Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

The Residents – The Ughs! (2009; MVD Audio, EUA)

Desde quando surgiram em 1969, os Residents nunca foram identificados, seja por nomes reais ou pseudônimos, nem sequer deram entrevistas. Sob a alegação de que a proximidade compromete a relação entre artista e público, se apresentam fantasiados, geralmente com um globo ocular na cabeça. Mesmo o número de membros da banda varia: já se apresentaram em 4, 7, 11 e até mesmo um só indivíduo. De forma que, devido a natureza misteriosa da banda, fica muito difícil contar sua história exceto pelo aspecto singularíssimo de sua música, de informações discográficas e de pequenas lendas que, ao que parece, eles tratam de alimentar. Lançaram seu primeiro álbum em 1974, sempre investindo em uma convergência entre artes plásticas e música, criando álbuns conceituais que desafiam os rótulos e gêneros. Third Reich & Roll, por exemplo, conta a história do nazismo a partir de manipulações eletrônicas de clássicos do rock’n’roll; Eskimo é sobre uma tribo esquimó fictícia; The Commercial Album apresentam dezenas de pequenas faixas alusivas à estética dos jingles. O último trabalho do grupo se chama The Ughs!, foi gravado em 2007 mas lançado somente este ano. Composto como trilha sonora para o espetáculo “The Voice of Midnight”, baseado em texto original de E.T.A. Hoffmann, The Ughs! é um álbum completamente instrumental. (B.O.)

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The Ughs! não é propriamente um álbum de carreira, mas trilha sonora para um espetáculo produzido pelos Residents. A despeito deste fato, o resultado pode ser avaliado como uma inflexão sui generis na obra sui generis do grupo e por razões pouco óbvias. Embora faixas como “The Lonely Lotus” e ” Charlie Chan” contenham trechos nitidamente compatíveis com os maneirismos do grupo, há algo na sua estrutura de composição que me parece novo tanto em relação aos álbuns clássicos como aos imediatamente posteriores. Algo que emerge, para o bem e para o mal, como uma faceta mais próxima do discurso musical clássico, longe dos exercícios de metalinguagem que caracterizou o período “heróico” do grupo. Esclareço primeiro a  procedência do “mal”: certos trechos de The Ughs!, porque dialogam com o discurso musical “puro”, sem as terceiras intenções que fizeram a maravilha de Third Reich & Roll, Not Available entre outros, acabam resvalando em uma musicalidade convencional, que às vezes assemelha-se a trilha sonora de filme de múmia e aventureiros no Cairo. Isso se pode observar por todo o disco, através de texturas percussivas (com a utilização irônica e contumaz dos pratos de bateria e percussões metálicas), vozes de “monstro” e sintetizadores climáticos que beiram o pastiche. Mas vejam: são os Residents! Quando se ouve um disco dos Residents deve-se manter a percepção atenta para as reviravoltas mais inusitadas, para procedimentos cuja lógica não sendo óbvia também não é restrita a uma turma de iniciados. Qualquer indivíduo que desconhecesse os Residents mas que ouvisse as dezenas de faixas de The Commercial Album compreenderia o procedimento, embora talvez reinvindicasse mais “sentimento” e não assimilasse a proposta do grupo. Poderíamos argumentar que em The Ughs! a ironia habitual se encontra no pastiche. Mas não é bem isso. A música dos Residents, ou melhor, seu pensamento musical não se move conforme categorias tão comuns e The Ughs! não constitui exceção. Por sobre as camas de sintetizadores e percussões claramente alusivas ao universo musical “oriental” (o que por si só já denuncia o clima de ironia, já que a referência musical não é “egípcia”, mas genericamente oriental…) podemos ouvir sons de animais, solinhos de guitarra, vozes bizarras que relativizam o aspecto “musical” que algumas faixas carregam. Mas mesmo assim, mesmo levando em consideração a possibilidade de uma síntese de elementos contraditórios, uns mais tradicionais, outros segundo a iconoclastia do grupo, o resultado não corresponde à definição. A sonoridade de The Ughs! é, sim, de uma originalidade inominável. Faixas como a sugestiva “Rendering the bacon”, ou até mesmo o tour de force “The Horns of Haynesville” às vezes se parecem com trilha sonora fake de filme B; às vezes ouvimos aqueles estranhíssimos acordes compostos por vozes bizarras que sempre marcaram presença nos discos anteriores, insinuando um experimentalismo por sobre a base fake; a execução de escalas melódicas como em “The Dancing Duck” e “Charlie Chan”, com o impagável violino, que de certa forma também remete à lógica debochada do grupo; e, por fim, as diversas camadas que se sucedem com uma certa pobreza de soluções, mas nitidamente uma pobreza programada… Estes elementos podem nos ajudar a refletir sobre a natureza do projeto: trata-se de uma paródia, mas criada e executada com uma sofisticação do âmbito musical que eu arriscaria dizer única no trabalho dos Residents. O resultado pode ser classificado como prazeroso e pode até mesmo levar às gargalhadas. Os mais acostumados ao ethos anárquico do grupo devem encontrar esse prazer de forma mais imediata… Não sendo exatamente arrebatadora, a música de The Ughs! ao menos tem o papel de chamar atenção para o fato de que os Residents ainda são capazes de fazer uma confusão dos diabos. (Bernardo Oliveira)

