Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Nação Zumbi – Rádio S.Amb.A. – Serviço Ambulante de Afrociberdelia (2000; YBrasil Music, Brasil)

Pernambuco, final da década de 80: o rapper e dançarino Chico Science, que participava do grupo de hip hop Loustal, ingressa no bloco de reggae Lamento Negro, do bairro de Peixinhos, periferia de Recife. A partir deste encontro, Chico experimentou os temas e versos da estética hip hop com o ritmo do maracatu e do samba-reggae, formando o Nação Zumbi. Junto com Fred 04 do grupo Mundo Livre S.A., também de Pernambuco, Chico capitaneou o manguebit, cujo manifesto intitulado “Manifesto dos Caranguejos com cérebro” e cujo símbolo, uma parabólica enterrada na lama, retomavam temas e perspectivas da antropofagia de Oswald de Andrade e do tropicalismo de Caetano Veloso e Gilberto Gil. No início dos anos noventas, Chico Science & Nação Zumbi se destacaram no cenário nacional com o lançamento de Da lama ao caos e Afrociberdelia, hoje considerados cruciais e decisivos para a música brasileira como um todo. O desaparecimento precoce de Chico Science, em 1997, forçou o grupo a paralisar suas atividades até 1998, quando lançaram CSNZ, álbum duplo contendo faixas ao vivo, remixes e duas músicas inéditas. Em 2000, já com Jorge Du Peixe definitivamente nos vocais, o grupo lançou Rádio S.amb.A – Serviço Ambulante de Afrociberdelia, o primeiro álbum de inéditas desde Afrociberdelia. Seguiram-se Nação Zumbi (2002), Futura (2005), Fome de Tudo (2007) e o DVD Propagando (2006), sempre com sucesso de público e crítica, inclusive no exterior. Para 2010 está previsto um álbum de faixas gravadas ao vivo chamado Ao Vivo no Marco Zero. (Bernardo Oliveira)

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Dificilmente poderemos negar um traço da cultura brasileira, que é a dialética esquizofrênica entre o fetiche da preservação e a compulsão à miscigenação indiscriminada. Ocorre que esta problemática contradição é transplantada até mesmo a contextos específicos, como por exemplo no “BRock” ou no “BReggae” do sudeste brasileiro. Em relação ao Paralamas ou ao Barão Vermelho, certamente ouviremos a lamúria dos puristas clamando por “aquele” grupo dos primórdios, aquele que marcou a “minha” geração, a “minha” percepção… Não que eu concorde ou discorde do juízo em relação as bandas citadas, não se trata disso. Desejo antes ressaltar o mecanismo psicológico que encerra certas bandas dentro de seu próprio mito, e de como esses mecanismos estão profundamente marcados por um narcisismo preguiçoso que não consegue (ou não quer) seguir os passos reais dos artistas, afobados que estão em decodificá-los e enquadrá-los no domínio mais ou menos seguro de suas experiências pessoais. Tenho a impressão de que no Brasil confundimos os primórdios de um artista com “vigor juvenil” e, por outro lado, a indefinição da atualidade com “cansaço”, e isto conforme a certeza arrogante de que somos o centro do universo… Do ponto de vista dos artistas, os esforços de grupos do sudeste em reproduzir ritmos nordestinos ou, de forma semelhante, a tentativa de alguns novos grupos de reproduzir o samba “tradicional” (seja lá o que se queira dizer com isso…) podem até se auto-legitimar através de trabalhos corretos, regulares e bem produzidos, mas jamais esconderão que sua música é produto de um mal-estar, de um desconforto que deseja antes de mais nada recuar, regressar, destruir o futuro e dissolvê-lo em uma interpretação determinada do passado – que infelizmente não se sabem nem “intérprete”, que dirá “determinado”…

