Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Limescale – Limescale (2003; Incus, Reino Unido)

Limescale foi um conjunto de música improvisada reunido exclusivamente paa a produção deste disco, também chamado Limescale. A formação é Derek Bailey no violão, Alex Ward no clarinete, Tony Bevan no saxofone baixo, Sonic Pleasure – pseudônimo para Marie-Angélique Bueler – creditada como tocando tijolos (bricks) e T.H.F. Drenching – pseudônimo para Stu Calton – tocando ditafone. (RG)

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A música improvisada tem suas armadilhas. Como tudo, aliás, que se baseia numa ideia infantil de liberdade, a de que é possível “fazer tudo” e deixar dar vazão indulgentemente à própria espontaneidade. Mas a música é como a gravidade: você pode saltar o quanto quiser, mas se não tiver asas vai se espatifar no instante seguinte. Outra peça que a música improvisada prega é a noção de que “é fácil” fazer música quando não se tem uma estrutura de composição – mesmo solta, como no caso do jazz, permitindo intervenção improvisada – para guiar a execução. Naturalmente, tocar, por tocar, é fácil. Mas tocar e se impor pela música, soando distinto e com estilo próprio, é das coisas mais difíceis que existem. É claro que isso pode se resolver com o talento individual, e, de fato, diversos dos músicos proeminentes no free jazz e no free improv são aqueles que desenvolvem e dominam técnicas que, aliadas, naturalmente, à verve e à sensibilidade, os transformam em figuras proeminentes no “gênero”. Mas quando se trata de extrair novas dinâmicas de som praticado em grupo e ao mesmo tempo manter toda a liberdade dos músicos, só propondo orquestrações diferentes e, nos últimos anos, a incorporação de instrumentos inusitados e a chegada firme do computador nas práticas de improvisação ao vivo. Desde o final dos anos 90, Fennesz, Jim O’Rourke e Peter Rehberg já faziam improv com seus laptops. O mesmo 2003 desse Limescale viu o que talvez seja a obra definitiva do projeto Blue Series, som os eletrônicos do Spring Heel Jack totalmente integrados às intervenções dos instrumentos acústicos de William Parker, Matthew Shipp, Han Bennink, Evan Parker e J. Spaceman (aka Jason Pierce, do Spacemen 3/Spiritualized). Limescale pode não ter essa mesma pretensão de cobrir novos territórios e ampliar o espectro de possibilidades, mas criou com cinco instrumentos e seus instrumentistas um dos sons mais únicos e surpreendentes que jamais se ouvirão em matéria de música improvisada.

A começar pela escalação: um violão, e logo o de Derek Bailey, com seus ataques radicalmente descontínuos; uma clarineta e um saxofone baixo, dois registros extremos na escala dos metais, sem nenhum outro para ligar os pontos; “tijolos”, ou o que parecem ser azulejos que se chocam criando quase sempre sons breves, sem ressonância e bastante agudos; e um ditafone que mais parece ser uma enorme coleção de sons encontrados, porque pode evocar glitches de computador, barulhos de maquinária ou mesmo instrumentos como piano ou sopro. (Às vezes, aliás, as técnicas dos músicos sendo tão exploratória de seus respectivos instrumentos, podemos até nos perder no meio da coisa toda.) No que diz respeito à natureza dos ataques dos intrumentos, todos os músicos parecem obedecer à estética de Bailey: não há manutenção por muito tempo dos mesmos motivos e fraseados, e a brevidade de cada som executado confere à sonoridade geral um aspecto puntilista, de total imprevisibilidade em sua evolução mas devastadoramente “harmônica” graças à consistência da banda e à forma como os instrumentos dialogam entre si.

A esse respeito, cabe notar que a instrumentação, além de excêntrica, realiza em termos de arranjo efeitos muito interessantes. A primeira é uma confluência para registros agudos, às vezes estridentes. Mesmo o sax baixo de Tony Bevan, deslocado em seu registro de graves, não faz nada para encher ou realçar com calor as interações agudas dos outros instrumentos. A propriamente dizer, não existe instrumento de acompanhamento ou de preenchimento, duas funções que geralmente cabem ao contrabaixo, guiando ritmicamente cada faixa e harmonizando o espaço entre os outros instrumentos. Em Limescale, os cinco instrumentistas exercem o mesmo tipo de função, têm o mesmo approach em relação ao instrumento, e atuam de forma permanente, o que faz com que as faixas não tenham exatamente nem andamento nem movimentos.

