Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Four Tet – “Love Cry” (2009; Domino, Reino Unido)

Quais os critérios que levam as pessoas, independente de formação e classe social, a discernir aquilo que elas imaginam que é música do que não é? Um hábito e, sobretudo, um amor pela melodia, pelo ritmo, pelo “groove”, pela confirmação daquilo que já se conhece, pela “competência”, pela sensibilidade para os problemas sociais, pelo barulho, pelo labor, pela complexidade, por formas e gêneros específicos… Variados são os critérios, mas um elemento os une sob a forma do preconceito: a idéia de que a música é uma instituição erigida em um tempo primordial, através da qual todos os “músicos” obtém legitimação. Desta forma, realmente, fica difícil se orientar e aproveitar o espectro de manifestações musicais de hoje em dia. Isto porque a prática criativa antecede o rótulo, mas as pessoas insistem no contrário. Dizer “isso não é música” implica em saber o que é, e aí os critérios excluirão de saída algo novo, na medida em que o novo não faz parte do passado (pelo menos não completamente). Dito isto, falemos da nova faixa de Kieran Hebden, “Love Cry”. Um amigo ouve a faixa e sentencia: “o techno vai acabar com a música!” Critério número um: trata-se de uma mera manipulação de loops, ressaltando somente a repetição e a orientação para a pista (critério formal); critério número dois: qualquer um pode fazer isso (critério de legitimação). Mas o que eu vejo é que, em primeiro lugar, não há mal nenhum em se criar ou adotar um procedimento aparentemente simples, que ocasione a popularização do processo: reclamar disso é reinvindicar labor e procedimento para a produção musical, o que me parece absurdo, pois o que importa é o resultado – e neste aspecto, Kieran Hebden é dos artistas mais importantes dos últimos anos. Também não vejo mal nenhum em se trabalhar com a repetição, pelo contrário, não se trata de uma qualidade ou de um gênero, mas um modo ou um atributo de algumas manifestações criativas que operam com sons. Que a música seja considerada por um grupo como isso ou aquilo, não vejo mal nenhum. Mas que a música universal seja petrificada numa forma particular, que intedita outras possibilidades, me parece um erro. Melhor abrir mão da marca “música” em favor do pensamento e da criação. Assim, acho no mínimo estranho afirmar que o techno terminará com a “música” a partir desta faixa criada por Kieran Hebden sob o pseudônimo Four Tet. Ora, mas se é justamente em suas inflexões percussivas (seu maravilhoso chocalhinho…), teclados e contrabaixos vigorosos que o gênero parece apontar uma luz no fim do túnel… Eu mesmo que já fui um detrator do EP Ringer, devo voltar atrás: é um disco tão minucioso no modo como sobrepõe as diversas camadas percussivas e timbrísticas que hoje me parece um estudo para “Love Cry” e para o álbum que virá. Se nos anteriores, Hebden trouxe à tona uma forma particular de reelaborar procedimentos jazzísticos através de um pesado aparato eletrônico, a história parece mudar de foco, o comprova tanto Ringer como a colaboração com Burial e este doze polegadas: a perspectiva agora é a de buscar novas tinturas para o techno, retiradas de pesquisas e experimentos com sonoridades mais abstratas. Se isto prejudicará ou melhorará a música como um todo, pouco importa. Mas eu não tenho a menor dúvida que a manterá viva e interessante. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 27 de novembro de 2009 por em eletrônica, experimental e marcado , , .
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