O Nação Zumbi sofreu essa desconfiança e de uma forma duplamente cruel. Primeiro, porque rapidamente o grupo foi considerado herdeiro de um movimento que, sem seu herói, não se sustentaria; e mesmo depois de dar provas mais que suficientes de sua força criativa e independência em relação ao mito e à genialidade de Chico Science, o Nação ainda hoje é considerado uma sucursal da experiência dos anos noventas, mesmo que uma audição atenta demonstre exatamente o contrário. Foi pensando assim que, confesso, tive dúvidas quando aceitei o convite de um amigo para assistir o show do grupo na Cantareira, na cidade de Niterói, o primeiro no Rio após a gravação de Rádio S.amb.A.. Qual não foi o meu espanto quando percebi que se materializava no palco um verdadeiro milagre que em uma só e mesma lufada trazia Chico Science à tona, através dos tambores e do hip hop, mas acrescentava um grau de experimentação com ritmos e timbres que até então não se percebia no grupo de forma tão proeminente. Fiquei arrebatado com o lema “sem medo” em “Caranguejo da Praia das Virtudes (Madame Satã)”, com a mistura de drum’n’bass e ritmos latinos de “Los Sebozos Postizos”, com o arranjo empolgante e arrojado de “Quando a Maré Encher”, com o instrumental e a melodia de “Carimbó” e, sobretudo, com o tom radicalmente experimental de “Remédios”, que atestou definitivamente o retorno do Nação Zumbi. Tanto que fui na semana seguinte em um show no Rio, desta vez na extinta Quinta do Bosque, em Santa Teresa, comprovar a excelência do novo trabalho, de um nível de auto-determinação e criatividade que há tempos não se via na música brasileira como um todo, suplantando até mesmo a eclosão do manguebit da década anterior. Eu mal esperava para ouvir Rádio S.amb.A, fato que se deu algumas semanas depois.

Sim, é possível reconhecer o “mote” do Dr. Charles Zambohead, através do som grave dos tambores e da levada hip hop… Mas os cinquenta e dois minutos de Rádio S.amb.A não só correspondiam à impressão geral dos shows como também traziam novas faixas, tão surpreendentes quanto as primeiras. O hardcore “Brasília”, o hip hop cubista “Zumbi X Zulu” (com os vocais de Afrika Bambaata) e a lindíssima “João Galafuz”, que conta com a voz de Lia de Itamaracá, figuram ao lado de faixas e vinhetas instrumentais construídas com uma sonoridade madura, mas ao mesmo tempo urgente e profundamente enérgica. As letras também demonstravam o vigor do novo Nação Zumbi, pois ao mesmo tempo que as composições se diferenciavam consideravelmente das criadas por Science, prescindiam também do padrão de livre associação marcadamente tropicalista que os diluidores do tropicalismo timbraram em oficializar na música da década de 00. Trata-se, pois, de uma avis rara na música brasileira da época em todos os termos: uma banda sobrevivente que passou por maus bocados não só se recupera como também ousa absurdamente a transgredir os padrões de arranjo e composição, tanto do ponto de vista musical como também em relação às letras. E para quem se lembra de Asian Dub Foundaton, Café Tacuba, Manu Chao e outros artistas da “periferia” que obtiveram algum sucesso graças a histeria multicultural que marcou a rebordosa do discurso neoliberal, vale dizer que dentre todas essas bandas o Nação Zumbi é a mais expressiva, além de ser a mais regular e produtiva.

Mesmo um certo desequilíbrio em relação ao número de faixas e alguns excessos de arranjo são característicos de uma efusão criativa desta natureza, que considera o máximo de idéias porque quer valorizar todas elas, sem titubeios nem dúvidas. Um ethos de pura afirmação, como foram os álbuns dos Mutantes, dos Novos Baianos, do Patife Band e do Sepultura, as quatro bandas precursoras do espírito desbravador do Nação Zumbi. Os discos seguintes só vieram pavimentar o campo extremamente fértil e desconcatenado legado por Rádio S.amb.A e desde então o Nação não cessou de surpreender seus fãs, para o bem e para o mal. Positivamente pela qualidade irretocável de seus shows e álbuns. Mas negativamente quando, em coro com um irreconhecível Fred 04, invocam o discurso liberal para defender a indústria contra a internet e a troca de informação. Uma atitude às antípodas do significado profundo de Rádio S.Amb.A, qual seja: a superação na diferença, a busca pela diferença às custas até mesmo do próprio passado. Com sua mistura particular de Public Enemy, ritmos e sonoridades consideradas preconceituosamente enquanto “regionais”, procedimentos do dub, da música eletrônica e de muitas vertentes do rock, Rádio S.Amb.A é sem sombra de dúvida o melhor álbum realizado no Brasil nesta década. (Bernardo Oliveira)

