Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Radiohead – Kid A (2000; Parlophone/EMI, Reino Unido)

Formado por Thom Yorke, Jonny Greenwood, Ed O’Brien, Colin Greenwood e Phil Selway, o Radiohead foi fundado em 1985 em Abingdon, Oxfordshire. “Creep”, o primeiro single, saiu em 1992, mas obteve êxito somente em 1993 com o lançamento do primeiro álbum, Pablo Honey. Seguiram-se The Bends e Ok Computer, este último responsável por conquistar crítica e público no mundo inteiro e colocar o Radiohead nas listas de melhores da década. A mudança de orientação musical distingue o lançamento do binômio Kid A e Amnesiac, ambos marcados por forte influência do IDM, do krautrock, do jazz e da música experimental do século XX. Os álbuns seguintes, Hail to the Thief e In Rainbows, conferiram ao Radiohead a posição de maior grupo experimental da atualidade. Um novo álbum está previsto para 2010, e duas faixas foram lançadas esse ano: “Harry Patch (In Memory Of)” e “These Are My Twisted Words”. (B.0.)

* # *

1. Se considerarmos a obra do Radiohead como um processo de transformação gradual, que parte de um esforço devotado a relativizar o indie rock em direção a uma abertura incondicional à experimentação, seremos compelidos a admitir o caráter de projeto que habita a obra do grupo. Por outro lado, me pergunto se esta explicação não encerra um determinismo rígido demais, se não comprime o processo à forceps para fins de explicação e decodificação. No mesmo estilo da pergunta: o que teria conduzido os Beatles das canções adolescentes ao “A day in the life”? Pergunta inglória, que acaba por apagar os esforços individuais para dissolvê-los no “espírito da época”…

2. Mas por que diabos deveríamos criar explicações se hoje aquele Radiohead de 1994 se encontra morto e sepultado, pelo menos para quem está em busca do “algo mais” que o grupo apresentou depois de Ok Computer. O hábito de se separar uma obra em fases, obra esta unificada sob um nome ou uma identidade, denota uma dificuldade comum em decodificar (e, em última instância, aceitar) a diferença radical que põe a unidade estável da identidade em crise. Assim, muitas vezes me flagro escavando nas fracas canções de The Bends e Pablo Honey o Radiohead que tanto me apraz de Hail to the Thief, In Rainbows, deste Kid A e seu álbum-gêmeo, Amnesiac. Claro que nunca encontro algo que ao menos insinue a possibilidade de uma virada tão radical. Para alguns, esta reviravolta começa no profundo lirismo de Ok Computer, mas na minha opinião e na de muitos outros ela começa em Kid A. É precisamente aqui que a identidade roqueira explode e se move…

3. A comparação com a reviravolta dos Beatles não favorece pois a compreensão do fenômeno. Não se trata exatamente de uma reviravolta, ao que tudo indica. Mas de uma evolução musical pautada pelo gosto contumaz pela música, uma evolução melômana, com todos os atributos e cacoetes dos amantes de música, CDFs na arte de compilar, armazenar, listar e fruir todo e qualquer discurso musical. Lennon e sua turma eram artistas do século XX e, portanto, pertencentes ainda ao séc XIX, carregando como correntes os conceitos de gênio, autenticidade, labor, etc. Agiram como artistas plásticos que por obra de um gesto estético reelaboram toda uma gama de conceitos e valores. Expandiram os elementos e influências de sua música como um procedimento liberador, agarrados que estavam ao tronco mais ou menos seguro do blues e do rock’n’roll. Yorke e seus amigos já não carregam tanto o século XIX, mas o século XX, manifestando em alguns aspectos as idéias de vanguarda, repetição, acaso e, mais especificamente, a de colagem. Na medida em que pode ser compreendido como um elemento precursor da cultura do cut-and-paste, cultura eminentemente contemporânea, a colagem de fontes diversas desenraizou o Radiohead da condição de indie group ou mesmo de “rock group”. Expandiram os elementos e influências de sua música por obra de uma percepção e um gosto multifacetados por definição, do tipo que caracteriza a fruição e a produção musical contemporâneas.

