Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

King Midas Sound – Waiting For You (2009; Hyperdub, Reino Unido)

King Midas Sound é um projeto de Kevin Martin, mais conhecido através de seu projeto The Bug, com Roger Robinson, um poeta e artista de spoken word nascido em Trinidad e Tobago mas residente no Reino Unido. O KMS lançou seu primeiro single, “Cool Out”, em 2008. O EP “Dub Heavy – Hearts & Ghosts” veio em julho de 2009, e Waiting For You, primeiro álbum da dupla, acaba de ser lançado. Além de seu trabalho como The Bug e King Midas Sound, Kevin Martin já gravou como Ladybug e Pressure, além de ter participado de alguns projetos, entre os quais o Techno Animal, com Justin Broadrick (Napalm Death, Godflesh, Jesu) e o Experimental Audio Research, com Kevin Shields (My Bloody Valentine), Sonic Boom (Spacemen 3) e Eddie Prévost (AMM), entre outros. (RG)

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OK, a primeira reação é bem digna de nota. Estou cá ouvindo Waiting For You, primeiro “Cool Out”, já conhecida e admirada: em seguida vêm “Waiting For You” e “One Thing”, e não consigo deixar de me surpreender com uma certa sensualidade soturna e ameaçadora muito, por demais reminiscente de Maxinquaye do Tricky e do Blue Lines do Massive Attack. Imediatamente me pergunto o que um sujeito como o Kevin Martin vai fazer num terreno já devidamente saturado, tornado quase que intolerável por mil projetinhos que viram no “trip hop” um meio fácil de ser cool e circular pela alta roda fashionette que abriu as portas pra diluidores vagabundos como Moloko, Morcheeba e Thievery Corporation. O ouvido implicou automaticamente com o falsete maroto e o canto de boca mole de Roger Robinson. Mas isso era ouvindo Waiting For You baixo, e sem fidelidade de graves. Basta ouvir o disco alto, com um bom sub-woofer ou fones de ouvido que dêem conta de freqüências abaixo de 90Hz, e Waiting For You se apresentará com sua real personalidade, potência e originalidade. Não que não tenha a ver com o trabalho de base de Tricky e do Massive Attack e, por outro lado, também com o ultradespojamento do Rhythm & Sound. Mas a questão aqui não é o que se pega, e sim onde se leva aquilo que já se tem de partida.

A primeira observação a se fazer na defesa de Waiting For You é que ele é tributário de Maxinquaye, certamente, mas ele não quer parecer com Maxinquaye. Ele é intencionalmente despido de uma dinâmica maior, de traços melódicos mais significativos nas faixas e de maiores preocupações com ganchos para cativar os ouvintes (praticamente metade do disco não tem nada disso). Ele é, sim, um disco que evoca Tricky, mas é o produto de um herdeiro que está mais interessado em atmosferas e texturas, mais interessado na pressão narcótica do dub do que no artesanato da canção. É, portanto, como que um filho do disco de estreia de Tricky que circulou por aí, vivenciou o drone preferindo textura à melodia, percebeu o reavivamento do dub na mão de produtores eletrônicos europeus e assimilou tudo isso ao som.

“Waiting For You” dá bem o tom do que é grande parte do disco: andamentos bem lentos, batidas eletrônicas sumárias, acompanhamento melódico ínfimo ou inexistente e grave batendo fundo. Pode-se dizer que o forte do disco é o mesmo que ocasiona seus limites: Waiting For You se ouve com fluência razoável, mas com muito senso de coerência interna entre os sons. No entanto, essa homogeneidade acaba pesando um pouco quando se emendam duas faixas sem maior brilho, como “Dahlin” e “Meltdown”, ou quando essa homogeneidade tenta ser quebrada recorrendo a andamentos mais solares, como na previsível “Lost”. “Goodbye Girl” pode lembrar demais o Portishead do primeiro disco, mas o faz com autoridade. Os destaques do disco acabam sendo a já citada “Cool Out”, “Outer Space” – a que mais se aproxima do trabalho com ragga que Kevin Martin faz quando assina The Bug –, “Earth a Kill Ya” – que dá vazão à verve de spoken word de Roger Robinson, com acompanhamento sonoro poderoso –, a sumária mas perfeita “Blue” e “I Man”, que parece sintetizar tudo que há de marcante no King Midas Sound até agora, com equilíbrio perfeito entre despojamento e expressividade, construída a partir de uma linha suntuosa de grave e uma bateria cheia de eco.