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Lá se vão dez anos e a constatação é dura mas inevitável: nesse período não houve disco melhor que Rádio S.Amb.A. O julgamento pra mim é óbvio, banal, mas acho que só o será pra nós da Camarilha. De resto, todo mundo vai afirmar que a década foi do Los Hermanos e, na dúvida, colocar o segundo e o terceiro no topo da lista. Quanto a mim, não tenho dúvidas – a banda brasileira dos anos 90 é Chico Science & Nação Zumbi e a banda brasileira dos anos 00 é Nação Zumbi. Impressionante como mantiveram a consistência durante todos esses anos, se recuperaram do baque que foi a perda de Chico Science num acidente de automóvel e não só seguiram nobremente na carreira, mas também evoluíram seu som para além do que já tinham feito nos primeiros discos. Aliás, foram mais longe que isso, porque a trajetória natural da banda brasileira decadente (em termos artísticos; em termos de popularidade é quase sempre isso, decadência ou não) é tentar fazer músicas iguais aos hits anteriores. De Rádio S.Amb.A. em diante, basta constatar: nenhuma tentativa de refazer um “Maracatu Atômico”, um “Macô”, um “A Praieira”, aquelas músicas que fazem patricinha dançar em festinha de música brasileira (sabe, né?). O que não quer dizer que o artesanato da canção tenha se perdido: “Arrancando as Tripas”, “Meu Maracatu Pesa uma Tonelada” e “Blunt of Judah” são canções perfeitas. Simplesmente, eles quiseram expandir seus interesses para outras estruturas, outros modos de fazer música que, mesmo relacionados, não se fechassem no modelo da canção. Rádio S.Amb.A., o disco (re)inaugural, o disco com mais cara de manifesto, é também aquele que vai mais longe dentro da carreira do grupo, recompensando toda a ousadia da busca com a grandeza das descobertas.

Rádio S.Amb.A. é um disco artisticamente ambicioso, e além disso tem todo um look de disco querendo impulsionar a carreira do grupo para o mercado estrangeiro: nomes novos para os integrantes, versos em inglês em “Lo-Fi Dream”, participação de dois membros do Tortoise na mesma faixa, além de Afrika Bambaataa em “Zumbi X Zulu”. Presumivelmente, o desejo de inserção no mercado internacional era grande; um estouro, se não fenomenal, ao nível de um CSS, ao menos. Se sim, é o único fracasso atribuível ao disco. Porque, fora isso, é de cabo a rabo um disco coeso, extremamente fluente na alternância de faixas soltas com outras de maior pegada, e também um incrível trabalho de produção, deles próprios, que fez o som do grupo soar como um carro blindado de tão compacto e orgânico. Destaco, nesse quesito, o trabalho feito com os tambores, jogando-os para registros de grave que por vezes fazem com que eles assumam um teor quase textural – enchendo sobremaneira o som – e jogando a bateria no sentido oposto, levando ela para os registros mais agudos, secos, bem separados na mixagem, criando uma enorme tensão percussiva. Além de uma pegada soberba.

Na época, ouvir Rádio S.Amb.A era, mesmo sem querer, avaliar a Nação Zumbi para saber se ela tinha moral e cacife para sobreviver à morte de seu porta-voz e cantor. Hoje, quase dez anos passados, é impossível não reparar o descompasso: a Nação Zumbi não tinha a menor preocupação em reiterar sua legião de fãs da legitimidade em continuar. Rádio S.Amb.A é o grupo desfilando com autoridade de rei da avenida, começando o disco com três faixas sem refrão, declamando “Sem Medo!” e soltando petardo atrás de petardo. Das versões robustas de “Quando a Maré Encher” (Eddie) e “Jornal da Morte” (Miguel Gustavo/Roberto Silva) ao comovente dueto de Lia de Itamaracá com Jorge du Peixe em “João Galafuz”, da possante evocação breakbeat de rituais indígenas/africanos de Toca Ogan em “Remédios” ao swing do pregnante refrão de “Arrancando as Tripas”, das influências jamaicanas de “Na Balada do Rio Salgado” ao hardcore infeccioso de “Antromangue/Brasília”, com a sugestiva e lírica frase “Estamos na América do Sul e um vento forte sopra em meu rosto”, o disco é cheio de momentos de grande brilho que mereceriam, cada, análise aprofundada. Como não é o caso aqui, faremos isso apenas com uma: “O Carimbó”.

