Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

No-Neck Blues Band – At 6AM We Become the Police (2009; Locust, EUA)

No-Neck Blues Band é um coletivo novaiorquino de música improvisada. O grupo nasceu em 1992 e cedo estabeleceu-se como um septeto, com Keith Connolly (percussão), Matt Heyner (baixo), Jason Meagher (guitarra), Pat Murano (guitarra), Dave Shuford (guitarra), Michiko (violino) e Dave Nuss (bateria e líder do grupo). Desde 1996, o NNCK – abreviatura pela qual o grupo passou a ser referido – criou a gravadora Sound@1, ou s@1, e lançou uma extensa discografia por esse selo. Os discos de maior repercussão do grupo, no entanto, foram lançados por outras gravadoras: Sticks And Stones May Break My Bones But Names Will Never Hurt Me (2001, Revenant), Qvaris (2005, 5RC), Clomeim (2008, Locust) e Embryonnck, em conjunto com o grupo Embryo (Staubgold, 2006). At 6AM We Become the Police compila gravações entre 1995 e 1997, duas delas gravações não-utlizadas para um filme de Harmony Korine, e uma delas a primeira sessão em que a violinista Michiko tocou junto com o NNCK, tornando-se automaticamente um membro. O disco é a trilha sonora de um filme homônimo ainda por vir. (RG)

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Se você gosta de krautrock e/ou de RIO, é bem provável que você já seja um fã da No-Neck Blues Band e não saiba. Não que o grupo soe parecido com um deles (embora uma ou outra faixa vocal lembre o Can de Ege Bamyasi). O que faz com que o NNCK agrade a essa turma tão seletiva é o fato de praticarem uma música de improvisação livre com um manifesto sotaque rock mas fusionando todos os gêneros e searas possíveis, soando ao mesmo tempo como música étnica, folk, rock, jazz e daí por diante. E a principal virtude do grupo é sua coesão sonora, o modo como esses instrumentos de sonoridade tão estonteantemente diferentes se ligam num todo que mais parece uma experiência ritualística. Talvez até mais que nos lançamentos de estúdio, talvez sejam em gravações como essas de At 6AM We Become the Police que o NNCK mostra toda sua força, sem os detalhes de gravação que por vezes acabam separando demais os instrumentos e tornando a audição mais fria. Nessas gravações mais livres do NNCK, a falta de uma definição “profissional” dos instrumentos torna o som todo mais caloroso e integrado, fazendo cada sonoridade inusitada – e há diversas aqui – ganhar uma autoridade tremenda, advinda do espírito de conjunto. Talvez tenha sido por essa coesão, inclusive, que o grupo foi meio deslocadamente arrolado na onda de freak folk ou New Weird America que fez sensação no começo dessa década: não tanto por parecer com o gênero folk, mas dar essa sensação de “música de raiz” que depreende fortemente da interação existente entre os músicos.

At 6AM We Become the Police é um “disco de relíquias” com quatro sessões gravadas entre 1995 e 1997 que giram em torno de dez minutos cada. Além de ser um período mitológico para os admiradores da banda, duas histórias por trás das faixas aumentam o grau de interesse em torno do disco: primeiro, uma delas é o registro da primeira gravação que o NNCK fez com Mico, ou Michiko, violinista que dá ao grupo uma parte sensível de sua identidade sonora; segundo, o fato de duas das faixas serem sessões improvisadas tendo em mente a confecção de trilha sonora para um filme de Harmony Korine. São quatro faixas de imenso poder atmosférico, não tanto por darem um climinha de filme, mas porque todas as incursões de instrumento existem para encorpar o som geral, mesmo quando parecem estar solando. A longa duração das faixas permite que o grupo funcione em seu melhor, com jams sem pressa e sem necessidade de chegar a algum lugar. “HRMNY 1 (A Tabu 3)” surpreende pelos sonzinhos agudos, imagina-se que sintetizados (não há informação sobre instrumentos tocados no disco) e pelo modo como eles interagem com a explosão de percussão tribal que vai do primeiro minutos aos 7min40 da faixa.”NNCK 97″, a única com nome genérico, estabelece um diálogo entre cítara e violino que dá ao som um teor étnico, com o fundo crescendo cada vez mais até ao fim tudo se transformar numa poderosa maçaroca indiscernível entre frente e fundo. “Mico 1”, aptamente batizada por ser a primeira sessão da violinista Michiko, é uma jam de andamento lento, com um ataque de prato bastante ressonante como espécie de motivo, em que algo parecido com uma flautinha se junta a mais sons pouco identificáveis. “HRMNY 5 (A Tabu 3)” repete os insistentes batuques de tambor da faixa que abre o disco, mas dessa vez a dinâmica se dá com instrumentos orgânicos, como um sopro (difícil identificar qual), violino e feedback de guitarra. O final da faixa (e consequentemente do disco), sem percussão, é particularmente inspirado.