4. Não há um elemento sequer em Kid A que remeta aos álbuns anteriores. Talvez “Motion Picture Soundtrack” e, sobretudo, “How to Disappear Completely”, mas ainda assim a roupagem orquestral influenciada por Krzysztof Penderecki, aliada à utilização de um Ondes Martenot executado por Jonny Greenwood, resultam em dissonâncias perfeitamente afinadas com o tom experimental com que as faixas foram elaboradas. Se não, vejamos: o disco abre com “Everything in its Right Place” uma bela balada com forte influência techno, repleta de teclados e efeitos. Para um fã radical deve ter sido certamente um golpe duro, mas ele ainda não sabia que no auge de sua perplexidade eclodirá a primeira grande faixa do disco: “Kid A” já indica a filiação espantosamente madura ao IDM, graças à manipulação prodigiosa das baterias eletrônicas e dos efeitos. “The National Anthem” é uma das faixas mais intrigantes do disco, com sua cama espirrada de sopros e, particularmente, aquela sequência rítmica executada pelo sax barítono que antecede a balbúrdia free. “Treefingers” denuncia que, tal como o Geoff Barrow de Third, o grupo andou ouvindo muito o krautrock contemplativo do Cluster e do Harmonia. Com versos irônicos mais luminosos (“If you try the best you can, the best you can is good enough”), “Optmistic” abre o lado B destilando um rock simultaneamente lírico, timbrístico e enérgico, pontuado pela guitarra estridente de Ed O’Brien. Seguem outras faixas admiráveis: o folk-rock inspirado de “In Limbo” e “The Morning Bell”, com sua batida post-rock, seu teclado muzak e, mais uma vez, a interpretação primorosa de Thom Yorke. Mas nenhuma delas se compara a “Idioteque”, uma das faixas mais belas e inacreditáveis da década.

5. “Idioteque” sempre me pareceu uma anomalia musical de primeira ordem. Assim como foi musicalmente estranho e surpreendente quando o Anthrax se juntou ao Public Enemy para criar “Bring the Noise” ou mesmo o single “I’m the man”, assim recebi “Idioteque”. Não que ela represente uma mudança de perspectiva que atingiria o rock como um todo, como foi com o Anthrax e o Public Enemy, mas poucos eventos foram tão estranhos quanto o investimento do grupo em mesclar indie com miami, guitarras e eletrônicos. Claro que àquela altura estas misturas já haviam sido experimentadas, mas o fato é que a letra abstrata de “Idioteque” carrega uma emoção tão contundente, emolurada por aquela batida festeira e agitada, que fica difícil encontrar um exemplar à altura de seu poder de síntese, apelo pop e, ao mesmo tempo, estranhamento. É a retorção do passado no futuro, é o resultado mais coerente e poderoso decorrente do fato que explanei acima: o Radiohead se tornou das maiores bandas do planeta graças a ausência total de compromissos com o gênero. Ao contrário do que pensa Colin Greenwood, nesta entrevista.

6. Se privilegio o ponto de ruptura ao mesmo tempo em que desvalorizo uma perspectiva projetual, é porque só posso crer que a melhor forma de compreender o trabalho do Radiohead é entendendo-o como expressão de uma união específica de indivíduos que, tal como tantas grandes bandas, convergiram esforços em favor de uma expressão comum. Nem rupturas, nem projetos, apenas a duração da vida e a capacidade criativa destruindo e contruindo sem cessar: esta talvez seja uma característica fundamental na música produzida na década, isto é, um privilégio maior da criação livre e descompromissada com a indústria e o gosto popular. Assim sendo, só posso considerar Kid A à luz de Amnesiac, dado que ambos nasceram das mesmas motivações e das mesmas sessões. Neste sentido, mesmo levando em consideração minha preferência por Hail to the Thief, devo sublinhar que Kid A é o álbum que melhor representa as correções de rumo adotadas pelo grupo. Motivo suficiente para o elegermos como um dos discos mais fortes e consistentes de uma das bandas mais fortes e consistentes da década. (Bernardo Oliveira)

* # *

O essencial seria discutir a obra pelo que ela apresenta e menos pelas circunstâncias que a circundam. No caso de Kid A, no entanto, isso nunca foi muito possível. Na época de seu lançamento, a discussão em torno da música ficava em segundo plano diante da polêmica entre fãs desapontados com o rumo “não-rock” tomado pelo grupo e os fãs que decidiram, um pouco de pé atrás, acompanhar o grupo em sua aventura sonora (os não-fãs que viraram fãs, como eu, acho que são muito poucos para computar como um terceiro elemento). Hoje, quase dez anos depois, Kid A assume a função de disco-farol e disco nº1 da década, graças à influente revista eletrônica Pitchfork, algo que novamente joga o contexto da discussão para algo circunstancial – posicionar-se diante do posto que o disco ocupa. Detestaria ficar gastando verbo sobre a Pitchfork num espaço que deve ser do Radiohead, mas talvez caiba a reflexão – ainda mais se lembrarmos de que Low do Bowie ficou em 1º lugar na lista dos anos 70 – de que eles se deixam maravilhar sobremaneira por “discos de virada” de artistas do mainstream que começam a flertar com o que está sendo feito na vanguarda, mas curiosamente não se importam muito com a própria vanguarda. Posso até achar Low um discaço, mas pra mim não entraria numa lista de melhores de três nem da própria obra de Bowie na década de 70. Kid A é igualmente um discaço: propositivo, ousado na fragmentação de propostas que sugere, minuciosamente pensado em seu conceito e construído musicalmente com sensibilidade e momentos de gênio. Mas, como Low com Bowie, não é meu disco do Radiohead nessa década (aliás, a única década em que o Radiohead conta, pra mim). O que começa com Kid A e seu gêmeo Amnesiac só aflora totalmente em Hail To the Thief. Mas aí já é outra história. Esse texto é sobre Kid A.

