Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Orthrelm – OV (2005; Ipecac, EUA)

Orthrelm é uma dupla composta por Mick Barr (guitarra) e Josh Blair (bateria), formada no começo dos anos 2000 em Washington D.C., EUA. Com timbres de heavy metal – em especial grindcore e thrash – e estratégias de comp0sição absolutamente inusitadas para o gênero, o Orthrelm desde cedo chamou atenção como banda de metal experimental. O primeiro disco do grupo, Iorxhscimtor (2001), tinha 12 faixas em 16 minutos. Asristir Veildrioxe (2002) continha 99 faixas em 13 minutos de duração. OV, primeiro lançamento do duo que tem a duração convencional de um álbum, é constituído de uma única faixa de 45min. O guitarrista Mick Barr, além de ter tocado com diversos projetos (Crom-Tech, Krallice, Flying Luttenbachers), desenvolve carreira solo tocando como Octis ou Ocrilim. Em 2008 foi lançado o DVD duplo Mick Barr, com entrevistas e apresentações do guitarrista sozinho e com o Orthrelm. (RG)

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Power rock – Passados os primeiros perturbadores minutos da audição de OV, em que se descobre o denso tour de force que será necessário a completar a duração do disco, o que chama atenção é a intensa atividade física dos músicos para desenvolver seus volteios laboriosos, uma atividade que pesa em intensidade sônica o que se perde (ou estima-se perder) em suor, como o King Crimson tocando Red (ou “Fracture”) ou bandas como Lightning Bolt. A bateria de Josh Blair castiga os tontons em levadas que mais parecem viradas de bateria enquanto a guitarra de Mick Barr aparece com seus agudos insistentes enquanto enche o fundo com uma espécie de ruído de fundo possivelmente proveniente das cordas de cima. A velocidade é estonteante, mas o que mais cativa é que eles não estão tocando naquela velocidade simplesmente porque podem, como uma demonstração vulgar de técnica. É óbvio que Blair e Barr são virtuosos. Em OV, no entanto, o que importa não é mostrar técnica mas utilizar-se da técnica para fazer o ouvinte chegar a algum tipo de emoção.

Minimalismo – Boa parte da graça é que as ideias de repetição, variação dentro da repetição e ilusão perceptiva advinda dos dispositivos de atenção, típicos do minimalismo, são utilizados não com uma paleta sonora de orquestra ou conjunto de câmara, mas com guitarra e bateria tocando motivos indelevelmente ligados ao imaginário do heavy metal mais extremo, e mesmo com um feeling de metal e com as preocupações do gênero (a sensação de peso, de massa sonora, poder etc.). OV pode ser descrito basicamente como uma sequência de loops curtos com fraseados de metal repetidos à exaustão, indo muito além do que alguém consegue tolerar por “prazer”. Cada “loop” – e aqui se utiliza loop entre aspas porque tudo no disco é efetivamente tocado pelos músicos – acaba com uma virada de bateria sumária que deságua em outro loop, igualmente repetido à exaustão. Alguns duram muito mais que outros, o que inclusive acaba com o senso de previsibilidade que uma composição de 45min teria se o número de compassos pra cada loop fosse o mesmo.

Metal – Naturalmente, OV é um disco de metal. O conceito do disco rouba do ouvinte, decerto, algumas das maiores recompensas do gênero, como a progressão melódica e a experiência catártica (de esperar a música chegar ao refrão, ao solo, à parte mais intensamente emocional da composição). Mas se metal tem a ver com incutir medo no ouvinte, OV é tranquilamente um disco do gênero – ainda que lateralmente. Cada vez que um “loop” sucede a outro, é inevitável a sensação de que algo se libertou, para novamente ficar preso de novo. como a ala de um labirinto que, ao invés de dar na saída, dá apenas em outra ala. Parte da intensa sensação de ouvir OV é essa angústia de um peso que não é liberado nunca, sustentado por toda a inteireza da faixa. Outra maneira de descrever o disco, não sem certa ironia, é imaginar um cd de thrash metal arranhado com o player repetindo trocentas vezes um microtrecho para em seguida passar para outro microtrecho e assim por diante.

Noise – OV não é um disco de noise, mas ele carrega no coração de seu conceito uma estratégia que inevitavelmente vai se relacionar com a ideia de barulho. Se barulho é excesso anti-código e não-assimilável pelo código – pois, se é assimilado, já passa a ser sema, já passa a conter algum tipo de sentido incorporado ao código –, o momento de cada “loop” em que a repetição começa a exaurir a percepção do ouvinte, em que ele se sente esmagado pela repetição, é o começo que aquelas notas perfeitamente definíveis e até então interpretadas como código passam repentinamente a agir como ruído disruptor, pura violência que não serve a qualquer propósito produtivo. Apenas mais uma ala no labirinto de sons…

OV é um disco único, uma dessas audições inesquecíveis que começam pelo inusitado e terminam com um rico complexo de emoções. É um disco conceitual perfeito, com aplicação perfeita e execução perfeita. E ainda que ele tenha o metal como ponto de partida, ele consegue cruzar vários outros gêneros – além dos já citados tem o free improv de um Ruins, por exemplo – e, lembrando vários, não ser exatamente nenhum. É OV, como AMMusic é AMMusic. (Ruy Gardnier)

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Garanto ao leitor que é impossível permanecer indiferente à série de modulações que pontuam os 45 minutos de OV, terceiro álbum do Orthrelm. E digo isso em relação a todo tipo de ouvinte, desde os mais irritadiços aos curiosos de plantão, empáticos ou não aos gêneros explorados pela dupla Mike Barr e Josh Blair. E de minha parte devo dizer que não há muito como escapar a esse tom hiperbólico quando tratamos de um álbum composto por uma só faixa que perfaz inflexões do noise ao metal, passando pelo minimalismo de La Monte Young e Steve Reich com riqueza de detalhes, absoluta coesão e disciplina. A idéia é obter um continuum musical a partir de texturizações e repetições retiradas do universo destacado acima, embora se possa afirmar que o metal é o elemento mais pronunciado. Às vezes para fazer valer uma idéia musical à risca a disciplina é não só um importante pré-requisito como também uma espécie de motor criativo que condiciona a composição. Assim, em meio a aparente balbúrdia sonora de OV, surpreendem os detalhes que aos poucos fornecem dicas preciosas para a fruição deste que não é propriamente um álbum de fácil desgustação. São as sutilezas presentes na utilização dos pratos de bateria, nas melodias aparentemente repetitivas cujas diferenças se manifestam somente na segunda ou terceira audições, no esmero e inteligência empregados na criação das texturas, como por exemplo a da abertura ou a dos tambores, mais para o fim. Porém, para além da qualidade e inventividade na execução existe o aspecto formal, trunfo de OV. Em outras palavras, é o modo como Barr e Blair recontextualizam os clichês de gêneros como o metal, o noise e o hard rock. Mas o que sobressai é este item curioso chamado minimalismo. Pois o que “desenraíza” o clichê do seu contexto originário é a repetição de células que tinham outro significado em seu território original. Assim, uma virada de bateria acompanhada por um solo de guitarra hiperveloz, que poderia perfeitamente passar por uma convenção metaleira, é recortado e reprocessado por uma interpretação que talha aos poucos uma malha instrumental arrebatadora. Neste sentido, OV congraça habilidade técnica excepcional com uma perepção estética aguçada e impressionante, atípica na seara do metal. Simplesmente matador. (Bernardo Oliveira)

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Publicado às 21 de dezembro de 2009 por em experimental, heavy metal e marcado , , , , .
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