“O Carimbó” começa com uma batida pujante típica da Nação Zumbi, com as alfaias marcando os segundos tempos com dois ataques e a caixa da bateria marcando o tempo forte. Aos 25s, entra o fator mais importante da composição, uma melodia de guitarra dedilhada de Lúcio Maia com pedal tremolo relativamente discreto – só depois perceberemos que a melodia no começo omite algumas notas da melodia “completa”. Só aos 37s a sessão rítmica se completa, com a entrada de um baixo relativamente proeminente para o NZ. Por volta de 1min começa o vocal de Jorge du Peixe, e a letra se estrutura no modelo estrofe-refrão. Mas a música se mantém praticamente inalterada na passagem de um a outro, apenas com alguma ênfase maior de guitarra e um discreto efeito sintetizado. O que em seguida percebemos em seguida é a guitarra de Lúcio Maia começar a tecer variações dentro da melodia, pouco interessada em “acompanhamento”, e sim em improvisar dentro do tema, ancorada apenas pela sessão rítmica. A guitarra vai continuando solta até 3min50, quando ela a melodia do verso final do refrão, e em seguida a faixa entra num clímax, com a guitarra explodindo em efeitos. No meio disso, há duas quebras percussivas, misturando eletrônica e percussão (iguais ou quase, após cada refrão), e um ligeiro bridge batuqueiro preparando a mudança harmônica do final da faixa, que fica incisiva, quase épica, até desaguar em “Coco Assassins”, algo como uma continuação dentro da mesma faixa. O que fica guardado na cabeça, sem dúvida, é o swing da dinâmica operada entre a sessão rítmica e os dedilhados de guitarra de Maia, uma percussão nervosa com uma guitarra relaxada que parece mover-se em câmera lenta, e constroem uma tensão que equivale a unir breakbeat e surf music (evocada pelo tremolo) com ritmos do nordeste do Brasil.

No último show que eu vi deles – uma das melhores bandas ao vivo do mundo, diga-se –, a Nação Zumbi tocou “O Carimbó” no bis, com direito, claro, a Lúcio Maia saindo do esquadro e voltando a ele, da forma brilhante de sempre. O fato de não ser um grande hit e mesmo assim estar no bis é prova do carinho da banda por sua cria. Pobres das viuvinhas de Chico, que gostariam que os shows da NZ fossem um mausoléu com pompas fúnebres. Mas arte é movimento, e o gênio criativo adora testar coisas novas. Sem medo, a Nação Zumbi vem por quinze anos entrando na moda e saindo da moda, mas criando discos originais que fazem dela, desde a aparição de “A Cidade” até os dias de hoje, a banda de rock mais importante do Brasil. (Ruy Gardnier)

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Um comentário em “Nação Zumbi – Rádio S.Amb.A. – Serviço Ambulante de Afrociberdelia (2000; YBrasil Music, Brasil)

  1. fernando gontijo
    28 de junho de 2010

    tenho 26 anos e acordei muito tarde pra cena musical considerada cultural, sendo assim considero o som do nação zumbi um abrir de olhos pra mim, pois foi atraves desta banda e tbm do cordel do fogo encantado que aprendi a contestualizar os sons que ouço. as influências que sofremos dos nossos herois nos remetem a outro mundo,e deixam marcas nas nossa personalidades e no nosso carater, por isso posso afirmar que a musica do nordeste em geral nos remete a uma simplicidade sofisticada, um alimento pra alma…

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Publicado às 14 de dezembro de 2009 por em hip-hop, rock e marcado , , .
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