Mas não há risco de monotonia; se há um perigo, é a sobrecarga de informações que pode esgotar o ouvinte. Porque de fato os cinco músicos desenvolvem caminhos paralelos e descontínuos, não deixando ponto de amparo. É um selvagem tudo-ao-mesmo-tempo-agora que só não cai na vala comum da entropia sonora por dois motivos: o primeiro é a já comentada “harmonização” em torno dos registros agudos e dos ataques descontínuos e breves, que já cria por si só uma forma de controle sobre o caos; o segundo, e mais decisivo, é o poder que cada um tem de ouvir o outro e interagir timbristicamente, criando por vezes minidiálogos mas, mais importante, tornando o aparente caos incrivelmente consonante. Deixar uma música orgânica, quando se quer, não é lá muito difícil. Há infinitas fórmulas, testadas e retestadas. Mas quando se cria uma dinâmica que tem tudo para soar inôrganica e nonsense, mas ainda assim se consegue extrair um senso ousado de domínio, misturando música (os músicos, os instrumentos) e “não-música” (o modo de tocar dos instrumentistas, os “instrumentos” que são os tijolinhos e o ditafone), e soando completamente orgânica não pelas medidas convencionais, mas pela própria medida que a música executada instituiu, aí sim sabemos que estamos diante de uma obra sui generis. Fácil, fácil, um dos grandes discos de improvisação dessa década que termina. (Ruy Gardnier)

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Aqueles familiarizados com o extenso trabalho de Derek Bailey talvez não se surpreendam com a imensa gama de timbres e dinâmicas que se deslocam com a velocidade da luz em Limescale. Álbuns da mesma época como Soshin, em parceria com Fred Frith, contém aqueles pizzicatos e harmônicos contundentes que dão forma à dicção característica de seu violão. Mas em Limescale trata-se de uma composição instrumental que vai além da originalidade timbrística de Bailey, se isto é possível… Temos o clarinete de Alex Ward, o saxofone de Tony Bevan, os “tijolos” de Marie-Angélique Bueler e T.H.F. Drenching, que ano passado lançou um excepcional CDr com seu grupo The Concréttes, executando um arqueológico ditafone. Por aí talvez se perceba mais adequadamente a natureza desse encontro: cinco músicos que desenvolvem trabalhos de relativização e alargamento do campo de possibilidades timbrísticas de seus próprios instrumentos se juntam para construir peças de improvisação. Sonic Pleasure, pseudônimo de Bueler, deduzo que arranha e bate em “tijolos” enquanto Drenching manipula fluxos sonoros do ditafone; Bailey, por sua vez, se esmera em criar ruídos metálicos, enquanto Bevan e Ward descaracterizam seus respectivos instrumentos extraindo sonoridades que nem de longe se assemelham a sua timbragem comum. Combinando-se todos esses elementos temos um dos discos mais intrigantes de música improvisada dos últimos anos. Mas qual o seu mistério, posto que em termos de improvisação têm-se a perspectiva de que tudo é legítimo?

Os grandes discos de improvisação encerram uma lógica profunda e rigorosa, o que nem sempre se coaduna com a idéia de liberdade embutida na expressão free-improv… Portanto, cabe aqui a ressalva de que este “free” está associado a uma concepção equivocada de liberdade através da qual o lema liberal “laissez faire, laissez aller” adquire estatuto de lei – concepção esta decisivamente identificada à geração flower power, o que põe em xeque seu suposto papel transgressor… Repito, então: qual o mistério de Limescale que o diferencia da produção de Bailey bem como da de todos os envolvidos? Se me permitem o salto interpretativo, me arrisco a dizer que há um traço lógico inspirado nas artes plásticas, mais especificamente no pontilhismo impressionista de Seurat: excertos sonoros combinados para definir cores, formas, escalas, painéis e estruturas musicais talhadas a partir de elementos supostamente não-musicais, presentes tanto na execução dos tijolos e do ditafone, como na apropriação particular que cada um faz do seu instrumento. Harmonia, ritmo e melodia são como que esfacelados, criando sobreposições de elementos e modulações dinâmicas que marcam toda a evolução do álbum. O resultado é fascinante, devido justamente ao poder de síntese do grupo, isto é, a capacidade de dosar, medir, exacervar, tirar e pôr, capacidades que em nada se conjugam com uma concepção juvenil de liberdade. Ser “livre” em Limescale significa: poder e capacidade de controlar o raio de elaboração sonora, de dar sentido e direção ao invés de “deixar ir”…

Às vezes caótico, às vezes minucioso, mas sempre perturbador, Limescale transcorre de forma abrupta, atropelando o ouvinte com seu farfalhar ensandecido, muito embora exija do mesmo ouvinte um paciente trabalho de aproximação e deglutição. Somente na terceira ou quarta audição começamos a deslindar e apreciar seus elementos e texturas, como os tijolos de Bueler em “Academy Now” ou a combinação climas e timbres em “Charity Singles Ball”, de longe a faixa mais rica do disco. O alto nível de exigência confirma o caráter verdadeiramente transgressor de Limescale, pois é a partir dele que se pode aferir a originalidade que o faz um dos melhores discos da carreira de seus autores. Certamente um exemplo, se não precursor, absolutamente singular de free-improv no cenário contemporâneo. (Bernardo Oliveira)

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