Como o Acid Mothers Temple, o No-Neck Blues Band é uma banda de psicodelia fundista: demora a engrenar, parece simplesmente se repetir sem grandes evoluções, até que tchun, em algum momento a gente consegue captar todo o impacto da proposta e do som do grupo. At 6AM We Become the Police é um item obrigatório para fãs – mesmo porque em 2009 eles não foram tão prolíficos e difíceis de acompanhar quanto em meados da década – e uma boa introdução àqueles que pretendem conhecer o som do grupo. Em se tratando de um grupo que preza muito mais a consistência do percurso do que a perfeição pontual, é uma porta de entrada tão boa quanto qualquer outra. (Ruy Gardnier)

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Uma das aptidões determinantes para o sucesso daqueles que trabalham música improvisada é a capacidade de tomar decisões no tempo certo e seguir em frente. A coesão de propósitos pode determinar a “cara” do trabalho, mais do que a própria natureza sonora dos instrumentos envolvidos. E me refiro a decisões de fundo, como intensidade, dinâmicas, timbragem, vibração, construção das progressões, das passagens de clima, etc, muitas delas tomadas no calor do momento. Em sua extensa discografia, o No-Neck Blues Band sempre demonstrou uma certa coesão, quase sempre sob o ponto de vista da condução mais do que no esmero com timbres e texturas. É de se considerar a curva de evolução do grupo a partir do percurso sonoro que vai de seu primeiro álbum, o barulhentíssimo Hoichoi, até este de 2009. Semelhantes às alterações ocorridas no interior da sonoridade do Black Dice, por exemplo: de um apreço particular pelo noise, pelo metal e pelo free-jazz a uma inegável inclinação para proezas psicodélicas, o que corresponde mais ou menos a adesão ao trabalho com equipamentos eletrônicos. À semelhança de seu quase homônimo The Necks, eles primam por uma qualidade particular no modo como costuram momento a momento, habilidade que se reflete inclusive nos tratamentos de edição e mixagem dados a posteriori. É na duração, e não na timbragem, que o improviso do No-Neck se impõe.

No caso deste “novo” álbum, gravado entre 95 e 97 para servir como trilha sonora a um filme de Harmony Korine mas destinado atualmente a um filme homônimo, esta habilidade não só se confirma, como também expõe a maior qualidade deste coletivo. À exceção da faixa A1, a que mais contém variações, todas as outras três trabalham um clima ou um “tema” (guardadas as devidas proporções, claro) que se estenderá por toda sua duração e que conduzirá o ouvinte a um estado de apreciação contemplativa, sem sobressaltos nem mudanças bruscas, formando um continuum coerente mas ao mesmo tempo repleto de nuances e surpresas. Neste ponto podemos ressaltar uma segunda característica do NNCK da década de 2000 que pode ser estendida a este álbum: mesmo considerando sua aptidão para a construção gradual e paciente, eles são capazes de destilar, com excepcional poder expressivo, combinações de timbres e dinâmicas interessantíssimas, como na faixa A2 cujo “tema” lembra música árabe, na B1, francamente alusiva à música concreta; e na faixa B2, cuja percussão desconjuntada, ligeiramente agressiva, foge um pouco do tom onírico do álbum. Colaboram para esta percepção o fato de que os sons estão integrados: os eletrônicos, embora claramente distinguíveis, estão no mesmo patamar das sonoridades acústicas de forma coesa e, como escrevi acima, sem grandes sobressaltos.

A beleza do disco, então, reside na combinação de uma concepção inteiriça do improviso com a criatividade das inserções e modulações. Prazeroso, o resultado demonstra originalidade, muito embora eu não a tenha percebido de imediato. Sorte portanto daqueles que retornaram à primeira faixa do disco após uma primeira audição problemática. É que a nunace só se ressalta na segunda audição, quando já identificamos mais nitidamente os caminhos tomados, a composição propriamente dita que resulta do esforço da improvisação. Arte na qual o NNCK sem dúvida se especializou, sendo At 6AM… a comprovação de que a cada disco eles asseguram seu lugar ao sol entre os grandes improvisadores da atualidade. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 9 de dezembro de 2009 por em improv, rock e marcado , , .
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