivos melódicos, degusta as dinâmicas criadas pelas diferentes fontes sonoras, mas quando tenta “explicar” ou ao menos descrever a atmosfera geral evocada pela audição, tudo escorre por entre os dedos. Como as faixas do Basic Channel, como o Selected Ambient Works 2 do Aphex Twin, como a obra de Wolfgang Voigt como Gas, existe uma inexpressividade suntuosa e onírica, uma ausência de rosto minuciosamente trabalhada, que remete tudo ao aqui-e-agora da experiência, e nada ou quase aos poderes associativos da diacronia.

Tracks and Traces, único disco do Harmonia em parceria com Brian Eno (depois, como Cluster, Roedelius e Moebius fariam mais alguns discos juntos com Eno) e terceiro disco de estúdio do grupo, não modifica muito o legado do grupo. Adição tardia à discografia do grupo, lançado primeiro em 1997 com nove faixas e agora finalmente em sua integridade, com doze, Tracks and Traces é a consequência lógica do som do Harmonia, não uma mudança na estética mas a sua lapidação. Mutuamente influenciados, Harmonia e Eno aqui se fusionam em um, produzindo petardos protoindustriais como “Vamos Companeros” ou idílicos, como “By the Riverside”. Mas o grande destaque do disco, e talvez a faixa mais singular de toda carreira do combo Cluster/Harmonia, é “Sometimes in August”, que inverte as proporções costumeiras à estética do grupo, deixando as repetições em pano de fundo e levando à frente irrupções sonoras semelhantes às praticadas pelo approach jazzístico ao techno operado pelo trio de Moritz Von Oswald em Vertical Ascent. Quem conhece a música do Harmonia sabe que a audição desse disco é fundamental. Quem conhece Brian Eno também, e sabe que Tracks and Traces é uma espécie de caixa preta do nascimento do ambient. Àqueles que ainda não tiveram o prazer de travar contato com a música praticada por esses artistas, não se pode recomendar mais fortemente que ouçam o quanto antes. Tracks and Traces é um ótimo pretexto. (Ruy Gardnier)

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