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Os Residents são demais. Apesar de nos últimos vinte anos não terem desenvolvido nada tão brilhante quanto as pérolas produzidas nos anos 70 e 80 – os preferidos, The Third Reich and Roll, Not Available, Commercial Album, Tunes of Two Cities –, eles desenvolvem até hoje uma das carreiras mais coerentes e sistemáticas em produzir música alienígena, ao mesmo tempo irônica e sonoramente evocativa de mundos inexistentes. Nessa época, tudo nos Residents era interessante: eles tinham conceitos elaboradíssimos para cada disco (caso raro de artistas conceituais que conseguiram digerir a música pop em seus próprios termos; Scritti Politti come poeira em comparação), um fascinante trabalho de reapropriação dos clichês da cultura de massa e de sarcasmo questionador em tono deles, mas acima de tudo a música soava sem comparação com qualquer outra coisa que existisse. A natureza “não profissional” deles como músicos favorecia, pois eles podiam burlar tudo aquilo que era convencionalmente aceito como padrão de gravação, e conseguir com isso uma sonoridade própria, aproveitando do lo-fi para a construção de uma identidade sonora. Até hoje, ou pelo menos até antes de The Ughs!, eles continuavam fazendo algo bastante parecido. Conceitos ótimos, composições e arranjos excêntricos, mas a música já não era tão mais única assim. A diferença entre o ontem e o hoje é que o tempo passou e, desde então, uma pá de gente – sob a influência dos próprios Residents ou vinda à excentricidade, ao lo-fi, à outsider music por outros meios – desenvolveu sons que podemos associar ao dos Residents. Talvez especialmente o duo The Books, que conseguiu associar esquisitice, colagem, senso de humor e exuberância melódica de forma inaudita. Em todo caso, o trabalho dos Residents de alguns anos pra cá continua, sempre, interessante. Só não é tão único. E obviamente isso conta.

The Ughs! é algo inédito na obra dos Residents. Eles aqui pegam carona no conceito de The Voice of Midnight e do personagem Nate para criar na pele de The Ughs! um novo conjunto. Esse novo nome, curiosamente, libera os Residents para fazer música desavergonhadamente eufônica. Tem faixa, aliás, que não ficaria muito deslocada se fosse colocada nem em Ímã, do +2, nem no Qua, do Cluster, dois bons discos desse ano com faixas que usam a repetição e a espacialidade da música com objetivos de criar atmosferas inesperadas mas não desconfortáveis. A coisa mais curiosa em The Ughs! é que os Residents se saem muito bem em sua incursão pelo hi-fi, com timbres delicados e minuciosamente escolhidos, em especial nos padrões percussivos. É óbvio que há alguns urros tribais aparecem de vez em quando, e que vez ou outra aparece alguma disrupção que evita qualquer fruição mais easy listening. Mas assim como há belos momentos (meu preferido é uma voz feminina declamando “co-lum-bi-to” lá pro final do disco), há coisas bobas, como a guitarra “cheia de feeling” de “The Lonely Lotus”. A curiosidade e o limite de interesse em The Ughs! está nessa quase contradição de que é um disco inesperado e inédito dentro da discografia dos Residents, mas que, dentro da música feita hoje, o disco ocupa um lugar bem confortável e nada confrontador ou único – algo que, pela trajetória e pela genialidade da banda, nos é dado esperar. (Ruy Gardnier)

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Um comentário em “The Residents – The Ughs! (2009; MVD Audio, EUA)

  1. kalina
    18 de dezembro de 2009

    Olá! Não posso passar por aqui sem felicitacões pelo seu blog! A curiosidade é que o descubri num outro blog…polonés. Nos somos “retroriff” e escrevemos o blog entre Barcelona, Madrid e Berlim, procurando fenómenos novos, velhos, estranhos e simplesmente interessantes. Bonito que podamos ler os seus escritos. Eu gostaria de aproximar mais o mundo musical fora da língua inglesa. Obrigada!!!

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Publicado às 16 de dezembro de 2009 por em experimental, vanguarda e marcado , .
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