Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Rogério Skylab & Orquestra Zé Felipe (2009; s/g, Brasil)

Desde 1992, ano de lançamento de seu primeiro álbum, Rogério Skylab vem se firmando no cenário nacional como sinônimo de uma estética trash, repleta de escatologias e estranhezas em geral. Poeta, compositor, cantor e instrumentista, lançou nove álbuns solo, dois álbuns gravados ao vivo, além de um livro e um dvd. Zé Felipe é baixista e compositor que por 20 anos capitaneou o Zumbi do Mato, uma das bandas mais destacadas da cena underground carioca. A princípio, o álbum foi planejado como uma parceria entre Zumbi do Mato e Skylab, mas após desacordos quanto à orientação do projeto, Zé Felipe assumiu sua produção e execução. O álbum está disponível para download no site de Skylab ou no hot site. (BO)

* # *

A análise deste disco merece pelo menos dois comentários preliminares. Definitivamente não curto o trabalho de Rogério Skylab, que sempre me pareceu uma tentativa ingênua de reproduzir uma postura de vanguarda, mas lançando mão de timbres e estruturas de composição no mínimo conservadoras. Sem contar bobagens como “Matador de passarinhos” que só poderia fazer graça e causar estranheza naquela platéia meio “uniban” do Jô Soares. O tipo de contradição pretensiosa que definitivamente não me faz a cabeça, diferente da que carrega o trabalho de Zé Felipe. E neste ponto, devo dizer que conheço Zé Felipe, que ele é um grande amigo e que já toquei no Zumbi do Mato, banda que nasceu e cresceu à luz de sua contubada e prolífica visão estética. Espero que o texto presente não seja confundido com jabá ou algo que o valha. Ou alguém aí acredita que se passa dois anos escrevendo semanalmente sobre música com interesses outros que não o mero desejo de refletir e trocar idéias a respeito da produção musical? Indiquei esse disco porque acredito veementemente na sua singularidade, não só em relação ao cenário musical brasileiro, mas também se levarmos em conta o contexto internacional. De saída posso dizer: inexistem paralelos para comparar Rogério Skylab & Orquestra Zé Felipe. O único exemplar que me vem à cabeça é o Beefheart de Trout Mask Replica, apenas uma lembrança que remete ao estilo meio desconjuntado das faixas mas não corresponde de forma alguma ao que foi realizado aqui.

Se o trabalho de Skylab sempre me pareceu um tanto conservador no que diz respeito à composição e arranjo, o mesmo não posso dizer de Zé Felipe. Nesta parceria, sua verve niilista, corrosiva e irônica, que se exprime tanto ao nível musical como poético, toma todo o espaço criativo do disco, alavancando inclusive a outrora frágil poesia de Skylab. Me lembro que certa vez Zé me mostrou o que parecia ser um manual de aparelho VHS, mas ele havia modificado todo o texto, embaralhado as letras e transformado o manual em um “desmanual”, repleto de achados poéticos e palavras fora do lugar que, no entanto, criavam um nexo instável e extremamente rico de variações semânticas. Assim ele organiza a música deste álbum: a partir de dez composições inéditas de Skylab, Zé Felipe criou um mosaico referências a diversos gêneros musicais e manipulou seus significantes em favor de uma desestabilização total do andamento e da harmonia. É claro que este procedimento resulta em uma música difícil, e sempre com um aspecto precário e aparentemente “errado”, como se não tivesse um acabamento e fosse improvisado sem maiores consequências. Mas sua musicalidade foi pensada e executada diante da tela do computador, em um trabalho de ourivesaria musical difícil e sem par no cenário nacional e mundial. Mas o que dá sentido a essa balbúrdia sonora é a infâmia e no sarcasmo com que cada som é disposto: fragmentos de piano dodecafônico, gaita de dub, bateria de hard rock, efeitos, trombones, hammonds estilizados, sintetizadores e não sei mais quantos instrumentos se entrelaçam para formar a trama adequada sobre a qual Skylab destilará as melhores e mais contundentes interpretações de sua vida artística. Entrevejo no modo como ele compõe, canta e interpreta a presença de Löis Lancaster, cantor do Zumbi do Mato, com sua espontaneidade verborrágica e ensandecida a costurar referências diversas ao sabor do humor e do contexto. Claro que ele ainda resvala nas piadas de auditório com pretensões a vanguarda, como na esquizo-marchinha “A múmia”, mas a clássica “Dominante e dominada”, a enlouquecedora “Tem cigarro aí?”, a infâmia de “Pas pés pis pós pus” e a ciranda (?) “Preto, negro, crioulo” constam desde já como destaques em um ano em que a música feita no Brasil chafurdou mais uma vez no mpbzismo necrófilo e inofensivo. Nota também para o reggae-rock cheio de metais bêbados chamado “Se Você Não Duvidasse Tanto”, onde o vocal suave de Skylab se casa perfeitamente com a instrumentação caótica criada por Zé.