A cada lançamento seu, Kevin Martin demonstra cada vez mais que sua polivalência é tão grande quanto seu talento. Aqui, em terreno pantanoso e minado, ele pega a faceta mais ameaçadora do trip hop e constrói um lindo santuário dub em cima. Só espero que isso não motive novos diluidores… (Ruy Gardnier)

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Não é de hoje que Kevin Martin surpreende por sua versatilidade e poderio para invocar o novo, o estranho. Embora sua aparição esteja de alguma forma ligada ao contexto musical dos anos 90, ela se deu de forma a prenunciar a perspectiva “promíscua” e multifacetada dos anos 00’s. Como um de seus artífices, esteve envolvido com sumidades do calibre de Peter Brötzmann, a quem deve seu primeiro trabalho de peso como produtor. Depois, envolvido com projetos como God e Ice ou organizando coletâneras como a célebre Macro Dub Infection, capitaneou a tentativa de tradução do dub para a timbragem da música eletronica que então vicejava na passagem dos anos 80 para os anos 90, nem sempre obtendo êxito em tal empreitada. Mais tarde sob o pseudônimo The Bug, iniciou a melhor fase de sua carreira, em dois tempos: primeiro, contando com a colaboração do DJ Vadim, misturando hip hop, jazz e eletrônica de forma hoje um tanto quanto datada mas extremamente válida; depois, convergindo dub, ragga, dancehall, noise e eletrônica de forma a conduzir a música da época para a estridência e a organicidade do século XXI. Data desta época seu melhor álbum até hoje, Pressure, de 2003, e a parceria com Rootsman, um dos trabalhos mais irascíveis dos últimos anos. De uma forma ou de outra, o nome de Martin cresceu, por um lado, sob a égide da experimentação, e por outro, do dub, do ragga e adjacentes. Mas eu notaria que a característica que o situa como um artista que mobiliza a atenção dos que estão em busca de novos sons é o esmero com que ele produz uma sonoridade violenta, abrasiva e saturada. Mais que os ritmos, mais que os versos, são os timbres féericos que fazem o trabalho de Martin sem igual no cenário contemporâneo. Seja uma sessão rítmica, sejam soundscapes, teclados, contrabaixos, vozes, etc, suas composições primam sempre pela originalidade timbrística, definição sonora e poderio sônico, qualidades que saltam aos ouvidos. Quantos bons artistas não chafurdaram no senso comum do timbre!? Martin desenvolveu um vocabulário próprio com o qual produziu faixas intrigantes como “Aktion Pak” e “Skeng”, por exemplo.

London Zoo catapultou a reputação de Martin a um nível jamais visto. Não que ele tenha se tornado mainstream, longe disso. Mas no mainstream do underground Kevin Martin vale ouro e, na esteira do sucesso, o King Midas Sound vem sendo antecipado há algum tempo. Seus dois singles foram “silenciosamente alardeados” por publicações especializadas e seu álbum foi lançado pela Hyperdub, um dos selos mais badalados do momento. Mas se London Zoo já apresentava alguma disposição de Martin para um diálogo mais brando com o grande público, imaginem esse King Midas Sound, que substitui o ragga e a abrasividade pelo dub atmosférico com forte inclinação para o trip hop? Não é que Waiting for you não seja um bom álbum, mas é de se notar que as qualidades constitutivas da música de Martin, a abrasividade e a saturação, vem sendo gradualmente substituídas por texturas mais palatáveis. “Cool out” é um hit saboroso, sem dúvida; “Lost” também, embora emule descaradamente o Tricky de Maxinquaye; mas o tom geral do trabalho é de uma galopante complacência. Claro que os feitos passados dão crédito ao artista e tudo pode acontecer, inclusive algo que torne esse King Midas Sound um capítulo a mais na sua obra versátil. Por enquanto representa descenso de originalidade e contundência, ainda que sua audição não aborreça e até se torne agradável com o tempo. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 2 de dezembro de 2009 por em dub, eletrônica e marcado , , , .
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