Confesso que a primeira audição me surpreendeu. O Radiohead vinha de um disco que todo mundo menos eu parecia amar (OK Computer foi provavelmente, aliás, o disco que eu mais ouvi tentando gostar na vida), e agora abraçava sons que só eu parecia amar – Aphex Twin, Autechre, Oval, Microstoria etc., mas dentro de um contexto de rock. Em todo caso, essa estética eletrônica/fragmentada está lá desde o princípio, e com pompa: “Everything in Its Right Place” e “Kid A” abrem o disco soando de maneira inteiramente distinta, a primeira com fragmentação vocal e clicks & cuts nada comuns à época, e a segunda com uma bateria pra adular fã de Stereolab e um vocal processado ao ponto da indefinição – indefinição do que se fala e indefinição quanto à “identidade” da própria voz de Thom Yorke, manifestamente uma das marcas registradas do grupo. A se notar que nas duas primeiras faixas também não há guitarras, e a utilização de guitarras era até então, bem, outra das marcas registradas do grupo. Ou seja, não chegaram pra fazer gracinha.

Toda faixa que surge em Kid A parece provocar uma mudança brusca de atmosfera. É um pouco como se cada faixa, ao contrário de somar-se À seguinte, parecesse entrar em conflito com ela. Se a qualidade individual de cada composição não fosse enorme, o disco arriscaria cair em pedaços. Na primeira metade ele vai de “Everything in Its Right Place” e “Kid A” para “The National Anthem”, um rock vigoroso com baixo pulsante e clímax construído por sessão de metais que começam em ordem e acabam em balbúrdia free, depois “How To Disappear Completely”, uma balada que não fossem algumas delicadas colorações sintetizadas de arranjo poderia estar tranquilamente em OK Computer, e em seguida a atmosférica “Threefingers”, basicamente um soundscape bucólico que não ficaria deslocado num disco da Touch Records. Naturalmente, ninguém há de dizer que “Threefingers” se destaca dentro de seu contexto, e pode-se até mesmo suspeitar um pouco de tanto trend junto: IDM, free, ambient… O que livra Kid A da possível acusação de disco posudo é a manutenção pregnante de uma atmosfera de desespero e nonsense ora irônico, ora melancólico, essa sim a assinatura principal do Radiohead.

“Optimistic”, “In Limbo” e “Morning Bell”, executadas por instrumentos mais convencionais à história do Radiohead, atestam mais que as outras a evolução das composições do grupo, que, ao invés de explodirem em arroubos líricos catárticos e frágeis (comuns em OK Computer), preferem manter uma tensão permanente através de arranjos mais intrincados. Esse refinamento mantém-se até hoje, e é o que torna notáveis faixas como “Pyramid Song”, “Faust Arp” ou “Nude”, para se ater às mais morosas. Mas obviamente o carro chefe e o arrasa-quarteirão do disco é “Idioteque”, uma reconstrução até então impensável do Radiohead como projeto eletrônico de pista, um electro tão mais pungente por seu despojamento de maiores camadas melódicas – apenas um sample de quatro acordes etéreos de uma faixa do compositor Paul Lansky –, que torna a faixa sutilmente excêntrica e desesperadamente gélida, tanto pela secura dos timbres quanto pela ausência de linha de baixo para “encher” o vazio deixado entre a voz de Thom Yorke, o sample de sintetizador e a bateria eletrônica.

Agora, se Kid A tem algum traço característico dentro da obra do Radiohead, não é o de obra lapidada e madura em que todos os elementos estão equilibradamente lá. É um momento de abertura de perspectivas, em que todos os signos estão lá gritando a necessidade de sua existência, mas ainda não encontraram o local perfeito de sua inscrição. A banda iria maturar isso em seguida.Mas Kid A manterá para sempre esse charme de obra desgarrada e inaugural de uma banda que poderia muito bem delinear sua carreira como um novo U2 mas preferiu jogar tudo pro alto e desafiar os fãs a ampliarem suas percepções. Tem que ter muita coragem para fazer isso. E felizmente essa guinada nos livrou de mais uma insuportável bandinha de rock de arena. Já pensou Thom Yorke cantando com Luciano Pavarotti, o horror, o horror? (Ruy Gardnier)

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Publicado às 2 de dezembro de 2009 por em eletrônica, experimental, rock e marcado , , .
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