Além do prazer de confirmar a personalidade musical inspirada e desafiadora de Zé Felipe e de me surpreender positivamente com Skylab, penso que um outro trunfo do álbum seja o de indicar a possibilidade de que o trabalho deste último se torne realmente uma investigacão do “estranho”, como ele sempre desejou. Neste sentido, a parceria com o Zumbi do Mato e com a Orquestra Zé Felipe me parece, sem dúvida, saudável e promissora. Resta saber se haverá uma continuidade para esta associação, já que o resultado não soa nem propriamente comercial nem adequado para talk shows. Só o futuro dirá, mas por ora vale destacar esse considerável esforço de criação musical livre e independente que é Rogério Skylab & Orquestra Zé Felipe. (Bernardo Oliveira)

* # *

Rogério Skylab e Zumbi do Mato: as aproximações são possíveis, muitos fãs de um são fãs de outro, e eles mesmo já chegaram a fazer pacotes com shows duplos. E ainda que os shows do Skylab sejam divertidos pelo caráter performático da apresentação, sempre me pareceu faltar algo fundamental à música do artista: uma elaboração sonora que fosse além de um mero pano de fundo para as insanidades escatológicas perpetradas pelo cantor. Em resumo, a música é reduzida a simples acompanhamento, o que torna o interesse das faixas um tanto limitado, esgotado assim que a piada já foi devidamente compreendida e assimilada. A gente ri da mesma piada infinitas vezes? Pois tudo se resume a isso: ao passo que o Zumbi do Mato que transcende a estranheza das letras do grupo, organizada sonoramente num projeto completo que incorpora letra e música, a música de Rogério Skylab pode ser tranquilamente arrolada à estética do show de humor, ainda que seja um humor perverso e musicado. Por vezes, de fato, bacana.

Rogério Skylab & Orquestra Zé Felipe vem finalmente tornar a equação mais complicada. Pela primeira vez é possível identificar na música ecos do nonsense e das provocações entoadas pela voz e pela performance de Skylab. A música, a cargo de Zé Felipe, opera simultaneamente por sons desconjuntados e puntilistas, cheia de pequenos detalhes que realçam a dinâmica sem no entanto contribuir a um sentimento de som “cheio”. É um pouco como se o Pere Ubu dos primeiros discos regravasse o Estudando o Samba de Tom Zé e desarranjasse o método da composição, fazendo de cada ataque de instrumento um momento de irrupção aleatória. Um bom exemplo é a dinâmica entre baixo e escaleta em “Tem Cigarro Aí?”, certamente um dos destaques do disco: ao contrário de somar-se um a outro, os instrumentos dão a impressão de que brigam, e trazem o vocal de Skylab, ainda que mais alto no mix, para um oceano de indefinição e incompletude – algo que, diga-se de passagem, combina perfeitamente com os insistentes pedidos de cigarrinho e a colagem de clichês evocadas na letra. As variações de bateria, em diversas faixas, também apontam para isso: longe de acontecerem em momentos de clímax, elas acontecem na hora que querem, criando efeitos nada vulgares de estranhamento.

O mais interessante do disco, portanto, são os efeitos do arranjo sobre a composição. Mas isso não vai sem algum conflito. Algumas composições não dão muito espaço ao “desarranjo”, como “Ai Coitado de Mim”, e aquele efeitinho “show de humor” sobressai. Mas quando o disco funciona em modo de deboche sonoro, como na marchinha “Múmia” e na “Marcha Fúnebre” final, ou nas faixas com composições mais fragmentadas (em especial “Tem Cigarro Aí?”), o disco funciona a pleno vapor. Orquestra Zé Felipe definitivamente dá outro gás a Rogério Skylab. (Ruy Gardnier)

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5 comentários em “Rogério Skylab & Orquestra Zé Felipe (2009; s/g, Brasil)

  1. sandra lys
    1 de dezembro de 2009

    Bernardo Oliveira e Ruy Gardnier fazendo jabá pro Zumbi. É triste. É a famosa “brodagem” que o Sergio Buarque de Holanda havia detectado como o maior problema do Brasil. É o Homem Cordial. Aos amigos, tudo. Claro que o Zumbi tem seu mérito, principalmente no primeiro disco. Depois veio a decadência. É uma banda sem vida hoje, praticamente morta. Tire as canções do Skylab junto à idéia que permeia as canções, e os arranjos desaparecem, não permanecem em pé. Compare esse disco com outros da Orquestra…
    Não dá pra vc comparar a obra do Skylab com a do Zumbi.
    Não basta a boa intenção – de boa intenção o inferno tá cheio. Arte está ligada a tecnica também, não só intenção. O sr. Zé Felipe é apenas intuitivo. Isso não é suficiente nem garantia para um trabalho grande. Esse foi o problema do Zumbi e que o fez uma banda menor.
    Ser intuitivo na verdade é repetir as mazelas dos músicos brasileiros e nesse sentido não há nada mais nacionalista. O Zumbi tá longe de um Arrigo Barnabé, esse sim vanguarda.
    Em momento algum o trabalho do SKYLAB teve a pretenção de ser vanguarda. Outro erro de avaliação de vocês. Ele inclusive já disse em várias entrevistas que não há nada mais demodê hoje do que as vanguardas.
    Daí porque a música do Zumbi sempre me pareceu velha, mesmo em seu disco de estréia.
    A idéia de “clubinho” me lembra o “Clube do GURI”, “Capitão Asa”. Meia dúzia de iniciados achando que o mundo está errado. Vocês têm cheiro de naftalina.
    E certamente como isso acaba contaminando o próprio Zumbi e o sr Ze Felipe, muito provavelmente não vai haver continuação no projeto.
    Skylab deve estar achando que entrou numa furada.
    E entrou mesmo.
    É o seu pior disco. Tirando ” A Gente vai ficar surdo”, as demais faixas são tentativas frustradas de arranjo. É o que dá ser um músico intuitivo como o sr Ze Felipe. A intenção era boa mas…

    • bernardo
      1 de dezembro de 2009

      Sandra,

      Obrigado por seus comentários.

      Em primeiro lugar, quem indicou o álbum fui eu, o Ruy apenas escreveu sobre uma indicação minha. Mantenha-o fora dessa, por gentileza.

      Eu praticamente discordo de todos os seus juízos a respeito do Zumbi e do Zé Felipe, bem como de suas concepções sobre arte, técnica, vanguarda, etc. Mas isso é a vida né? Por outro lado, curto sua agressividade, sua argumentação não é nada brilhante, mas tem vida, e às vezes é isso que importa…

      No entanto não posso deixar de responder a uma provocação boboca, que é a de sugerir que somos jabazeiros… Aí realmente a coisa fica estranha, porque eu advirto a leitores maldosos como você que eu sou amigo e no entanto ADORO o trabalho do Zé Felipe. Meu irmão é cantor de samba, lançou disco esse ano e nem por isso está contemplado na Camarilha. Eu sou amigo de um monte de gente que lança disco e não está aqui… Qual o motivo dessa provocação sem sentido?

      No mais é opinião, e opinião, vc sabe… cada um tem a sua.

      Abraços, Bernardo

  2. Rubens Damião
    15 de dezembro de 2010

    Bernardo,quando você fala que a Música do Skylab se resume á pano de fundo pra seu texto,você só mostra desconhecer o trabalho do mesmo pós “Skylab 2”, ou melhor ,só deve conhecê-lo através das “canjas do programa do jo”!
    Se tivesses assistido á alguns de seus shows de bom tempo pra cá,constataria que ele vem sendo acompanhado por uma banda que é rara de tão boa e utiliza sim,timbragens ousadas e qualquer estilo a que tenha direito!

    • bernardo
      15 de dezembro de 2010

      Caro Rubens

      Eu não assisto as “canjas do programa do jo”.

      Att.

  3. Jonas
    11 de fevereiro de 2013

    Não estou conseguindo fazer o download, em nenhum dos links. Não teria como me disponibilizar por outro link? Obrigado!

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Publicado às 25 de novembro de 2009 por em experimental e marcado , , , .
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